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Treze anos após a redacção das Confissões, a cidade de Roma foi saqueada por invasores godos sob o comando de Alarico. Os pagãos atribuíram esta desgraça à abolição cristã da veneração dos deuses da cidade, que assim a abandonaram numa hora de necessidade. Em resposta, Agostinho passou treze anos a escrever o tratado A Cidade de Deus, onde faz uma análise cristã da história do Império Romano e de muitas outras coisas do mundo antigo.
Agostinho contrasta a Cidade de Deus, simbolizada por Jerusalém, com a cidade do mundo, simbolizada pela Babilónia. Os habitantes da Babilónia desprezam Deus e são motivados pelo egoísmo; os habitantes de Jerusalém, alheados de si, são movidos pelo amor a Deus. Ambas as cidades têm como objectivo a justiça e a paz, mas possuem um conceito diferente desses objectivos comuns. A Babilónia não deve ser identificada com o Império pagão, nem Jerusalém com o Império cristão. Nem tudo era mau nos tempos do paganismo; e os imperadores cristãos podiam também ser pecadores — como Ambrósio demonstrara ao excluir o imperador Teodósio da Igreja, como castigo por um terrível massacre em Tessalónica, em 391.
Contudo, a Cidade de Deus não é equivalente à Igreja Cristã na terra. Nos séculos que se seguiram, o livro de Agostinho foi muitas vezes entendido como um guia das relações entre a Igreja e o Estado.
Ao contrário da utópica República de Platão — que Agostinho ataca explicitamente —, a cidade de Deus não se realiza inteiramente em lugar algum deste mundo.
O tratado de Agostinho é desconexo e por vezes maçador, mas contém muitas passagens de grande perspicácia e influência. Para tomar um exemplo entre muitos, é neste livro que Agostinho define para as gerações futuras o modo como os cristãos devem interpretar o mandamento bíblico «Não matarás». Em primeiro lugar, a lei não admite excepção no caso do suicídio — tal está vedado aos cristãos, ainda que o seu motivo seja evitar o pecado e a vergonha. Por outro lado, a proibição de matar não se pode alargar às criaturas não humanas: Quando lemos «Não matarás», partimos do princípio que tal não se aplica aos arbustos, que não têm sentimentos, nem às criaturas irracionais, que voam, nadam, andam e rastejam, já que não têm relação racional connosco, não tendo sido dotadas de razão, à semelhança do homem; e é assim devido a uma justa providência do criador que a sua vida e morte estão subordinadas às nossas necessidades.
Nesse caso, que podemos dizer sobre a moralidade da pena de morte ou da guerra, pelas quais os seres humanos se matam deliberadamente uns aos outros? Contrariamente ao pacifismo de outros pensadores cristãos antigos, Agostinho considera que a guerra nem sempre é um mal. O mandamento que proíbe o assassínio não é infringido por aqueles que fazem a guerra sob a autoridade divina ou por aqueles que aplicam a pena de morte de acordo com as leis do Estado. Mas Agostinho não glorifica a guerra pela guerra: o único propósito da guerra é trazer uma paz justa, e, mesmo numa guerra justa, pelo menos um dos lados está a agir pecaminosamente. Só um estado onde prevalece a justiça tem o direito de ordenar aos seus soldados que matem. «Sem justiça, que são os reinos senão bandos de criminosos em grande escala?»
A Cidade de Deus termina como uma exposição do modo como as duas cidades atingem o seu cume, uma no céu e a outra no inferno.
Cristo virá no fim dos tempos para julgar os vivos e os mortos, para rectificar a iniquidade do tempo presente, no qual os bons sofrem e os maus prosperam. Após a ressurreição do corpo, os bons cristãos que morreram no amor a Deus gozarão de felicidade eterna na celestial Cidade de Deus; os cristãos impenitentes, os heréticos e todos aqueles que morrerem sem baptismo, sejam adultos ou crianças, serão amaldiçoados e os seus corpos arderão para sempre no inferno. A escolha daqueles que serão salvos e, implicitamente, daqueles que serão condenados foi feita por Deus muito antes de terem nascido ou praticado quaisquer actos, bons ou maus.
A relação entre a predestinação divina e o vício e a virtude humanos preocupou Agostinho nos seus últimos anos. Após o saque de Roma, fugiu para África um ascético britânico chamado Pelágio que acreditava apaixonadamente na liberdade e autonomia dos seres humanos, mesmo nas suas relações com Deus. O pecado de Adão, considerava ele, não prejudicara os seus herdeiros, dava-lhes apenas um mau exemplo; ao longo das suas vidas, os seres humanos possuíam plena liberdade para praticar o bem ou o mal. A morte era uma necessidade natural, não um castigo para um pecado, e os pagãos que tivessem usado virtuosamente a sua liberdade iam depois da morte para um lugar de beatitude; os cristãos tinham recebido de Deus a Graça especial do baptismo, que lhes dava direito à felicidade superior do Céu.
Tais graças eram atribuídas por Deus àqueles que Ele previa serem merecedores.
Tudo isto era um anátema para Agostinho, que pensava que todo o género humano participava, de algum modo, do pecado de Adão — todos os seres humanos que descendiam dele por propagação sexual tinham herdado nos seus genes o pecado, bem como a mortalidade.
Nós, seres humanos corruptos posteriores à Queda, não possuímos, por nós mesmos, a liberdade de praticar o bem; precisamos da Graça de Deus não apenas para ganhar o Céu, mas também para evitar uma vida de pecado contínuo. Agostinho, que na sua juventude se propusera demonstrar filosoficamente que os seres humanos possuíam liberdade de escolha, defendia agora que a única liberdade que nos restava era a de escolher entre pecados. A Graça é concedida a alguns, mas não a todos, e não com base em quaisquer méritos, presentes ou futuros, mas simplesmente no inescrutável bel-prazer de Deus. Já que todos nós, filhos de Adão, somos membros de uma amaldiçoada multidão de perdidos, ninguém tem o direito de protestar contra o facto de apenas alguns, por misericórdia divina, chegarem a ver comutada a sua condenação. As doutrinas de Pelágio foram condenadas num concílio em Cartago, em 418, mas o debate prosseguiu e a posição de Agostinho tornou-se cada vez mais dura. Surgiram protestos por parte dos monges de alguns mosteiros africanos e franceses: a estar correcta a visão mínima de liberdade humana admitida por Agostinho, a exortação e a reprimenda eram em vão e toda a disciplina da vida monástica inútil. Em resposta, Agostinho insistiu em que não apenas a vocação inicial para o cristianismo, como também a perseverança na virtude do mais devoto dos cristãos à beira da morte, não passavam de uma simples questão de Graça: apontou o exemplo de um monge de 84 anos que acabara de se juntar a uma concubina.
Se a predestinação era necessária para a salvação, perguntaram os críticos, seria também suficiente? Poderia alguém rejeitar a Graça oferecida por Deus? Se fosse esse o caso, a liberdade humana passaria a desempenhar um papel de relevo no destino de um indivíduo.
Teríamos então, no final dos tempos, três classes de seres humanos: aqueles que estavam no Céu porque tinham aceite a Graça que lhes fora concedida, aqueles que estavam no Inferno porque a tinham recusado, e aqueles que estavam igualmente no Inferno porque a Graça nunca lhes tinha sido concedida. Por fim, Agostinho negou até este vestígio de liberdade humana: a Graça não pode ser recusada, não pode ser subjugada. Segundo esta perspectiva, os homens são livres no que respeita à salvação apenas se a liberdade for compatível com o determinismo. No fim, haverá apenas duas classes de seres humanos: aqueles que receberam a Graça e aqueles que não a receberam; os
predestinados e os réprobos. O motivo pelo qual um homem é predestinado e o outro é réprobo continua por explicar.

Se considerarmos dois bebés, igualmente marcados pelo pecado original, e perguntarmos por que motivo um é favorecido e o outro abandonado; se considerarmos dois homens adultos pecadores e perguntarmos por que motivo um deles é chamado e o outro não; em ambos os casos, os juízos de Deus são imperscrutáveis. Se considerarmos dois homens santos e perguntarmos por que motivo a dádiva da perseverança até à morte é oferecida a um e não ao outro, o juízo de Deus é ainda mais imperscrutável.

Todos estes ensinamentos sobre o pecado original, a Graça e a predestinação são baseados em textos de S. Paulo, especialmente na Epístola aos Romanos. Contudo, Agostinho foi mais longe que S. Paulo, e a sua doutrina sobre a predestinação levou-o a explicar, cada vez menos convincentemente, uma das afirmações incluídas na primeira epístola a Timóteo, segundo a qual Deus deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade.
Agostinho morreu em 430, e os seus sucessores continuaram a batalha contra Pelágio e contra os seus seguidores, que se prolongaria até 529, altura em que o Concílio de Orange condenou até uma versão muito modificada do pelagianismo. O intrincado e aguerrido teorizador da predestinação é muito diferente do enternecedor autobiógrafo das Confissões, mas seria a obra dos seus últimos anos que iria exercer mais influência sobre a história da igreja. Ao longo da Idade Média católica, Agostinho gozou de maior autoridade do que qualquer outro dos Padres da Igreja, e, com a Reforma, a sua influência aumentou em vez de diminuir. João Calvino endureceu as doutrinas de Agostinho e tornou-as mais precisas, assim como Agostinho tinha endurecido e tornado mais precisas as doutrinas de Paulo . E mesmo nos nossos dias, em que existem muitas mais pessoas que o detestam do que aquelas que o lêem, a influência de Agostinho sobre o pensamento cristão continua a ser incontornável, e o seu génio continua a exercer atracção e repulsa sobre muitas pessoas exteriores à tradição cristã.

(Anthony Kenny - História Concisa da Filosofia Ocidental)

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publicado às 22:17



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