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A carne de um homem…

por Thynus, em 12.02.16
“Quando Dario era rei da Pérsia, chamou os gregos que estavam em sua corte e perguntou-lhes o que aceitariam para comer os cadáveres de seus pais. Eles responderam que não o fariam nem por todo o dinheiro do mundo. Mais tarde, na presença dos gregos, e por meio de um intérprete, Dario perguntou a alguns indianos, da tribo chamada Callatiae, que comem os cadáveres dos pais, o que aceitariam para queimar-lhes os corpos [como era costume dos gregos]. Eles deram um grito de horror e o proibiram de mencionar algo tão terrível.”

Quem tinha razão, os gregos ou os callatians? Podemos empalidecer diante da ideia de comer nossos pais, mas não mais que os callatians empalideceriam com a ideia de queimar os próprios pais. No fim, concordaríamos com Heródoto, o filósofo grego que registrou essa história, quando ele citou com aprovação o poeta Píndaro: “O costume é soberano”. Não se trata de um lado estar certo e o outro, errado; não existe “resposta certa”. Cada grupo tem seu próprio código de costumes e tradições; cada um se comporta corretamente de acordo com o seu próprio código, e é a esse código que cada grupo apela ao defender suas respectivas formas de funeral. Nesse caso, o que é moralmente certo não parece ser absoluto, de um jeito ou de outro – é relativo à cultura e às tradições dos grupos sociais envolvidos. Existem, é claro, inúmeros outros exemplos dessa diversidade cultural, tanto geográfica quanto histórica.
É com base em casos como esses que o relativista argumenta que não existem verdades absolutas ou universais: todas as avaliações e considerações deveriam ser feitas apenas em relação às normas sociais dos grupos envolvidos. 

Vive la différence
A proposta do relativista é, com efeito, que tratemos julgamentos morais como se fossem estéticos. Em matéria de gosto, não costuma ser apropriado falar em erro: de gustibus non disputandum – “sobre gostos não se discute”. Se você diz que gosta de tomate e eu não gosto, concordamos em discordar; algo é verdadeiro para você, mas não é para mim. Em tais casos, a verdade segue a sinceridade: se digo com sinceridade que gosto de algo, não posso estar errado – isso é verdade (para mim). Seguindo essa analogia, se nós (como sociedade) aprovamos a pena de morte, ela é moralmente certa (para nós), e não é algo sobre o qual possamos estar equivocados. E assim como não tentaríamos persuadir as pessoas a pararem de gostar de tomates nem as criticaríamos por isso, no caso moral a persuasão ou a crítica seriam inapropriadas. Na verdade, é claro, nossa vida moral está cheia de argumento e censura, e costumamos ter opiniões fortes sobre assuntos como a pena de morte. Podemos até discutir o assunto com nós mesmos ao longo dos anos; posso mudar de ideia sobre uma questão moral, e podemos coletivamente mudar de opinião sobre, por exemplo, uma questão como a escravidão. O relativista absoluto diria que uma coisa é certa para alguns e não para outros, ou certa para mim (ou nós) num momento, mas não em outro. E, no caso da escravidão, da circuncisão feminina, do infanticídio legal etc., o relativista ficaria numa posição bastante desconfortável.
Essa falha do relativismo em levar a sério aspectos que são tão obviamente característicos da nossa vida moral verdadeira costuma ser vista como um golpe fatal contra essa tese, mas os relativistas tentam transformá-la numa vantagem. Talvez, argumentam eles, não devêssemos julgar ou criticar os outros. A lição dos gregos e callatians é que precisamos ser mais tolerantes com os outros, mais abertos, mais sensíveis a outros costumes e práticas. Essa linha de argumentação levou muitos a associarem relativismo a tolerância e abertura de espírito, e, por contraste, os não relativistas são retratados como intolerantes e impacientes em relação a práticas diferentes das suas.
Levada ao extremo, essa diferença leva à imagem de um Ocidente de cultura imperialista que arrogantemente impõe seus pontos de vista a outros ignorantes. Mas isso é uma caricatura: na verdade, não existe incompatibilidade entre ter uma visão geralmente tolerante das coisas e ainda assim admitir que em alguns assuntos outros povos ou culturas cometem erros. De fato, algo que frustra o relativista é que só o não relativista pode ter tolerância e sensibilidade cultural como virtudes universais (veja box a seguir)!

«O que é moralidade num dado tempo ou lugar? É aquilo de que a maioria naquele tempo e lugar gosta, e imoralidade é aquilo de que não gosta.»
Alfred North Whitehead, 1941
 
Colocando o conhecimento em perspectiva 
 O absurdo do relativismo absoluto e os perigos de sua adoção indiscriminada como mantra político (veja boxes) significam que insights oferecidos por uma forma mais branda de relativismo às vezes passam despercebidos. A mais importante lição do relativismo é que o conhecimento em si é perspectivo: nossa visão de mundo parte sempre de certa perspectiva ou de um ponto de vista; não existe uma plataforma de observação externa da qual possamos enxergar o mundo “como realmente é”.
Esse ponto costuma ser explicado em termos de quadros conceituais, ou, mais simplesmente: só podemos ter uma compreensão intelectual da realidade de dentro do nosso próprio quadro conceitual, determinado por uma combinação complexa de fatores que incluem nossa cultura e história. Mas o fato de não podermos sair de nosso esquema conceitual particular e ter uma visão objetiva das coisas – uma “visão ampla” – não significa que sejamos incapazes de conhecer as coisas. Uma perspectiva tem de ser uma perspectiva sobre algo, e ao compartilhar e comparar nossas diferentes perspectivas podemos ter esperança de expor várias crenças à luz e alcançar uma visão mais completa e “estereoscópica” do mundo. Essa imagem benigna sugere que o progresso rumo ao entendimento será feito por meio de colaboração, comunicação e intercâmbio de pontos de vista: um legado bastante positivo de relativismo.
 

Às voltas com o relativismo 
O relativismo forte ou radical – a ideia de que todas as afirmações (morais e tudo o mais) são relativas – logo se enrosca em um monte de laçadas. A afirmação de que todas as afirmações são relativas é em si relativa? Bem, precisa ser, para evitar a autocontradição; mas, se for, significa que minha afirmação de que todas as afirmações são absolutas é verdadeira para mim. Esse tipo de incoerência rapidamente contamina tudo o mais. Os relativistas não podem dizer que é sempre errado criticar os hábitos culturais de outras sociedades, pois isso pode ser algo certo para eu fazer. E eles não podem manter que é sempre certo ser tolerante e ter espírito aberto, pois pode ser correto para algum autocrata esmagar todos os sinais de dissidência. No geral, relativistas não podem, com coerência e sem hipocrisia, afirmar a validade de sua própria posição. A natureza de autocontestação do relativismo absoluto foi detectada em seu início por Platão, que prontamente apontou as inconsistências na posição relativista adotada pelo sofista Protágoras (no diálogo de mesmo nome). A lição tirada disso tudo é que a discussão racional depende do compartilhamento de algum ponto em comum; temos de concordar em algo, ter alguma verdade em comum, para nos comunicarmos de modo significativo. Mas é justamente esse ponto em comum que o relativismo radical nega.

Vale tudo? 
“Hoje em dia, um obstáculo particularmente insidioso à tarefa de educar é a presença maciça, em nossa sociedade e cultura, de um relativismo que, sem reconhecer nada como definitivo, estabelece como critério principal o eu e seus desejos. E sob uma aparência de liberdade isso se torna uma prisão para cada indivíduo, pois separa as pessoas umas das outras, aprisionando cada pessoa no seu próprio ‘ego’.” (Papa Bento XVI, junho de 2005)

Ao longo das últimas décadas, a ideia de relativismo adquiriu um significado político e social que estende seu significado original além de qualquer ponto de ruptura. Da ideia de que não existem verdades absolutas – “tudo é relativo” – foi deduzido que tudo é igualmente válido, portanto, “vale tudo”. Pelo menos, o fato de que tal dedução exista é algo no qual acreditam forças reacionárias, incluindo partes da Igreja Católica, que ligam licenciosidade moral (especialmente sexual) e desintegração social a forças relativistas à solta no mundo. Por outro lado, alguns libertários esquivam-se alegremente de analisar a lógica de perto e transformaram a frase “vale tudo” em seu mantra político. Ou seja, lados opostos tomaram posição: alegria de um lado, horror do outro, com o relativismo encolhido no meio.


a ideia resumida:
Tudo é relativo?
 
(Dupré, Ben - 50 ideias de filosofia que você precisa conhecer)

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publicado às 05:55



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