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A história da criação segundo a tradição judaico-cristã é o núcleo da nova religião. Em conseqüência dos três versículos (Gênese 2:21-23), que se iniciam "Mandou, pois, o Senhor Deus um profundo sono a Adão; e, enquanto ele estava dormindo, tirou uma das suas costelas...", são as mulheres que compõem a multidão de fiéis manipulada pelos Ritos da Beleza. As mulheres ocidentais absorvem dessas linhas a impressão de que seus corpos são de segunda classe, resultado de uma reflexão posterior. Embora Deus criasse Adão do barro, à sua própria imagem, Eva é uma costela descartável. Deus insuflou a vida diretamente nas narinas de Adão, animando seu corpo com a divindade. O corpo de Eva, porém, é duplamente afastado da mão do Criador, matéria imperfeita nascida da matéria.
O Gênese esclarece por que motivo são as mulheres que, na maioria das vezes, precisam oferecer seus corpos a qualquer olhar masculino que lhes dê legitimidade. "A beleza" dos nossos dias dá ao corpo feminino a legitimidade que Deus lhe recusou. Muitas mulheres não acreditam que são lindas até conquistarem a chancela oficial de aprovação que os corpos masculinos possuem na nossa cultura simplesmente pelo fato de a Bíblia afirmar que eles são à imagem do Pai. Essa chancela deve ser adquirida ou conquistada de uma autoridade masculina, um duble do Deus Pai: um cirurgião, um fotógrafo ou um jurado. As mulheres tendem a se preocupar com a perfeição física de uma forma raramente encontrada entre os homens. Essa atitude se deve ao fato de o Gênese declarar que todos os homens são criados perfeitos, enquanto a Mulher começou como um pedaço de carne inanimada: maleável, informe, desautorizada, crua, enfim, imperfeita.
"Sede, pois, perfeitos, como também vosso Pai Celestial é perfeito", recomendou Jesus aos homens. "O Passado Perdoado. O Presente Aperfeiçoado. O Futuro Perfeito", promete Elizabeth Arden às mulheres, assim como a modelo Paulina Poriskova é perfeita. O anseio feminino pela "perfeição" é acionado pela crença disseminada de que os seus corpos são inferiores aos dos homens, matéria de segunda classe que envelhece mais rápido. "É claro que os homens envelhecem menos", afirma a esteticista Sally Wilson. "Pelo termo segunda classe", escreve Oscar Wilde em sua obra Lecture on Art, "defino aquilo que perde o valor constantemente." É claro que sob o ponto de vista físico os homens não envelhecem menos.
Eles só envelhecem menos em termos do seu status social. Esse nosso erro de percepção deriva do fato de nossos olhos estarem treinados para ver o tempo no rosto das mulheres como um defeito enquanto no dos homens ele indica personalidade. Se a principal função dos homens fosse decorativa e a adolescência masculina fosse considerada o apogeu do valor masculino, um "distinto" homem de meia-idade teria uma aparência de uma imperfeição chocante.
O corpo feminino, de segunda classe, originado da mulher, está sempre necessitando de uma complementação, de formas de aperfeiçoamento criadas pelo homem.
Os Ritos da Beleza se propõem a queimar o corpo feminino no forno da beleza, a eliminar suas impurezas, a lhe dar "acabamento". A promessa que a cristandade faz a respeito da morte, os Ritos fazem a respeito da dor: a promessa de que o fiel despertará na outra margem, num corpo de luz purificado da nódoa da mortalidade — ou da feminilidade. No paraíso cristão, o corpo é expurgado: "Não há homem nem mulher." Nos Ritos, as mulheres expurgam de si mesmas a nódoa do seu sexo. A nova feiúra de ser mulher apenas substitui a antiga feiúra de ser mulher.
Muitas vezes as mulheres se irritam com impulsos de ódio a si mesmas, ódio este que temos a impressão de ser arcaico. No entanto, percebendo como os Ritos são baseados na história da Criação, podemos nos perdoar.
A carga de uma lenda que há três mil e quinhentos anos ensina as mulheres de onde elas vêm e do que são feitas não pode ser descartada facilmente em duas décadas.
Os homens, por outro lado, como criaram deuses à sua própria imagem, percebem que em essência não há nada de errado com seus corpos. Pesquisas revelam que, enquanto as mulheres encaram seus corpos de forma irrealisticamente negativa, os homens encaram os seus de forma irrealisticamente positiva. O legado para o Ocidente de uma religião baseada no conceito de que os homens se parecem com Deus significa, para as mulheres, que é artigo de fé sentir que seus corpos têm algum problema, mesmo que isso não reflita necessariamente a realidade.
Enquanto apenas um homem em cada dez se sente "extremamente insatisfeito" com seu corpo, um terço das mulheres está "extremamente insatisfeito" com o delas. Embora o excesso de peso ocorra nos dois sexos em igual proporção — cerca de um terço — 95% dos inscritos em programas para perda de peso são do sexo feminino. As mulheres consideram ter um grave problema quando atingem cerca de sete quilos acima da média nacional de peso.
Os homens só começam a se preocupar quando estão com dezessete quilos a mais. Esses números não provam que o sexo feminino é um sexo de má aparência em comparação com a raça divina dos homens. Se provam algo, é que mais mulheres do que homens se aproximam de um ideal cultural porque se esforçam mais. Tudo o que refletem é a tradição judaico-cristã. A carne feminina é uma comprovação de uma injustiça de origem divina, enquanto homens gordos são deuses gordos. A verdadeira demografia da obesidade não faz diferença porque essa religião não quer saber de quem é o corpo gordo, mas de quem é o corpo errado.
Os Ritos definem o cirurgião como o Sacerdote-Artista, um Criador mais hábil do que o corpo materno ou do que a "Mãe-Natureza", de quem a mulher nasceu primeiro e de forma inadequada. A partir da literatura médica, aparentemente muitos cirurgiões partilham dessa opinião a respeito de si mesmos. O símbolo de uma conferência sobre rinoplastia no Waldorf Hotel é um rosto feminino esculpido em pedra, rachado. O Dr. Mohammed Fahdy, numa publicação profissional para cirurgiões plásticos, descreve o corpo feminino como "barro ou carne".
The New York Times fala de um simpósio sobre a beleza com o patrocínio conjunto da Academia de Arte de Nova York e da Academia Americana de Cirurgia Estética.
Em outro artigo do The New York Times (apropriadamente intitulado de "O Santo Graal da Boa Aparência"), o Dr. Ronald A. Fragen admite que é melhor treinar em rostos de barro antes porque "os erros podem ser corrigidos". O Dr. Thomas D. Rees, em sua obra More Than Just a Pretty Face: How Cosmetic Surgery Can Improve Your Looks and YourLife, afirma que "mesmo os maiores artistas de todos os tempos tiveram, vez por outra, de refazer um detalhe de uma pintura''. O cirurgião plástico é o símbolo sexual divino da mulher moderna, atraindo para si a adoração que as mulheres do século XIX professavam pelo homem de Deus.

(NAOMI WOLF - 0 MITO DA BELEZA, Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres)

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publicado às 03:10



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