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O homem desajeitado em assuntos de relacionamento (“a
fera”), que por amor a uma linda mulher (“a bela”) se aprimora
e se transforma em príncipe – essa imagem fascinante
continua a rondar a cabeça de homens e mulheres. Como
tal “processo de aprimoramento” pode de fato acontecer,
e apenas reciprocamente, é o que nos mostra “Amor e Psique”
na antiga versão original desse conto de fadas.


A história por trás dos personagens de a Bela e a Fera
 
Um musical de sucesso

       O título terrivelmente desafortunado “A bela e a fera” não impediu que nos últimos anos esse musical fizesse enorme sucesso também na Alemanha. O modelo imediato para a peça foi um desenho animado de Walt Disney, que, por sua vez, retoma o conto de fadas francês “La Belle et la Bête”, escrito no século XVIII por madame Leprince de Beaumont, que também se apoiou em uma versão bem mais antiga e detalhada. Além disso, o desenho animado e o musical incorporaram vários personagens e elementos de ação acrescentados pelo autor Jean Cocteau, que filmou o tema em 1945-1946.(1) Também nos irmãos Grimm o tema da fera, que é um príncipe encantado, emerge de forma um tanto minimizada e infantilizada, a saber, no conto de fadas “Branca de Neve e Rosa Vermelha”.

       Ao que parece, para que a fera repugnante, que se transforma graças ao amor de uma jovem bonita, interesse tanto a autores e compositores e atraia o público dessa forma é porque ela deve ser uma fantasia de relacionamento fascinante. De que trata a história? Em todas as versões, a fera é nitidamente do sexo masculino. Ora é um urso desajeitado, ora um monstro feio, colérico, bruto e aparentemente ainda mais perigoso, ora uma mistura de javali, urso e tigre. Bela, a jovem bonita que vai parar no castelo desse monstro em circunstâncias ilustradas de diferentes maneiras, inicialmente sente medo, repugnância e aversão por ele. Porém, com o tempo, surge  uma relação. A bela ganha influência e chega até a exercer um efeito manifestamente tranquilizador e enobrecedor sobre a fera. Apesar disso, por muito tempo ela resiste ao desejo que a fera lhe exprime toda noite. De fato, a fera quer que a bela se case com ela, ou que a ame, ou até, sem mais rodeios, que vá para a cama com ela, e aqui cada versão apresenta pequenas e sutis diferenças. A amada bela parece não ter coragem para dar tal passo, sobretudo porque – pelo menos em uma das versões –, em sonho, sempre lhe aparece um príncipe elegante, que é muito mais agradável e atraente que a fera. No entanto, após diversas situações complicadas e confusas, ela acaba cedendo: confessa seu amor à fera, no momento em que esta se vê à beira da morte. A declaração de amor faz com que a fera se transforme no lindo príncipe que aparecia nos sonhos da bela e com o qual ela poderá finalmente celebrar seu casamento.

       Uma história tocante. Que tipo de imagem pode-se entrever nesse relacionamento entre homem e mulher? A mim parece que se trata da imagem do patriarcado, visto aqui da perspectiva feminina. Traduzido sem rodeios poéticos, o que o conto de fadas exprime é que, “em si” e por natureza, os homens são animais toscos, sem autocontrole e impulsivos. Somente pelo amor da mulher é que se transformam. A repugnância e o medo desse monstro são totalmente justificados. Contudo, o destino da mulher é renunciar a seu belo ideal (o príncipe no sonho), superar com abnegação o medo e a repugnância, entregar-se (ou melhor, render-se) e amar o monstro (e até mesmo estar pronta para dividir a cama com ele!). Depois, pode acontecer de a fera humanizar-se sob sua influência benéfica e aproximar-se de seu ideal – somente por meio de seu amor abnegado, com o qual, na verdade, o homem nada tem a contribuir, a não ser “deixar-se amar”.

       A imagem desse tipo de relacionamento é patriarcal porque não abala a posição dominante do homem. Para quem está de fora, ele é e permanece o “senhor do castelo” que toma as decisões, enquanto a mais nobre missão da mulher é entregar-se a ele de maneira servil. Com seu amor, ela compensa esse aviltamento justamente ganhando poder sobre o homem, escapando, por assim dizer, de sua necessidade de dominar e de sua impulsividade, e domando-o. Dessa forma, a história reflete exatamente o relacionamento entre mulher e homem tal como ele era visto na sociedade burguesa, por exemplo, dos séculos XVIII e XIX: o homem domina da porta de casa para fora (“patriarcado oficial”); porém, dentro de casa, no seio da família, a mulher submete todos a seu suave domínio (“matriarcado não oficial”). Seria esse um modelo de relacionamento ultrapassado na era da igualdade de direitos?

       Sem entrar no mérito da questão, as pessoas foram em massa ao musical, inclusive os jovens e os que se dizem modernos e progressistas. Por acaso estariam com saudade desses “relacionamentos à moda antiga”? Será que as velhas imagens de um tempo passado ainda estão muito mais vivas na alma do que imaginamos? Pode até ser, pois mesmo na sociedade atual costumamos viver a ressurreição de modelos de relacionamento que se acreditavam ultrapassados. Contudo, talvez haja mais alguma coisa em jogo. Talvez a história da bela, da fera e de sua transformação trate de um tema muito profundo e ainda válido, que sempre encontra razão para nos mover. Isso se torna mais claro se não nos detivermos na versão do musical, mas formos buscar as raízes remotas do conto de fadas. Muito provavelmente, trata-se da reprodução de um modelo antigo, que se encontra no âmbito de um romance autobiográfico do escritor romano Apuleio: o conto de Amor e Psique. Nele aparecem quase os mesmos personagens, e no decorrer da ação também há muitos paralelismos. Todavia, em Apuleio, o conjunto recebe um sentido totalmente diferente e contém outra mensagem. Para compreendê-la, ocupemo-nos dessa versão primitiva. A quem não tiver acesso a ela ou achar sua linguagem demasiado difícil, ofereço aqui uma versão resumida.

      
         Resumo do conto
        “Amor e Psique”

         “Havia em uma cidade um rei e uma rainha que tinham três filhas.” A mais nova logo ganhou a fama “de ser tão bela quanto a deusa Vênus”. A comparação com uma mortal desperta o mau humor da deusa. Vênus quer punir a infeliz e, por meio de um terrível oráculo, anuncia aos pais da moça que eles devem abandonar a filha em um rochedo, onde um monstro a tomaria como esposa. E incumbe seu filho Amor de fazer com que ela se apaixone pelo monstro.

         Inesperadamente, Psique encontra no rochedo um belo palácio, no qual se instala com receosa expectativa. Encantado com sua beleza, na escuridão da noite, Amor deita-se a seu lado; porém, com medo da mãe, não quer ser reconhecido. Assim, ameaça a amada de abandoná-la no mesmo instante se ela tentar levantar o véu de sua identidade, e sempre desaparece pouco antes do amanhecer. Psique fica feliz com as visitas afetuosas e apaixonadas. Afora o amante noturno, ela vive sozinha, mas satisfeita no palácio. Em pouco tempo, fica grávida. Ao visitarem-na, suas irmãs invejosas insistem para que ela veja o amante misterioso à luz, para saber se ele é mesmo o monstro que lhe fora profetizado. Psique acaba por ceder à curiosidade delas e à sua própria, e acaba iluminando Amor durante o sono com um lampião a óleo, mantendo ao mesmo tempo uma faca ao alcance da mão. Ao vê-lo, logo se apaixona perdidamente, quer beijá-lo, mas, por descuido, queima-o com uma gota de óleo quente, despertando-o e fazendo com que ele fuja, tomado de ira.

         Para cuidar de sua ferida, Amor volta a se estabelecer junto de Vênus, sua mãe, que se enfurece com o filho desobediente e com Psique, que o seduzira:

         “Que digna harmonia com minha família e sua amabilidade: primeiro você ignora as prescrições da sua mãe, ou melhor, senhora; depois, não apenas deixa de martirizar minha inimiga com um namorico indecente, como também, com seus abraços animados e imaturos para um rapaz da sua idade, chega a deitar-se com ela, de maneira que possivelmente terei de suportar minha inimiga como nora. Mas se você está achando que é o único príncipe e, por causa da minha idade, já não posso conceber, fique sabendo – seu fanfarrão, desmancha-prazeres e mal-educado – que darei à luz um filho muito melhor que você ou, antes, para que você sinta ainda mais vergonha, vou adotar um dos meus escravos domésticos e dar-lhe de presente essas asas, as chamas, o arco e até mesmo as flechas, que não lhe dei para que você os usasse dessa forma...”

         Enquanto isso, Psique erra pelo mundo à procura de seu amado. Vênus a faz prisioneira, manda chicoteá-la, humilha-a e, sem dó nem piedade, impõe-lhe uma série de tarefas que, à coitada, parecem tão impossíveis de ser cumpridas que ela perde completamente a vontade de viver: é obrigada a separar montanhas de cereais, ervilhas, lentilhas e feijões; a escalar rochas íngremes para pegar um pedaço da lã dourada de carneiros agressivos; a buscar da água misteriosa e vigiada por serpentes; e a trazer do reino dos mortos um bálsamo de beleza para a insaciável Vênus.

         Animais, plantas e pedras falantes ficam com pena de Psique e a ajudam a cumprir as tarefas. As formigas separam os grãos. O junco a aconselha a colher a lã nos arbustos, ao cair da tarde, quando os carneiros estivessem dormindo. Uma águia a ajuda a buscar a água, e uma torre não apenas lhe indica a direção do Hades, mas também lhe informa em detalhes quem ela iria encontrar pelo caminho no reino dos mortos e como deveria comportar-se. Quando finalmente consegue pegar o bálsamo de beleza, não aguenta de curiosidade e, contrariando a proibição de Vênus, abre o frasco. Imediatamente cai em sono eterno. No entanto, Amor, que nesse meio-tempo reconheceu seu amor por Psique, passa a agir. Para salvá-la, dirige-se a Zeus, pai dos deuses, para pedir-lhe ajuda. Zeus tem simpatia por Amor e apazigua a vingativa Vênus, concedendo a Psique a imortalidade. Em seguida, comemora-se um matrimônio realmente divino, como convém aos deuses. “... e, no momento oportuno, tiveram uma filha, que chamamos de Prazer
.”(2)

O amor como fusão

       A diferença mais evidente em relação ao conto da bela e da fera é que o amado não é realmente uma fera, mas, na imaginação de Psique, nela se transforma graças à intervenção de suas irmãs. Desse modo, todo o conto recebe um sentido totalmente diferente.

       Amor (em grego, Eros) e Psique são um casal muito jovem, tal como João e Maria. Entre eles, porém, a união erótico-sexual desempenha um papel importante, que, obviamente, não ocorre em João e Maria, uma vez que, do ponto de vista do conto, ambos são irmãos. Sem os freios da censura cristã, Apuleio faz com que Psique enalteça com o máximo entusiasmo o prazer que sente junto ao desconhecido que a visita na escuridão da noite. Trata-se, portanto, de um casal que por muito tempo vive um intenso prazer sexual.

       Amor/Eros é o rapaz alado com arco e flecha, tal como o conhecemos das representações antigas e barrocas, e Psique também parece ser uma moça bastante jovem. É incrivelmente bela e por isso o centro de interesse das pessoas, que veem nela uma nova Vênus (em grego, Afrodite), a incorporação de uma nova deusa do amor. Contudo, como costuma acontecer, essa glorificação externa tem um reverso interno. Psique parece ser uma moça solitária. Seus pais não demonstram empatia nem compreensão em relação a ela. Neles, ela não encontra nenhum amparo quando ameaçada de perigo. Anseia o amor, e esse anseio dirige-se cada vez mais para fora, para um possível parceiro.

       Amor recebe de sua mãe, Vênus, a incumbência de ferir Psique com sua flecha, para que ela – como punição pela “concorrência” – apaixone-se por um monstro. Amor é o típico “filho-amante” das antigas mães deusas, ou seja, é ao mesmo tempo o filho que ela dá à luz e o amante a quem ela
se une – originariamente, era o que fazia a roda do ano avançar do inverno novamente à fértil primavera, personificada por Amor. Do ponto de vista psicológico e já como Apuleio o ilustra, Amor aparece como o protótipo do filho muito ligado e submetido à mãe e, ao mesmo tempo, do filho rebelde, que dela tenta se libertar. O mesmo se dá no conto. Amor não obedece à ordem da mãe. Ao ver Psique dormindo, apaixona-se por ela e assim se torna “infiel” à sua própria mãe.

       Naturalmente, ninguém pode saber disso. Por essa razão, Psique não está autorizada a ver nem a reconhecer Eros. Assim, travam o seguinte acordo: Amor a visita, eles se amam, mas tudo deve ocorrer na escuridão da noite, quando sua figura permanece oculta, e Psique não pode saber quem ele realmente é. Desse modo, encontram-se todas as noites e, juntos, celebram a festa dos sentidos. Por muito tempo, todos parecem satisfeitos com a situação, seja porque nada sabem, seja porque podem desfrutá-la sem serem perturbados.

       O tema, nesse caso, é a intensidade do primeiro amor. Psique finalmente encontrou aquilo que seu coração tanto ansiava, e Amor finalmente escapou à reivindicação de posse de sua mãe. No entanto, tudo precisa acontecer na escuridão. Isso significa duas coisas: 1) na verdade, não são duas pessoas que se encontram, cara a cara. O que vivem é uma fusão, uma união ditosa. Um ainda não “vê” o outro como ser separado dele, como oposto; 2) o que acontece precisa permanecer velado – sob a ameaça de uma separação imediata. Amor exprime essa ameaça, o que é “típico de um filho muito ligado à mãe”. Esta não pode saber de nada; somente assim ele “está autorizado” a viver completamente seu amor por outra mulher. E, quando amanhece, ele volta para junto da mãe, como se nada tivesse acontecido. Porém, inicialmente, isso tampouco é um impedimento, pois é muito bom ficar com a amada na escuridão da noite, e melhor ainda por ser proibido. Todavia, do ponto de vista psicológico, isso significa que esse amor ainda está totalmente na escuridão do inconsciente, não tem um verdadeiro oposto nem uma limitação – interna ou externa. É um amor sincero, intenso, mas profundamente simbiótico, tal como costumamos encontrar nos “primeiros amores”. É bom que seja assim e, em certo sentido, tem de ser assim. O que não é possível é que ele permaneça assim para sempre. Justamente quando esse amor é tão profundo, sincero e intenso, justamente quando, como no conto, os amantes desabrocham e podem viver plenamente seu amor, inicia-se um desenvolvimento que ameaça romper tudo de maneira dolorosa, mas que tem de acontecer para que os amantes cresçam interiormente.

       O despertar de Psique

       No conto, as duas irmãs tornam-se ativas. De modo bastante semelhante às irmãs da bela, em “A bela e a fera”, elas chegam a ser apresentadas como criaturas antipáticas, invejosas, malévolas e profundamente insatisfeitas com seus próprios relacionamentos. No entanto, do ponto de vista psicológico, desempenham um papel muito importante: graças a elas, as seguintes perguntas tornam-se imperiosas para Psique: Quem é, na verdade, aquele a quem todas as noites me uno com tanta felicidade? Por que ele não se mostra? Por que sempre desaparece? Seria ele obrigado a esconder quem verdadeiramente é? Seria ele o monstro em forma de animal, profetizado pelo oráculo, a quem ela se entrega? Ela já não consegue se entregar à fusão simbiótica sem se questionar. Seu amor quer ver. Assim, começa a emergir da escuridão do inconsciente.

       Esse trecho me faz lembrar inúmeros casos semelhantes nas terapias de casais. Depois que o primeiro período de paixão intensa passa, que o cotidiano se instala, que a mulher talvez dê à luz o primeiro filho e o homem comece a fazer carreira... À noite, como antes, ele quer se unir feliz a ela e, de manhã, sai para trabalhar. Ela não sabe o que ele tem, sabe cada vez menos a respeito do que o move, e começa a fazer perguntas, a conversar com as amigas, a ler livros e revistas de psicologia, que ao homem em questão, cuja “paz” ela perturba, geralmente parecem tão antipáticos como no conto de fadas são apresentadas “as irmãs”. Aos poucos, a mulher passa a suspeitar de que não é apenas a grande quantidade de trabalho que o faz chegar tão tarde em casa, e começa a se perguntar: “Será que ele está se afastando de mim?” Sente de maneira cada vez mais clara: agora, que “é dia”, que o cotidiano se instalou, ele já não consegue manter a relação com ela. De repente, outras coisas se tornam mais importantes. Será que ele está tão longe e já não é acessível porque seu coração está preso em outro lugar? Então, ela começa a fazer essas perguntas a si mesma, mas ele nada percebe. Na escuridão da noite, quer novamente se unir a ela.

       Então ela começa a realmente querer saber. Como Psique, pega a “luz” e o “punhal”. Começa a observar melhor (lampião a óleo) e já não aceita ser deixada em segundo plano; ao contrário, passa a pressioná-lo com perguntas (punhal): “Será que tudo na sua profissão é realmente tão importante? A quem você obedece internamente? Às exigências da sua mãe, do seu pai, para quem você sempre precisa ser o máximo? Ou você é um animal explorador, que nada mais tem na cabeça além de sexo e que não se importa nem um pouco comigo?” Ela realmente quer esclarecer a questão, em vez de continuar se unindo “de maneira inconsciente” a ele.

       Infelizmente, na maioria das vezes, ele não suporta a desconfiança, do mesmo modo como seu antigo modelo Amor na história. Assim como o óleo do lampião de Psique queima Amor, abrindo nele uma ferida, o parceiro em questão também se sente perturbado, ferido e magoado com o novo comportamento da mulher. Sente-se assustado, talvez também surpreso, e não quer se sentir assim. Então, acaba se fechando e desaparecendo – como Amor – para nunca mais voltar, pelo menos enquanto ela não parar de usar a luz e o punhal. Para nunca mais voltar no sentido de que externamente se separa (talvez até, como Amor, voltando para sua mãe) e procura uma nova amada “na escuridão”, ou então no sentido de que se entrincheira, mergulha no trabalho e, do ponto de vista anímico e mental, mostra-se cada vez menos presente, mesmo quando, fisicamente, como de costume, volta à noite para casa e quer dormir com ela – que, contudo, passa cada vez mais a rejeitá-lo, “sentindo a necessidade” de reagir de acordo com a sua vivência.

       Infelizmente, muitas vezes a realidade se assemelha ao conto: o homem não suporta a luz, que o fere, e vai embora. Mesmo irritada com a situação, em seu íntimo a mulher muitas vezes se sente exatamente como no conto: profundamente ligada ao homem, sentindo a falta dele, de seu corpo, de seu cheiro, de seu carinho e de sua juventude, que ainda estão impregnados em sua pele. Mas ela já não pode se entregar a ele – pois, para ela, teria de surgir outra qualidade nele, algo que fosse mais claro, mais consciente, fruto de mais diálogo, mais discussão. No entanto, ele rejeita tudo isso abruptamente e, como Eros, desaparece do relacionamento.

       A busca por Eros

       Para as mulheres que vivem essa situação, é importante observar como Psique lida com ela. Psique sofre uma grande dor – como, na maioria das vezes, as mulheres em nosso exemplo. Decidida, vai embora e passa a se dedicar às tarefas que lhe são impostas, as quais tem de resolver sozinha. No conto, ela também não tem escolha. E embora nesse momento se trate apenas dela, a situação igualmente tem algo a ver com Amor/Eros: as tarefas são impostas pela deusa do amor, Vênus/Afrodite, e o objetivo de cumpri-las não é outro senão reencontrar o Eros perdido; contudo, em um estágio novo e mais maduro, e não mais apenas na escuridão inconsciente da noite.

       Na vida real, nesse estágio, a situação fica muito difícil. Justamente na primeira fase da paixão, quando a mulher sentiu o eros de maneira tão intensa na sexualidade conjunta com seu parceiro, surgiu uma forte ligação. Ela não quer abrir mão desse sentimento. Sabe que ele é possível, que pode ser belo, e que, além disso, pode ser com esse homem. Mas também sente que esse amor já não pode ser como tem sido até então. É preciso mudar, estar mais “cara a cara”. Assim, ela se arrisca e passa a se lamentar ao marido, ou ao menos sempre tenta fazer isso, nos momentos bons e ruins. Como isso de nada adianta, às vezes se cala e se fecha, buscando nos filhos e em outras mães alguma compensação... Mas Eros não volta e se afasta cada vez mais! O homem se torna um caso perdido, ao qual talvez ela ainda sirva, e que por vezes tenta educar, como a bela o faz com sua fera, porém ainda sentindo medo e repugnância de sua proximidade física e, por isso, evitando-a obstinadamente.

       Como Psique reage no conto? Ela parte sozinha, ou seja, quando sente claramente que não dá para continuar sem “punhal” e sem “luz”, e quando para o homem isso realmente nada significa além de se ver ferido, frustrado e descoberto, motivo pelo qual ele foge, então de nada adianta ir atrás dele. É doloroso, mas o que se quer mostrar é um claro distanciamento, um caminho próprio. Sigamos agora esse caminho dado pelo exemplo de Psique. Em nossa realidade, porém, isso nem sempre precisa significar uma separação externa. Em primeiro lugar, trata-se de um processo interno, e quero, conscientemente, deixar em aberto em que situação externa ele é realizado.

       Nesse ponto, as descrições do conto tornam-se muito dramáticas. Psique é chicoteada, apanha, pensa várias vezes em suicídio, está sempre desanimada. Ampliados do ponto de vista mítico, aqui se apresentam todos os estados de ânimo que as mulheres podem sentir em situações semelhantes. No entanto, mesmo com todas as dificuldades, Psique não desiste. Não se conforma (“Não há mesmo o que fazer”), tampouco se amargura (“Os homens são mesmo todos iguais”), mas se submete às tarefas que deve cumprir. Sempre encontra ajudantes e aceita o auxílio deles. Isso não é uma coisa óbvia. Às vezes, as mulheres se sentem desamparadas nessa situação, acham que têm de resolver tudo sozinhas e acabam por sobrecarregar-se. Psique aceita ajuda: das formigas, do junco, da águia e da torre. Não pretendo entrar aqui em simbologias complicadas, extraio apenas o essencial delas: ela recebe ajuda e a aproveita, e essa ajuda deve ser múltipla e variada, porque ela está pronta a aceitá-la. Portanto, Psique diz às suas companheiras de destino atuais: não fujam da responsabilidade, não fiquem se lamentando a seus maridos. Além disso, decidir seguir o próprio caminho não significa não aceitar ajuda. Nessa situação, a ajuda dos outros é necessária, e até faz bem aceitá-la!

       Também no que se refere às quatro tarefas que Psique tem de resolver com precisão, não quero entrar na simbologia certamente complexa e profunda. Isso tomaria muito tempo e, a esse respeito, o essencial já foi dito, e não posso nem gostaria de acrescentar nada.(3) Tal como a Gata Borralheira, Psique tem primeiro de separar os grãos e as sementes; depois, tem de pegar flocos de pelo dourados de ovelhas selvagens (provavelmente, pensava-se em carneiros); em terceiro lugar, tem de ir buscar água na fonte que são necessários ao cumprimento das tarefas. Portanto, ela precisa superar as dificuldades e se reerguer, mesmo quando o desânimo se abate sobre ela.

       Assim, Psique está sempre em busca de Eros. Não se desvia de seu objetivo e não se torna amargurada. Esse é um grande perigo que correm as mulheres em uma situação de vida semelhante. Embora tomem as rédeas da própria vida com coragem, perdem ou reprimem o outro lado, o da dedicação, que viveram um dia com o marido. A decepção é tão grande que desistem dele para sempre. Tornam-se parcialmente autoritárias, ativas, criativas e se perdem nas tarefas de ajudar e cuidar das crianças ou na profissão. O outro lado, o da dedicação afetuosa voltada ao marido, se perde. Homens como parceiros possíveis desaparecem de sua vida. O fato de com Psique ter sido diferente revela-se, sobretudo, em sua “desobediência” na quarta tarefa: ela tem de levar a Vênus o frasco com o bálsamo de beleza eterna sem abri-lo, mas o abre para ter acesso à substância... Ou seja, mesmo com toda a “emancipação”, quer ser e permanecer para o marido a mulher bela e cobiçada; além disso, não esconde a falta que sente dele.

       A libertação do amor

       Segundo o conto, ao abrir o frasco, Psique é punida por Vênus com o sono eterno por sua desobediência. Isso significa que esse sono seria eterno se Amor, por sua vez, não reaparecesse e não deixasse de lado todas as considerações: sem levar a mãe em conta, ele intervém. Corre em seu auxílio e a desperta. Assim, emerge da escuridão e – que milagre! – põe um ponto-final em seus segredinhos: socorre Psique – abertamente e diante de todo o mundo, ou seja, diante de sua mãe e de todos os deuses do Olimpo, e roga a Zeus para que ele legalize seu relacionamento com sua amada. Zeus o faz, elevando Psique à condição de deusa e possibilitando, assim, que o matrimônio seja devidamente realizado.

       Portanto, após a última noite de amor, Eros não teria sumido sem deixar rastro, como parece. Também não fizera as pazes com a mãe. Mesmo antes de sua intervenção, o conto narra que Vênus fica sabendo do caso amoroso do filho. Segue-se uma discussão que não passa despercebida. O verdadeiro arquétipo da descompostura materna, que Apuleio faz Vênus passar ao filho muito ligado a ela e que começa a criar asas. Embora Amor esteja se recuperando de suas feridas em um pequeno cômodo tranquilo, de algum modo parece ficar sabendo do que acontece a Psique. Parece acompanhar o caminho percorrido por ela. E, aparentemente, isso o impressiona tanto que, quando ela se vê em apuros, ele acaba deixando todas as considerações de lado, contrariando a estratégia da mãe, despertando Psique do sono mortal e ainda encontrando forças para defendê-la abertamente.

       Do ponto de vista psicológico, o que se poderia dizer a respeito? Certamente há homens que ficam cuidando da ferida causada pelo “punhal” e pelo “óleo do lampião” de sua “Psique” e nada aprendem, a não ser que busquem a próxima escuridão com outra mulher. Internamente, continuam ligados à própria mãe, de maneira que só podem viver seu amor “em segredo” (muitas vezes em relacionamentos externos) – por assim dizer, na escuridão da inconsciência. Mas também há homens cuja ferida os leva a ocupar-se de si mesmos e da própria vida. O acesso de fúria de Vênus no conto indica que isso não é possível sem uma libertação do vínculo com a mãe. Por certo, essa libertação não deve ocorrer sempre de modo tão mítico e dramático como apresentado no conto. Tampouco depende do grau da discussão, e sim dos passos dados rumo à libertação, e, para tanto, é preciso ter muita coragem, uma coragem que muitos homens em idade avançada não conseguem criar.

       No final da nossa história, Amor/Eros desperta da escuridão para uma nova vida. Ele corre para socorrer a corajosa Psique em sua última crise e se coloca abertamente ao seu lado. Isso significa que, no final, Psique não consegue se virar sozinha. Para que o amor possa desabrochar em um plano novo e mais maduro, ou talvez até para que ele volte a florescer, também é necessário o despertar de um “novo” Eros no homem, que o leve a ficar ao lado de sua mulher como um homem completo – mente, corpo e alma – e que dê a esse relacionamento o lugar central em sua vida. O “despertar” da mulher o colocou em crise; o fato de ela o ter pressionado com o punhal e o óleo do lampião o feriu e lhe causou dores, mas essa é a sua chance: de também sair da escuridão, de deixar de ser o jovem preso à mãe, de se tornar o parceiro apaixonado e em pé de igualdade com uma mulher também apaixonada. O conto simboliza esse “despertar”, com a aceitação igualitária do casal por Zeus, no Olimpo dos deuses, e com o fato de que ambos têm um filho que traz o nome de “Prazer”.

       Se a partir disso lançarmos um olhar retrospectivo ao conto da bela e da fera, podemos avaliar novamente a diferença de visão em relação ao que ocorre no relacionamento de um casal: nesse conto, a bela tem de aprender a amar, porém esse amor tem um aspecto de submissão. Não há para ela nenhum desenvolvimento que a leve à independência, tendo ela de renunciar totalmente a seus desejos. Quanto à parte masculina, a fera, tampouco precisa de fato se desenvolver; tem apenas de ser domada e tornar-se um pouco mais caseira para que tudo fique em ordem. Que bom seria! Seria mesmo bom? Acho que não. O melhor caminho é aquele reconhecidamente árduo de Amor e Psique, que nos preenche de verdadeiro prazer quando estamos preparados para percorrê-lo.


 (Jellouschek, Hans.- Espelho, espelho nosso)

NOTAS: 
(1) Cf. a respeito: madame Leprince de Beaumont, Die Schöne und das Tier. Ein Märchen. Posfácio de Maria Dessauer. Frankfurt a. M.: Insel Verlag, 1977, pp. 47-57. 

(2) Esse resumo toma por base a tradução de A. Schaeffer em E. Neumann, Amor und Psyche: Deutung eines Märchens. Ein Beitrag zur seelischen Entwicklung des Weiblichen. Olten: Walter Verlag, 1971. 

 (3) Cf. Erich Neumann, Amor und Psyche: Deutung eines Märchens. Olten: Walter Verlag, 1971.

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