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 A morte está sempre presente, é o horizonte de todas as preocupações.
Sócrates foi bem claro: "Para aprender a viver bem, é preciso aprender
a morrer bem". E Sêneca: "Só quem aceita a morte e está pronto para
morrer pode sentir o verdadeiro sabor da vida"

(Irvin D. Yalom - A Cura de Schopenhauer)

As pessoas precisam aprender a viver com dignidade, 
justiça e amor, hoje, aqui mesmo nessa vida 
e não em função de outra que poderá existir ou não.
(Alfredo Bernacchi - ATEU GRAÇAS A DEUS)

Os estoicos (por exemplo, Crísipo, Zeno, Cícero e Marco
Aurélio) nos ensinaram que aprender a viver bem é aprender a morrer
bem, e que, reciprocamente, aprender a morrer bem é aprender a viver
bem. Cícero disse que “filosofar é se preparar para a morte”. Santo
Agostinho escreveu que “é apenas perante a morte que o caráter de um
homem nasce”. Muitos monges medievais mantinham uma caveira humana
em suas celas para concentrar os pensamentos na mortalidade e
para servir de lição à condução da vida. Montaigne sugeriu que a mesa
de trabalho de um escritor deve oferecer uma boa visão do cemitério
para estimular o pensamento. Assim, e de muitas outras maneiras,
grandes professores ao longo do tempo nos lembraram que, apesar de a
concretude da morte nos destruir, o conceito da morte nos salva.

(Irvin D. Yalom - De frente para o sol)

Trilhar o caminho do Yoga não significa que devamos
abraçar uma vida abstêmia. No início, devemos, primeiramente,
aprender a viver sadiamente de tal modo que
vivamos com a Natureza e não contra a Natureza.

(Haich, Elisabeth - tantra, a canalização da força criadora)

Para nos salvarmos, para termos
acesso à sabedoria que reside na vitória sobre o medo, precisamos aprender a viver
sem nostalgia do passado nem receio supérfluo com relação ao futuro, o que significa
que devemos parar de habitar permanentemente essas dimensões do tempo que, aliás,
não têm existência alguma (o passado não existe mais e ainda não há futuro) e nos
limitarmos, tanto quanto possível, ao presente.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)
 
Há muita gente pensando mais em segurança do que em oportunidade.
Parecem ter mais medo da vida do que da morte.

James F. Byrnes, ex-secretário de Estado americano
 
Sob muitos aspectos o medo da morte é idêntico ao medo
da vida, pois, quando não somos capazes de viver plenamente o presente e não nos
dispomos a aceitar nossa mortalidade, não estamos realmente vivendo.

(Liz Greene, Juliet Sharman-Burke - Uma Viagem através dos Mitos)

 
A religião é uma questão muito presente quando se fala da morte com crianças. Os educadores justificaram que, provavelmente, haja essa predominância porque a religião se impõe a nós como herança cultural. Associado a isso, a ideia do “fim”, do “nunca mais” é fonte de angústia para o ser humano.
Como o tema da espiritualidade é muito vasto e complexo e não faz parte do meu objeto de estudo, selecionei dois itens a ele relacionados: a angústia humana diante da morte e a religiosidade. Enfoquei esses itens para mostrar as questões sociais e culturais envolvidas no tema da morte, e também tentar demonstrar que se pode lançar mão da religião para se tratar do tema da morte com crianças, desde que não seja utilizada de forma doutrinária.
A seguir, faço uma breve reflexão a respeito da questão religiosa, abordando as questões sociais e culturais.
Bigheto e Incontri (Bigheto, A. C. & Incontri, D. – A religiosidade humana, educação e a norte. In D. Incontri & F. S. Santos (org.) A Arte de Norrer – Visões Plurais. Bragança Paulista – SP: Comenius, 2007, p. 26-35) afirmam que a religião desempenha papel importante na cultura e na sociedade. Funciona como princípio de unificação das culturas e das relações humanas. Em várias sociedades humanas é fonte de valores éticos que dão base à conduta das pessoas e serve como instrumento de educação.
As religiões sempre deram explicações às questões existenciais, fazendo referências à dimensão do sagrado e do transcendente. Mesmo antes de ser encarada como fato biológico e questão filosófica, a morte era objeto de todas as religiões, pelo domínio do sagrado. Como pertence ao sagrado e o homem não tem controle sobre ela, a morte gera angústia, e esta faz parte da existência humana.
Chiavenato (1998) se refere à angústia da morte ao refletir sobre as questões religiosas relacionadas ao medo da morte e à angústia do ser humano.
Esse autor afirma que os homens primitivos tinham uma visão mítica da morte. Embora tentassem racionalizar a ideia da morte, eles não a destituíam de seu caráter religioso. A morte era resultado de fenômenos da natureza, cuja ação provinha da decisão dos deuses. Com o passar dos tempos e mudanças no modo de vida, a morte passou a ser consequência de vários outros fatores como doenças, acidentes, homicídios, mas a vontade divina ainda estava presente. As formas de temer a morte foram mudando também, porém o temor da morte é inerente ao ser humano.
Para o homem primitivo era natural temer a morte. Como ela não resultava de forças equivalentes as suas, contra as quais pudesse lutar, mas sim de feitiços e/ou intervenção sobrenatural, que revelavam a vontade divina, eles se sentiam impotentes diante dela e consequentemente a temiam.
Nota-se, portanto, que o medo da morte persiste desde os tempos remotos. O desejo de ser imortal gera o medo da morte. A inconformidade com o fim da vida é responsável pela concepção de uma vida pós-morte, reforçada por crenças religiosas. As sociedades impregnadas de conceitos religiosos defendem a ideia de imortalidade e, nelas, o temor à morte predomina.
Na Bíblia, a morte foi a punição de Deus aos dois habitantes do paraíso e recaiu posteriormente sobre toda a humanidade. A Bíblia fala da imortalidade quando aborda o conceito de ressurreição, que seria a vida eterna.
Embora o homem tema a morte, ele não tem a experiência pessoal da morte. Ele vivencia o ato de morrer, e não sua própria morte. Ele conhece e experimenta a morte do outro. Portanto, sua consciência é a da morte alheia, que corresponde à perda. Chiavenato (1998) cita o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, que afirma que a morte não é um acontecimento da vida, pois não se vive a morte. Diz que se pode vivenciar o morrer, mas não a morte, uma vez que se perde a consciência do real. Ressalta que o sentimento mais marcante que temos em relação à morte é a sensação de perda. Defende uma visão egoísta de que a morte do outro é percebida como se perdêssemos a posse dele em sua vida. Reforça, ainda, que essa falsa consciência de “ter” determina a relação e o entendimento da morte, antecipando, durante a vida, a angústia da perda inevitável.
O homem, conscientemente, sabe que é mortal; no entanto, de modo subjetivo, aspira ou crê na imortalidade. Assim, a morte passa a ser uma tragédia. Sua inexorabilidade gera angústia, e esta, por sua vez, o medo da morte. Isso leva o ser humano a rejeitar a ideia da própria morte, buscando refúgio na eternidade da alma e em outros mitos religiosos.
Esse autor cita a visão de Heidegger, que vê na morte o destino do homem: “O homem é um ser destinado à morte”. Afirma que a vida implica na inexorabilidade da morte, não havendo mistério a ser resolvido: o homem nasce e morre.
Em todas as culturas há manifestações da inexorabilidade da morte. Mesmo assim, morte e morrer são palavras evitadas e, no lugar delas, usam-se eufemismos para substituí-la, como “ele nos deixou”, “ele se foi”, “ele já não está mais aqui entre nós”, “dorme um sono profundo”, “descansou”, “está em paz”... que revelam o medo de encarar a morte. Esses termos nos remetem à ideia de que a pessoa que morreu migrou para outro lugar, o que reforça a crença na imortalidade.
Com tantos subterfúgios, quando alguém da família morre, é comum ocultar-se esse fato das crianças. Pela própria dificuldade dos adultos e para não impressioná-las, utilizam-se termos que podem confundir as crianças, como “foi para o céu”, “virou estrelinha”, “foi viajar”, “Papai do Céu o chamou”... A tentativa de mascarar o fato real pode causar certa confusão nas crianças. Passam a encarar a morte de forma dissimulada e/ou medrosa, perpetuando esse medo.
Quando se mente para a criança, subestima-se sua capacidade de perceber a realidade a sua volta e de entender a morte. Parte-se da concepção errada de que contar a verdade vai prejudicá-la psicologicamente por causa de sua pouca idade.
Por isso, é comum apegar-se aos dogmas religiosos para explicar o inevitável. No cristianismo, por exemplo, têm-se duas formas de perpetuar culturalmente o medo da morte e reforçar a crença da imortalidade: a ressurreição católica e a reencarnação espírita.
Nota-se que a morte é um tabu nos dias atuais e, associada ao medo, impede-se um repensar a vida e as relações a ela atribuídas.
Bigheto e Incontri defendem a ideia de que a religião pode ser uma forma de se discutirem temas existenciais, inclusive a morte, na escola com as crianças e adolescentes. No entanto, alertam para a necessidade de se ter coragem e habilidade de saber discuti-la de forma plural e interdisciplinar. Afirmam que é possível levar a criança a conhecer a transcendência e a perspectiva da eternidade, porém, fazendo-o de maneira respeitosa, não doutrinante, e sim por meio do diálogo, da pesquisa e da pluralidade. Assim, colabora-se para uma educação que nos ajude a livrarmo-nos do medo da morte, e isso significa libertar-se do medo da vida. “Viver com a perspectiva permanente da precariedade da existência, do risco sempre presente de perda definitiva de nós mesmos e daqueles que amamos é assumir uma angústia muitas vezes insuportável” (op. cit., p. 35).

(Lucélia Elizabeth Paiva - A arte de falar da morte para crianças)
O homem além de sapiens, volens, socialis, faber, loquens, ludens é também religiosus.

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publicado às 23:27



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