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Keith O'Brien pede "perdão" por comportamento que "ficou, por vezes, aquém dos padrões que se esperariam de um padre, de um arcebispo e de um cardeal".
O cardeal escocês Keith O'Brien, que se demitiu na segunda-feira do cargo de arcebispo, devido a acusações de conduta indecente, reconheceu hoje ter tido um "comportamento sexual" inapropriado, e pediu "perdão às pessoas que ofendeu".
"As últimas duas acusações que foram feitas contra mim tornaram-se públicas. No início, contestei-as devido ao seu caráter anónimo e impreciso. Agora, quero aproveitar a oportunidade para reconhecer que o meu comportamento sexual ficou, por vezes, aquém dos padrões que se esperariam de um padre, de um arcebispo e de um cardeal", declarou o alto dignitário, em comunicado.
"Àqueles que ofendi, apresento as minhas desculpas e peço perdão. À Igreja Católica e ao povo da Escócia, também peço desculpa", acrescentou o mais velho clérigo britânico da Igreja Católica, com 74 anos.
Estas declarações surgem após a publicação, a 24 de fevereiro, no jornal britânico The Observer, de um artigo em que três padres e um ex-padre acusavam o cardeal O'Brien de ter tido "comportamentos indecentes" para com eles, a partir dos anos 1980.
Um padre queixou-se de ter sido vítima de atenções indesejadas por parte do cardeal, após um serão "bem regado".
Um outro afirmou que O'Brien aproveitava as orações noturnas para ter atitudes impróprias.
O cardeal negou, então, tais acusações, mas um dia após a sua divulgação, anunciou, todavia, a demissão do cargo de arcebispo de Saint Andrews e Edimburg, na Escócia, e decidiu renunciar à participação no conclave destinado a eleger o sucessor do papa Bento XVI.

Lobby gay no Vaticano pode ter levado Papa a abdicar 

No momento de sua iminente despedida, voltam à tona os escândalos que marcaram o pontificado de Bento XVI. De acordo com o diário italiano de centro-esquerda La Repubblica, no dia 17 de dezembro de 2012, quando deitou os olhos sobre o dossiê elaborado por três cardeais octogenários incumbidos de investigar o chamado caso Vatileaks – o escrutínio de documentos papais –, Bento XVI tomou a decisão de que renunciaria. 

Em miúdos, o relatório de 300 páginas se baseia no não cumprimento de dois mandamentos, o sexto e o sétimo. O sexto mandamento proíbe o adultério, mas, como esse ato não é realizável no mundo dos prelados, fala-se em proibição da pederastia. 

Por sua vez, o sétimo mandamento refere-se a casos de corrupção, também identificados pelos cardeais liderados pelo espanhol Julián Herranz. Os outros dois cardeais, responsáveis pela investigação realizada entre abril e dezembro do ano passado, são o italiano Salvatore De Giorgi e o eslovaco Jozef Tomko. 

Segundo o inquérito, baseado em entrevistas com dezenas de bispos, cardeais e laicos, uma série de sacerdotes da Santa Sé teriam pecado, e, até prova em contrário, esses graves pecados poderão se transformar em delitos. 

O quadro piora quando o La Repubblica revela o seguinte: oficiais do Vaticano teriam, por conta de suas atividades mundanas, sofrido “influências externas” de laicos. 

Tradução: os oficiais do Vaticano estão sendo chantageados.

O escândalo, contudo, não pode ser visto como um complô de um diário de centro-esquerda, visto que o Corriere della Sera, prestigiado diário de centro-direita, também reportou sobre a gravidade do dossiê em 11 de fevereiro, data em que Bento XVI anunciou sua renúncia.
Difícil mesmo é saber se esse último escândalo foi, de fato, a gota d’água para o atual Papa.
Federico Lombardi, porta-voz da Santa Sé, revelou que não haverá “nem desmentidos, nem comentários” sobre as “informações e opiniões” feitas pela imprensa às vésperas da resignação de Bento XVI.
O La Repubblica, é verdade, pode deixar o leitor por vezes perplexo. Por exemplo, diz que esta foi a primeira vez que a palavra “homossexualidade” foi pronunciada nos aposentos de Bento XVI.
O diário revela que os cardeais identificaram villas, saunas, e residências usados por um arcebispo italiano com seus amantes.
No entanto, casos gays não são novidades no Vaticano – e é difícil acreditar que a palavra “homossexualidade” nunca tenha sido citada pelo atual Papa. Angelo Balducci, um dos Cavalheiros de Sua Santidade, não foi afastado do cargo em 2010 porque tinha várias relações com homens, inclusive com o nigeriano Chinedu Thomas Ethiem, cantor de capela da basílica de São Pedro?
Bento XVI, diga-se, não permite gays ativos a estudar para o sacerdócio. Seria, portanto, interessante saber os termos utilizados pelo Papa ao tratar o caso Balducci.
A corrupção no relatório dos cardeais também parece endêmica, inclusive no Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano. Ettore Gotti Tedeschi, ex-presidente do IOR, foi despedido em maio de 2011. Seu crime: tentava, há mais de dois anos, limpar as finanças da Igreja. Tedeschi, que após sua demissão temia ser assassinado, escreveu um documento oficial para que sua luta fosse  continuada pelo seu sucessor. O cargo deixado por Tedeschi só foi preenchido nove meses mais tarde…
E, é claro, são numerosos os casos de pedofilia não resolvidos – e vítimas, por tabela, não conseguem processar padres culpados.
Devido “à idade avançada”, Bento XVI renunciará dia 28 de fevereiro. Até a Páscoa um novo Papa deverá ser escolhido. Ele terá de lidar com o dossiê de 300 páginas sobre os podres da Igreja que talvez tenham levado Bento XVI a abdicar.

( http://www.cartacapital.com.br/internacional/lobby-gay-no-vaticano-pode-ter-levado-papa-a-abdicar/ )

Eugene Drewermann (ex-padre) reconhece, fruto da sua experiência de psicoterapeuta, que a percentagem de homossexuais dentro da Igreja católica é grande, como consequência principal da sua moral repressiva e da atitude quanto ao celibato, quer entre religiosos de sexo masculino como do sexo feminino, chegando aos 25% os jovens seminaristas que, de forma permanente ou esporádica, se dedicam a práticas homossexuais. Homossexualidade que era considerada pela Igreja como uma das formas mais graves de pecado (os acusados pelo "crime nefando" eram sentenciados à fogueira pela Santa Inquisição). Se fosse agora, muito havia que queimar!
Também entre os Bispos e Cardeais ainda há muita gente que não se esqueceu do velho "viciozito".

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publicado às 23:10

Quem acompanhou o noticiário dos últimos dias acerca dos escândalos dentro do Vaticano, trazidos ao conhecimento pelos jornais italianos “La Repubblica” e o “La Stampa”, referindo um relatório com trezentas páginas, elaborado por três Cardeais provectos sobre o estado da cúria vaticana deve, naturalmente, ter ficado estarrecido. Posso imaginar nossos irmãos e irmãs piedosos que, fruto de um tipo de catequese exaltatória do Papa como “o doce Cristo na Terra” devam estar sofrendo muito, pois amam o justo, o verdadeiro e o transparente e jamais quereriam ligar sua figura a notórios malfeitos de seus assistentes e cooperadores.
         O conteúdo gravíssimo destes relatórios reforçaram, no meu entender, a vontade do Papa de renunciar. Ai se comprovava uma atmosfera de promiscuidade, de luta de poder entre “monsignori”, de uma rede de homossexualismo gay dentro do Vaticano e desvio de dinheiro do Banco do Vaticano. Como se não bastassem os crimes de pedofilia em tantas dioceses que desmoralizaram profundamente a instituição-Igreja.
         Quem conhece um pouco a história da Igreja – e nós profissionais da área temos  que estuda-la detalhadamente- não se escandaliza. Houve épocas de verdadeiro descalabro do Pontificado com Papas adúlteros, assassinos e vendilhões. A partir do Papa Formoso (891-896) até o Papa Silvestre (999-1003) se instaurou segundo o grande historiador Card. Barônio a “era pornocrática” da alta hierarquia da Igreja. Poucos Papas escapavam de serem depostos ou assassinados. Sergio III (904-911) assassinou seus dois predecessores, o Papa Cristóvão e Leão V.
         A grande reviravolta na Igreja como um todo, aconteceu, com consequências para toda a história ulterior, com o Papa Gregório VII em 1077. Para defender seus direitos e a liberdade da instituição-Igreja contra reis e príncipes que a manipulavam, publicou um documento que leva este significativo título “Dictatus Papae” que literalmente traduzido significa “a Ditadura do Papa”. Por este documento, ele assumia todos os poderes, podendo julgar a todos sem ser julgado por ninguém. O grande historiador das idéias eclesiológicas Jean-Yves Congar, dominicano, considera a maior revolução acontecida na Igreja. De uma Igreja-comunidade passou a ser uma instituição-sociedade monárquica e absolutista, organizada de forma piramidal e que vem até os dias atuais
         Efetivamente, o cânon 331 do atual Direito Canônico se liga a esta compreensão, atribuindo ao Papa poderes que, na verdade, não caberiam a nenhum mortal, senão somente a Deus: ”Em virtude de seu ofício, o Papa tem o poder ordinário, supremo, pleno, imediato, universal” e em alguns casos precisos, “infalível”.
         Esse eminente teólogo, tomando a minha defesa face ao processo doutrinário movido pelo Card. Joseph Ratzinger em razão do livro “Igreja:carisma e poder” escreveu um artigo no “La Croix”(8/9/1984) sobre o “O carisma do poder central”. Ai escreve:”O carisma do poder central é não ter nenhuma dúvida. Ora, não ter nenhuma dúvida sobre si mesmo é, a um tempo, magnífico e terrível. É magnífico porque o carisma do centro consiste precisamente em permanecer firme quando tudo ao redor vacila. E é terrível porque em Roma estão homens que tem limites, limites em sua inteligência, limites em seu vocabulário, limites em suas referencias, limites no seu ângulo de visão”. E eu acrescentaria ainda limites em sua ética e moral.
         Sempre se diz que a Igreja é “santa e pecadora” e deve ser “sempre reformada”. Mas não é o que ocorreu durante séculos nem após o explícito desejo do Concílio Vaticano II e do atual Papa Bento XVI. A instituição mais velha do Ocidente incorporou privilégios, hábitos, costumes políticos palacianos e principescos, de resistência e de oposição que praticamente impediu ou distorceu todas as tentativas de reforma.
         Só que desta vez se chegou a um ponto de altíssima desmoralização, com práticas até criminosa que não podem mais ser negadas e que demandam mudanças fundamentais no aparelho de governo da Igreja. Caso contrário, este tipo de institucionalidade tristemente envelhecida e crepuscular definhará até entrar em ocaso. Os atuais escândalos sempre houveram na cúria vaticana apenas que não havia um providencial Vatileaks para  trazê-los a público e indignar o Papa e a maioria dos cristãos.
         Meu sentimento do mundo me diz que  estas perversidades no espaço do sagrado e no centro de referencia para toda a cristandade – o Papado – (onde deveria primar a virtude e até a santidade) são consequência desta centralização absolutista do poder papal.  Ele faz de todos vassalos, submissos  e ávidos por estarem fisicamente perto do portador do supremo poder, o Papa. Um poder absoluto, por sua natureza, limita e até nega a liberdade dos outros, favorece a criação de grupos de anti-poder, capelinhas de burocratas do sagrado contra outras, pratica  largamente a simonía que é compra e venda de vantagens, promove  adulações e destrói os mecanismos da transparência. No fundo, todos desconfiam de todos. E cada qual procura a satisfação pessoal da forma que melhor pode. Por isso, sempre foi problemática a observância do celibato dentro da cúria vaticana, como se está revelando agora com a existência de uma verdadeira rede de prostituição gay.
         Enquanto esse poder não se descentralizar e  não outorgar mais participação de todos os estratos do povo de Deus, homens e mulheres, na condução dos caminhos da Igreja o tumor causador desta enfermidade perdurará. Diz-se que Bento XVI passará a todos os Cardeais o referido relatório para cada um saber que problemas irá enfrentar caso seja eleito Papa. E a urgência que terá de introduzir radicais transformações. Desde o tempo da Reforma que se ouve o grito: ”reforma na Cabeça e nos membros”. Porque nunca aconteceu, surgiu  a Reforma como gesto desesperado dos reformadores de fazerem por própria conta tal empreendimento.
         Para ilustração dos cristãos e dos interessados em assuntos eclesiásticos, voltemos à questão dos escândalos. A intenção é desdramatizá-los, permitir que se tenha uma noção menos idealista e, por vezes, idolátrica da hierarquia e da figura do Papa e libertar a liberdade para a qual Cristo nos chamou (Galatas 5,1). Nisso não vai nenhum gosto pelo Negativo nem vontade de acrescentar desmoralização sobre desmoralização. O cristão tem que ser adulto, não pode se deixar infantilizar nem permitir que lhe neguem conhecimentos em teologia e em história para dar-se conta de quão humana e demasiadamente humana pode ser a instituição que nos vem dos Apóstolos.
         Há uma longa tradição teológica que se refere à Igreja como casta meretriz,  tema abordado detalhadamente por um grande teólogo, amigo do atual Papa, Hans Urs von Balthasar (ver em Sponsa Verbi,  Einsiedeln 1971, 203-305). Em várias ocasiões o teólogo J. Ratzinger se reportou a esta denominação.
A Igreja é uma meretriz que toda noite se entrega à prostituição; é casta  porque Cristo, cada manhã se compadece dela, a lava e a ama.
          O  habitus meretrius da instituição, o vício do meretrício, foi duramente criticado pelos Santos Padres da Igreja como Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São Jerônimo e outros. São Pedro Damião chega a chamar o referido Gregório VII de “Santo Satanás” (D. Romag, Compêndio da história da Igreja, vol 2, Petrópolis 1950,p.112). Essa denominação dura nos remete àquela de Cristo dirigida a Pedro. Por causa de sua profissão de fé o chama “de pedra”mas por causa de sua pouca fé e de não entender os desígnios de Deus o qualificou de “Satanás”(Evangelho de Mateus 16,23). São Paulo parece um moderno falando quando diz a seus opositores com fúria: ”oxalá sejam castrados todos os que vos perturbam”(Gálatas 5.12).
         Há portanto, lugar para a profecia na Igreja e para a denúncias dos malfeitos que podem ocorrer no meio eclesiástico e também no meio dos fiéis.
         Vou referir outro exemplo tirado de um santo querido da maioria dos católicos brasileiros, por sua candura e bondade: Santo Antônio de Pádua. Em seus sermões, famosos na época, não se mostra  nada doce e gentil. Fez vigorosa crítica aos prelados devassos de seu tempo. Diz ele: “os bispos são cachorros sem nenhuma vergonha, porque sua frente tem cara de meretriz e por isso mesmo não querem criar vergonha”(uso a edição crítica em latim publicada em Lisboa em 2 vol em 1895). Isto foi proferido no sermão do quarto domingo depois de Pentecostes ( p. 278). De outra vez,  chama os prelados de “macacos no telhado, presidindo dai o povo de Deus”(op cit  p. 348).  E continua:” o bispo da Igreja é um escravo que pretende reinar, príncipe iniquo, leão que ruge, urso faminto de rapina que espolia o povo pobre”(p.348). Por fim na festa de São Pedro ergue a voz e denuncia:”Veja que Cristo disse três vezes: apascenta e nenhuma vez tosquia e ordenha… Ai daquele que não apascenta nenhuma vez e tosquia e ordena três ou mais vezes…ele é um dragão ao lado da arca do Senhor que não possui mais que aparência e não a verdade”(vol. 2, 918).
         O teólogo Joseph Ratzinger explica o sentido deste tipo de denúncias proféticas:” O sentido da profecia reside, na verdade, menos em algumas predições do que no protesto profético: protesto contra a auto-satisfação das instituições, auto-satisfação que substitui a moral pelo rito e a conversão pelas cerimônias” (Das neue Volk Gottes,  Düsseldorf 1969, p. 250, existe tradução português).
         Ratzinger critica com ênfase a separação que fizemos com referencia à figura de Pedro: antes da Páscoa, o traidor; depois de Pentecostes, o fiel. “Pedro continua vivendo esta tensão do antes e do depois; ele continua sendo as duas coisas: a pedra e o escândalo… Não aconteceu, ao largo de toda a história da Igreja, que o Papa, simultaneamente, foi o sucessor de Pedro, a “pedra” e o “escândalo”(p. 259)?
         Aonde queremos chegar com tudo isso? Queremos chegar ao reconhecimento de que a igreja- instituição de papas, bispos e padres, é feita de homens que podem trair, negar e fazer do poder religioso negócio e instrumento de autosatisfação. Tal reconhecimento é terapêutico, pois nos cura de toda uma ideologia idolátrica ao redor da figura do Papa, tido como praticamente infalível. Isso é visível em setores conservadores e fundamentalista de movimentos católicos leigos e também de grupos  de padres. Em alguns vigora uma verdadeira papolatria que Bento XVI procurou sempre evitar.
         A crise atual da Igreja  provocou a renúncia de um Papa que se deu conta de que não tinha mais o vigor necessário para sanar escândalos de tal gravidade. “Jogou a toalha” com humildade. Que outro mais jovem venha a assuma a tarefa árdua e dura de limpar a corrupção da cúria romana e do universo dos pedófilos, eventualmente puna, deponha e envie alguns mais renitentes para algum convento para fazer penitência e se emendar de vida.
         Só quem ama a Igreja pode fazer-lhe as críticas que lhe fizemos, citando textos de autoridade clássicas do passado. Quem deixou de amar a pessoa um dia amada, se torna indiferente à sua vida e destino. Nós nos interessamos à semelhança do amigo e  de irmão de tribulação Hans Küng, (foi condenado pela ex-Inquisição) talvez um dos teólogos  que mais ama a Igreja e por isso a critica.
         Não queremos que cristãos cultivem este sentimento de  de descaso e de indiferença. Por piores que tenham sido seus erros e equívocos históricos, a instituição-Igreja guarda a memória sagrada de Jesus e a gramática dos evangelhos. Ela prega libertação, sabendo que geralmente são outros que libertam e não ela.
          Mesmo assim vale estar dentro dela, como estavam São Francisco, Dom Helder Câmara, João XXIII e os notáveis teólogos que ajudaram a fazer o Concílio Vaticano II e que antes haviam sido todos condenados pela ex-Inquisição, como De Lubac, Chenu, Congar,  Rahner e outros. Cumpre  ajuda-la a sair deste embaraço, alimentando-nos mais do sonho de Jesus de um Reino de justiça, de paz e de reconciliação com Deu e do seguimento de sua causa e destino do que de simples e justificada indignação que pode cair facilmente no farisaísmo e no moralismo.

Leonardo Boff

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publicado às 15:36


O peito feminino

por Thynus, em 14.02.13
 O peito feminino, tanto por sua função como por sua forma, tem importância central. Chamada de mama na linguagem utilizada pela medicina, ele simboliza a maternidade e a capacidade de nutrir. Com o crescimento da criança no útero, crescem também os seios, e no momento do nascimento eles estão túrgidos devido ao leite que os enche. A primeira vez em que a criança é amamentada desperta um sentimento de volúpia entre mãe e filho. Além do mais, isso tem um efeito favorável em relação às dores puerperais e à recuperação do útero. É, por assim dizer, o sinal para a recuperação após o nascimento. Além do sentimento de felicidade e de volúpia sentido pela maioria das mães ao amamentar, esse ato traz também alívio aos seios túrgidos, sendo agradável também nesse sentido. Embora mamar seja um reflexo inato à criança, o contato com o seio macio e o fluxo de leite morno a enche igualmente com uma sensação de felicidade e satisfação.
Os seios são extremamente sensíveis. O suave toque acariciante das faces infantis e sobretudo o toque dos lábios e da língua ao mamar despertam sensações voluptuosas em muitas mulheres. Neste sentido, o fundamento do amor materno é também de tipo sexual. A partir disso, Groddeck conclui que amamentar atiça a paixão na mulher e a estimula a voltar a procurar as relações sexuais. Ele interpreta essa observação a serviço da conservação da espécie como biologicamente significativa. Entretanto, depõe contra isso o fato de que é justamente a amamentação que fornece um escudo prevenindo uma nova concepção demasiado precoce.
 A temática sexual do seio que amamenta é combatida sobretudo por aqueles que colocam a maternidade no céu, condenando entretanto a sexualidade ao inferno. A relação sexual geral do peito feminino, ao contrário, é inquestionável. Ele é tomado voluptuosamente na boca tanto quando amamenta como quando é beijado, um procedimento que ocorre no plano superior do corpo e que não deixa de ser semelhante à relação sexual completa que ocorre abaixo. O seio desempenha aqui o papel do pênis penetrante, correspondendo a cavidade bucal à vagina. Sem levar em conta a questão de se a criança, ao mamar, já vivencia a mulher na mãe, o significado central do peito na vida posterior é evidente. O vinculo com o seio é o primeiro que o ser humano vivencia. Neste sentido, é natural que ele continue procurando o amor no seio. Isso é válido também para as mulheres. Elas gostam de pressionar-se mutuamente contra o peito, transmitindo assim uma terna sensação de proteção. A relação de uma mulher com o peito de outra mulher é naturalmente muito mais próxima que a de um homem com o membro de um companheiro do mesmo sexo. Apertar alguém contra o peito é sempre um gesto de simpatia e de amor. Também, nenhum outro órgão expressa a compaixão de forma mais intensa e calorosa; em nenhum outro lugar, por exemplo, pode-se reclinar a cabeça e chorar. Que os seios, além de sua função maternal de alimentação, são também um órgão de relacionamento, é mostrado pelo fato de eles serem permanentemente salientes unicamente entre os seres humanos, enquanto nos "outros mamíferos" só se desenvolvem temporariamente na época da amamentação.
No amor sexual, finalmente, o peito torna-se órgão sexual, já que os homens buscam instintivamente o peito, chamado hoje em dia de seio. Essa expressão em si mesma é errada, pois a rigor um seio designa uma sinuosidade, uma baia, o espaço no meio, o decote. Esse lugar entre os seios vem sendo desnudado desde a Antiguidade para excitar o outro sexo. Por mais que as tendências da moda tenham variado ao longo das diferentes épocas, só muito raramente se renunciou à exposição desse local tão excitante. Em parte, épocas mais antigas chegaram a ser até mesmo mais generosas a esse respeito; basta pensar nos vestidos da época de Luís XIV que deixavam os seios livres, isso para não falar na "moda" dos chamados povos primitivos. No antigo Egito, a profundidade do decote correspondia ao grau de influência social, e em Atenas as mulheres burguesas compareciam às ocasiões festivas com o busto nu. O topless, portanto, não é de forma alguma uma invenção de nossa época liberal.
 Os seios também são acentuados de maneira menos óbvia: erguidos por meio de espartilhos, atados e ao mesmo tempo exibidos por sutiãs, postos em forma por corpetes especiais ou simplesmente quando a mulher aperta os braços por baixo deles e se exibe. Até mesmo o acinturamento da roupa serve em parte para acentuar o busto. Jóias tais como broches e colares apontam para as preciosidades que estão abaixo. Para muitos seres do sexo masculino, mais excitante que o peito nu que se oferece é a sugestão de que eles poderiam merecer visão tão generosa. Neste sentido, as resvaladiças mulheres que usam vestidos decotados agem de forma igualmente hábil e (semi) consciente.
Assim como as mulheres sempre tiveram a tendência de empregar seus seios, por natureza proeminentes, no jogo social, os homens jamais o quiseram evitar. São quase exclusivamente homens que, no que diz respeito aos seios, determinam os caminhos muito retilíneos da moda.
Os seios, com sua maciez e flexibilidade, são a região do corpo que menos resistência oferece. Esse conhecimento, adquirido de maneira intuitiva pelo bebê, sempre foi usado pelos homens para conquistar toda a mulher por meio dos seios.
 Enquanto as mulheres em geral "pulam no pescoço" dos homens (1), os homens costumam voar para o peito. Sua suave forma semi-esférica é talvez fortemente responsável pela preferência que, também mais tarde na vida, temos por todas as coisas arredondadas. Nele nada repele, sendo tudo atraente e encantador. Sendo assim, tanto em formas de expressão exigentes como nas mais modestas, ele é circundado por imagens que correspondem à sua perfeita forma redonda. Entre as frutas, a maçã é especialmente solicitada em relação a isso, às vezes também as pêras. Para os mamilos, servem de modelo as framboesas e os morangos, ou então os botões das flores. Enquanto os húngaros falam de botões também na linguagem coloquial, os alemães não se acanham em falar de verrugas [Warzen].
Com isso, faz-se referência a algo repelente, repugnante mesmo, que nós na verdade costumamos relacionar com as bruxas velhas e más. Quem gostaria de colocar uma verruga na boca? Essa designação pode ser uma relíquia dos tempos da Inquisição, aquela projeção de loucura coletiva que via bruxas más e sedutoras especialmente nas mulheres atraentes. O movimento feminista descobriu essa temática e, desse lado, fala-se por princípio nas pérolas do peito. A palavra verruga, nesse contexto, permite presumir que em alemão as atitudes inconscientes negativas em relação à feminilidade madura predominam. Estas também têm sua tradição na história. Na Idade Média, os fanáticos religiosos xingavam o decote de "janela do inferno", e os seios de "foles do diabo" ou "bolas do diabo". Até mesmo a política se ocupava dos seios excitantes, e chegaram até nós decretos dirigidos contra sua "vergonhosa exibição". Naquela época tentou-se, especialmente nos países católicos, prevenir o perigoso desenvolvimento dos seios em geral, por exemplo colocando sobre eles pesados pratos de chumbo à noite.
 O peito feminino é de longe o órgão sexual secundário e o chamariz óptico mais importante. Ele é amplamente utilizado nessa função, e às vezes explorado. São sobretudo as industrias de cinema americana e italiana que destacam as "estrelas cheias de curvas" que fazem os corações dos homens baterem mais rápido. As mulheres são reduzidas a três cifras, sendo que o busto ocupa o lugar mais importante. Assim, o peito evidentemente torna-se o órgão pelo qual a mulher necessariamente se deixa definir e pelo qual muitas vezes também se autodefine. Em uma época digital, uma cifra é suficiente. Ânimos mais fora de moda ainda definem seu ideal de maneira mais descritiva. Os seios então devem ser bem formados, firmes e de tamanho médio.
Caso sejam muito pequenos, são degradados como ausentes, e quando são grandes demais passam a ser considerados uma provocação, juntamente com sua proprietária. É difícil para nós conceber que existem culturas que têm outro ideal e que, por exemplo, dão preferência aos "peitos caídos", que lá são símbolos de madurez, fertilidade e de uma vida muito bem vivida.
Na Alemanha, a fórmula simples que se esconde por trás da definição digital é que quanto maior o busto, mais (sexualmente) excitante é a mulher. Trata-se de uma sexualidade com forte orla maternal. O "conquistador masculino" pode esconder-se em tais seios e deixar-se mimar por eles como quando era bebê. É nesse sentido que o sintoma do fetichismo dos seios pode ser interpretado. Tais homens procuram a mãe na mulher, mais que para a satisfação genital madura, para dar-lhes cobertura emocional, abrigo e proteção e, juntamente com isso, a mulher poderosa. que a infantil cultura norte-americana, que vai da comida ao permanente jogo de índios e cowboys e passa por Mickey Mouse, se destaque também aqui, é tão pouco de admirar como a preferência italiana correspondente. Classicamente, a mamma italiana tem seios fartos e coloca-se inteiramente à disposição de suas crianças, grandes e pequenas.
Vários problemas com o peito e com os seios se desenvolvem a partir da valoração social, mas também do respectivo ambiente individual. A silhueta ideal está em boa parte submetida ao gosto de cada época. Se na virada do século a demanda ainda era por silhuetas arredondadas e mais generosas, hoje em dia pede-se uma linha esguia. A imagem ideal da estrela cheia de curvas difundida por Hollywood era a da mulher esbelta com seios grandes. O ideal Twiggy, uma silhueta de rapaz praticamente sem seios, já fez furor no mundo antigo. Nesta variedade de ideais, os problemas não podem ficar de fora. De fato nenhum órgão, incluindo o nariz, é operado tão freqüentemente sem necessidade médica como o peito (glândulas mamárias) feminino. Ao mesmo tempo, entretanto, também nenhum órgão feminino é operado com mais urgência e necessidade, já que o carcinoma da mama é o câncer mais freqüente nas mulheres.

(1) Com o pescoço declara-se o tema da propriedade. Conseqüentemente, quem se atira ao pescoço de outra pessoa visa a (região da) propriedade.

(Rüdger Dahlke - "A doença como linguagem da alma")

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publicado às 14:07


Budismo versus cristianismo

por Thynus, em 14.01.13
As necessidades do budismo são um clima extremamente ameno, muita gentileza e liberalidade nos costumes, e nenhum militarismo; ademais, que seu início provenha das classes mais altas e educadas. Alegria, serenidade e ausência de desejo são os objetivos principais, e eles são alcançados. O budismo não é uma religião na qual a perfeição é meramente objeto de aspiração: a perfeição é algo normal. – No cristianismo os instintos dos subjugados e dos oprimidos vêm em primeiro lugar: apenas os mais rebaixados buscam a salvação através dele. Nele o passatempo prevalecente, a cura favorita para o enfado, é a discussão sobre pecados, a autocrítica, a inquisição da consciência; nele a emoção produzida pelo poder (chamada de “Deus”) é insuflada (pela reza); nele o bem mais elevado é considerado algo inatingível, uma dádiva, uma “graça”. Também falta transparência: o encobrimento e os lugares obscurecidos são cristãos. Nele o corpo é desprezado e a higiene é acusada de lascívia; a Igreja distancia-se até da limpeza (– a primeira providência cristã após a expulsão dos mouros foi fechar os banhos públicos, dos quais havia 270 apenas em Córdoba). Também é cristã uma certa crueldade para consigo e para com os outros; o ódio aos incrédulos; o desejo de perseguir. Idéias sombrias e inquietantes ocupam o primeiro plano; os estados mentais mais estimados, portando os nomes mais respeitáveis, são epileptiformes; a dieta é determinada com o fim de engendrar sintomas mórbidos e supra-estimulação nervosa. Também é cristã toda a inimizade mortal aos senhores da terra, aos “aristocratas” – juntamente com uma rivalidade secreta contra eles (– resignam-se do “corpo” – querem apenas a “alma”...). É cristão todo o ódio contra o intelecto, o orgulho, a coragem, a liberdade, a libertinagem intelectual; o ódio aos sentidos, à alegria dos sentidos, à alegria em geral, é cristão...

(Friedrich Nietzsche - "O antiCristo")

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publicado às 20:29


Os hereges e a Inquisição

por Thynus, em 09.01.13

E já que os nobres não servem para nada, por que não se livrar deles? E para que servem os padres, que muitas vezes são bispos e condes ao mesmo tempo? Ninguém mais acredita na santidade deles, já que, sob as vistas de todos, cometem todo tipo de pecado.
E assim nasce a idéia de que os sacramentos, se administrados por pessoas indignas, não têm nenhum valor. "Ignorem o indigno exemplo deles", grita logo um teólogo "sigam o que dizem os ministros de Deus, não o que eles fazem".
No século X, começam a nascer em toda a Europa grupos de fiéis que pregam e aplicam a comunidade do bem, a fraternidade, e recusam a autoridade eclesiástica. Combatendo esses movimentos, as hierarquias eclesiásticas e nobres (que muitas vezes são a mesma coisa) se organizam para exterminar os habitantes de regiões inteiras, condenando os sobreviventes ao suplício público. No ápice dessa perseguição, muitas pessoas são torturadas e assassinadas de formas horrendas apenas por terem apoiado a tese de que Jesus e os apóstolos não possuíam riquezas ou bens materiais. O mero fato de ter uma Bíblia em casa já bastava para levantar as suspeitas de se ser um inimigo da Igreja. Se essa Bíblia ainda fosse traduzida para o latim vulgar, ou seja, uma língua entendida pelo povo, e não tivesse autorização, a condenação por heresia era certa.
Os cristãos comunitários queriam se inspirar no Evangelho, sem intermediários. E muitas, muitas vezes, pagaram por isso com a própria vida. Um martírio que enfraquece aquele dos primeiros cristãos sob o Império Romano.
Contra os hereges, em dado momento, chegou a ser inventado um instrumento repreensivo de perfeição diabólica: a Inquisição. Os inquisidores eram, ao mesmo tempo, policiais, carcereiros, acusadores e juízes. Qualquer besteira já era suficiente para acabar em suas garras: um boato, uma carta anônima, um comportamento ligeiramente diferente do normal. Até ser devoto demais era considerado comportamento duvidoso. O suspeito era considerado culpado se não conseguisse provar a própria inocência. E quem testemunhava em favor de um suposto herege podia, por sua vez, tornar-se suspeito e sofrer um processo. Na verdade, as perseguições aos hereges começam logo depois da criação da Igreja de Estado e terminam no século XVIII, com as últimas ondas de caça às bruxas. As histórias dos processos e das perseguições realizadas pela organização eclesiástica e pelo "Santo Tribunal" são tão absurdas e contraditórias que não nos permitem nenhuma análise verossímil. É impossível fazer um balanço confiável dessas guerras e perseguições, e decerto milhões de pessoas foram assassinadas em mais de mil anos de crueldade desumana.

(Jacopo Fo - "O livro negro do cristianismo")

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publicado às 18:12


Os riscos da arrogância do Império

por Thynus, em 05.01.13

Conto-me entre os que se entusiasmaram com a eleição de Barack Obama para Presidente dos EUA, especialmente vindo depois de George Bush Jr., Presidente belicoso, fundamentalista e de pouquíssimas luzes. Este acreditava na iminência do Armagedon bíblico e seguia à risca a ideologia do Destino Manifesto, um texto inventado pela vontade imperial norte-americana, para justificar a guerra contra o México, segundo o qual os EUA seriam o novo povo escolhido por Deus para levar ao mundo os direitos humanos, a liberdade e a democracia. Esta excepcionalidade se traduziu numa histórica arrogância que fazia os EUA se arrogarem o direito de levarem ao mudo inteiro, pela política ou pelas armas, o seu estilo de vida e sua visão de mundo.

Esperava que o novo Presidente não fosse mais refém desta nefasta e forjada eleição divina, pois anunciava em seu programa o multilateralismo e a não hegemonia. Mas tinha lá minhas desconfianças, pois atrás do Yes, we can (“sim, nós podemos”) podia se esconder a velha arrogância. Face à crise econômico-financeira apregoava que os EUA mostraram em sua história que podiam tudo e que iam superar a atual situação. Agora por ocasião do assassinato de Osama bin Laden ordenada por ele (num Estado de direito que separa os poderes, tem o Executivo o poder de mandar matar ou não cabe isso ao Judiciário que manda prender, julgar e punir?) caiu a máscara. Não teve como esconder a arrogância atávica.

O Presidente, de extração humilde, afrodescendente, nascido fora do Continente, primeiramente muçulmano e depois convertido evangélico, disse claramente: “O que aconteceu domingo envia uma mensagem a todo o mundo: quando dizemos que nunca vamos esquecer, estamos falando sério”. Em outras palavras: “Terroristas do mundo inteiro, nós vamos assassinar vocês”. Aqui está revelada, sem meias palavras, toda a arrogância e a atitude imperial de se sobrepor a toda ética.

Isso me faz lembrar uma frase de um teólogo que serviu por 12 anos como assessor da ex-Inquisição em Roma e que veio me prestar solidariedade por ocasião do processo doutrinário que lá sofri. Confessou-me: ”Aprenda da minha experiência: a ex-Inquisição, não esquece nada, não perdoa nada e cobra tudo; prepare-se”. Efetivamente assim foi o que senti. Pior ocorreu com um teólogo moralista, queridíssimo em toda a cristandade, o alemão, Bernhard Hâring, com câncer na garganta a ponto de quase não poder falar. Mesmo assim foi submetido a rigoroso interrogatório na sala escura daquela instância de terror psicológico por causa de algumas afirmações sobre sexualidade. Ao sair confessou: “o interrogatório foi pior do que aquele que sofri com a SS nazista durante a guerra”. O que significa: pouco importa a etiqueta, católico ou nazista, todo sistema autoritário e totalitário obedece à mesma lógica: cobra tudo, não esquece e não perdoa. Assim prometeu Barack Osama e se propõe levar avante o Estado terrorista, criado pelo seu antecessor, mantendo o Ato Patriótico que autoriza a suspensão de certos direitos e a prisão preventiva de suspeitos sem sequer avisar aos familiares, o que configura sequestro. Não sem razão escreveu Johan Galtung, norueguês, o homem da cultura da paz, criador de duas instituições de pesquisa da paz e inventor do método Transcend na mediação dos conflitos (uma espécie de política do ganha-ganha): tais atos aproximam os EUA ao Estado fascista.

O fato é que estamos diante de um Império. Ele é consequência lógica e necessária do presumido excepcionalismo. É um império singular, não baseado na ocupação territorial ou em colônias, mas nas 800 bases militares distribuídas pelo mundo todo, a maioria desnecessária para a segurança americana. Elas estão lá para meter medo e garantir a hegemonia no mundo. Nada disso foi desmontado pelo novo Imperador, nem fechou Guantánamo como prometeu e ainda mais, enviou outros trinta mil soldados ao Afeganistão para uma guerra de antemão perdida.

Podemos discordar da tese básica de Abraham P. Huntington em seu discutido livro O choque de civilizações. Mas nele há observações, dignas de nota, como esta: “a crença na superioridade da cultura ocidental é falsa, imoral e perigosa” (p.395). Mais ainda: “a intervenção ocidental provavelmente constitui a mais perigosa fonte de instabilidade e de um possível conflito global num mundo multicivilizacional” (p.397). Pois as condições para semelhante tragédia estão sendo criadas pelos EUA e pelos seus súcubos europeus.

Uma coisa é o povo norte-americano, bom, engenhoso, trabalhador e até ingênuo que admiramos, outra é o Governo imperial, que não respeita tratados internacionais que vão contra seus interesses e capaz de todo tipo de violência. Mas não há impérios eternos. Chegará o momento em que ele será um número a mais no cemitério dos impérios mortos.

(Leonardo Boff)

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publicado às 16:21


Deus e dignidade

por Thynus, em 20.12.12

O gesto daquele chefe índio do Brasil foi terrível. Levava consigo a Bíblia que entregou ao Papa João Paulo II, com estas palavras: "Fique com esse livro e faça com que os cristãos o cumpram. Quanto a nós, já sofremos - nós e os nossos antepassados - o suficiente por causa dele".
Desgraçadamente, aquele índio tinha razão. Tantos homens e mulheres que foram escravizados, humilhados, torturados, física, psíquica e espiritualmente, com base na Bíblia e noutros livros sagrados!... Até o apartheid foi defendido com a Bíblia na mão... E ainda se degola gente da forma mais bárbara, argumentando com o Corão, o livro sagrado dos muçulmanos...
Houve, e há ainda, homens e mulheres para quem teria sido preferível nunca ter ouvido falar em Deus, melhor: não ter tido contacto com certas formas de religião. De facto, a religião foi muitas vezes para muita gente causa de desgraça, de infelicidade, de tortura física e interior: pense-se no envenenamento da vida causado pelo pânico do inferno, pense-se na Inquisição, nas guerras de tipo religioso, na queima das bruxas, nos escrúpulos, nos traumas sexuais...
Mas, depois desta constatação, é preciso também proclamar bem alto: o Deus em nome do qual se humilhou gente, se torturou, se escravizou, não é Deus. É apenas um ídolo que os seres humanos criamos para satisfazer as nossas loucuras, afugentar os nossos medos e legitimar a nossa ânsia de dominação. Uma religião que conduz à menoridade mental, uma religião que escraviza, que faz andar de rastos, das duas uma: ou é uma religião falsa ou os crentes interpretam-
-na mal. A razão é simples: Deus tem de ser, pelo menos, melhor do que nós, seres humanos. Ora, um ser humano sadio não pode querer a menoridade de ninguém, não pode tolerar a humilhação, a injustiça, a escravatura, a indignidade...
Por isso, é preferível não acreditar em Deus a acreditar num deus que humilha o homem, o escraviza, o torna menor... Se o crente, pelo facto de sê-lo, se não sente mais humano, mais livre, mais digno, mais fraterno, com uma obrigação acrescentada de lutar por mais humanidade, por mais dignidade, por mais liberdade, por mais fraternidade, por mais alegria, só tem uma coisa a fazer, e o mais depressa possível: deixar de acreditar.
Nisto, os ateus, não os ateus vulgares, mas aqueles que sabem o que isso quer dizer, vêem por vezes mais claro que os próprios crentes. Ernst Bloch, por exemplo, viu bem, quando, aliás na linha de Hegel, escreveu que na religião autêntica se exprime a infinita dignidade de ser homem. Foi ele também que disse que até ele se inclinaria perante um cardeal ou bispo que dissesse e praticasse aquela palavra de Jesus, referente ao Juízo Final: aquilo que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim que o fizestes.

(Anselmo Borges - "Janela do (In)Visível")

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publicado às 19:05


A Inquisição e as mulheres

por Thynus, em 12.12.12

Os inquisidores, em toda parte, Brasil ou Europa, usavam um manual denominado Malíeus Maleficarum que fornecia ao interrogador todos os elementos para descobrir os sinais de bruxaria numa mulher, por mais dissimulados ou ínfimos que fossem. A idéia central do manual era a de que o mal está em toda parte, mas que é de dois tipos: natural (pestes, secas, inundações) e maléfico (decisão voluntária de destruir ou sabotar a ordem do mundo, decisão vinda do rival de Deus, o Diabo, o Maléfico ou Maligno).
As mulheres, sem exceção, são colocadas como mal maléfico porque, por natureza, são crédulas, faladoras, coléricas, vingativas, de vontade e memória fracas e insaciáveis, prestando-se a todas torpezas sexuais. Consideradas como desordem (isto é, como Natureza ainda não submetida à regra, à ordem e, portanto, à Cultura), todas as mulheres, sejam elas esposas, parteiras, bruxas, prostitutas ou freiras, são sempre descritas exclusivamente em termos sexuais (a bruxa dorme com o diabo e a freira, com Deus; a puta dorme com todos, a freira, só com Jesus — uma canção de Chico Buarque nos revela como essas imagens exclusivamente sexuadas das mulheres ainda permanecem no imaginário e no cotidiano brasileiro, de tal modo que o encontro matinal da puta, voltando do trabalho, com a freira, indo à missa, é uma espécie da síntese da imagem feminina brasileira para o olhar masculino).
A finalidade da confissão das acusadas, perante o Inquisidor, era a de ser transformada em peça fundamental da própria acusação, sobretudo como auto-acusação e como delação de todas as pessoas próximas envolvidas (muitas vezes, como se sabe, um processo inquisitorial era feito menos para condenar um acusado e mais para que ele, através da delação, apontasse alguém que, de fato, era a pessoa visada pela inquisição). Aceitando confessar-se, a acusada realizava a finalidade principal da Inquisição como instituição: reconhecia o tribunal e, portanto, reforçava o sistema.
Através das confissões, a historiadora nos mostra o quadro da repressão sexual dessas mulheres: a acusação de bigamia decorre da luta entre homens rivais e revela a estrutura do casamento como relação de força; a de sodomia, é meio para eliminar uma mulher indesejável e justificar a separação lícita sem que os espancamentos anteriores recebam punição e sem que o dote da esposa precise ser devolvido, perdendo ela também a dotação do marido (nessa acusação, a prova é obtida pela resposta afirmativa à pergunta: ”houve deleitação?”, isto é, prazer). Mas, de todas as acusações, é a confissão da feiticeira que melhor ilumina a situação sexual dessas mulheres. A acusação de feitiçaria é sempre sexual, pois a feiticeira é aquela que dorme com o diabo. Mas as confissões mostram as dificuldades matrimoniais das mulheres que procuravam solucioná-las pela magia, com poções e filtros, naesperança que os maridos lhes ”dessem a boa vida” e lhes tivessem ”amor e amizade”. A procura da feitiçaria revela a incapacidade da Igreja para ajudá-las.
Todavia, a preocupação da Igreja com as feiticeiras e a sodomia (homossexualidade feminina) se deve ao temor de que criassem um ”mundo feminino”, próprio, desvinculado do controle eclesiástico (mundo feito de solidariedade e sobretudo de profissionalização das mulheres). Reencontramos aqui algo semelhante ao que vimos quando a Igreja decidiu ensinar a ler às mulheres. O mesmo medo de perder o controle sobre elas.


(Marilena Chaui – “Repressão Sexual”)

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publicado às 08:01


Entre a batina e a aliança

por Thynus, em 05.12.12


Edlene Silva conta em livro a conturbada trajetória da abstenção sexual desde a Idade Média à criação do Movimento de Padres Casados


Entre a batina e a aliança existem milhares de homens de fé tentados pelo desejo. Só no Brasil, estima-se que pelo menos quatro mil padres deixaram a função sacra para casar e ter uma família. Pesquisa da Universidade de Brasília revela que a dificuldade de se mant
er casto diante do afloramento da sexualidade sempre existiu entre sacerdotes, desde a Idade Média. “A história mostra que celibato é uma prática insustentável”, afirma Edlene Silva.


A pesquisadora conta a conturbada trajetória do celibato, desde a sua criação pela igreja no século XII à recente fundação do Movimento de Padres Casados, na década de 1970, no livro Entre a Batina e a Aliança: Sexo, Celibato e Padres Casados. A publicação, fruto de uma tese de doutorado defendida em 2008, no Departamento de História, chega às mãos dos leitores às 18h desta quarta-feira, 30 de março, na livraria Sebinho, na Quadra Comercial 406, da Asa Norte.


A professora Edlene investigou a questão da abdicação do celibato entre sacerdotes. Para isso, ela investigou a institucionalização do Movimento de Padre Casados no Brasil, fundado em 1979 no Rio de Janeiro. “Na década de 1970, eram 30 casais. Hoje são milhares de padres em todo o país”, observa. “Busquei compreender como esse movimento se formou e quem são essas pessoas que vivenciam o conflito de largar a batina para se casar”, completa a professora.


Antes de chegar aos dias de hoje, a pesquisadora baiana buscou as raízes do celibato, que se tornou obrigatório para o clero latino no século XII. Ela encontrou evidências de que, desde a sua criação, a abstenção sexual de padres sempre esteve rodeada de conflitos, violência e dramas pessoais. “O concubinato (união entre casais não formalizada pelo casamento religioso) foi o crime mais cometido na igreja tanto na Idade Média como na Idade Moderna. Uma resposta a uma imposição”, conta.


A pesquisadora avalia a obrigatoriedade do celibato como uma demonstração de força e uma forma de diferenciar o clérigo das pessoas comuns. “Em meados do século XVI, com a Reforma Protestante, o celibato foi radicalizado e reforçado como uma resposta da igreja aos questionamentos de Lutero”, conta. “Foi nesse período de conflitos, em que a Inquisição perseguia fortemente o concubinato, que a igreja abriu os primeiros seminários para formação dos chamados homens santos”, observa.


O concubinato só veio a ser debatido publicamente pela igreja no início da década de 1960, com o Concílio Vaticano Segundo. Na época, a pressão social pelo desligamento de padres casados ilegalmente e ainda em atividade levou a instituição a autorizar a concessão de licença para os sacerdotes que desejassem abdicar da atividade como padre para se casar na igreja. “Houve uma debandada geral de padres em todo mundo, o que revelou um problema escondido pela repressão”, avalia.


CRISE – A perda de padres para o casamento levou o papa João Paulo II a endurecer a postura da igreja diante do concubinato. “Apesar de não proibir a prática, a igreja classificava os dissidentes como infelizes, imorais, infiéis e doentes”, relata Edlene. A postura rígida continuou após a morte de João Paulo II, em 2005, e permanece até os dias de hoje na figura do papa Bento XVI. “Ele é um dos mais duros em relação ao celibato”, afirma. “Entraves para a concessão da licença, que chega a levar 15 anos para sair, e críticas ao sexo mesmo no casamento são comuns no Vaticano”.


E é nesse contexto de crise que o Movimento dos Padres Casados do Brasil se encontra. “A história desses homens revela a necessidade de se debater um tema que ainda é visto como tabu e, sob o meu ponto de vista, mostra-se insustentável”, afirma Edlene. Segundo ela, apesar de largar a batina para se casar, a grande maioria deles ainda se considera padre. “O casamento não desfaz os vínculos com a igreja e com a fé”, conta ela, que chegou a encontrar padres que rezavam missas clandestinamente.


Pela falta de material de pesquisa sobre o assunto, Edlene buscou informações em registros encontrados em jornais, revistas, internet e em entrevistas com líderes do movimento. “É um tema muito pouco pesquisado, mas creio que o livro permite ao leitor fazer seu julgamento sobre o olhar que lancei sobre a história”, avalia ela.

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publicado às 14:20

Não creio que a verdadeira razão pela qual as pessoas aceitam a religião tenha algoque ver com argumentação. Aceitam a religião por motivos emocionais. Dizem-nos com freqüência que é muito errado atacar-se a religião, pois que a religião torna os homens virtuosos. Isso é o que me dizem; eu jamais o percebi. Conheceis, por certo, a paródia desse argumento, tal como é apresentado no livro Erewhom Revisited, de Samuel Butler. Vós vos lembrais de que, em Erewhom, há um certo Higgs que chega a um país remoto e que, após passar lá algum tempo, foge do país num balão. Vinte anos depois, volta ao mesmo país e encontra uma nova religião, na qual é ele adorado sob o nome de “Filho do Sol”, e na qual se afirma que ele subiu ao céu. Verifica que a Festa da Ascensão está prestes a ser celebrada, e ouve os Professores Hanky e Panky dizerem entre si que jamais puseram os olhos no tal Higgs e que esperam não o fazer jamais – mas eles são altos sacerdotes da religião do Filho do Sol. Higgs sente-se muito indignado e, aproximando-se deles, diz-lhes: “Vou desmascarar todo este embuste e dizer ao povo de Erewhom que se tratava apenas de mim, Higgs, e que subi num balão”. Responderam-lhe: “Não deve fazer isso, pois toda a moral deste país gira em torno desse mito e, se souberem que você não subiu aos céus, todos os seus habitantes se tornarão maus”. Persuadido disso, Higgs afasta-se do país silenciosamente.

Eis aí a idéia – a de que todos nós seríamos maus se não nos apegássemos à religião cristã. Parece-me que as pessoas que se apegaram a ela foram, em sua maioria, extremamente más. Tendes este fato curioso: quanto mais intensa a religião em qualquer época, e quanto mais profunda a crença dogmática, tanto maior a crueldade e tanto pior o estado das coisas. Nas chamadas Idades da Fé, quando os homens realmente acreditavam na religião cristã em toda a sua inteireza, houve a Inquisição, com as suas torturas; houve milhares de infelizes queimadas como feiticeiras – e houve toda a espécie de crueldade praticada sobre toda a espécie de gente em nome da religião. Constatareis, se lançardes um olhar pelo mundo, que cada pequenino progresso verificado nos sentimentos humanos, cada melhoria no direito penal, cada passo no sentido da diminuição da guerra, cada passo no sentido de um melhor tratamento das raças de cor, e que toda diminuição da escravidão, todo o progresso moral havido no mundo, foram coisas combatidas sistematicamente pelas Igrejas estabelecidas do mundo. Digo, com toda convicção, que a religião cristã, tal como se acha organizada em suas Igrejas, foi e ainda é a principal inimiga do progresso no mundo.

(Bertrand Russel, in "Porque não sou cristão")

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publicado às 13:59


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