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A pavorosa ilusão

por Thynus, em 07.03.13

Pavorosa ilusão da eternidade,
Terror dos vivos, cárcere dos mortos,
D'almas vãs sonho vão, chamado inferno;
Sistema da política opressora,
Freio, que a mão dos déspotas, dos bonzos
Forjou para a boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arraigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas;
Dogma funesto, detestável crença
Que envenenas delicias inocentes,
Tais como aquelas que no céu se fingem.
Fúrias, cerastes, dragos, centimanos,
Perpetua escuridão, perpetua chama;
Incompatíveis produções do engano,
Do sempiterno horror terrível quadro
(Só terrível aos olhos da ignorância)
Não, não me assombram tuas negras cores:
Dos homens o pincel e a mão conheço.
Trema de ouvir sacrílego ameaço
Quem de um Deus, quando quer, faz um tirano.
Trema a superstição; lagrimas, preces,
Votos, suspiros, arquejando espalhe;
Cosa as faces co'a terra, os peitos fira:
Vergonhosa piedade, inútil vénia.
Espere ás plantas do impostor sagrado,
Q'ora os infernos abre, ora os ferrolha;
Que as leis e propensões da natureza
Eternas, imutáveis, necessárias,
Chama espantosos, voluntários crimes;
Que as ávidas paixões, que em si fomenta,
Aborrece nos mais, nos mais fulmina;
Que molesto jejum, roaz cilicio
Com despótica voz á carne arbítra;
E nos ares traçando a fútil benção,
Vai do gran'tribunal desenfadar-se
Em sórdido prazer, venais delícias,
Escândalo de amor, que dá, não vende.
Ó Deus! não opressor, não vingativo,
Não vibrando c'o a dextra o raio ardente
Contra o suave instinto que nos deste;
Não carrancudo, ríspido arrojando
Sobre os mortais a ríspida sentença;
A punição cruel, que excede o crime,
Até na opinião do cego escravo,
Que te ama, que te incensa, e crê que és duro:
Monstros de vis paixões, danados peitos,
Pungidos pelo sôfrego interesse,
Alto, impassível numen, te atribuem
A cólera, a vingança, os vícios todos;
Negros enxames, que lhe fervem n'alma.
Quer sanhudo ministro dos altares
Dourar o horror de barbaras cruezas;
Cobrir de véu compacto e venerando,
Atroz satisfação d’antigos ódios,
Que a mira põem no estrago da inocência:
Ou quer manter aspérrimo domínio,
Que os vaivéns da razão franqueia e nutre.
Ei-lo em santo furor todo abrasado,
Hirto o cabelo, os olhos cor de fogo,
A maldição na bôcca, o fel na espuma;
Ei-lo cheio de um Deus tão mau como ele;
Ei-lo citando os hórridos exemplos,
Em que aterrada observa a fantasia
Um Deus o algoz, a vítima o seu povo.
No sobrolho o pavor, nas mãos a morte,
Envolto em nuvens, em trovões, em raios,
D'Israel o tirano omnipotente
Lá brama do Sinai, lá treme a terra.
O torvo executor dos seus decretos,
Hipócrita feroz, Moisés astuto
Ouve o terrivel Deus, que assim troveja:
“Vai, ministro fiel dos meus furores,
Corre, voa a vingar-me, e seja a raiva
D'esfaimados leões menor que a tua.
Meu poder, minhas forças te confio;
Minha tocha invisível te precede;
Dos ímpios, dos ingratos, que me ofendem
Na rebelde cerviz o ferro ensopa.
Extermina, destroe, reduz a cinzas
Dam a frágeis metais, a deuses surdos.
Sepulta as minhas vítimas no inferno;
E treme se a vingança me retardas.”
Não lha retarda o rábido profeta.
Já corre, já vozeia, já difunde
Pelos brutos atónitos sequazes
A peste do implacável fanatismo.
Armam-se, investem, rugem, ferem, matam.
Que sanha, que furor, que atrocidade!
Foge dos corações a natureza.
Os consortes, os pais, as mães, os filhos,
Em honra do seu Deus consagram, tingem
Abominosas mãos no parricídio.
Os campos de cadáveres se alastram;
Sussurra pela terra o sangue em rios.
Ah! barbaro impostor, monstro sedento
De crimes, de ais, de lagrimas, d'estragos,
Serena o frenesi, reprime as garras,
E a torrente de horrores que derramas
Para fundar o império dos tiranos,
Para deixar-lhe o feio e duro exemplo
D'opprimir seus iguais com férreo jugo.
Não profanes, sacrílego, não manches
Da eterna divindade o nome augusto.
Esse, de quem te ostentas tão valido,
He Deus, do teu furor, Deus do teu génio;
Deus criado por ti, Deus necessário
Aos tiranos da terra, aos que te imitam,
E àqueles que não crêem que Deus existe.
Neste quadro fatal bem vês, Marilia,
Que, em tenebrosos séculos envolta,
Desde aqueles cruéis, nefandos tempos,
Dolosa tradição correu aos nossos.
Do coração, da ideia, ah! desarraiga
De astutos mestres a falaz doutrina,
E de crédulos pais preocupados
As quimeras, visões, fantasmas, sonhos.
Ha Deus; mas Deus de paz, Deus de piedade,
Deus de amor, pai dos homens, não flagelo;
Deus, que ás nossas paixões deu ser, deu fogo;
Que só não leva a bem o abuso delas;
Porque á nossa existência não se ajusta,
Porque inda encurta mais a curta vida.
Amor é lei do Eterno, é lei suave:
As mais são invenções; são quase todas
Contrarias á razão e á natureza,
Próprias ao bem de alguns, e ao mal de muitos.
Natureza e razão jamais diferem:
Natureza e razão movem, conduzem
A dar socorro ao pálido indigente,
A pôr limite ás lagrimas do aflito,
E a remir a inocência consternada,
Quando nos débeis, magoados pulsos
Lhe roxeia o vergão de vis algemas.
Natureza e razão jamais aprovam
O abuso das paixões, aquela insânia
Que, pondo os homens a nível dos brutos,
Os infama, os deslustra, os desacorda.
Quando a nossos iguais, quando uns aos outros
Traçamos fero dano, injustos males,
Em nossos corações, em nossas mentes
És, ó remorso! o precursor do crime;
O castigo nos dás antes da culpa,
Que só na execução do crime existe;
Pois não pode evitar-se o pensamento.
He inocente a mão que se arrepende.
Não vêem só dum principio acções opostas,
Tais dimanam de um Deus, e tais do exemplo,
Ou do cego furor, moléstia d'alma.
Crê pois, meu doce bem, meu doce encanto
Que te anseiam fantásticos terrores,
Pregados pelo ardil, pelo interesse
Só de infestos mortais na voz, n'astúcia.
A bem da tirania está o inferno:
Esse que pintam báratro de angústias
Sería o galardão, sería o fruto
Das suas vexações, dos seus embustes,
E não pena de amor, se inferno houvesse.
Escuta o coração, Marilia bela,
Escuta o coração, que te não mente;
Mil vezes te dirá; “Se a rigorosa,
Carrancuda opressão de um pai severo
Te não deixa chegar ao caro amante
Pelo perpetuo nó que chamam sacro,
Que o bonzo enganador teceu na ideia,
Para também de amor dar leis ao mundo;
Se obter não podes a união solene,
Que alucina os mortais; porque te esquivas
Da natural prisão, do terno laço
Que em lagrimas, em ais te estou pedindo?
Reclama o teu poder e os teus direitos
De justiça despótica extorquidos.
Não chega aos corações o jus paterno,
Se a chama da ternura os afogueia.
Eia pois, do temor sacode o jugo,
Acanhada donzela, e no teu pejo,
Destra iludindo as vigilantes guardas,
Pelas sombras da noite, a amor propicias,
Demanda os braços do ansioso Elmano;
Ao risonho prazer franqueia os lares.
Consista o laço na união das almas;
Do ditoso himeneu as venerandas,
Caladas trevas testemunhas sejam;
Seja ministro amor, a terra o templo,
Pois que o templo do Eterno é toda a terra.
Entrega-te depois aos teus transportes,
Os opressos desejos desafoga,
Mata o pejo importuno; incita, incita
O que só de prazer merece o nome.
Verás como, envolvendo-se as vontades,
Gostos iguais se dam e se recebem.
Do jubilo há-de a força amortecer-te;
Do jubilo há-de a força aviventar-te:
Sentirás suspirar, morrer o amante;
Com os teus confundir os seus suspiros:
Hás-de morrer e reviver com ele.
De tão alta ventura, ah! não te prives,
Ah! não prives, insana, a quem te adora.”
Eis o que hás-de escutar-lhe, ó doce amada!
Se á voz do coração não fores surda.
De tuas perfeições enfeitiçado,
Ás preces que te envia eu uno as minhas.
Ah! faze-me ditoso, e sê ditosa.
Amar é um dever além de um gosto;
Uma necessidade, não um crime
Qual a impostura horríssona pregoa.
Céus não existem, não existe inferno.
O prémio da virtude é a virtude;
He castigo do vicio o próprio vício.

(M. M. B. DU BOCAGE)

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publicado às 18:14


Ouça um bom conselho...

por Thynus, em 23.02.13

Uma das formas mais comuns e contraditórias de se buscar transmitir experiência e proferir conselhos conclusivos a partir de uma vivência presumidamente autorizada e consistente é aquela expressa nas máximas e aforismos. Todos, desde pequenos, ouvimos dos mais idosos do que nós, independentemente da faixa etária, muitos provérbios e sentenças presentes nas fábulas, nos livros religiosos ou, até, nos pára-choques de caminhões; passamos a vida em contato com ditados e definições. Que carregam um conceito moral ou de conduta e cuja finalidade central, ao serem expressos, é ensinar ou advertir, seja pela sabedoria acumulada ou, especialmente, pela carga de repreensão e impacto contidos.
Há uma forte suposição por trás do ensinamento ou admoestação apoiados nas máximas: a eficácia da transmissão de uma experiência alheia já testada, degustada c corroborada, estando, assim, próxima do indiscutível; caberia ao presenteado com o conselho proverbial apenas aquiescer e seguir obsequiosamente, louvando a sabedoria milenar à qual foi apresentado e salvo de ter de dolorosamente provar por si mesmo.
Para evitar um dogmatismo que, muitas vezes, cumpre uma função doutrinadora e indutora de fragilidade mental, é preciso ir colocando incômodos pontos de interrogação ao final de muitas das máximas. De fato, quem espera sempre alcança? A pressa é inimiga da perfeição? A vingança tarda, mas não falha? Cada um sabe onde aperta o sapato? Deus ajuda quem cedo madruga? O silêncio é de ouro? Quem não deve não teme? Vaso ruim nunca quebra? Cão que ladra não morde? Tal pai, tal filho? Quem viver verá? O hábito faz o monge? Quem parte e reparte fica com a melhor parte? Perdido por um, perdido por cem? Duvidemos um pouco...
Impossível transferir experiências! Daí, inclusive, a fraqueza contida nas boas intenções das frases que se iniciam com um "eu, se fosse você...", ou "olha, no seu lugar eu faria..." ou, ainda, "se eu estivesse na sua situação"... E por isso que o dramaturgo espanhol Jacinto Benavente — não por acaso um especial usuário das idéias de Freud no teatro e na literatura da Espanha das décadas iniciais do século 20 — foi tão enfático ao dizer que "ninguém aprende a viver pela experiência alheia; a vida seria ainda mais triste se, ao começarmos a viver, já soubéssemos que viveríamos apenas para renovar a dor dos que viveram antes".
Ademais, o mundo dos provérbios na literatura foi majoritariamente um domínio masculino, na convicção de que tais verdades são fruto de uma reflexão e vivência sobre as quais as mulheres teriam um alcance limitado. Se "lugar de mulher é na cozinha" e "cada macaco no seu galho", a produção de máximas ou sentenças foi quase sempre privilégio de escritores ou políticos; raríssimas foram as mulheres que se arvoraram a adentrar em um terreno que se supôs fora das fronteiras da vacuidade ou indigência cruelmente atribuídas à mente feminina.
Uma das raras audaciosas a publicar um livro com aforismos foi a austríaca Marie Von Ebner-Eschenbac, pertencente à nobreza do século 19 (e, por isso, com obras de cunho social censuradas pelo governo do Imperador Francisco José). Essa mulher, a primeira na história a receber um doutorado "honoris causa" da Universidade de Viena, em 1900, teve reconhecida sua capacidade em um ambiente homocêntrico e não perdeu a chance de dizer que "ter experimentado muitas coisas ainda não quer dizer que se tem experiência".
Alguns, em nome da profusão de coisas sofregamente vividas, são reféns de muitas e exageradas certezas! Mais vale um pássaro na mão do que dois voando? Melhor ficar livre, leve e solto com o iluminado Mário Quintana que no seu Poeminha do contra ensinou: "Todos esses que aí estão / atravancando meu caminho, / eles passarão.../ eu passarinho!"

(Mario Sergio Cortella - "Não espere pelo epitáfio")

 

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publicado às 15:18


Religare

por Thynus, em 09.02.13

 Em entrevista a um popular programa de TV, Zeca Pagodinho, um prestigiado músico brasileiro disse ao entrevistador que o dinheiro o distanciou da igreja e que ele sentia falta, mas ao mesmo tempo percebia que o que lhe aproximava anteriormente da religião eram as dificuldades do dia a dia.
Com acesso a serviços sociais de qualidade e condições financeiras seguras, as pessoas dos países mais desenvolvidos por passarem menos dificuldades tendem a sofrer menos, logo, recorrem menos às religiões. Em épocas de crise, no entanto, esse quadro tende a se reverter, países como Espanha e Grécia abalados pela crise financeira mundial já apresentam uma alta no número de fiéis. Tal qual sugeriu o cantor brasileiro no programa de TV as dificuldades levam as pessoas a procurar amparo no lado espiritual.
Em geral, as religiões ajudam os fiéis a lidar com a pobreza, oferecem esperança, satisfação emocional e significado, compensações para os sofrimentos e insuficiências desta vida no outro mundo, seja o paraíso ou outra vida na Terra.
É da natureza humana buscar algo que avalize o viver em meio às crises. As religiões há milhares de anos tem se beneficiado dessa busca do ser humano e provavelmente se beneficiarão ainda mais. Num mundo com menos empregos, crises de identidade, de trabalho e de falta de alimentos as crises virão a colaborar com o aumento das pessoas em busca de significados para suas vidas.
A paz de espírito advinda das religiões me parece uma colaboração necessária para atravessarmos as crises que porventura vierem da reconfiguração de um mundo com menos empregos.
No entanto, a adoção de uma religião por si só não garantirá uma transição igualitária, de uma sociedade pautada na dependência do dinheiro para uma sociedade colaborativa.
Tal transição não passa necessariamente por esta ou aquela religião, mas encontra no sentido etimológico da palavra religião uma inspiração como explica o escritor e mestre das graphic novels Alan Moore: “A palavra religião não tem nada a ver com espiritualidade, mas com união, ligação em torno de algo. Nesse sentido, o Marxismo é uma religião. As várias escolas da Física também o são. O problema é que as religiões, no sentido que conhecemos a palavra hoje, criam dogmas, que são limitações ao pensamento – e isso nunca é uma coisa boa.”
Na linha do pensamento de Moore podemos considerar a reunião de um grupo de pessoas em torno de um assunto ou objetivo comum, uma religião. Assim os manifestantes do Occupy Wall Street são uma igreja, a galera do churrascão da gente diferenciada são outra igreja. Ambas compartilham a mesma crença “a do saco cheio de ralar para sobreviver enquanto os mais ricos se tornam cada vez mais ricos”, com a vantagem de não terem dogmas, de buscarem assim como os satisfeitos cidadãos escandinavos apenas a igualdade e a liberdade de expressão. Por isso os fiéis dessas neoigrejas querem mudanças. Os jovens desses movimentos em sintonia com a origem latina da palavra religião – religare – querem religar-se.
O atual modelo da sociedade pautado pelos valores capitalistas e interesses econômicos com uma crise aguda de empregos será posto em cheque. Substituir esse modelo por um mais democrático focado no bem comum ante ao capital, focado no já batido, mas fundamental “ser” ao “ter”, pode ser a religião do século XXI. Devemos nos religar para darmos inicio a uma nova sociedade.

(Gilmar R. Silva - "Sem trabalho, como sobreviver num mundo sem empregos")

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publicado às 08:43


A regenadora sabedoria do Graal

por Thynus, em 11.01.13
"Sereis como Deus!"

(...) É necessário que o homem se una com sua metade feminina (sua anima) ou alcance um equilíbrio com ela, e a mulher igualmente com sua metade masculina (seu animus). Esse equilíbrio é importante por muitas razões, pois sem ele um dos opostos - geralmente o masculino - tentará dominar o outro.
Em um passado não demasiado distante, o macho de nossa espécie achou necessário subjugar a fêmea e suprimir - ou pelo menos controlar - a energia dela, que ele via como extremamente poderosa. Como todos os seres humanos nascem de uma mulher, o homem acreditou que ela possuía os segredos do sexo, da vida e da morte, os quais ele queria não apenas compreender, mas também controlar. A ascensão ao poder de religiões com orientação machista deveu-se, em parte, ao desejo de controlar as emoções humanas relacionadas ao feminino. Contudo, depois de anos sendo governados por religiões dominadas por homens, os povos se sentiram sufocados pelas instituições dogmáticas que eles mesmos haviam criado. Começaram então a procurar fora das religiões, e dentro do ambiente físico, as respostas para as questões fundamentais sobre a natureza da existência humana. Isso levou à chamada Idade da Razão e à instituição da ciência.
Ironicamente, nossas observações dos fenômenos físicos revelaram que esses mesmos opostos relacionados aos gêneros também se manifestam tanto no nível macrocósmico quanto no nível microcósmico da realidade.
Além de a realidade ser "dual por natureza", nossa percepção sobre ela também é dualística. E visto que nossa mente está dividida em duas, jamais seremos capazes de compreender a verdadeira natureza de nossa existência - haverá sempre problemas a serem superados e paradoxos a serem resolvidos. Contudo, ao unir esses dois opostos, atingimos a regeneradora sabedoria do Graal e renascemos com uma perspectiva totalmente nova.

(Philip Gardiner - "O Graal da Serpente")

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publicado às 13:04

Reconhecemos que alguma coisa é um mito quando nela não mais acreditamos, quando as retaguardas do mundo da vida não mais fornecem alimento suficiente ao nosso pensamento.
Blumenberg é um adversário da “secularização”. Não acredita, no caso, que o pensamento moderno esteja em relação de continuidade com o medieval, no sentido que as idéias “laicas” elaboradas no seu âmbito sejam uma tradução ou uma adaptação de dogmas teológicos ou metafísicos precedentes. O “homem copernicano” introduziu no seu mundo novidades inauditas e, interrompendo as ligações com a tradição, deixou realmente o passado livre para passar, abrindo o “novo tempo”, Neuzeit, ou seja, a modernidade. Para Gadamer, ao contrário, nunca podemos nos livrar da tradição. A consciência do indivíduo não constitui, com efeito, um centro auto-suficiente, isolado com relação à realidade da história que o circunda: faz parte do mundo, com o qual se comunica por meio da linguagem. Interpretamos os acontecimentos somente no interior do horizonte determinado pela nosso pertencimento a uma tradição, aos seus específicos – e antes inexplicáveis – pressupostos. O nosso entendimento não é, portanto, nunca logicamente puro, neutro, incondicionado. Tal como para o último Wittgenstein, também para Gadamer é ilusório imaginar que a nossa alma é como uma tabula rasa livre de condicionamentos ou de certezas pregressas: “Quem quisesse duvidar de tudo, não chegaria nem mesmo a duvidar. O próprio jogo de duvidar pressupõe já a certeza [...]. A criança aprende, porque acredita nos adultos. A dúvida vem depois da crença”. Compreende-se alguma coisa somente porque dispomos já da sua “pré-compreensão” , ou seja, de uma idéia acolhida que nos aponta e orienta, pelo menos até quando não somos levados a procurar ulteriormente, a aprofundar essa noção não refletida porque, entrementes, tornou-se problemática e insatisfatória. O “círculo hermenêutico” mostra justamente como opera tal pré-compreensão do todo, enquanto antecipação provisória do articulado conhecimento das partes, o qual – uma vez ocorrido – modificará a imagem do conjunto, num processo recorrente e nunca acabado de sucessivas retificações e aberturas.
A historicidade significa, em primeiro lugar, que toda pré-compreensão é um preconceito e, generalizando, que a tradição é uma rede de preconceitos. Mas “pré-juízo” não equivale a juízo falso, a algo de intrinsecamente negativo: sempre se julga, e necessariamente, de um ponto de vista próprio limitado, antes ainda de ter compreendido mais a fundo uma questão. Ninguém é isento de pré-juízos: “Quem pensa estar seguro da própria liberdade dos preconceitos fundando-se na objetividade do método e negando o próprio condicionamento histórico sofre, depois, a força dos pré-juízos que o dominam de modo inconsciente e incontrolável, como um vis a tergo. Quem não quer reconhecer os juízos que o determinam, não saberá ver nem mesmo as coisas que à luz destes aparecem”.
Na procura de vítreas transparências, o Iluminismo desacreditou a idéia de pré-juízo, declarando-lhe guerra: “Assim fazendo, ele realizou também uma espécie de liberação, uma emancipação do espírito. Se, porém, daí se retira a conclusão de que é possível tornar-se transparente a si mesmo, soberano no próprio pensar e agir, então erramos. Ninguém conhece a si mesmo. Trazemos impresso conosco desde sempre um traço, e ninguém é uma folha em branco”.
Todos nós somos indelevelmente marcados pelo que herdamos e pelo que absorvemos da tradição. Mesmo querendo, não podemos, portanto, nos depurar dos nossos prejuízos e dos pré-condicionamentos históricos, não podemos apagar o que a história escreveu sobre a “folha” da nossa vida: podemos somente reescrevê-la, reelaborá-la incessantemente. Não atingiríamos de fato, no caso da eventual evaporação dos prejuízos, verdades eternas: alcançaríamos, pelo contrário, o puro vazio mental. Eliminados os traços, desaparecidas as impressões da tradição, não sobra nada. O importante é não permanecer ligado obstinadamente ou presunçosamente aos prejuízos: “O discurso não é um puro e simples desembuchar dos nossos prejuízos, mas põe-os em jogo, expõe-os às nossas dúvidas, como à réplica do outro [...]. A simples presença do outro que aparece à nossa frente ajuda, antes ainda que este tome a palavra para replicar, a descobrir os nossos prejuízos e a nossa parcialidade, a nos desfazer deles”.
Existem além disso “prejuízos legítimos”, que deveriam ser reivindicados, como os relativos à “autoridade” ou à “tradição”. Entre razão e tradição, sobretudo, não existe, em absoluto, a inimizade que o Iluminismo quer nos fazer crer, dado que identifica a tradição com a cega submissão a autoridades indemonstráveis e arbitrárias: “Mesmo a mais autêntica e sólida das tradições não se desenvolve naturalmente em virtude da força de persistência do que uma vez ocorreu, mas tem necessidade de ser aceita, de ser adotada e cultivada. Ela é essencialmente conservação, aquela mesma conservação que opera ao lado e dentro de toda mudança histórica [...] Até mesmo onde a vida se modifica de maneira tempestuosa, como nas épocas de revolução, na pretensa mudança de todas as coisas, conserva-se do passado muito mais do que se imagina, e solda-se junto ao novo, adquirindo uma validade renovada”.
Mais do que libertar-nos da tradição considerada como um peso, é preciso redescobrir sua riqueza íntima, pelo fato de nunca ser nem unívoca nem fechada: “O que preenche a nossa consciência histórica é sempre uma multiplicidade de vozes, nas quais ressoa o passado. Somente na multiplicidade de tais vozes o passado existe: isso constitui a essência da tradição da qual somos e queremos nos tornar partícipes”.
Sentir a nós mesmos como pertencentes a uma história implica o reconhecimento de outras histórias e de outras pessoas, deixar que vozes diversas e discordantes contraponham-se no interior de cada um de nós e assim o delimitem. Somente compreendendo a alteridade em nós mesmos, colocando-nos à prova, estamos em condições de alargar o nosso horizonte e, vice-versa, de nos definir e individualizar. Com efeito, justamente porque o nosso horizonte é circunscrito, ele pode, a seguir, ser estendido. Compreender significa provocar uma “fusão de horizontes”, justamente porque a verdade não é monológica, mas dialógica, porque não desvela algo que preexiste, mas o resultado do entender e do interpretar em comum. Numa ótica similar, a história e a arte geram conhecimentos validíssimos, apesar de privados da rigidez do método científico. Mais próximas do “jogo” (cujas regras se impõem aos participantes sem, por isso, inibir sua capacidade de inovar dentro de contextos dados), ambas permitem compreender o mundo como reelaboração descontínua de vividos na qual insere-se ativamente a própria atividade, considerando-se parte de uma mais geral Wirkungsgeschichte, de uma “história dos efeitos” que não diz respeito a fatos nus, mas a acontecimentos já interpretados por outros, objetos impregnados de subjetividades e subjetividades mediadas por objetividade.

(Remo Boderi - "A filosofia do século XX")

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publicado às 17:46

"Havia em Bokhara um homem rico e generoso. Porque tinha uma alta posição na hierarquia invisível, era conhecido como o Presidente do Mundo.
Cada dia ele distribuía ouro a uma categoria de pessoas — os doentes, as viúvas, e assim por diante. Mas nada era dado àquele que abrisse a boca.
Nem todos podiam guardar silêncio.
Um dia era a vez dos advogados receberem sua parte da subvenção. Um deles não se conteve e fez o pedido mais completo possível. Nada lhe foi concedido.
Mas esse não foi o fim dos seus esforços. No dia seguinte, os inválidos estavam sendo ajudados, assim ele fingiu que suas pernas haviam se quebrado.
Mas o Presidente o conhecia e ele nada obteve. Tentou outra e outra vez, até mesmo disfarçando-se de mulher, mas sem resultado.
Finalmente, o advogado encontrou um coveiro e lhe pediu que o embrulhasse numa mortalha. "Quando o Presidente passar", disse o advogado, "talvez ele presuma que seja um cadáver e jogue algum dinheiro para o meu funeral — e eu lhe darei uma parte".
E assim foi feito. Uma peça de ouro caiu da mão do Presidente sobre a mortalha. O advogado a apanhou logo, com medo de que o coveiro a pegasse primeiro.
Então ele disse ao seu benfeitor: "Você me negou sua subvenção — veja como a consegui!".
"Você nada pode obter de mim", replicou o homem generoso, "antes que você morra".
Este é o significado da frase enigmática: "O homem precisa morrer antes que morra". O prêmio vem depois desta "morte", e não antes. E mesmo esta "morte" não é possível sem ajuda.



HÁ religiões e religiões, mas o Sufismo é religião — o próprio coração, a essência mais profunda, a própria alma.
O Sufismo não é parte do islamismo; ao contrário, o islamismo é parte do Sufismo. O Sufismo existia antes de Maomé ter nascido e existirá mesmo quando Maomé estiver completamente esquecido.
Os islamismos vêm e vão, as religiões tomam forma e se dissolvem, e o Sufismo permanece, continua, pois não é um dogma, mas a própria essência de ser religioso.
Você pode não ter ouvido falar do Sufismo e pode ser um Sufi — se for religioso. Krishna é um Sufi e Cristo também; Mahavira é um Sufi e Buda também — e eles jamais ouviram falar da palavra e jamais souberam que algo como o Sufismo existe.
Quando uma religião está viva, é porque o Sufismo está vivo nela.
Quando uma religião está morta, isso apenas mostra que o espírito, o espírito Sufi, a deixou. Agora existe apenas um cadáver, não importa o quão decorado — na filosofia, na metafísica, nos dogmas, nas doutrinas —, mas sempre que o Sufismo a abandona, a religião cheira a morte. Isto aconteceu muitas vezes, e está acontecendo em quase todo o mundo. E preciso que se tenha consciência disso, de outro modo você pode se apegar a um cadáver.
Agora o cristianismo não tem Sufismo. Ele é uma religião morta — a igreja a matou. Quando a "igreja" se torna demasiada, o Sufismo precisa abandonar aquele corpo. Ele não pode existir com dogmas.
Ele pode viver bem com uma alma dançante, mas não com dogmas; não pode existir com teologias, elas não são boas companheiras; e com papas e sacerdotes, é impossível o Sufismo existir. Ele é justamente o contrário! O Sufismo não necessita de papas ou pregadores, não precisa de dogmas; ele não é da cabeça, e pertence ao coração. O coração é a Igreja, não uma igreja organizada, porque toda organização é da mente. E uma vez que a mente tome posse, o coração precisará simplesmente abandonar a casa de vez. A casa fica estreita demais para o coração. Ele precisa da totalidade do céu, nada menos que isso lhe servirá.
O coração não pode ser confinado nas igrejas; a existência toda é a única igreja para ele. Ele só pode vibrar sob o céu, na liberdade, mas morre quando tudo se torna um sistema, um padrão organizado, um ritual — o estado de Sufismo simplesmente desaparece ali."

(In "Antes Que Você Morra", Osho)

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publicado às 09:17

"Depois do Inverno, morte figurada,

A primavera, uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e cores "
(Miguel Torga).

VIDA É RESSURREIÇÃO CONSTANTE!
Muita gente pensa que a Páscoa da Ressurreição é "monopólio" exlusivo dos cristãos, mas a Páscoa é de todos, é universal. Que não nos convertamos em coveiros da Ressurreição: "O cristianismo matou Jesus. Os judeus não o conseguiram; eles o crucificaram, naturalmente, mas falharam, não puderam matá-lo. Ele sobreviveu à crucificação, e este é o significado da ressurreição — não que Jesus tenha sobrevivido fisicamente, mas que a crucificação provou ter sido inútil. Os judeus não puderam destruí-lo; eles tentaram, mas ele sobreviveu. Onde os judeus falharam, os cristãos foram bem-sucedidos, mataram-no sem qualquer crucificação. Eles o mataram através da oração, do dogma, da organização. Os seguidores e apóstolos conseguiram êxito onde os inimigos falharam" (Osho). De facto, a Ressurreição não pertence ao domínio da razão ou das religiões; pertence ao domínio da fé, e, mais do que isso, é uma pendência do coração: essa capacidade de emocionar-se e extasiar-se perante o mistério da vida que se renova continuamente e nos interpela. Não são, pois, os dogmas ou definições os aferidores da Ressurreição, mas sim o coração! Por isso, a Ressurreição é património de todos os homens e mulheres (cristãos e não-cristãos, crentes e ateus) que acreditam na vitória da Vida sobre a morte. É imperioso que nos libertemos de dogmatismos impostos pelas igrejas apenas com o ojectivo de preservar o seu poder: "A letra mata, mas o Espírito dá Vida!" (2Cor.3,6)
Podemos acreditar, negar ou duvidar da Ressurreição de Jesus; mas o arrebatamento vital da natureza que viceja com exuberância e se abre para o Sol da Primavera é uma realidade inquestionável e um apelo de Ressurreição. "A vida é constantemente uma ressurreição. A cada momento ela morre, a cada momento nasce de novo... Você não pode se encontrar, a não ser que se perca. E não pode renascer (ressuscitar), a não ser que morra" (Osho).

Enquanto o Natal, também ele uma celebração de origem pagã (Dies Natalis Solis Invicti), é celebrado em 25 de Dezembro (solstício do Inverno), “a Páscoa pode cair em qualquer data entre 21 de março e 25 de abril, sendo comemorada no domingo seguinte à primeira Lua Cheia após o equinócio da primavera do hemisfério Norte, (21de março). Essa data foi acomodada para que coincidisse com a Páscoa judaica, cuja data era fixada pela primeira Lua Cheia da primavera. A Lua Cheia nessa época do ano representa a ovulação da Mãe do Mundo, enquanto os tradicionais ovos de Páscoa têm sua origem no símbolo pagão usado para o renascimento do deus-que-ressuscita” (Philip Gardiner). A Primavera (ou Páscoa) torna-se assim para todos (cristãos e não-cristãos) uma interpelação à celebração da vitória da Vida sobre a morte: "Onde está, ó morte, a tua vitória?" (1Cor.15,55).

Mais do que nunca, num mundo do "salve-se quem puder", individualista, ganancioso e competitivo, onde parece imperar o culto da morte e da violência, urge que todos os que acreditam na força da Ressurreição façam de cada dia uma Páscoa; sejam o Sol da Primavera que gera vida, ilumina e aquece os corações! Permito-me reverberar este apelo com palavras que só os poetas sabem dizer:

"Com flores de rododendro cor de fogo
anuncio aos sentidos
o milagre
da ressurreição.
E o Cristo vivo, em que se transfigura
a mais vil criatura
que atravessa a praça,
é como uma graça
a mais da primavera.
Ah, quem pudera
todos os dias
olhar o mundo assim, repovoado
de fraternidade,
quente de um sol desabrochado
em cada pétala da realidade!"

(Miguel Torga, poema escrito em 19 de Abril de 1987, não sei se em dia de Páscoa, mas claramente à luz da Ressurreição).

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publicado às 07:20

"Não se pode confiar o destino da humanidade ao dogma e ao programa neo-liberalista, que vê a solução para todos os problemas no crescimento de um mercado auto-regulado, finalmente livre de obstáculos desnecessários e perigosos para o progresso da globalização. Aconteça o que acontecer, deve haver um espaço da "política", que "une" os seres humanos, perseguindo e respeitando os critérios de ética e de justiça."
Quem realmente tem o poder hoje no mundo globalizado? Os governos dos Estados, com os seus líderes políticos? Ou talvez, as grandes multinacionais, os supermanagers dos salários milionários, os novos ricos como o Bill Gates? Ou talvez o poder anónimo, misteriosa dos grandes negócios? O justo equilíbrio entre o poder político e poder económico é uma questão sobre a qual os filósofos refletem desde os tempos da Grécia antiga, mas que com a recente crise financeira global está de volta com novidades explosivas. Historicamente, começando com Aristóteles e Hobbes, os filósofos sempre privilegiaram o “homo politicus” comparado ao “homo oeconomicus”. O triunfo do mercado parece ter quebrado este equilíbrio. Hoje é posta em questão a própria idéia de soberania: a criação de instituições supranacionais cada vez mais poderosas e necessárias (dada a escala global de muitos problemas) e as pressões para a descentralização têm reduzido o poder dos antigos Estados, que tem cada vez menos influência no que diz respeito à economia e às finanças. No entanto, argumenta vigorosamente Massimo Terni, não podemos fazer nada sem a política. Porque não podemos confiar cegamente no pensamento único neoliberalista. Porque somos cidadãos e não simples consumidores de um "produto político". Porque deve haver uma diferença entre o capital limpo e o sujo gerenciado por máfias internacionais com violência. Porque queremos viver numa sociedade que respeite a ética e a justiça.

Máximo de Terni lecionou História do Pensamento Político na Universidade Estatal de Milão e na Universidade Oriental de Naples. Entre as suas obras contam-se: "O plano de soberania. Teologia e Política na Idade Média e na Idade Moderna" (1995), "Um mapa do Estado. Guerra e política entre o regime das almas e governo dos súbditos" (2003).

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publicado às 09:43

O Natal representa sempre oportunidade de voltarmos ao cristianismo originário. Em primeiro lugar, existe a mensagem de Jesus: a experiência de Deus como Pai com características de mãe, o amor incondicional, a misericórdia e a entrega radical a um sonho: o do Reino de Deus. Em segundo lugar, existe o movimento de Jesus: daqueles que, sem aderir a alguma confissão ou dogma, se deixam fascinar por sua saga generosa e radicalmente humana e o tem como uma referência de valor. Em terceiro lugar, há as teologias sobre Jesus, já contidas nos evangelhos, escritos 40-50 anos após sua execução na cruz.
As comunidades subjacentes a cada um dos evangelhos, elaboraram suas interpretações sobre a vida de Jesus, sua prática, seu conflito com os as autoridades, sua experiência de Deus e sobre o significado de sua morte e ressurreição. No entanto, cobrem sua figura com tantas doutrinas que se torna difícil saber quem foi realmente o Jesus histórico que viveu entre nós. Por fim, existem as Igrejas que tentam levar avante o legado de Jesus, uma delas, a católica, com a reivindicação de ser a única verdadeira guardiã de sua mensagem e a exclusiva intérprete de seu significado. Tal pretensão torna praticamente impossível o diálogo ecumênico e a unidade das igrejas a não ser mediante à conversão.
Hoje tendemos a dizer que Jesus não pode ser apropriado por nenhuma Igreja. Ele pertence à humanidade e representa um dom que Deus ofereceu a todos, de todos os quadrantes.
Tomando como referencia a Igreja Católica, notamos que em sua milenar história, duas tendências, entre outras menores, ganharam grande curso. A primeira se funda muito na culpa, no pecado e na penitência. Sobre tais realidades paira o espectro do inferno, do purgatório e do medo.
Efetivamente, podemos dizer, que o medo foi um dos fatores fundamentais na penetração do cristianismo, como o mostrou J. Delumeau em seu clássico “O medo no Ocidente” (1978). O método no tempo de Carlos Magno era: converta-te ou serás passado ao fio da espada. Lendo os primeiros catecismos feitos na América Latina como o primeiro de Frei Pedro de Córdoba “Doctrina Cristiana” (1510 e 1544), vê-se claramente esta tendência com apelo explícito ao medo. Começa-se com a descrição idílica do céu e depois a terrificante do inferno “onde estão todos os vossos antepassados, pais, mães, avós e parentes…e para onde vós todos ireis se não vos converterdes”. Podemos imaginar a confusão que isso criava na cabeça dos aztecas e outros ao ouvir que seus pais, mãe, parentes e todas as pessoas que amavam, estavam sofrendo no inferno.Setores da atual Igreja manejam ainda hoje as categorias do medo e do inferno.
Outra tendência, mais contemporânea, e penso, mais próxima de Jesus, põe a ênfase na compaixão e no amor, na justiça original e no fim bom da criação. Entende que a história da salvação se dá dentro da história humana e não como uma alternativa a ela. Daí surge um perfil de cristianismo mais jovial, em diálogo com as culturas e com os valores modernos pois neles vê também a presença do Espírito Santo que chega sempre antes do missionário.
A festa do Natal se liga a esta última tendência do Cristianismo. O que se celebra é um Deus-menino, que choraminga entre a vaca e burrinho, que não mete medo nem julga ninguém. É bom que os cristãos voltem a esta figura. Arquetipicamente ele representa o “puer aeternus” a eterna criança que, no fundo, nunca deixamos de ser.
Uma das melhores discípulas de C. G. Jung, Marie-Louise von Franz, analisou em detalhe este arquétipo em seu livro “Puer Aeternus” (Paulinas 1992). Essa figura possui certa ambiguidade. Se colocamos a criança atrás de nós, ela deslancha energias regressivas de nostalgia de um mundo que passou e que não foi totalmente superado e integrado. Continuamos, de certa forma, infantis.
Mas se colocamos a criança eterna à nossa frente então ela suscita em nós renovação de vida, inocência, novas possibilidades de ação que correm em direção do futuro.
Pois estes são os sentimentos que queremos alimentar neste Natal no meio de uma situação sombria da Terra e da Humanidade. Sentimentos de que ainda teremos futuro e que podemos nos salvar porque a Estrela é magnânima e o “puer” é eterno e porque ele se encarnou neste mundo e não permitirá que afunde totalmente. Nele se manifestou a humanidade e a jovialidade do Deus de todos os povos. Tudo o mais é vaidade.

(Leonardo Boff)

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publicado às 09:30


...

por Thynus, em 15.12.12

A crítica nietzschiana à metafísica tem um sentido ontológico e um sentido moral: o combate à teoria das idéias socrático-platônicas é, ao mesmo tempo, uma luta acirrada contra o cristianismo.
Segundo Nietzsche, o cristianismo concebe o mundo terrestre como um vale de lágrimas, em oposição ao mundo da felicidade eterna do além. Essa concepção constitui uma metafísica que, à luz das idéias do outromundo, autêntico e verdadeiro, entende o terrestre, o sensível, o corpo, como o provisório, o inautêntico e o aparente. Trata-se, portanto, diz Nietzsche, de "um platonismo para o povo", de uma vulgarização da metafísica, que é preciso desmistificar. O cristianismo, continua Nietzsche, é a forma acabada da perversão dos instintos que caracteriza o platonismo, repousando em dogmas e crenças que permitem à consciência fraca e escrava escapar à vida, à dor e à luta, e impondo a resignação e a renúncia como virtudes. São os escravos e os vencidos da vida que inventaram o além para compensar a miséria; inventaram .falsos valores para se consolar da impossibilidade de participação nos valores dos senhores e dos fortes; forjaram o mito da salvação da alma porque não possuíam o corpo; criaram a ficção do pecado porque não podiam participar das alegrias terrestres e da plena satisfação dos instintos da vida. "Este ódio de tudo que é humano", diz Nietzsche, "de tudo que é 'animal' e mais ainda de tudo que é 'matéria', este temor dos sentidos ... este horror da felicidade e da beleza; este desejo de fugir de tudo que é aparência, mudança, dever, morte, esforço, desejo mesmo, tudo isso significa ... vontade de aniquilamento, hostilidade â vida, recusa em se admitir as condições fundamentais da própria vida."


(Gérard Lebrun - "Nietzche, Obras Incompletas")

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publicado às 12:09


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