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O que aconteceu com a elite cultural?

por Thynus, em 28.03.13

Pierre Bourdieu, o grande sociólogo francês, escreveu trinta anos atrás em seu importante livro intitulado La distinction que a “elite cultural” – pessoas consideradas altas autoridades na diferenciação entre o comme il faut e o comme il faut pas (o certo e o errado) em todos os temas “culturais” – distanciou-se do resto de nós pelo gosto artístico seletivo e por critérios estritamente definidos – em clara oposição ao nosso gosto sem discernimento e caracterizado por flagrante frouxidão de critérios. Foi essa oposição que sustentou a divisão entre “alta cultura” (aprovada e praticada pela elite cultural) e “baixa cultura” (popular ou de massas).
De acordo com um relatório escrito por Andy McSmith e publicado na edição eletrônica do jornal inglês The Independent, professores respeitáveis de uma universidade muito considerada, Oxford, proclamaram que a “elite cultural não existe” no antigo significado adotado por Bourdieu (“Cultural elite does not exist, academics claim”). Tak Wing Chan e John Goldthorpe, sociólogos da Universidade de Oxford, e um grupo de treze pesquisadores concluíram, a partir de dados coletados na Grã-Bretanha, Chile, França, Hungria, Israel, Holanda e Estados Unidos, que não é mais possível encontrar a “elite cultural” do tipo descrito por Bourdieu – isto é, gente de elevada posição social que se diferencia de seus inferiores por ir à opera e apreciar tudo que é visto como “alta arte”, e torcer o nariz e tratar com evidente desprezo “coisas vulgares como a música popular e a televisão comercial”.
Na verdade, o fim da velha guarda da elite (mas não da “elite cultural” como tal) não é novidade. Já em 1992, a fim de expressar a natureza do gosto (ou melhor, da falta de gosto) típico dos “líderes culturais” da época, Richard A. Petersen, da Universidade Vanderbilt, usou a metáfora da “onivoridade” (“How musical tastes mark occupational status groups”): ópera e música popular, “alta arte” e televisão comercial; um pouco daqui, um pouco de lá, ora isso, ora aquilo. Há pouco tempo Petersen reafirmou sua descoberta original: “Constatamos uma reorientação da atitude política da elite como grupo de status, daqueles intelectuais esnobes que desprezam toda cultura popular, vulgar ou de massas, … para os eruditos que consomem com igual onivoridade um amplo espectro de formas de arte popular e erudita” (“Changing arts audiences: Capitalizing on omnivorousness”).
Em outras palavras, Nihil “cultural” a me alienum puto, isto é, não há nada “cultural” que eu rejeite previamente sem fruí-lo, embora também não haja nada “cultural” com que eu me identifique de modo inabalável e definitivo a ponto de excluir outros prazeres. Estou em casa em qualquer lugar, embora (ou porque) o lugar que chamo de minha casa não esteja em lugar algum. Em suma, não se trata mais de um gosto (requintado) que se opõe a um gosto (vulgar), mas de onivoridade contra onivoridade, uma disponibilidade a consumir tudo e desfrutar de tudo sem nada discriminar, sem uma seletividade a priori da apreciação, da aversão ou da incompreensão.
A elite está viva e forte, mais viva e ativa que nunca, embora voltada demais a buscar e consumir cultura para ter tempo de se ocupar da missão de fazer proselitismo e converter as pessoas. Além da atitude de “parem de exigências, sejam menos seletivos” e “consumam mais”, essa mais recente encarnação da elite não tem uma mensagem a comunicar às multidões de onívoros das camadas inferiores da hierarquia cultural. Para todos os fins práticos, a elite abandonou qualquer pretensão a converter e catequizar, esclarecer e enobrecer, “elevar” o “povo” (rebatizado de “massas”, ou, mais objetivamente, de “consumidores culturais”).
De fato, nos lugares onde se elaboram, proclamam e debatem as defesas da cultura, as artes perderam (ou estão perdendo depressa) suas funções de linha auxiliar de uma hierarquia social que luta para se reproduzir, tal como, algum tempo antes, a cultura como um todo perdeu sua função original de linha auxiliar de nações emergentes, Estados e hierarquias de classe. Agora as artes estão livres para servir às preocupações do indivíduo com sua identidade e autoafirmação.
Pode-se dizer que, em sua fase líquido-moderna, a cultura (sobretudo em seus ramos artístico) é feita à medida da liberdade individual de escolha (voluntária ou obrigatória). A intenção é que a cultura esteja a serviço dessa liberdade e assegure que a escolha seja inevitável: uma necessidade de vida e um dever. Essa responsabilidade, companheira inalienável da liberdade de escolha, permanece onde a condição da modernidade líquida a colocou à força: nos ombros do indivíduo, agora indicado como único gestor da “política da vida” conduzida individualmente.
Como convém a uma sociedade de consumidores como a nossa, a cultura hoje é constituída de ofertas, e não de normas. Assim como afirmou Bourdieu, a cultura vive de sedução, não de regulação normativa; de relações públicas, não de policiamento; da criação de novas necessidades, desejos, carências e caprichos, não de coerção. Esta é uma sociedade de consumidores, e, tal como o resto do mundo, vemos e experimentamos o mundo como consumidores.
A cultura se torna um armazém de produtos para consumo – cada um competindo pela variação, mudança e deslocamento da atenção dos potenciais consumidores, na expectativa de atraí-la e mantêla um pouco além de um átimo. Abandonar padrões rígidos, sucumbir à indiscriminação, adequar-se a todos os gostos sem privilegiar nenhum, encorajar a irregularidade e a “flexibilidade” (o termo popular politicamente correto para “fraqueza de caráter”), tudo isso se combina para construir a estratégia adequada a seguir – ou seria melhor dizer a única estratégia razoável, a única factível? Rabugice e expressões de desagrado não são recomendáveis.
Um influente crítico de televisão elogiou o espetáculo do Ano-Novo de 2007-2008 de uma emissora por prometer “um programa musical de entretenimento voltado para satisfazer o apetite de todos”. O “bom” dessa programação, explicou o crítico, “é que seu apelo universal significa que cada espectador pode aceitar ou evitar o programa de acordo com suas preferências” (“Ahootenanny New Year to all”). Qualidade assaz louvável numa sociedade em que as redes substituem as estruturas, enquanto o jogo de adesão/exclusão e um interminável processo de conexões e desconexões substituem o “determinar” e o “fixar”.
Hoje, a cultura está virando uma espécie de seção da loja de departamentos, que tem “tudo que você precisa e deseja”, na qual se transformou o mundo habitado por consumidores. Como em outros departamentos desse tipo de loja, as prateleiras estão abarrotadas de mercadorias sempre repostas, e os balcões são decorados com anúncios das mais recentes ofertas – eles mesmos destinados a desaparecer com as atrações que promovem. Mercadorias e publicidade são calculadas especificamente para despertar desejos e cobiça pelas novas ofertas, e ao mesmo tempo reprimir qualquer resquício de desejo ou cobiça das antigas promoções (George Steiner tem uma frase famosa sobre isso: tudo é calculado para obter “impacto máximo e obsolescência instantânea”). Comerciantes e redatores de publicidade esperam aliar o poder de sedução das ofertas ao desejo imperioso dos seus potenciais consumidores de ser melhor que o vizinho e de “tirar vantagem”; ou, pelo menos, de não ficar para trás no “pacote de estilos”.
A cultura em nosso mundo moderno líquido não tem “povo” para “cultivar”, tem clientes para seduzir. E, ao contrário da cultura sólida moderna que a precedeu, não quer mais se esforçar para cumprir seu papel – quanto mais cedo possível. Sua tarefa agora é cuidar de sobreviver de modo permanente, tornando provisórios todos os aspectos da vida de seus antigos guardiões e potenciais convertidos, que hoje renascem na condição de clientes.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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publicado às 07:45


Essa depressão tem fim?

por Thynus, em 28.03.13

A depressão econômica já acabou? Se não, em quanto tempo acabará? Perguntas desse tipo são feitas todos os dias por homens e mulheres, idosos e jovens, em países ricos e em países pobres. Eles esperam obter respostas verdadeiras, mas em vão. O que não falta, sem dúvida, são respostas de economistas (se eles não sabem, quem saberá?), de políticos do governo ou da oposição e de toda sorte de outros profetas oficiais ou autonomeados. O problema é que eles dizem qualquer coisa entre jubilosos anúncios do fim da depressão, ou pelo menos de seus últimos sopros, e sombrias advertências de que ninguém ainda enxergou o fim do túnel.
No jornal The Guardian de 9 de setembro de 2009, encontramos a informação de que “economistas declaram o fim da recessão”, matéria ilustrada pela opinião, entre outras, de Karen Ward (economista inglesa do banco HSBC): “As coisas que estavam nos levando à retração vão nos trazer de volta – haverá de novo um gasto positivo por parte dos consumidores.” Devemos nos alegrar ou nos desesperar com a notícia? A “retração” não foi causada justamente pelo “gasto positivo por parte do consumidor” e a consequente mudança de mãos de muito dinheiro (grande parcela do qual ainda não ganho)? “Trazer de volta” não significa pressagiar futuras “retrações”, ou pior, a ameaça de que elas reapareçam? O colapso da economia não ocorreu no auge do “gasto positivo” e de um crescimento sem precedentes do PNB, reconhecido universalmente (ou quase) como a taxa de prosperidade econômica e o atributo de uma “economia saudável”?
Alex Berenson afirmou, num artigo no The New York Times de 12 de setembro de 2009, com o sugestivo título de “A year after a cataclysm, little change on Wall St”: “Wall Street continua a viver. Um ano depois do colapso do Lehman Brothers, a surpresa não é quanto mudou no setor financeiro, mas quão pouco mudou.”
Enquanto a memória do choque (que alguns observadores, com pressa um tanto exagerada, chamaram de “amargo despertar”) permanecer fresca, nós sabemos que a probabilidade de as previsões se realizarem não é maior que a probabilidade de elas serem refutadas; e que a linha que separa confiança e credulidade é tênue; além disso, não há como saber de antemão por onde tal linha deve passar.
Não surpreende que sejamos cautelosos. Temos todo direito de sê-lo. Os jornais continuavam a repetir até pouco tempo atrás, e o New York Times era o mais insistente de todos, que “os consumidores estão relutantes em gastar”. Isso era visto como uma notícia péssima, assustadora – sobretudo para nós que temos o privilégio de viver em países de riqueza abundante, privilégio pelo qual somos agora obrigados a pagar. Quanto mais alto o coqueiro maior é o tombo.
Nos Estados Unidos, por exemplo, antes do colapso do crédito, os gastos em consumo representavam 70% de toda a atividade econômica do país (relembro que a atividade econômica é medida pela quantidade de dinheiro que muda de mãos); como 70% do dinheiro costumava sair das mãos dos consumidores para as mãos dos vendedores de bens de consumo, até uma fração relativamente diminuta e quase desprezível de compradores que resolvam não gastar seu dinheiro (seja o já ganho, seja o que esperavam ganhar) se refletirá de imediato nas estatísticas sobre o “estado da economia”, provocando novo ataque de pânico que certamente fará parecer mais suave o ataque anterior.
O que os vendedores mais lamentam é que a maioria dos consumidores perca o hábito de “comprar por impulso”. Teóricos e praticantes do marketing costumavam confiar nesse hábito arraigado. Um após outro, os shoppings, que antes eram considerados templos do pensamento, do saber e dos potenciais consumidores oniscientes, foram redesenhados para seduzir compradores “acidentais”, “compradores por impulso”: pessoas que iam comprar um bule ou uma lâmpada, por exemplo; mas que – deslumbradas, inebriadas e desarmadas pela enorme quantidade de cores, sons e fragrâncias embriagantes –, propensas à euforia e ao êxtase, passíveis de subitamente entrar em estado de entorpecimento e transe diante da visão de algo que jamais viram e de que nunca precisaram, eram incapazes de resistir à urgência de possuir esses objetos.
Pat Bennett, vendedor da cadeia de lojas Macy’s, há pouco tempo se queixou (como inúmeros outros encarregados da sedução dos consumidores) de que as pessoas hoje tendem “a chegar dizendo, ‘preciso de um par de cuecas’, pegam o que querem e vão embora. Você não os ouve dizer, ‘ah, eu adorei o corte dessa camisa, vou levá-la agora’”.
Substituir o antigo hábito arraigado nos fregueses de comprar a fim de satisfazer uma necessidade ou aplacar um desejo longamente plantado e acarinhado pelo hábito de comprar por impulso, por compulsão, na euforia do momento, foi na verdade o grande feito e o motor da expansão da economia baseada no consumismo. O desaparecimento desse hábito seria um desastre absoluto para tal tipo de economia. Comprar por necessidade tem limites naturais; comprar motivado por desejos requer longo, enfadonho e custoso aprimoramento, treino e prática dos desejos; mas comprar num rompante ou num capricho não exige grande investimento para fomentar o comércio, nem demorados e complicados aperfeiçoamentos nem preparação, porque o céu é o limite – o céu é o limite de uma economia consumista que se baseia nessa tendência dos fregueses.
Ao menos é isso que parecia, pois vivíamos num mundo de faz de conta, onde não havia limite para o crédito pessoal nem para sua renovação, no qual os índices da bolsa de valores eram em geral inflados, e os preços das casas sujeitos a irreversível e incessante inflação. Era o que parecia, pois nos sentíamos mais ricos do que indicavam nossos rendimentos reais, e estávamos crentes de que esse maravilhoso sentimento ia durar para sempre. Desde que pudéssemos continuar a fazer empréstimos hipotecários jogados para um futuro ainda desconhecido – mas que prometia manter “mais da mesma felicidade”; desde que pudéssemos adiar o momento de fazer as contas; desde que pudéssemos sustentar com alegria a estratégia do “aproveite agora, pague depois”, sem muitas preocupações posteriores, e evitar a hora da verdade, a hora de encarar e calcular com seriedade os riscos embutidos nessa estratégia impulsiva. O dia daquele “pague depois” chegou: é agora.
A chegada desse dia foi um choque para todos nós; sabe-se que os choques tendem a provocar traumas, e os traumas tendem a durar muito mais que suas causas imediatas. No entanto, a profundidade e a longevidade dos traumas não são iguais para todo mundo. A maioria de nós hesita em repetir hoje o comportamento impulsivo de ontem: gastar um dinheiro que não ganhamos e ficarmos reféns de um destino que não podemos controlar nem somos capazes de prever. Quanto à resposta sobre quanto tempo ainda vão durar as indesejáveis limitações impostas por um destino adverso à nossa festa (não será melhor chamar de orgia?) consumista, as opiniões se dividem.
Na Inglaterra, por exemplo, os londrinos são três vezes mais propensos que os habitantes da área industrial de Midlands a crer que “a economia está se recuperando” e vai melhorar no ano que vem. A diferença não surpreende se considerarmos que leva tempo para que a recessão transborde dos bancos da City de Londres para o interior das fábricas de Midlands; e deve levar tempo semelhante, senão maior, para expulsá-la da casa dos operários desempregados, mas muito menos para bani-la dos lares dos beneficiários de dividendos pagos pelos bancos, generosamente subsidiados pelo Estado, e dos lucros das empresas que prestam serviços aos ricos. Esta não é uma peculiaridade britânica. O New York Times de 7 de setembro de 2009, por exemplo, informou sobre a existência de milhões de vítimas ocultas da Grande Recessão, não contabilizadas na taxa [oficial de desemprego] porque pararam de procurar trabalho. Mas isso não significa que esses americanos desalentados não queiram trabalhar. Como demonstram entrevistas feitas com vários deles, muitos anseiam desesperadamente por um emprego; mas a dificuldade de encontrá-lo fez com que eles se tornassem a mais completa encarnação do pessimismo.
Outra distância evidente separa as percepções das gerações mais velhas das mais jovens. Entre as pessoas acima de 65 anos, uma em cada quatro confia na melhora da economia no próximo ano; entre as pessoas com pelo menos trinta anos menos que estas, só uma em vinte concorda com os idosos. Novamente o resultado não surpreende. Idosos com mais de 65 anos estão quase fora do mercado de trabalho, enquanto os que estão dentro de um mercado repleto de sombrias premonições ainda esperam que a bomba caia sobre suas cabeças depois da nova onda de falências, tentativas de enxugamento e demissões em massa.
Os que se encontram numa faixa etária ainda mais jovem encaram um futuro marcado por atos de humilhação e situações de privação causadas pela exclusão social e pela vergonhosa falta de trabalho; pelas provações materiais do desemprego a longo prazo, as extensas filas do segurodesemprego e das agências de emprego; pelas esperanças vãs numa virada rápida da sorte que os traga de volta às fileiras dos empregados. Ante a frustração das recentes expectativas, quem pode jurar, após uma virada favorável (por improvável que seja), que a roda da fortuna interrompeu seu girar desenfreado?
Na edição de 5 de setembro de 2009, o New York Times declarou que “a perda de 216 mil empregos em agosto, que elevou a taxa de desemprego nos Estados Unidos para 9,7%, indicou que as empresas não estão contratando vigorosamente, apesar dos sinais de recuperação”. Os dedos chamuscados das empresas pressagiam o destroçar dos meios de vida de seus empregados.
Os mais jovens entre os jovens, além disso, enfrentam pela primeira vez as agruras do mercado de trabalho. Nada em sua juventude relativamente desanuviada, passada num país de crescente (um pouco mais rápida, um pouco mais lenta, mas aparentemente infinita) prosperidade, ensinou-lhes a esperar que os mercados fossem tão hostis e traiçoeiros quanto hoje. Seus amigos com apenas dois ou três anos a mais que eles lembram que o mercado ainda era amistoso, abarrotado de boas oportunidades de trabalho que eles podiam escolher a gosto; não o mercado que têm de encarar hoje, avarento nas ofertas e generoso nas recusas, um mercado que dita seus termos como bem quer, avaro nas bênçãos e pródigo nas crueldades, notório pela equanimidade diante das tragédias humanas e pela destruição perpetrada por seus caprichos sobre as vidas humanas.
Este artigo devia se chamar “Informe sobre a vida ocupacional”, na mesma linha dos balanços de vantagens e desvantagens que a maioria de nós tenta fazer nesses dias. Mas as cartas ainda estão sendo embaralhadas. Só Deus sabe se as cartas que temos nas mãos irão se revelar fortes ou fracas na próxima jogada. Nada sabemos sobre as surpresas que nos esperam, sobre uma virada imprevista da sorte. Bom seria se pudéssemos extrair dessas experiências uma lição que se estenda além da próxima incursão ao shopping. Uma lição que vá mais fundo, que alcance os modos de evitar que esse tipo de experiência volte a assombrar a nós e a nossos filhos.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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publicado às 02:14


Calcular o incalculável

por Thynus, em 27.03.13

O risco, disse Ulrich Beck, sociólogo alemão pioneiro dos estudos contemporâneos sobre esse tema e ainda hoje um dos seus mais eficazes teóricos, “amalgamou o conhecimento com o não saber dentro do horizonte semântico da probabilidade” (Weltrisikogesellshaft). “A historia da ciência”, escreveu Beck, “data do nascimento do cálculo da probabilidade – desenvolvido na correspondência entre Pierre Fermat e Blaise Pascal –, a primeira tentativa de pôr sob controle o imprevisível em 1651.” Desde então, por meio da categoria “risco”, acrescentou, “o pressuposto arrogante da possibilidade de controle” pôde intensificar sua influência.
Da nossa perspectiva, situada na sequência claramente liquefeita da etapa compulsivamente liquescente, embora obcecada pela solidez, do começo da modernidade (nos beneficiamos, portanto, do olhar retrospectivo), podemos dizer que a categoria “risco” foi uma tentativa de conciliar dois pilares da consciência moderna: a consciência da contingência e da aleatoriedade do mundo, por um lado, e a autoconfiança do tipo “nós podemos” (Beck prefere chamá-la de “arrogância”), por outro. Para ser mais exato, a categoria “risco” foi uma tentativa de salvar o segundo pilar da insistente e ubíqua, embora temida e incômoda, companhia do primeiro.
A categoria “risco” (e o consequente projeto de “calcular os riscos”) prometia que, mesmo que o mundo da natureza e os acréscimos e modificações feitos pelo homem ficassem aquém da regularidade incondicional, e portanto do ideal de genuinidade completa e previsibilidade confiável, o fato de reunir e armazenar conhecimento flexibiliza seu aspecto prático e tecnológico; além disso, poderia levar a humanidade para bem perto da condição de certeza, ou pelo menos da alta probabilidade de fazer prognósticos corretos – e, assim, “ter o controle”. A categoria “risco” não prometeu a segurança infalível contra perigos, mas a capacidade de calcular a probabilidade do perigo e sua possível dimensão; indiretamente, portanto, comprometeu-se com a possibilidade de calcular e aplicar a melhor distribuição dos recursos para assegurar uma eficiência máxima e o sucesso das atividades pretendidas.
Mesmo que não o faça de modo explícito, a semântica do “risco” precisava assumir de maneira axiomática “o segundo melhor” dos Universos, um ambiente “estruturado” (estruturante: manipulação, desvio ou distorção, e, por extensão, diferenciação de uma distribuição aleatória de probabilidades), ou, em outras palavras, essencialmente regulado por leis – um Universo predeterminado, senão pela ocorrência de eventos, ao menos pelas probabilidades de sua ocorrência, que pode ser examinado, conhecido e avaliado.
Por mais que o “cálculo de risco” se aproxime de uma certeza exata e infalível, e diante da perspectiva de predeterminar o futuro, a distância pode parecer pequena e insignificante em comparação com o abismo que separa o “horizonte semântico da probabilidade” (e da facticidade do cálculo de risco) do território resgatado àquela inquietante e ameaçadora premonição de irreparável incerteza que assombra nossa consciência moderna.
John Gray assinalou, uma dezena de anos atrás, que “os governos de Estados soberanos não sabem de antemão como os mercados vão reagir. … Os governos nacionais da década de 1990 fazem voo cego”. Gray não acha que o futuro nos traga uma situação muito diferente; como no passado, espera-se uma “sucessão de contingências, catástrofes e lapsos ocasionais de paz e civilização” (Gray’s Anatomy). Tudo isso, permitam-me acrescentar, imprevisível e incalculável de antemão, quase sempre irá pegar de surpresa, despreparados e desprevenidos tanto as vítimas quanto os beneficiários.
É cada vez mais provável que a descoberta e o anúncio da centralidade do “horizonte de risco” no pensamento moderno partilhem o eterno hábito da coruja de Minerva, que só abre suas asas ao entardecer, logo antes do cair da noite; ou a tendência mais comum de passar objetos da situação de “ocultos sob a luz” (submersos na obscura condição de zuhanden, óbvios demais para serem notados; ou, para usar a descrição de José Saramago, em Memorial do convento, de 1982, objetos que são “tão comuns e demandam tão pouco que tendem a ser despercebidos”) para a estonteante visibilidade de vorhandem, dos “problemas” a serem “enfrentados” e “resolvidos” agora, antes do fracasso, quebrando sua “naturalidade” ou frustrando as expectativas (em geral, tácitas) de seus habituais usuários.
Em outras palavras, as coisas “irrompem na consciência” e se tornam conhecidas graças a seu desaparecimento ou a uma mudança chocante e sem precedentes. A verdade é que só nos tornamos conscientes dos papéis assustadores das categorias “risco”, “cálculo de risco” e “assumir riscos” na história moderna no momento em que o conceito de “risco” perdeu grande parte de sua utilidade; ele só pode ser usado (como Jacques Derrida indica) sous rature, isto é, “sob rasura”, e se tornou (para usar o vocabulário de Beck) um “conceito zumbi”, em outras palavras, quando chegou a hora de substituir o conceito de Risikogesellschft (sociedade de risco) pelo de Unsicherheitglobalschaft (incerteza global).
Os perigos que hoje nos afligem são muito diferentes daqueles que a categoria “risco” lutava para captar e trazer à luz, porque são inominados até que nos atinjam, imprevisíveis e incalculáveis. O cenário onde nascem esses perigos, a partir de onde eles vêm à tona, não é mais o da Gesellschaft, da sociedade; a não ser que o conceito de Gesellschaft, contrariando suas conotações ortodoxas, se estenda não à população de um Estado-nação territorial, mas à população de todo o planeta, à humanidade como um todo.
O poder que interessa (isto é, o poder que a palavra final, ou pelo menos a importância principal para o conjunto de opções abertas às escolhas dos agentes) vem crescendo em volume e já se tornou mundial; todavia, a política permanece uma questão local tanto quanto antes. Por isso, o poder agora mais relevante está além do alcance das instituições políticas, enquanto vem se restringindo o quadro de manobras existente para a política.
O “estado das coisas” no planeta é agora sacudido por alianças ad hoc ou assembleias de poderes em discórdia, fora do controle político, em razão da crescente impotência das instituições políticas atuais. Estas são obrigadas a limitar de modo severo suas ambições e a “alienar” ou “terceirizar” para agências não políticas um número cada vez maior de funções tradicionalmente confiadas à administração de governos nacionais. A emancipação da esfera política (em seu sentido ortodoxo, institucionalizado) é autopropulsora, pois a perda de relevância de sucessivos setores da política nacional repercute na erosão do interesse dos cidadãos pela política institucionalizada e numa tendência geral a substituí-la pelo empenho em fazer experiências com uma política incipiente, rudimentar, quase de “livre flutuação”, mediada pela eletrônica; um tipo de política que se destaca pela rapidez e agilidade, mas também por ser ad hoc, imediatista, limitada a questões isoladas, frágil e resistente; ou talvez seja melhor dizer imune à institucionalização (atributos mutuamente dependentes e reforçadores).
Como a incerteza do mundo contemporâneo enraíza-se no mundo global, a tarefa de restabelecer o equilíbrio perdido entre poder e política só pode ser realizada no plano mundial e apenas por um processo de legiferação globalizado (que, infelizmente, ainda não existe), apoiado por instituições executivas e jurídicas. Esse problema traduz-se na exigência de complementar a globalização até aqui totalmente “negativa” (isto é, a globalização de forças intrinsecamente hostis à política institucionalizada, como capital, financiamento, comércio de produtos primários, informação, criminalidade, tráfico de drogas, de armas etc.) com uma globalização “positiva” (da representação política, do direito e da jurisdição, por exemplo) que ainda não começou de verdade.
Contudo, em nítido contraste com o tipo ideal de risco, os perigos que se avolumam no espaço vazio entre a vastidão da interdependência humana e a estreiteza dos instrumentos humanos de autogoverno não são previsíveis nem calculáveis. Por isso mesmo também não são administráveis. Governá-los é uma tarefa grandiosa; lidar com essa tarefa propiciará à história do nosso século a maior parte do seu ímpeto e de seu conteúdo.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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publicado às 22:01


Prever o imprevisível

por Thynus, em 27.03.13

Certa terça-feira, semanas atrás, eu estava de viagem marcada para Roma a fim de dar uma conferência e procurei me informar sobre as condições climáticas de lá, para saber como me vestir na viagem. Consultei a previsão do tempo na sexta-feira anterior: falavam em chuvas fortes para Roma, com temperatura máxima de quinze graus. Por via das dúvidas, chequei de novo a previsão na segunda-feira. O quadro já tinha mudado bastante: céu claro, sem nuvens e temperatura caindo abaixo de doze graus. Qual foi realmente o tempo em Roma naquela terça-feira, não pude verificar pessoalmente, porque meu voo foi cancelado por uma súbita tempestade de neve que pegou o pessoal do aeroporto completamente desprevenido.
No começo da década de 1960, Edward Lorenz trabalhava num programa que devia permitir a previsão de mudanças climáticas com maior grau de certeza. Para a admiração da unanimidade de seus colegas e inveja de poucos, Lorenz estava cada vez mais perto de construir um modelo de previsão do tempo abrangente e quase à prova de erros incluindo todos os fatores.
Um dia, porém, ao retomar o trabalho no laboratório, ele descobriu, para seu espanto, que uma alteração ligeira numa das muitas variáveis iniciais (um arredondamento de milésimo) fizera com que o mesmíssimo programa gerasse previsão muito diferente. Uma diferença mínima, insignificante e negligenciável numa única variável, de um valor que às vezes enganava os instrumentos mais precisos de medição, e por isso costumava ser ignorada, teve importantes efeitos sobre o resultado de todo o sistema. A mais irrisória diferença podia assumir, com o passar do tempo, proporções gigantescas, inclusive catastróficas. O bater das asas de uma borboleta em Pequim, como disse o próprio Lorenz, podia influenciar a formação e a trajetória dos ciclones no golfo do México, muitos meses mais tarde e a milhares de quilômetros de distância.
A capacidade de minúsculas mudanças produzirem efeitos que se avolumam em taxa exponencial é hoje conhecida como “efeito borboleta”. A regra do efeito borboleta diz simplesmente que o comportamento dos sistemas complexos com uma quantidade de variáveis mutuamente independentes, é e continuará a ser, para resumir, imprevisível. Não só imprevisível para nós, pela nossa ignorância, negligência ou estupidez, mas pela própria natureza dos sistemas.
Como o mundo em que vivemos é um sistema de complexidade além da imaginação, seu futuro é um grande desconhecido, e irá continuar fatalmente assim, o que quer que a gente faça. Previsões só podem ser adivinhações, e confiar nelas é assumir um enorme risco. O futuro é imprevisível porque, pura e simplesmente, ele é indeterminado. A qualquer momento, há mais de uma rota possível para o curso futuro dos acontecimentos.
E, no entanto, tentar desafiar esse obstáculo indomável e arrancar do futuro uma cópia antecipada de como será, forçá-lo a revelar-se previamente quando ele ainda é uma mera  possibilidade (na verdade, o futuro ainda nem nasceu) – em suma, obter um retrato de algo que ainda está em gestação –, é justamente isso que os homens têm tentado fazer desde o alvor de sua história: séculos antes da meteorologia, seguindo o exemplo da ciência moderna, atacando a séria questão de descobrir as leis que determinam as mudanças da natureza, da história e do destino humano, de modo a predizê-las e nos permitir saber como será o futuro, e sabê-lo agora, antes que ele vire outro presente.
Aeromancia, alectoromancia, aleuromancia, alfitomancia, antropomancia, antroposcopia, aritmancia, astrodiagnóstico, astrognose, astrologia, astromancia, austromacia, axinomancia – são estes os nomes dos antigos métodos de adivinhação do futuro, e somente os que começam com a letra “a” (são muitas as letras do alfabeto). Todas essas práticas eram usadas por sábios respeitados e contavam com a aceitação de muitas pessoas que admiravam a visível autoconfiança e as evidentes habilidades de oráculos e adivinhos. Hoje, todos esses métodos caíram em descrédito e foram rejeitados ou esquecidos. Resta saber se a meteorologia não vai acabar entrando nessa lista em futuro próximo…
A essa altura, já nos acostumamos às incertezas e aos caprichos dos climas; em geral, ninguém faz tragédia dessas inconveniências quase cotidianas. Mas há outras questões bem mais sérias e preocupantes no arriscado negócio de predizer o futuro; os acontecimentos mais importantes do século passado pegaram nossos pais e avós de surpresa e desprevenidos.
Ninguém previu a espetacular ascensão e difusão de regimes autoritários e ditatoriais, muito menos em sua versão “aperfeiçoada”, que é o totalitarismo. Uma dezena de anos depois, a “ciência da sovietologia” – ramo de estudos acadêmicos que hoje está morto e enterrado, mas que na época desfrutava da segurança de financiamentos generosos – desenvolvia-se em muitos institutos de pesquisa e alardeava contar com uma legião de renomados professores. Nas vésperas da queda do Muro de Berlim, ela ainda se dividia entre: os luminares que prediziam uma “convergência” lenta e gradual entre os sistemas capitalista e socialista, sob a forma do chamado “corporativismo” (conceito hoje esquecido e que não integra mais o vocabulário da pesquisa séria); e os “expertos”, prevendo que o conflito entre os dois sistemas iria pegar fogo e provocar uma explosão devastadora (talvez nuclear), no estilo MAD (de mutual assured destruction, ou destruição mútua assegurada).
Nenhum encontro respeitável de sovietologia suscitou a questão da implosão do sistema soviético sob pressão de sua inanidade – assim como o atual terremoto na economia liderada pelo consumo e operada pelo crédito, seu caráter repentino, a profundidade, difusão e resistência às medidas corretivas em geral aplicadas, não foi antecipado por qualquer congresso mundial de economistas. Em ambos os casos, o número de previsões corretas caiu bem abaixo da proporção de respostas certas esperadas à luz das leis de probabilidade, num grande conjunto de adivinhações. Mesmo agora, que estamos mais informados sobre o fato, buscamos avidamente a “borboleta” fatal cujo bater de asas causou aquele efeito devastador com consequências que ainda desafiam todos os prognósticos!
Vaclav Havel, incansável dissidente, guerreiro da liberdade e, muitas batalhas depois, presidente da República Tcheca, homem que passou a vida na linha de frente da história tentando não só antecipar o futuro mas também assegurar que ela tomasse uma direção humanitária e generosa, resumiu sua experiência dizendo que, para saber o rumo que o futuro vai tomar, é preciso saber que músicas as pessoas estão cantando; mas, acrescentou Havel, o problema é que não é possível saber que músicas as pessoas vão cantar no ano seguinte, e no outro, e no outro… No sistema complexo chamado “história”, o comportamento humano é de longe o mais variável entre todas as variáveis, e o menos previsível dos previsíveis.
Nós, homens, temos em nosso vocabulário uma pequena palavra, “não”, que nos permite questionar, negar ou rejeitar “a verdade dos fatos” ou o “estado das coisas” que o mundo em que vivemos apresenta. Em nossa gramática, temos o tempo futuro, que nos permite imaginar e visualizar um estado de coisas diferente do agora existente – uma “verdade” com “fatos” muito diferentes. Equipados dessas armas, somos com certeza subdeterminados, e por isso livres, mas fadados a fazer escolhas, expostos ao perigo constante de escolher errado e condenados à eterna incerteza. Insegurança no presente e incerteza quanto ao futuro são nossos companheiros constantes na jornada de viver.
Não surpreende que sonhemos com uma linha telefônica ou o endereço eletrônico de alguém que antigamente chamavam de profeta, “oráculo” ou “adivinho”, e que hoje preferimos chamar de “especialista” – alguém que paire nas alturas das quais, na ausência de anjos, só os pássaros veem este mundo; e seja capaz de nos dizer de antemão o que ele ou ela vê na próxima virada do futuro inacessível aos nossos olhos sempre fixos no chão.
Mas eu gostaria de repetir: a verdade é que nenhum pássaro pode sondar o futuro porque o futuro, enquanto for o futuro, não existe. Por isso, nada há que os olhos mais penetrantes e mais bem situados possam ver. O “futuro” não passa de uma forma abreviada de dizer “tudo pode acontecer, mas não é possível saber ou fazer nada com certeza”. Ironicamente, porém, somos nós, que temos o hábito arraigado de escolher, que fazemos o futuro acontecer. É da natureza humana perguntar que forma terá o futuro, enquanto formulamos questões (e não apenas críveis, mas incertas, imaginárias) impossíveis de dar conta da civilidade da nossa liberdade de escolha.
O grande italiano Antonio Gramsci afirmou que o único modo de “predizer” o futuro era juntar forças e reunir esforços para fazer com que os acontecimentos futuros se conformem aos nossos desejos e para nos manter longe de cenários indesejáveis. Nada garante que esses esforços irão trazer os resultados que desejamos. A guerra contra a incerteza jamais será completamente vencida. Mas esta é a única estratégia que nos dá alguma chance de ganhar batalhas. Não é a solução perfeita, mas é a única possível. É pegar ou largar.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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publicado às 21:25


As trajetórias tortuosas da fobia

por Thynus, em 26.03.13

A fobia (um sentimento intenso de medo) é uma condição semelhante ao horror e ao pavor, só que inclui uma sensibilidade aumentada, uma aversão ou alergia concentrada em sensações específicas: determinados tipos de imagens, sons, cheiros, sabores e, indiretamente, certos tipos de pessoas, animais, substâncias ou situações que julgamos responsáveis pela produção dessas impressões sensoriais desagradáveis, desconcertantes, iníquas e repulsivas.
Suspeitamos que entrar em contato com essas causas de fobia, portadoras dos efeitos temidos e/ou das entidades ou substâncias culpadas por perpetrá-las, poderia ter consequências mórbidas – ou é justamente isso que tememos; portanto, tentamos a todo custo não chegar perto delas, não ter contato visual, auditivo, olfativo e principalmente tátil com esses fatores. As fobias nos persuadem a manter distância e a erguer muros impenetráveis, tecer densos emaranhados de arame farpado ou cavar fossos intransponíveis, tudo que previna o vazamento, gotejamento ou infiltração de coisas que machucam ou causam mal-estar em qualquer lugar próximo de onde vivemos.
Resumindo: desenvolvemos uma fobia quando sentimos medo, dirigimos nossos pânicos para coisas específicas que consideramos responsáveis pela aflição e tomamos medidas defensivas para mantê-las à distância. Isso é claro. Mas não é muito claro se essas coisas podem realmente nos provocar os danos que tememos. Menos clara ainda é a conexão causal entre elas e as dores que sofremos. Nossas queixas talvez sejam injustificadas, porque as verdadeiras causas talvez estejam em outro lugar. Manter longe os supostos fatores ofensivos não ajudará muito a aplacar e muito menos a eliminar nossa impressão de ameaça. De modo paradoxal, as ações que praticamos para nos salvar da tortura do medo podem ser a fonte mais eficaz e permanente de temores.
A probabilidade de que isso ocorra aumenta em paralelo à vagueza e ao caráter evanescente de nossas ansiedades atuais. Tudo na vida da gente pode parecer ir muito bem: bastante dinheiro no banco, o chefe deu um sorriso amistoso ao elogiar meu último projeto; o sócio declara e demonstra afeto e dedicação, gosta de me abraçar, e eu retribuo; meus filhos têm boas notas – por que me preocupar? Por que os dias parecem tristes, e não alegres? De onde vem essa sensação de desconforto? Por que não consigo dormir tranquilamente a noite inteira e acordo cheio de sinistras premonições? Por que não consigo ir em frente e manter o sorriso?
Pensando bem, esses “porquês” não são tão incompreensíveis assim. A conta bancária continuará no azul enquanto eu mantiver esse emprego, mas todo dia abro o jornal e leio sobre novos cortes de pessoal e novos desempregados. Não consigo me sentir seguro porque não sei quanto tempo essa situação bem-aventurada vai durar, não posso ter certeza de que amanhã ainda terei um emprego. Meu chefe derramou-se em elogios ao meu último projeto, mas quanto dura a recordação de um sucesso, quanto posso usufruir essa glória? Será que ainda irão se lembrar do meu projeto quando chegar a próxima rodada de fusões, reengenharias, terceirizações e contratações externas, como decerto acontecerá? Meu sócio e eu parecemos satisfeitos com nossa parceria, mas, e se ele for o primeiro a decidir que a sociedade já se esgotou, que chegou a hora de partir para outra? As crianças têm passado ao largo de problemas até agora, mas quanto tempo vai demorar até que se metam em más companhias, cedam aos traficantes de drogas ou não consigam evitar os ardis dos molestadores de crianças? Tudo isso já seria bem tenebroso se estivesse no fim da lista de preocupações. Mas o rol está longe de chegar ao fim. Aliás, haverá um fim para essa lista?
Roberto Toscano, diplomata italiano e perspicaz analista do cenário mundial contemporâneo, afirma que “há poucas dúvidas sobre a gravidade da crise atual, que se caracteriza por uma combinação letal entre descenso econômico, instabilidade política generalizada, questionamentos acerca da vitalidade dos sistemas democráticos, terrorismo e radicalização das identidades comunitárias, que muitas vezes se tornam violentas, terríveis ameaças à sobrevivência do planeta”. E depois aquele outro fator, talvez tão poderoso quanto os outros – um fator que o sociólogo italiano Ilvo Diamanti há pouco observou: “O medo que os italianos sentem tem pouco a ver com a realidade. Esse medo é acionado pelos programas de televisão.” Na verdade, quando o nível de criminalidade na Itália estava caindo, antes das últimas eleições, os canais de TV de propriedade e administração da família Berlusconi passaram a reforçar diariamente o pavor de criminosos que rondavam a cada esquina e até debaixo da cama. Isso aconteceu na Itália. Mas não só na Itália…
Faltam muitas coisas neste nosso mundo, mas as razões críveis para que esperemos a chegada de problemas não estão entre essas coisas. É perfeitamente natural que, numa ou outra extensão, a  gente sofra de fobofobia (termo cunhado recentemente por Harmon Leon), ou fobia das fobias, medo do medo. É o medo de sentir medo que nos assombra, nós que somos cidadãos desse mundo moderno líquido sempre em mudança, confuso, desordenado e cheio de brumas, imprevisível, em que abundam armadilhas e ciladas.
O medo de estar com medo, e com razões absolutamente válidas para tal – aterrorizados por uma ameaça ainda obscura, imprecisa e difícil de localizar, mas que certamente revelará toda sua face de Górgona, seu semblante horrendo, sua força terrível e satânica quando sair das sombras em que agora se esconde –, esta é a fobia mais comum e mais angustiante do nosso século. O cerne dessa fobia é a perspectiva de estarmos abandonados e sozinhos no momento da desgraça. A medida preventiva mais ansiada e geral contra a possibilidade dessa ocorrência é a tentativa de buscar refúgio na companhia de outros potenciais sofredores da mesma fobia: dar as mãos e não soltá-las, ficar em contato, manter contato e jamais deixar de entrar em contato – esforço em que a maioria de nós investe mais zelo e energia, durante a maior parte do tempo, que em qualquer outra de nossas incontáveis atividades rotineiras.
Vocês se lembram do filme A bruxa de Blair, de 1999, que anunciava o advento do século do “mantenha contato ou morra”? O horror que abateu, paralisou e afinal acabou devorando os três jovens heróis daquela história assustadora reduzia-se – pelo que os espectadores puderam ver – às baterias dos celulares descarregadas e ao fato de eles terem se desviado para uma região fora do alcance de cobertura da rede. É fácil imaginar o tipo de horror de uma situação dessas porque, vez ou outra, a maioria de nós já sentiu seu gosto amargo, pungente, mesmo que, graças a Deus, em versão diluída e atenuada. Por exemplo, quando deixamos o celular em casa, esquecemos de recarregar a bateria, perdemos o aparelho ou ele nos é roubado (tem gente que confessa que sair sem celular é como estar caminhando na rua despido e indefeso, duplamente humilhado, pela vergonha mortal e incapacidade de fazer qualquer coisa a respeito).
O que há em jogo não é tanto estar em contato, mas ter a certeza permanente de que podemos entrar em contato depressa sempre que necessário ou sempre que se deseje. É comum você resistir a interromper uma conversa face a face com um amigo para atender seu celular quando ele toca, de maneira brutal e invasora, ou quando vibra para chamar sua atenção? Não é verdade que o comprimento da lista de endereços do seu Facebook disponíveis para mensagens de voz ou de texto lhe parece mais satisfatória do que falar com seus donos e ouvi-los ao vivo? E a qualidade mais admirada e sedutora da última sensação, o Twitter, não é a oportunidade de sua presença ser notada por uma quantidade imensa de pessoas, em números que excedem sua capacidade ou disposição de travar uma conversa significativa?
Exclusão, expulsão, ser deixado sozinho, descobrir-se abandonado, jogado fora ou ser de alguma forma banido, ficar para trás ou ir longe demais, ter recusado seu pedido de admissão, fazerem com que você se sinta ignorado ou não convidado, deixarem-no esperando horas sem ser recebido – são estes os pesadelos mais comuns neste nosso mundo, bem conhecidos por sua produção em massa de excedentes e redundâncias.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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publicado às 21:51


Conversas de pais e filhos

por Thynus, em 26.03.13

Falando sobre as origens de um dos seus mais belos contos, “A busca de Averróis”, o grande escritor argentino Jorge Luis Borges declarou que sua intenção era “narrar o processo do fracasso”, “da derrota” – como o teólogo à procura de uma prova final e irrefutável da existência de Deus; o alquimista em busca da pedra filosofal; o entusiasta da tecnologia à cata do moto-perpétuo; ou o matemático tentando descobrir a fórmula da quadratura do círculo. Mas depois Borges decidiu que “um caso mais poético” seria “o de um homem que estabelece para si um objetivo que não é proibido para os outros, mas só para ele”. Tomou então o caso de Averróis, o grande filósofo muçulmano que decidiu traduzir a Poética de Aristóteles, mas, “por estar encerrado no âmbito do islã, nunca pôde saber o significado das palavras tragédia e comédia”. O fato é que, “sem nunca ter suspeitado o que é teatro”, Averróis estava inescapavelmente fadado ao fracasso quando tentou “imaginar o que é uma peça de teatro”.
Como tema para uma história maravilhosa contada por um grande escritor, o caso escolhido por Borges se revela “mais poético”. Mas, se o examinarmos pela ótica menos inspirada, mundana e um pouco tediosa da sociologia, o caso parecerá bem mais prosaico. Somente algumas almas intrépidas tentam construir um moto-perpétuo ou descobrir a pedra filosofal; mas buscar em vão compreender o que outros não têm dificuldade alguma para entender é uma experiência que todos nós conhecemos pessoalmente e que reaprendemos a cada dia – nós muito mais, hoje, em pleno século XXI, do que nossos ancestrais. Basta pensar num exemplo: a comunicação com nossos filhos, se os temos, ou com nossos pais, se ainda estiverem vivos.
Há uma longa história de incompreensão recíproca entre gerações, entre os “velhos” e os “jovens”, e de consequente desconfiança mútua. Sintomas desse descompasso já foram percebidos em épocas bastante remotas. Mas a desconfiança entre gerações tornou-se muito mais visível em nossa era moderna, marcada por profundas, contínuas e aceleradas mudanças nas condições de vida. A aceleração do ritmo das mudanças, característica dos tempos modernos e em contraste com os séculos anteriores de interminável reiteração e letárgica mudança, permitiu que as pessoas observassem e tivessem a experiência pessoal de que “as coisas mudam”, que “já não são como costumavam ser”, no decorrer de uma única existência humana. Essa percepção trouxe como consequência o estabelecimento de uma associação (ou mesmo um laço causal) entre as mudanças na condição humana, o afastamento das velhas gerações e a chegada dos mais novos.
Estabelecida essa implicação, tornou-se visível e até evidente que (pelo menos desde o início da modernidade e por toda sua duração) as classes de idade que chegavam ao mundo em diferentes etapas do processo de contínua transformação apresentavam uma tendência a diferir profundamente no modo de avaliar as condições de vida que compartilhavam. As crianças em geral nascem num mundo muito diferente daquele da infância de seus pais, e que estes aprenderam e se acostumaram a ver como padrão de “normalidade”; os filhos jamais poderão visitar esse mundo que deixou de existir com a juventude dos pais.
O que certas “classes de idade” encaram como “natural” – “o modo pelo qual as coisas são”, “o modo como as coisas são normalmente feitas” e, portanto, como “elas devem ser feitas” – pode ser visto por outros como uma aberração, um estranho desvio da norma, talvez uma situação ilegítima e insensata – injusta, abominável, desprezível ou absurda, que exige completa revisão. O que para certas classes de idade parece uma situação agradável, que permite o uso de rotinas e habilidades aprendidas e dominadas à perfeição, pode ser esquisito e chocante para outras; pessoas de idades diferentes podem se sentir à vontade em situações que trazem desconforto para outras, que se veem confusas e desorientadas.
As diferenças de percepção já assumiram tantas facetas que, ao contrário do que se passava nos tempos pré-modernos, os jovens não são mais vistos pelas velhas gerações como “adultos em miniatura” ou “miniadultos”, como “seres ainda não plenamente maduros, mas fadados a amadurecer” (entendendo-se por “maduro” ser “igual a nós”). Hoje, não se espera nem se pressupõe que os jovens “estão em vias de se tornar adultos como nós”; a tendência é vê-los como um tipo diferente, que permanecerá diferentes “de nós” por toda vida. As discrepâncias entre “nós” (os mais velhos) e “eles” (os mais novos) não nos parecem mais corresponder a uma fase passageira e irritante, que tenderá fatalmente a se dissipar e a desaparecer à medida que eles amadureçam para as realidades da vida. Os jovens sem dúvida vão permanecer; eles são irrevogáveis.
A consequência disso é que jovens e velhos tendem a se perceber mutuamente com um misto de incompreensão e mal-entendido. Os mais velhos temem que os recém-chegados ao mundo acabem estragando e destruindo a “normalidade” que conhecem e lhes parece confortável e decente, mas que custaram tanto a construir e preservar com carinho; os mais jovens, ao contrário, têm uma enorme urgência de consertar o que os mais velhos estragaram. Nenhum dos grupos se sentirá satisfeito (pelo menos não completamente) com o atual estado de coisas e com o rumo que seus mundos parecem seguir – e culpa o outro por sua insatisfação.
Em dois números consecutivos de um respeitado semanário inglês, duas avaliações radicalmente distintas foram feitas: um colunista acusou “os jovens” de serem “inúteis, chatos, frouxos, focos de clamídia”; ao que um irado leitor respondeu que os jovens supostamente preguiçosos e negligentes tinham “alto desempenho acadêmico” e na verdade “estavam preocupados com a confusão que os adultos criaram” (Guardian Weekend, 4 e 11 ago 2007). Como em outras incontáveis divergências, trata-se de uma diferença de avaliação e de pontos de vista subjetivos. Nesse tipo de situação, a controvérsia dificilmente pode ser resolvida de modo “objetivo”.
Convém não esquecer ainda que grande parte da geração jovem de hoje jamais passou por dificuldades de vida efetivas, como uma longa depressão econômica e o desemprego em massa. Essa juventude nasceu e cresceu num mundo no qual podia obter apoio de serviços comunitários socialmente produzidos, um guarda-chuva à prova de água e de vento que lhes parecia sempre ao alcance da mão, para protegê-los contra as inclemências do tempo, o frio das chuvas e os ventos gelados; um mundo em que cada nova manhã parecia prometer um dia mais ensolarado que o anterior e mais regado de agradáveis aventuras.
Contudo, enquanto escrevo estas palavras, nuvens escuras vêm se acumulando sobre esse mundo, nuvens cada dia mais sombrias. O estado de felicidade, otimismo e confiança que o jovem pensava ser o estado “natural” do mundo pode não durar muito tempo. O sedimento da última depressão econômica – o prolongado desemprego que diminui as oportunidades de vida das pessoas  e obscurece suas perspectivas de futuro – pode se recusar a desaparecer depressa, se é que um dia desaparecerá; e não há mais tanta certeza quanto a um retorno rápido aos dias ensolarados.
Assim, ainda é muito cedo para determinar se as atitudes e visões de mundo que impregnam os jovens de hoje acabarão se ajustando ao mundo que está por vir, nem como esse mundo se ajustará às suas expectativas mais profundas.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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publicado às 21:50


Destino e caráter

por Thynus, em 26.03.13

“Como podemos agir sem medo de cometer um erro e sem o inevitável risco de inconsequência presente em todo protesto?” Foi essa a pergunta que me fez Martina, uma de minhas leitoras do La Reppublica delle Donne. Minha resposta, a única resposta que pude lhe dar é que, infelizmente, não podemos.
Antes de agir, não há como ter certeza de que os erros não serão cometidos, assim como é impossível saber de antemão se, no fim do dia, teremos provado estar à altura das circunstâncias. O protesto não é a única atividade a que esta regra se aplica. Não há receitas para uma ação à prova de erros, totalmente confiável, “sucesso garantido ou seu dinheiro de volta”; quanto mais importantes forem as ações para nós e para os outros, mais incertos ou mais impossíveis de prever serão seus resultados. Ao contrário do que acontece quando você tenta abrir a embalagem da nova engenhoca da moda que acabou de comprar, as escolhas de vida não vêm com manual de instrução a seguir ponto a ponto. Viver é assumir riscos. Ou, para usar o   memorável veredicto do poeta romano Lucano sobre o amor: viver, como amar, é ser refém do destino.
A vida será difícil, inquietante, assustadora? Sim, pode ser – é provável que seja. O problema é que não temos outra vida. Como afirmou Michel Foucault, temos de criar nosso itinerário de vida e, nesse percurso, também criamos a nós mesmos, tal como as obras de arte são criadas pelos artistas. O curso da vida, sua “finalidade geral”, seu “destino supremo”, só pode ser, é e continuará sendo para sempre um trabalho do tipo “faça você mesmo”. Em nossos dias, cada homem e cada mulher é um artista da vida, não tanto por escolha como por um decreto de destino universal. Isso quer dizer que a “não ação” é tão importante quanto a ação.
Aceitar placidamente o mundo e colaborar com a acumulação de injustiças que contestamos com palavras também é uma escolha, tal qual o protesto e a resistência ativa que dirigimos contra as iniquidades endêmicas que o mundo nos força a seguir de modo obediente. A vida só pode ser uma obra de arte se for uma vida humana, a vida de um ser humano, isto é, de um ser dotado de vontade e liberdade de escolha.
As mais poderosas inteligências da Idade Moderna e suas legiões de seguidores concordaram em apontar Sócrates, o antigo sábio de espírito inquieto, que jamais cedeu em sua busca da verdade, da nobreza e da beleza, como modelo para uma vida bem escolhida, uma vida significativa, nobre, meritória e digna de ser vivida. Além disso, todos o escolheram pela mesma razão: porque Sócrates, esse sábio antepassado do pensamento moderno, foi integral e verdadeiramente (e acima de tudo conscientemente) um self-made man, um mestre da invenção e da afirmação de si mesmo. No entanto, jamais apresentou o modo de ser que escolheu para si e que seguiu bravamente como o modelo universal do único modo de viver válido, isto é, como um modelo que todos deveriam imitar.
Para os grandes filósofos modernos que recomendaram a vida de Sócrates como padrão para a própria vida, “imitar Sócrates” significava construir e harmonizar conscientemente seu próprio self, seu próprio eu, sua personalidade e identidade; e fazer isso com liberdade e autonomia, em vez de copiar a personalidade que Sócrates criou para si – de resto, sem copiar qualquer outra personalidade, seja quem for seu criador. O que importava era a autodefinição e a autoafirmação, a disposição de aceitar que a vida é e deve ser uma obra de arte por cujos méritos e falhas seu “autorator”  é plenamente responsável.
Em outras palavras, “imitar Sócrates” significava recusar-se a imitar a pessoa “Sócrates” ou qualquer outra pessoa – rejeitar a heteronomia, a imitação, a duplicação, a cópia por si só. O modelo de vida que Sócrates escolheu para si, que construiu com esmero e cultivou, apesar de todas as dificuldades (chegando a pôr a morte por envenenamento acima da perspectiva de render-se), era perfeito para o tipo de pessoa que ele era, mas não servirá necessariamente para todos os que insistem em “ser como Sócrates”. A emulação incondicional do modo de viver construído por Sócrates, ao qual ele permaneceu tenazmente fiel, seria uma traição de seu legado e um ato de rejeição a sua mensagem, que pregava antes de mais nada a autonomia e a responsabilidade do indivíduo. Imitação é boa para uma máquina de copiar, mas o resultado jamais corresponderá à criação artística original que (conforme sugeriu Sócrates) a vida humana deve lutar para ser.
Todos os artistas lutam contra a resistência do material no qual desejam imprimir suas visões. Todas as obras de arte trazem em si os rastros dessa luta, de suas vitórias e derrotas, das conciliações que se impuseram, embora isso não as torne menos vergonhosas. Os artistas da vida e suas obras não são exceções a essa regra. Os cinzéis que eles usam (consciente ou inconscientemente, com maior ou menor perícia) para fazer suas gravuras são seus caracteres. Thomas Hardy falou nisso quando declarou que “o destino do homem é seu caráter”. Destino e acasos, seus guerrilheiros, decidem o alcance das escolhas que os artistas da vida irão fazer.
Em seu importante estudo When Light Pierced the Darkness, a socióloga Nechama Tec expôs os resultados de sua investigação sobre os fatores que levaram algumas testemunhas do Holocausto a salvar a vida de vítimas mesmo arriscando a própria vida. Tec calculou com acurácia as correlações estatísticas entre a disposição para ajudar, a presteza para o sacrifício de si mesmo e todos os fatores em geral relacionados à determinação do comportamento humano: meio social, classe, nível de instrução, riqueza, credo religioso e partido político. Mas não encontrou correlação.
Aparentemente, não havia nenhum fator “estatisticamente significativo” que determinasse as escolhas morais. Do ponto de vista estatístico, as pessoas que ajudaram não eram diferentes do resto da população, ainda que o valor moral de seus comportamentos e a relevância humana de suas consequências diferissem muitíssimo das respostas mais comuns entre a maioria.
Por que as pessoas que ajudaram arriscaram-se a engrossar as fileiras das vítimas em vez de fechar as portas e baixar as cortinas para evitar a contemplação do sofrimento? A única resposta possível é que essas pessoas, ao contrário da maioria das outras de sua mesma classe social, instrução, religião e lealdade política, não puderam se comportar de maneira diferente. Simplesmente não puderam agir de outra forma. Preservar o conforto e a segurança física não compensa a aflição espiritual de ver pessoas sofrendo nem as dores da consciência ferida. Provavelmente elas nunca se perdoariam por terem posto seu bem-estar pessoal acima do daqueles que poderiam ter salvado, mas se recusaram a fazê-lo.
Destino e acasos além do controle do ator social tornam algumas escolhas mais prováveis que outras. O caráter, no entanto, desafia as probabilidades estatísticas, despe o destino e os acidentes da vida da onipotência que lhes é atribuída ou que proclamam ter. Entre a aceitação resignada e a decisão arrojada de desafiar a força das circunstâncias está o caráter. É o caráter de um ator que submete as escolhas, aprovadas em testes de probabilidade ou plausibilidade, a outro teste, muito mais exigente e menos apto a transigir ou menos paciente com as escusas: o teste da aceitabilidade moral.
Foi o caráter de Martinho Lutero que o impeliu a declarar, em 31 de outubro de 1517, véspera do Dia de Todos os Santos: “Ich kann nicht anders”, não posso fazer de outra maneira, quando ousou afixar suas 95 teses heréticas na porta da igreja do castelo em Wittenberg.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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publicado às 12:35


 Nosso eterno estado de incerteza instila um anseio profundo e generalizado por uma força, qualquer tipo de força em que possamos confiar e que seja capaz de nos tranquilizar sobre as causas dessa profunda, vaga e difusa consciência ou suspeita de insegurança que atormenta as pessoas comuns, dia e noite, neste mundo líquido moderno. O desejo é que, conhecendo essas causas, a força possa nos ensinar a combatê-las, reduzir-lhes o poder e neutralizá-las de maneira eficaz; ou, melhor ainda, que essa força seja por si mesma poderosa para realizar as tarefas que as pessoas normais, penalizadas com a inadequação de seus conhecimentos, habilidades e recursos, só podem sonhar em fazer por conta própria.
Em suma, há um anseio intenso por uma força confiável e segura à qual se possa recorrer para investigar o invisível e confrontar diretamente o que é obscuro e se oculta de forma traiçoeira – uma força capaz de chamar a si o difícil desafio e derrotar um adversário quase invencível; e que faça tudo isso imediata e integralmente. Para estar à altura dessas expectativas, a força tão sonhada e desejada, em certo sentido, deve ser “sobre-humana”, isto é, deve estar livre das fraquezas humanas comuns e irrecuperáveis, ser engenhosa o suficiente para combater, punir severamente e sufocar toda resistência às suas próprias decisões e projetos.
Essa força poderia ser, como tantas vezes na história antiga, um “deus vivo”. Em nossa época, é mais provável que se trate de alguém que, sem apelar para o status divino, declare lhe ter sido revelados uma conspiração clandestina e um ataque iminente de forças do mal que estão muito além do alcance e da compreensão dos simples mortais; alguém que se diga ungido ou predestinado para a missão de governar e guiar as futuras vítimas no caminho da salvação.
Ela pode ser uma pessoa que proclame merecer a confiança de todos, em virtude de algo semelhante a uma missão dos céus, dona de uma linha direta com o Todo-Poderoso (como, por exemplo, ter acesso a documentos sigilosos fora do alcance dos demais), e se diga possuidora de um caráter à prova de máculas e de uma inata aversão a mentir. Mas também pode se tratar de um organismo coletivo, uma igreja ou um partido que acene com uma procuração universal assinada por Deus e pela história. Seja qual for o tipo de força dotada de poderes sobre-humanos, ela deve se dizer capaz de salvar os perplexos da perplexidade e os impotentes da impotência; de anular as fraquezas humanas sofridas individual ou separadamente por graça da onipotência do eleito de Deus ou da história, e coletivamente, pela nação, classe ou raça de tementes a Deus e de obedientes à história.
Deus ou a história… Duas forças consideradas e assumidas como sobre-humanas associadas numa tarefa sobre-humana. Quer estejam aliadas ou em posições opostas, organizações políticas e religiosas aspiram ao controle da capitalização dos mesmos recursos (a saber, o medo humano da ignorância e da impotência). Como acontece no mercado de produtos com marcas alternativas, as duas forças cooperam para aumentar a demanda de suas mercadorias ou competem entre si pelas boas graças da mesma faixa de consumidores, alegando satisfazer-lhes as necessidades, mas oferecer serviços melhores que os concorrentes.
Agitar abertamente a bandeira da natureza coercitiva da pretensa subjugação (como fizeram os governantes ou conquistadores de épocas passadas) não é uma opção razoável nem plausível na luta pela conquista dos espíritos entre a multiplicidade de ideias vendidas no mercado. Por isso, o apoio que os conquistadores contemporâneos buscam na submissão, credulidade, timidez ou covardia dos consumidores que desejam conquistar e “converter” para seus produtos ou marcas tende a ser laboriosamente encoberto.
Além da reduzida viabilidade e da crescente complexidade pragmática do exercício puro e simples da força coercitiva, há outra razão para desistir de usar a coerção e recorrer a argumentos e justificações: a capacidade que as ameaças explícitas têm de amedrontar tende a se cansar e a esgotar-se muita depressa. Populações largadas em condições de servidão e humilhante inferioridade (por obra de invasores estrangeiros, governantes autoritários locais ou interesses comerciais) cedo ou tarde recuperam seus brios e decidem opor resistência aos usurpadores, por mais opressivos que sejam o poder e a superioridade destes, passando a declarar abertamente sua discordância e recusando-se a colaborar. Essas populações sempre encontram meios de infernizar de tal forma a vida dos conquistadores que um recuo imediato lhes parece incomparavelmente mais interessante que continuar se agarrando ao território invadido, mas não ocupado.
Conquistadores e tiranos nativos preferem se apresentar como benfeitores a confessar suas reais intenções; propagar que trazem presentes (a liberdade, a perspectiva de abundância, os tesouros da vida civilizada) em vez de dizer que estão atrás dos despojos de guerra e de tributos extorsivos. Em geral, as organizações políticas e religiosas buscam implantar e cultivar o que Roberto Toscano e Ramin Jahanbegloo – inspirando-se num ensaio escrito por Étienne de la Boétie cerca de meio milênio atrás – chamaram de “servidão voluntária” (Beyond Violence: Principles for an Open Century). La Boétie desconfiava que, além do medo do castigo, o fenômeno da rendição em massa de parcela substancial de sua liberdade por parte das populações escravizadas devia ser explicado por uma compulsão inata a preferir a ordem, qualquer ordem (até uma ordem que limite severamente a liberdade), a uma liberdade fadada a substituir a contingência e a incerteza, essas gêmeas malditas do mundo moderno, pelo tipo de conforto e paz espiritual que somente a rotina assistida pela força pode oferecer (ainda que seja uma rotina opressiva e limitadora).
Como as organizações que buscam poder político ou religioso atuam no mesmo território, têm em vista a mesma clientela e prometem atender a necessidades semelhantes, não surpreende que tendam a intercambiar técnicas e estratégias, e a adotar, com pequenos ajustes, métodos e argumentos uns dos outros. Os fundamentalismos religiosos recorrem pesadamente ao inventário de problemas sociais que se julga pertencer ao domínio e à propriedade da política; os fundamentalismos políticos (ostensivamente seculares) em geral se valem da linguagem religiosa sobre o combate decisivo do bem contra o mal e usam a tendência monoteísta para detectar, anatematizar e exterminar qualquer sintoma, por minúsculo, inócuo e marginal que seja, de heresia ou heterodoxia, inclusive a atitude morna ou indiferente em relação à (una e única) doutrina verdadeira.

Hoje fala-se muito de “politização da religião”, mas pouca atenção se dá à tendência paralela de “religionarização da política”, demonstrada amplamente e sem pejo pelo último governo dos Estados Unidos, comuníssima no vocabulário político do nosso tempo sob forma um pouco mais atenuada, embora menos explicativa e sincera. Conflitos de interesses que recorrem à negociação e à conciliação (o pão de cada dia da política) são apresentados como um confronto decisivo entre o bem e o mal, uma ação que inviabiliza qualquer acordo negociado. As duas tendências parecem irmãs siamesas inseparáveis; além disso, cada uma tende a projetar na outra seus antigos demônios internos.
O saudoso filósofo Leszek Kolakowski interpretava o fenômeno religioso como manifestação e demonstração da insuficiência do ser humano. O sentimento de grupo cria problemas que não se pode compreender, não se pode enfrentar ou as duas coisas. Diante desses problemas, a lógica humana fica ameaçada de patinar ou soçobrar. Sem conseguir distorcer as irracionalidades que localizou no mundo para adequá-las ao rigoroso marco da razão humana, a lógica as elimina da esfera dos assuntos humanos e as transfere para regiões reconhecidamente inacessíveis do pensamento e da ação (sabendo-se que a definição de Deus é incomparável à capacidade de pensar e à inteligência do homem, e que o conceito de divino compõe-se de atributos que os próprios homens anseiam possuir, mas não têm esperança alguma de alcançar).
Aliás, é por esse motivo que Kolakowski está no caminho certo quando frisa que os teólogos eruditos causaram mais mal do que bem à religião, e continuam a fazê-lo toda vez que se voltam para trás em busca da “prova lógica” da existência de Deus. Os homens contam com estudiosos e conselheiros autorizados para servir à lógica e louvá-la. Precisam de Deus para seus milagres, não para seguir as leis da lógica; para exercer sua capacidade de realizar o anormal, o fora do comum, o inconcebível, não para lançar mão de sua habilidade de preservar e reforçar a rotina, o inevitável, o predeterminado (para Ele, é romper com essas coisas ou ignorá-las, façanha com que os homens sonham, mas acham impossível realizar); apela-se para sua inescrutabilidade e incompreensibilidade, não para sua transparência ou previsibilidade; para sua capacidade de virar do avesso o rumo dos acontecimentos; para sua capacidade de desdenhar a ordem ostensivamente refratária e indomável das coisas, em vez de submeter-se com servilismo a ela, como os homens são pressionados a fazer e como a maioria deles, na maior parte do tempo, faz com resignação. Em suma: os seres humanos precisam de um deus onisciente e onipotente (ou seus autoproclamados representantes terrenos) a quem prestar contas para domar e domesticar todas essas forças terríveis, aparentemente cegas, surdas e mudas que não podem ser alcançadas pela compreensão e pela capacidade de agir dos homens.
O futuro dos dois pretendentes contemporâneos à condição de forças sobre-humanas – a religião politizada e a política religionarizada – é entrelaçado ao futuro da incerteza humana, com o futuro de um estado continuamente exacerbado pela realidade da modernidade líquida em suas duas representações: de incerteza coletiva (relativa à segurança e à capacidade das espécies humanas como um todo, lançadas em e dependentes de um mundo natural que elas são incapazes de domesticar); e de incerteza individual (relativa à segurança das pessoas, sua posição social, sua identidade, num hábitat que, isolada, separada e coletivamente, elas são incapazes de domesticar). Nosso desamparo e a consequente solidão no Universo, a ausência de um tribunal de apelação dotado de poderes aos quais recorrer em caso de calamidades difíceis de lidar, são assustadores demais para a maioria dos homens. Nessa perspectiva, parece que Deus morrerá com a humanidade – e não um segundo antes dela.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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publicado às 23:53


A moda, ou o moto-contínuo

por Thynus, em 25.03.13

Perpetuum mobile, moto-perpétuo ou contínuo – mecanismo independente e autossuficiente que contém tudo necessário para permanecer em movimento ininterrupto, eterno, sem qualquer impulso exterior que mantenha o funcionamento, sem estímulo, ímpeto ou tração, nem sequer uma interferência de força externa ou acréscimo de energia.
Desde os tempos de Galileu e Newton, pelo menos, o motoperpétuo era um sonho de sábios e místicos, de bricoleurs e trapaceiros, objeto de febril experimentação e causa de intermináveis frustrações. De quando em quando se anunciava a milagrosa descoberta ou invenção de um motoperpétuo que sempre falhava na hora da prova, e era rejeitado como mera ilusão nascida do amadorismo ignorante ou da pura vigarice de alguém movido pela ambição e ajudado por uma plateia de crédulos; tudo isso reduzido, afinal, a mais uma nota de rodapé na longa e ainda inconclusa história da insensatez humana.
Recentemente, a ideia do moto-perpétuo foi enterrada na lata de lixo das concepções populares equivocadas, não tanto em decorrência da longa sucessão de desapontamentos, mas por causa do veredicto de inexequibilidade e da pena capital imposta pela física moderna.
Não é o caso de discutir as declarações dos físicos. Quando se trata da “realidade física” e das condições de movimento dos corpos móveis, de mudar a velocidade ou direção do movimento, ou fazê-lo cessar, a última palavra cabe sem dúvida a eles, e devemos aceitá-la com toda humildade. Mas, no nível da realidade, no plano “social” – em que os corpos, embora ainda submetidos às leis da física, são indiferentes aos propósitos e motivos, e, ademais, estão sob a regra da mudança intencional –, acontecem coisas com as quais (como diria Shakespeare) os físicos jamais teriam sonhado.
Nesse outro mundo, de súbito, um moto-perpétuo – uma mudança autoinduzida, autopropelida e autossustentável, um movimento que sobressai não tanto por sua incapacidade de prosseguir sozinho quanto por sua incapacidade de cessar ou mesmo de se desacelerar – torna-se, mais que uma possibilidade, uma realidade. A moda é o exemplo supremo dessa contingência.
“Sobre a moda”, afirmou certa vez Georg Simmel, “não se pode dizer que ela ‘é’, pois está sempre ‘se fazendo’” (“Zur Psychologie der Mode: Soziologische Studie”). No caso da moda, ao contrário dos processos físicos, e em estreita conformidade ao conceito e ao tipo ideal do moto-perpétuo, não é inconcebível a eventualidade de se estar em eterna mudança (sem parar de atuar); impensável é uma interrupção da cadeia de alterações autoinduzidas já iniciadas. O aspecto mais impressionante dessa extraordinária qualidade é que o processo de mudança não perde força enquanto seu impacto no mundo em que opera continua a se realizar. “Tornar-se” moda é inesgotável e irrefreável, mas esse ímpeto e essa capacidade sempre tendem a crescer e a acelerar à medida que aumentam o volume de seu impacto material tangível e o número de objetos que ela afeta.
Se a moda fosse apenas um processo físico comum, ela constituiria uma anomalia monstruosa a transgredir as leis da natureza. Só que a moda não é um fenômeno da física: ela é um fenômeno social. E a vida social como um todo é um mecanismo espantoso, que consegue sustar a segunda lei da termodinâmica ao construir um enclave protegido contra a maldição da entropia, a “grandeza termodinâmica” que representa (segundo o site www.princeton.edu) “a quantidade de energia num sistema que não pode mais se transformar em trabalho”; e que “aumenta conforme a matéria e energia do Universo se degradam até um estado final de uniformidade inerte”.
No caso da moda, a “uniformidade inerte” não é o “estado final”; na verdade, esta é uma perspectiva cada vez mais distante. É como se a moda possuísse válvulas de escape que se abrem muito antes de alcançar o objetivo final da “uniformidade” – como se sabe, uma das motivações humanas essenciais para ativar o movimento perpétuo do processo da moda –, e, com isso, ameaçassem solapar ou anular o poder de atração e sedução que ela exerce.
Considerando-se a entropia um fenômeno de “contradiferenciação”, a moda – cujo impulso deriva da tendência humana a sentir aversão pela diferença e a almejar a equalização – consegue reproduzir em quantidades sempre crescentes as mesmas divisões, desigualdades, discriminações e privações que prometeu mitigar, nivelar ou até eliminar de todo.
Embora seja uma impossibilidade no universo da física, o moto-perpétuo se insere na esfera da realidade no mundo social, onde se converte em norma. Como isso é possível? Simmel explica: reunindo dois anseios ou impulsos humanos igualmente poderosos e incontroláveis – parceiros inseparáveis, embora sempre em conflito, que impelem ou arrastam as ações humanas em direções opostas. Recorrendo mais uma vez ao vocabulário da física para construir nossas metáforas, podemos dizer que, no caso da moda, a “energia cinética” do movimento é gradual, embora totalmente transformada em energia potencial apta a se converter em energia cinética para ativar o contramovimento. O pêndulo continua a oscilar e, a princípio, pode continuar a fazê-lo por tempo indeterminado a partir do momento linear.
Os dois impulsos ou anseios em questão são: fazer parte de um todo maior e individualizar-se ou distinguir-se; um sonho de pertencimento e um sonho de autoafirmação; um desejo de apoio social e a obsessão de autonomia; ao mesmo tempo, o ímpeto de imitar e a tendência a separar. Enfim, a necessidade de contar com a segurança de dar as mãos a alguém e a liberdade para soltar-se delas. Ou, examinando por outro ângulo esse dilema emocional: o medo de destacar-se e o pavor da dissolução do ego.
Como tantos casais legalmente formados (talvez até a maioria), segurança e liberdade não podem viver uma sem a outra, mas logo se descobre que a convivência dos dois valores é tarefa muito difícil. Segurança sem liberdade é um atestado de escravidão, mas liberdade sem segurança é condenar-se a uma permanente crise de nervos e a uma irremediável incerteza.
Privados da compensação ou da restrição de sua parceira (melhor dizendo, de seu alter ego), tanto a segurança quanto a liberdade perdem os valores desejados e se transformam em pesadelos aterradores. Segurança e liberdade ao mesmo tempo necessitam uma da outra e não se suportam; ao mesmo tempo se desejam e lutam, embora a proporção dos dois sentimentos contraditórios mude a cada um dos frequentes afastamentos (frequentes demais, quase uma rotina) do “caminho do meio”, que significa um compromisso temporário.
Em geral, as tentativas de compensar e conciliar os dois sentimentos acabam se mostrando incompletas, muito aquém da plena satisfação e sobretudo frágeis demais e instáveis para adotar um ar de inexorabilidade. Sempre há problemas menores a ser resolvidos. Mas toda vez que se tenta ajustá-los eles ameaçam romper o delicado tecido da relação social. É por esse motivo que as tentativas de conciliação jamais alcançam seu objetivo explícito ou implícito, manifesto ou latente, embora ele nunca seja ou possa ser efetivamente abandonado.
Por isso, a convivência entre segurança e liberdade está fadada a se tornar uma rotina de som e fúria. A endêmica e insolúvel ambivalência desses sentimentos faz com que eles sejam uma fonte inesgotável de energia criativa e de mudança obsessiva. Pela mesma razão, a convivência está predestinada a ser um moto-perpétuo.
“A moda”, escreveu Simmel, “é uma forma peculiar de vida por meio da qual se procura estabelecer uma solução de compromisso entre a tendência à igualdade social e a tendência à distinção individual.” Vale lembrar que o compromisso jamais pode constituir uma situação de “equilíbrio permanente”; ele não pode ser definido de uma vez por todas: a cláusula “até segunda ordem” (que, aliás, é abominavelmente concisa) está gravada de modo indelével em sua própria forma de existir.
Essa solução de compromisso, como a moda, está sempre “se fazendo”. Ela não pode ficar no mesmo lugar, deve ser perpetuamente renegociada. Mobilizada pelo impulso competitivo (ver a Introdução do meu livro Arte da vida), a busca do que está na moda induz depressa a que se construam símbolos banais e comuns de distinção, de modo que o mais breve momento de desatenção logo gera o efeito contrário: a perda da individualidade. É preciso arranjar logo novos símbolos; os de ontem devem ser imediata e ostensivamente descartados.
O preceito do “que não é mais aceitável” tem de ser tão meticulosamente observado e com diligência obedecido quanto o preceito do que “é novo e (hoje) em ascensão”. Uma situação de status indicada, comunicada e reconhecida pela posse e exibição de símbolos da moda (de curtíssima duração e irritante volatilidade) tanto pode ser definida pela exposição visível de certos símbolos quanto por sua ausência também visível. No resumo sucinto mas incisivo publicado no jornal The Guardian, de 9 de setembro de 2009, Hadley Freeman escreve que “a indústria da moda não está interessada em fazer as mulheres se sentirem bem consigo mesmas. A moda tem a ver com fazer as pessoas desejarem algo que provavelmente não têm, … e qualquer satisfação que obtenham é efêmera e ligeiramente decepcionante.”
O moto-perpétuo da moda é o destruidor especializado, treinado e testado de toda e qualquer paralisação do movimento. A moda projeta estilos de vida sob a forma de permanente e infindável revolução. Dado que o fenômeno da moda está íntima e inseparavelmente vinculado a dois atributos “eternos” e “universais” do modo humano de estar no mundo, com sua também irreparável incompatibilidade interna, a presença ubíqua desse fenômeno não se limita a uma ou mais formas selecionadas de vida. Em qualquer momento da história humana e em qualquer território habitado por seres humanos, o fenômeno da moda realiza a função crucial de introduzir mudanças constantes na norma de nosso estar no mundo. Contudo, a maneira de realizar essa função e as instituições que a sustentam e ajudam variam de acordo com diferentes formas de vida.
A variedade atual do fenômeno da moda é determinada pela colonização e exploração desses aspectos eternos da condição humana por parte dos mercados de consumo.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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publicado às 20:49

O capitalismo, exatamente como os sistemas de números naturais do famoso teorema de Kurt Gödel (embora por razões diversas), não pode ser simultaneamente coerente e completo. Se é coerente com seus princípios, surgem problemas que não é capaz de enfrentar. Se ele tenta resolver esses problemas, não pode fazê-lo sem cair na incoerência em relação a seus próprios pressupostos fundamentais.
Muito antes que Gödel redigisse seu teorema, Rosa Luxemburgo já havia escrito seu estudo sobre a “acumulação capitalista”, no qual sustentava que esse sistema não pode sobreviver sem as economias “não capitalistas”: ele só é capaz de avançar seguindo os próprios princípios enquanto existirem “terras virgens” abertas à expansão e à exploração – embora, ao conquistá-las e explorá-las, ele as prive de sua virgindade pré-capitalista, exaurindo assim as fontes de sua própria alimentação.
Sem meias palavras, o capitalismo é um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento. Mas não pode fazer isso sem prejudicar o hospedeiro, destruindo assim, cedo ou tarde, as condições de sua prosperidade ou mesmo de sua sobrevivência.
Escrevendo na época do capitalismo ascendente e da conquista territorial, Rosa Luxemburgo não previa nem podia prever que os territórios pré-modernos de continentes exóticos não eram os únicos “hospedeiros” potenciais, dos quais o capitalismo poderia se nutrir para prolongar a própria existência e gerar uma série de períodos de prosperidade.
Hoje, quase um século depois de Rosa Luxemburgo ter divulgado sua intuição, sabemos que a força do capitalismo está na extraordinária engenhosidade com que busca e descobre novas espécies hospedeiras sempre que as espécies anteriormente exploradas se tornam escassas ou se extinguem. E também no oportunismo e na rapidez, dignos de um vírus, com que se adapta às idiossincrasias de seus novos pastos.
Há uma piada sobre dois vendedores que viajam para a África representando suas respectivas empresas de calçados. O primeiro envia uma mensagem para a matriz: não mandem sapato algum, todos aqui andam descalços. A mensagem enviada pelo segundo foi: mandem dez milhões de pares imediatamente – todos aqui andam descalços. Essa velha anedota foi estabelecida como um elogio à perspicácia comercial agressiva e como condenação da filosofia empresarial predominante na época: dos negócios voltados para a satisfação de necessidades existentes, com as ofertas produzidas em resposta à demanda corrente. No entanto, nas poucas dezenas de anos que se seguiram, a filosofia empresarial completou uma virada.
Agora, num cenário exitosamente transformado, de uma sociedade de produtores (com os lucros provindo sobretudo da exploração do trabalho assalariado), numa sociedade de consumidores (sendo os lucros oriundos sobretudo da exploração dos desejos de consumo), a filosofia empresarial dominante insiste em que a finalidade do negócio é evitar que as necessidades sejam satisfeitas e evocar, induzir, conjurar e ampliar novas necessidades que clamam por satisfação e novos clientes em potencial, induzidos à ação por essas necessidades: em suma, há uma filosofia de afirmar que a função da oferta é criar demanda. Essa crença se aplica a todos os produtos – sejam eles fábricas ou sociedades financeiras. No que diz respeito à filosofia dos negócios, os empréstimos não são exceção: a oferta de empréstimos deve criar e ampliar a necessidade de empréstimos.
A introdução dos cartões de crédito foi um sinal do que viria a seguir. Foram lançados “no mercado” cerca de 30 anos atrás, com o slogan exaustivo e extremamente sedutor de “Não adie a realização do seu desejo”. Você deseja alguma coisa, mas não ganha o suficiente para adquiri-la? Nos velhos tempos, felizmente passados e esquecidos, era preciso adiar a satisfação (e esse adiamento, segundo um dos pais da sociologia moderna, Max Weber, foi o princípio que tornou possível o advento do capitalismo moderno): apertar o cinto, privar-se de certas alegrias, gastar com prudência e frugalidade, colocar o dinheiro economizado na caderneta de poupança e ter esperança, com cuidado e paciência, de conseguir juntar o suficiente para transformar os sonhos em realidade.
Graças a Deus e à benevolência dos bancos, isso já acabou! Com um cartão de crédito, é possível inverter a ordem dos fatores: desfrute agora e pague depois! Com o cartão de crédito você está livre para administrar sua satisfação, para obter as coisas quando desejar, não quando ganhar o suficiente para obtê-las.
Esta era a promessa, só que ela incluía uma cláusula difícil de decifrar, mas fácil de adivinhar, depois de um momento de reflexão: dizia que todo “depois”, cedo ou tarde, se transformará em “agora” – os empréstimos terão que ser pagos; e o pagamento dos empréstimos, contraídos para afastar a espera do desejo e atender prontamente as velhas aspirações, tornará ainda mais difícil satisfazer os novos anseios. O pagamento desses empréstimos separa “espera” de “querer”, e atender prontamente seus desejos atuais torna ainda mais difícil satisfazer seus desejos futuros. Não pensar no “depois” significa, como sempre, acumular problemas. Quem não se preocupa com o futuro, faz isso por sua própria conta e risco. E certamente pagará um preço pesado. Mais cedo do que tarde, descobre-se que o desagradável “adiamento da satisfação” foi substituído por um curto adiamento da punição – que será realmente terrível – por tanta pressa. Qualquer um pode ter o prazer quando quiser, mas acelerar sua chegada não torna o gozo desse prazer mais acessível economicamente. Ao fim e ao cabo, a única coisa que podemos adiar é o momento em que nos daremos conta dessa triste verdade.
Por mais amarga e deletéria que seja, esta não é a única pequena cláusula anexada à promessa, grafada em letras maiúsculas, do “desfrute agora, pague depois”. Para impedir que o efeito dos cartões de crédito e do crédito fácil se reduza a um lucro que o emprestador só realiza uma vez com cada cliente, a dívida contraída tinha de ser (e realmente foi) transformada numa fonte permanente de lucro.
Não pode pagar sua dívida? Em primeiro lugar, nem precisa tentar: a ausência de débitos não é o estado ideal. Em segundo lugar, não se preocupe: ao contrário dos emprestadores insensíveis de antigamente, ansiosos para reaver seu dinheiro em prazos prefixados e não renováveis, nós, modernos e benevolentes credores, não queremos nosso dinheiro de volta. Longe disso, oferecemos mais créditos para pagar a velha dívida e ainda ficar com algum dinheiro extra (ou seja, alguma dívida extra) a fim de pagar novas alegrias. Somos os bancos que gostam de dizer “sim”. Seus bancos amigos. Bancos “que sorriem”, como dizia uma de suas mais criativas campanhas publicitárias.
O que nenhuma publicidade declarava abertamente, deixando a verdade a cargo das mais sinistras premonições dos devedores, era que os bancos credores realmente não queriam que seus devedores pagassem suas dívidas. Se eles pagassem com diligência os seus débitos, não seriam mais devedores. E são justamente os débitos (os juros cobrados mensalmente) que os credores modernos e benevolentes (além de muito engenhosos) resolveram e conseguiram transformar na principal fonte de lucros constantes. O cliente que paga prontamente o dinheiro que pediu emprestado é o pesadelo dos credores.
As pessoas que se recusam a gastar um dinheiro que ainda não ganharam, abstendo-se de pedi-lo emprestado, não têm utilidade alguma para os emprestadores, assim como as pessoas que (levadas pela prudência ou por uma honra hoje fora de moda) se esforçam para pagar seus débitos nos prazos estabelecidos. Para garantir seu lucro, assim como o de seus acionistas, bancos e empresas de cartões de crédito contam mais com o “serviço” continuado das dívidas do que com seu pronto pagamento. Para eles, o “devedor ideal” é aquele que jamais paga integralmente suas dívidas.
Os indivíduos que têm uma caderneta de poupança e nenhum cartão de crédito são vistos como um desafio para as artes do marketing: “terras virgens” clamando pela exploração lucrativa. Uma vez cultivadas (ou seja, incluídas no jogo dos empréstimos), não se pode mais permitir que escapem, que entrem “em pousio”. Quem quiser quitar inteiramente seus débitos antes do prazo deve pagar pesados encargos.
Até a recente crise do crédito, os bancos e as empresas de cartões de crédito se mostravam mais que disponíveis a oferecer novos empréstimos aos devedores inadimplentes, para cobrir os juros não pagos sobre os débitos anteriores. Uma das maiores empresas de cartões de crédito da Grã-Bretanha causou escândalo (um escândalo de curta duração, podemos estar certos) quando revelou o jogo, recusando-se a fornecer novos cartões de crédito aos clientes que quitavam inteiramente seus débitos mensais, sem incorrer, portanto, no pagamento de encargos financeiros.
Resumindo: a atual “contração do crédito” não é resultado do insucesso dos bancos. Ao contrário, é o fruto, plenamente previsível, embora não previsto, de seu extraordinário sucesso. Sucesso ao transformar uma enorme maioria de homens, mulheres, velhos e jovens numa raça de devedores. Alcançaram seu objetivo: uma raça de devedores eternos e a autoperpetuação do “estar endividado”, à medida que fazer mais dívidas é visto como o único instrumento verdadeiro de salvação das dívidas já contraídas. O hábito universal de buscar mais empréstimos era visto como a única forma realista (ainda que temporária) de suspensão da execução da dívida.
Hoje, ingressar nessa condição é mais fácil do que nunca antes na história da humanidade, assim como escapar dessa condição jamais foi tão difícil. Todos os que podiam se transformar em devedores e milhões de outros que não podiam e não deviam ser induzidos a pedir empréstimos já foram fisgados e seduzidos para fazer dívidas.
Como em todas as mutações precedentes do capitalismo, desta vez o Estado também participou da criação de novos pastos a explorar: foi do presidente Clinton a iniciativa de introduzir nos Estados Unidos as hipotecas subprime. Elas eram garantidas pelo governo, a fim de oferecer crédito, para compra da casa própria, a pessoas desprovidas dos meios de pagar a dívida assumida, e, portanto, a fim de transformar setores da população até então inacessíveis à exploração creditícia em devedores.
Mas assim como o desaparecimento de pessoas descalças representa um problema para a indústria de calçados, o desaparecimento de pessoas não endividadas representa um desastre para a indústria de crédito. E a famosa previsão de Rosa Luxemburgo mostrou-se novamente verdadeira: mais uma vez, o capitalismo esteve perigosamente perto de um suicídio indesejado, conseguindo exaurir o estoque de novas terras lucrativas.
Nos Estados Unidos, o endividamento médio das famílias cresceu algo em torno de 22% nos últimos oito anos – tempos de uma prosperidade que parecia não ter precedente. A soma total das aquisições com cartões de crédito não ressarcidas cresceu 15%. E a dívida, talvez ainda mais perigosa, dos estudantes universitários, futura elite política, econômica e espiritual da nação, dobrou de tamanho. Os estudantes foram obrigados/encorajados a viver a crédito, a gastar um dinheiro que, na melhor das hipóteses, só ganhariam muitos anos mais tarde (supondo que a prosperidade e a orgia consumista durem até lá).
O adestramento para a arte de “viver em dívida” e de forma permanente foi incluído nos currículos escolares nacionais. A Grã-Bretanha também chegou a situação bem semelhante. Em agosto de 2008, a inadimplência dos consumidores superou o total do Produto Interno Bruto da Grã-Bretanha. As famílias britânicas têm dívidas num valor superior a tudo o que suas fábricas, fazendas e escritórios produzem. Os outros países europeus não estão em situação muito diversa. O planeta dos bancos está esgotando as terras virgens e já se apropriou implacavelmente de vastas extensões de terras endemicamente estéreis.

(Zygmunt Bauman - "Vida a crédito")

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