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Deus e dignidade

por Thynus, em 20.12.12

O gesto daquele chefe índio do Brasil foi terrível. Levava consigo a Bíblia que entregou ao Papa João Paulo II, com estas palavras: "Fique com esse livro e faça com que os cristãos o cumpram. Quanto a nós, já sofremos - nós e os nossos antepassados - o suficiente por causa dele".
Desgraçadamente, aquele índio tinha razão. Tantos homens e mulheres que foram escravizados, humilhados, torturados, física, psíquica e espiritualmente, com base na Bíblia e noutros livros sagrados!... Até o apartheid foi defendido com a Bíblia na mão... E ainda se degola gente da forma mais bárbara, argumentando com o Corão, o livro sagrado dos muçulmanos...
Houve, e há ainda, homens e mulheres para quem teria sido preferível nunca ter ouvido falar em Deus, melhor: não ter tido contacto com certas formas de religião. De facto, a religião foi muitas vezes para muita gente causa de desgraça, de infelicidade, de tortura física e interior: pense-se no envenenamento da vida causado pelo pânico do inferno, pense-se na Inquisição, nas guerras de tipo religioso, na queima das bruxas, nos escrúpulos, nos traumas sexuais...
Mas, depois desta constatação, é preciso também proclamar bem alto: o Deus em nome do qual se humilhou gente, se torturou, se escravizou, não é Deus. É apenas um ídolo que os seres humanos criamos para satisfazer as nossas loucuras, afugentar os nossos medos e legitimar a nossa ânsia de dominação. Uma religião que conduz à menoridade mental, uma religião que escraviza, que faz andar de rastos, das duas uma: ou é uma religião falsa ou os crentes interpretam-
-na mal. A razão é simples: Deus tem de ser, pelo menos, melhor do que nós, seres humanos. Ora, um ser humano sadio não pode querer a menoridade de ninguém, não pode tolerar a humilhação, a injustiça, a escravatura, a indignidade...
Por isso, é preferível não acreditar em Deus a acreditar num deus que humilha o homem, o escraviza, o torna menor... Se o crente, pelo facto de sê-lo, se não sente mais humano, mais livre, mais digno, mais fraterno, com uma obrigação acrescentada de lutar por mais humanidade, por mais dignidade, por mais liberdade, por mais fraternidade, por mais alegria, só tem uma coisa a fazer, e o mais depressa possível: deixar de acreditar.
Nisto, os ateus, não os ateus vulgares, mas aqueles que sabem o que isso quer dizer, vêem por vezes mais claro que os próprios crentes. Ernst Bloch, por exemplo, viu bem, quando, aliás na linha de Hegel, escreveu que na religião autêntica se exprime a infinita dignidade de ser homem. Foi ele também que disse que até ele se inclinaria perante um cardeal ou bispo que dissesse e praticasse aquela palavra de Jesus, referente ao Juízo Final: aquilo que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim que o fizestes.

(Anselmo Borges - "Janela do (In)Visível")

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publicado às 19:05



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