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por Thynus, em 02.12.12
CARNAVAL PARA MIM era o cheiro. Até hoje, quando penso nos carnavais do Rio da minha infância, lembro do cheiro do lança-perfume. O lança-perfume era tudo. Havia uns em vidro, frágeis como ampolas, mas o belo símbolo do carnaval era o Rodouro Metálico. Até hoje me irrita pensar que baniram esta linda arma da alegria do "tríduo momesco", como os barrocos cronistas chamavam o carnaval. Era um tubo dourado, grosso, que ejetava o fino jato de éter que gelava o dorso das odaliscas e havaianas adolescentes que se torciam em risos trêmulos. O perfume flutuava pelas avenidas e crescia como uma nuvem de felicidade salpicada de pontos coloridos de confete e rasgada por serpentinas, envolvendo tudo numa espécie de ar condicionado com flores invisíveis. Levávamos os tubos dourados como uma arma na mão e, com os lenços encharcados, cheirávamos o éter e delirávamos, tropeçando pelo salão, vendo o mundo girar, os tambores ressoando lentos e surdos, a multidão passando numa ventania, os cantos misturados em uivos longínquos. Quando proibiram o Rodouro Metálico — acho que foi na ditadura –alguma coisa se perdeu na alegria das avenidas.
O carnaval foi deixando de ser dos "foliões" para ser um espetáculo para os outros; o carnaval deixou de ser vivido para ser olhado, virou uma horda de exibicionismos sexuais, uma suruba iminente sem o sensual perfume do passado. Carnaval sempre foi sexo — tudo bem — mas, antes, havia a suave caretice, uma moralidade mínima, havia cortesia, havia clima de amor nos bailes e não a desbragada orgia. Hoje há os corpos
malhados, excessivamente nus, montanhas de bundas competindo em falsa liberdade, pois ninguém tem tanto tesão assim, ninguém é tão livre assim. Falta a celulite, falta o mau jeito, falta o medo, a ingenuidade, o romantismo, falta Braguinha, falta Lamartine Babo, falta Mario Lago.
Outro dia, vi, com êxtase, umas cenas em technicolor que o Orson Welles rodou no carnaval do Rio de 42. Como todos eram fraquinhos, magrinhos, com as fantasias pobres, improvisadas... Mas, justamente nesta precariedade estava um Brasil que foi se
perdendo na monumentalidade da ditadura, do "milagre" brasileiro, uma beleza simples que sumiu "no turbilhão da galeria", como cantava a letra de "Camisa Amarela", de Ary Barroso — síntese do velho carnaval popular.
O carnaval virou um produto. Por isso, eu tenho saudades das marchinhas toscas que começavam a tocar nos rádios por volta de dezembro, lembro das bobas fantasias — legionários, piratas, cowboys — influenciadas pelos filmes americanos, lembro da casa Turuna na cidade, com máscaras penduradas, morcegos, pretos velhos, fantasmas, lembro das escolas de samba a pé na avenida Presidente Vargas, um bando de índios de bigode e penas de espanador, pintados de preto, seguidos pelas gordas baianas cobertas de balangandãs, a multidão olhando, apanhando dos "casse-têtes" da PE, a temida Polícia Especial de boinas vermelhas e Harley-Davidsons.
Dirão meus inimigos: esse idiota está louvando o atraso. Estou sim. Naquele atraso havia ainda uma preciosa alma brasileira, um ritmo humano de esperança que se via não só no carnaval, mas no futebol, esperança que se via nos bondes, nos botecos, nos caixotes dos bicheiros nas ruas, nas cadeiras da calçada e até nas favelas líricas e sem droga.
Nossa fraqueza nacional devia ter sido curada por outros métodos; não pela violência das mudanças que a ditadura trouxe e que, depois, a globalização americana sacramentou. Não se desenvolve a delicada alma de uma cultura pela massificação indiscriminada. Voltarão meus inimigos: "Isso é o óbvio, outros já disseram." Mas, o óbvio tem de ser repetido.
O carnaval de hoje parece uma calamidade pública musicada por uma euforia desesperada e disputada pelo narcisismo oportunista de burgueses e burguesas se despindo para aparecer na TV. Para descobrir um carnaval mais puro, há que ir à Mangueira, às velhas-guardas, aos blocos-de-sujo das ruas pobres, aos clowns (clóvis) de Santa Cruz (ainda os há!). Não há mais músicas de carnaval. Notaram! Pra quê! Só há os corpos, as alegorias, as multidões enlouquecidas sem cabeça.
Tenho vontade de chorar quando lembro de um Brasil que estava seguindo seu rumo próprio, feito de toscos sambinhas, de permanências coloniais, de equívocos... e que de repente se viu jogado num progresso vertiginoso que não era o seu, num crescimento desconstrutivo e bruto.
Em matéria de saudades, sou nacionalista. Tenho vontade de botar uma camisa amarela, sair com um reco-reco e um pandeiro na mão e sumir no turbilhão da galeria da minha vida que já passou.

(Arnaldo Jabor, in "Amor é Prosa, Sexo é Poesia")

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publicado às 22:39


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