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Ócio e negócio

por Thynus, em 07.12.12

É sabido que a narrativa bíblica da criação do mundo é mítica. Ora, quando se fala de mito, frequentemente a ideia que se tem é a de uma historieta própria de primitivos e crianças, portanto, sem interesse para seres pensantes, adultos e reflexivos. Mas não é assim. Como escreveu o filósofo Paul Ricoeur, o mito dá que pensar. E dá que pensar, porque, dentro da sua estrutura, tem algo de decisivo a dizer-nos sobre os valores, o significado e sentido últimos da existência, do mundo e da história.
Na narrativa da criação, diz-se também, por exemplo, que ao sétimo dia Deus descansou. Pretende-se desse modo legitimar o preceito do sábado e o seu descanso. É significativo que haja um mandamento que ordena que se descanse ao sábado (com o cristianismo, o preceito mantém-se, embora já não no sábado, mas no domingo, que significa o dia do Senhor).
Este descanso não é sinónimo de preguiça e facilitismo. Tem a ver com ócio, que não é de modo nenhum a mesma coisa que ociosidade. Esquecemos que a nossa palavra escola provém do grego scholê, que significa precisamente ócio, mas ócio enquanto tempo livre para as actividades próprias do homem livre, que não está sujeito às actividades servis. Trata-se, portanto, essencialmente do ócio da liberdade e para a liberdade.
O homem, ao contrário do animal, é o ser que trabalha. Pelo trabalho, provê ao sustento da sua vida e faz-se a si mesmo fazendo o mundo: é mundanizando-se que o homem se humaniza. Mas o ser humano não se define exclusivamente pelo trabalho. O homem é um ser lúdico, festivo. Sem a festa, o homem correria o risco de transformar-se num besta de carga.
Aí está, portanto, a razão fundamental do preceito que manda guardar e santificar o sábado ou o domingo. Os mandamentos de Deus compreendem-se no quadro da libertação da escravidão do Egipto. No essencial, ordenam: Foste liberto da servidão; por conseguinte, agora, não escravizes ninguém, não te deixes escravizar por ninguém, não sejas escravo de ti próprio. Os mandamentos não são fardos. Pelo contrário, são indicações dos caminhos que levam àquilo que constitui o homem: a liberdade. O preceito do descanso dominical, sobretudo em tempos em que o trabalho, devido à sua dureza até do ponto de vista físico, tinha tanto de opressivo, constituía apelo à consciência de dignidade livre: o ser humano não é besta de carga.
O domingo é, pois, em primeiro lugar, experiência e exercício do ócio da liberdade para a liberdade. Deveria constituir o espaço do encontro mais vivo com a família, do convívio com a natureza na sua força criadora, da realização artística, da música, da poesia, da beleza, da comunicação mais intensa com o Infinito, também pela oração...
Em contraposição com o ócio há o negócio. E do pior que tem o tipo de sociedade que criámos é que até do ócio faz negócio.

 

(Anselmo Borges – “Janela do (In)Visível”)

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publicado às 20:27



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