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Entre a batina e a aliança

por Thynus, em 05.12.12


Edlene Silva conta em livro a conturbada trajetória da abstenção sexual desde a Idade Média à criação do Movimento de Padres Casados


Entre a batina e a aliança existem milhares de homens de fé tentados pelo desejo. Só no Brasil, estima-se que pelo menos quatro mil padres deixaram a função sacra para casar e ter uma família. Pesquisa da Universidade de Brasília revela que a dificuldade de se mant
er casto diante do afloramento da sexualidade sempre existiu entre sacerdotes, desde a Idade Média. “A história mostra que celibato é uma prática insustentável”, afirma Edlene Silva.


A pesquisadora conta a conturbada trajetória do celibato, desde a sua criação pela igreja no século XII à recente fundação do Movimento de Padres Casados, na década de 1970, no livro Entre a Batina e a Aliança: Sexo, Celibato e Padres Casados. A publicação, fruto de uma tese de doutorado defendida em 2008, no Departamento de História, chega às mãos dos leitores às 18h desta quarta-feira, 30 de março, na livraria Sebinho, na Quadra Comercial 406, da Asa Norte.


A professora Edlene investigou a questão da abdicação do celibato entre sacerdotes. Para isso, ela investigou a institucionalização do Movimento de Padre Casados no Brasil, fundado em 1979 no Rio de Janeiro. “Na década de 1970, eram 30 casais. Hoje são milhares de padres em todo o país”, observa. “Busquei compreender como esse movimento se formou e quem são essas pessoas que vivenciam o conflito de largar a batina para se casar”, completa a professora.


Antes de chegar aos dias de hoje, a pesquisadora baiana buscou as raízes do celibato, que se tornou obrigatório para o clero latino no século XII. Ela encontrou evidências de que, desde a sua criação, a abstenção sexual de padres sempre esteve rodeada de conflitos, violência e dramas pessoais. “O concubinato (união entre casais não formalizada pelo casamento religioso) foi o crime mais cometido na igreja tanto na Idade Média como na Idade Moderna. Uma resposta a uma imposição”, conta.


A pesquisadora avalia a obrigatoriedade do celibato como uma demonstração de força e uma forma de diferenciar o clérigo das pessoas comuns. “Em meados do século XVI, com a Reforma Protestante, o celibato foi radicalizado e reforçado como uma resposta da igreja aos questionamentos de Lutero”, conta. “Foi nesse período de conflitos, em que a Inquisição perseguia fortemente o concubinato, que a igreja abriu os primeiros seminários para formação dos chamados homens santos”, observa.


O concubinato só veio a ser debatido publicamente pela igreja no início da década de 1960, com o Concílio Vaticano Segundo. Na época, a pressão social pelo desligamento de padres casados ilegalmente e ainda em atividade levou a instituição a autorizar a concessão de licença para os sacerdotes que desejassem abdicar da atividade como padre para se casar na igreja. “Houve uma debandada geral de padres em todo mundo, o que revelou um problema escondido pela repressão”, avalia.


CRISE – A perda de padres para o casamento levou o papa João Paulo II a endurecer a postura da igreja diante do concubinato. “Apesar de não proibir a prática, a igreja classificava os dissidentes como infelizes, imorais, infiéis e doentes”, relata Edlene. A postura rígida continuou após a morte de João Paulo II, em 2005, e permanece até os dias de hoje na figura do papa Bento XVI. “Ele é um dos mais duros em relação ao celibato”, afirma. “Entraves para a concessão da licença, que chega a levar 15 anos para sair, e críticas ao sexo mesmo no casamento são comuns no Vaticano”.


E é nesse contexto de crise que o Movimento dos Padres Casados do Brasil se encontra. “A história desses homens revela a necessidade de se debater um tema que ainda é visto como tabu e, sob o meu ponto de vista, mostra-se insustentável”, afirma Edlene. Segundo ela, apesar de largar a batina para se casar, a grande maioria deles ainda se considera padre. “O casamento não desfaz os vínculos com a igreja e com a fé”, conta ela, que chegou a encontrar padres que rezavam missas clandestinamente.


Pela falta de material de pesquisa sobre o assunto, Edlene buscou informações em registros encontrados em jornais, revistas, internet e em entrevistas com líderes do movimento. “É um tema muito pouco pesquisado, mas creio que o livro permite ao leitor fazer seu julgamento sobre o olhar que lancei sobre a história”, avalia ela.

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publicado às 14:20



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