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Pode-se e deve-se viver sem drogas

por Thynus, em 05.04.07

 

São muitas as pessoas que não amam a sua vida concreta. E muito menos sabem vivê-la. Talvez porque não encontram nem procuram razões para viver. A vida quotidiana torna-se-lhes dura e penosa. Excessivamente aborrecida, monótona, rotineira e vulgar. Vivem prisioneiros das coisas. Demasiado agitados, aturdidos e vazios para poder deter-se a aprofundar a sua vida e tentar responder à sua verdadeira vocação de ser pessoas.
Quando a isto se junta um clima social conflitivo e um horizonte de insegurança e crise, é fácil a tentação de evadir-se para um "mundo feliz" que nos console da vida real e nos anestesie dos dissabores e amarguras de cada dia.
Cada um procura a sua «via de escape» e consome a sua própria droga. E seria um engano crer-nos livres de toda «a dependência da droga» só porque não somos escravos de nenhuma substância tóxica. Não é fácil calcular o número de «dependentes da televisão» que devoram diariamente duas ou três horas de televisão (mais de mil horas por ano). Sentados passivamente diante do televisor encontram na tela do televisor um alento sem o qual não saberiam viver. Outros recorrem ao álcool ou às jantaradas de fim-de-semana. Há os partidários do bingo ou do loto. Cresce o número dos que não podem prescindir da telenovela.
O importante é fugir, esquecer, «deixar-se levar», diluir-se fora de si mesmo, não enfrentar-se com um projecto de vida pessoal, não assumir com responsabilidade a própria vida.
Não se pode viver uma vida autenticamente humana sob a escravidão duma droga. Todos precisamos despertar da inconsciência, da evasão e da superficialidade em que caímos constantemente. Pode-se e deve-se viver sem droga.

Em jeito de conclusão, não resisto sem citar o grito de liberdade de José Régio em o "Cântico Negro":
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"

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publicado às 06:16



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