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"Uma mulher precisa de um homem como um peixe da bicicleta." Era assim nos anos sessenta que as feministas gritavam nas ruas para mudar o mundo. Já passaram quatro décadas desde esse período extraordinário de mudanças. As mulheres de hoje - pelo menos nas nossas latitudes - são mais livres, mais conscientes, mais autónomas, mais auto-confiantes. Mas não parecem ser mais felizes. A mudança cultural de "solteironas" tristes e amargas a "sós", dinâmicas e capazes de aproveitar a vida, parece ter deixado em aberto uma necessidade, uma ferida. As mulheres de facto - com muito mais frequência do que os homens - sentem fome, empanturram-se, vomitam, desejam sem controle a "propriedade alheia" (trate-se de objectos ou de amantes), perseguem de forma compulsiva homens relutantes ou fugitivos. É precisamente deste "sintoma" - a busca desesperada de um homem a qualquer preço – que trata este livro. O fenómeno é transversal, atinginge as jovens ou as cinquentonas, as bonitas ou as feias, as donas de casa ou as gerentes. É um distúrbio que se assemelha à bulimia: o que importa é comer, não importa o quê, não importa o quanto. Na bulimia sentimental o mecanismo é idêntico: deseja-se um homem não por amor, por simpatia ou atração sexual. Deseja-se um homem para convencer-se de valer alguma coisa, um homem sem qualquer condição, para preencher antigos e profundíssimos sentimentos de alienação e vazio.
Sete mulheres na apaixonada e desesperada procura de um amor. Sete "sós" que falam dos seus sentimentos, dos seus desejos e dos seus medos, que lidam com a memória dos homens que conheceram na vida real e com os fantasmas dos homens ideias, que se escondem nas suas mentes e do seu coração. Eis as protagonistas do último livro de Gianna Schelotto, dedicado às dificuldades e fracassos amorosos de muitas mulheres dos nossos dias, mas que não desistem e continuam na busca de uma alma gémea. Frequentemente acabam passando de história em história, de homem em homem, impulsionadas pela ânsia de preencher um vazio, e não pelos imperativos do amor e do sentimento. Colecionam decepção após decepção, sentindo-se ainda mais sozinhas. "Depois de anos de batalhas e mudanças femininas, esta forma de viver a relação com homens deixa-as incertas e desorientadas. Poder-se-ia pensar num repúdio devastador de tudo o que as mulheres reivindicaram e conquistaram nos seus relacionamentos de casal”, escreve a autora. Mas essas situações são muito comuns hoje em dia. Em muitos casos são devidas a dificuldades psicológicas e caracteriais, mas é sem dúvida verdade que esta situação é hoje reforçada por um clima social de insegurança e ansiedade. À propensão caracterial e individual acrescenta-se uma situação social e geral que aumenta o sentimento de abandono e a pulsão da procura desesperada de um companheiro. Insegurança, más experiências, medos que têm raízes na infância, a relutância inconsciente em aceitar víncolos e responsabilidades: várias podem ser as causas que decretam a falta de um parceiro fixo, mas idênticas são as dificuldades e os sofrimentos que causam.
Disso é um exemplo a história de "Melhor só", narrada no primeiro capítulo. Na espera do enésimo encontro no escuro com um desconhecido contactado através de um anúncio, "Melhor só", sentada a uma mesa de um bar, conta a sua história em primeira pessoa, como nas páginas de um diário ou numa confissão. Do primeiro amor, Claudio, à história com o colega de trabalho, Gianni, até aos muitos homens contactados em jornais ou em bate-papo, que depois não tem a coragem de encontrar. Ao analisar a parábola da vida desta mulher, a autora propõe uma reflexão sobre os efeitos dos contratempos emocionais, sobre a perda da auto-estima, sobre a sedução que se torna um instrumento de controle sobre os outros, impedindo, no entanto, uma abertura sincera e partilha.
Ao invés de abordar a questão de forma analítica, expondo teses e teorias, Schelotto, como comunicadora hábil, prefere oferecê-la como uma história. Obtem assim o efeito de envolver e apaixonar o leitor como se estivesse lendo um romance. Com a diferença de que se trata de páginas da vida real, onde cada mulher poderá reconhecer a voz de alguém próximo, uma amiga, uma irmã, uma mãe ou, talvez, uma parte de si mesma.

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publicado às 12:34



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