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M+3=15

por Thynus, em 04.09.17
Antes de me julgar, pense em toda merda que você já fez.
 

Uma grande amizade tem que ser igual a bunda: tão unida que merda nenhuma separa.
Rafael Pires 
 

Nunca conte uma mentira se você pode conseguir as coisas falando merda."
(E. Ambler.- Dirty Story)   
 
Sinceridade nada mais é do que falar merda!
(Harry G. Frankfurt, - Sobre Falar Merda)  
 
 
Um dos traços mais notáveis de nossa cultura é que se fale tanta merda. Todos sabem disso. Cada um de nós contribui com sua parte. Mas tendemos a não perceber essa situação. A maioria das pessoas confia muito em sua capacidade de reconhecer quando se está falando merda e de evitar se envolver. Assim, o fenômeno nunca despertou preocupações especiais nem induziu uma investigação sistemática.
Por causa disso, não temos uma idéia clara do que é falar merda, da razão para que se fale tanta ou para que serve. E nos falta também uma avaliação conscienciosa do que isso significa para nós. Em outras palavras, não dispomos de uma teoria. Proponho iniciar o desenvolvimento de uma compreensão teórica do que significa falar merda, oferecendo algumas análises experimentais e exploratórias.
Não vou considerar seus usos e abusos retóricos. Meu objetivo é apenas fornecer uma descrição aproximada do que é falar merda e do que não é — ou (em outros termos) articular, de uma forma mais ou menos resumida, a estrutura desse conceito.
Qualquer sugestão sobre as condições logicamente necessárias e suficientes para constituir o ato de falar merda está destinada a ser arbitrária. Por um lado, a expressão falar merda é empregada livremente — como um termo ofensivo genérico, sem um significado literal muito especifico. Por outro, o fenômeno é tão vasto e amorfo que nenhuma análise concisa e perspicaz de seu conceito consegue deixar de ser procustiana. Entretanto, deve ser possível dizer algo de útil, mesmo sem muita probabilidade de que seja conclusivo Até as questões mais básicas e preliminares sobre o que é falar merda não apenas permanecem sem resposta como nem sequer são perguntadas.
Até onde sei, pouquíssimos trabalhos foram desenvolvidos sobre o assunto. Não empreendi um levantamento sobre sua literatura, em grande parte porque não saberia como fazê-lo. É certo que há um lugar muito óbvio para se dar uma olhada — o Oxford English Dictionary. O OED tem um verbete para falação de merda, nos volumes suplementares, e também outros para vários usos pertinentes de falação e de outros termos relacionados. Farei considerações sobre alguns desses verbetes no devido momento. Não consultei dicionários de outras línguas que não o inglês, porque não conheço as palavras para falação de merda ou falação em qualquer outro idioma. Outra fonte importante é o titulo do ensaio The Prevalence of Jiumbug [A predominância da impostura], de Max Black.{1} Não estou seguro quanto à proximidade de significado entre a palavra impostura e a expressão falar merda. É claro que essas palavras não são completa e livremente intercambiáveis; são com certeza usadas de formas diferentes. Porém, essa diferença parece ter, no todo, mais a ver com questões de boas maneiras, e com alguns outros parâmetros retóricos, do que com as formas estritamente literais de significado nas quais estou interessado. É mais educado, e menos pesado, dizer “impostura” do que “merda”. No caso desta discussão, vou supor que não há nenhuma outra diferença importante entre os dois termos.
Black sugere uma série de sinônimos para impostura, como os seguintes: embuste, deturpação, lengalenga, conversa fiada, lorota, tapeação e charlatanice. Essa lista singular de equivalentes não é muito útil. Entretanto, Black enfrenta mais diretamente o problema de estabelecer o conceito do que é impostura e oferece a seguinte definição formal:
 
IMPOSTURA: embuste enganador próximo da mentira, em especial por meio de palavra ou ato pretensioso, em relação aos próprios pensamentos, sentimentos ou atitudes.{2}
 
Uma formulação bastante similar poderia ser plausivelmente oferecida para enunciar as características essenciais de falar merda.
Como uma preliminar para o desenvolvimento de uma descrição independente dessas características, vou comentar os vários elementos da definição de Black.
Embuste enganador: Isso pode soar pleonástico. Sem dúvida, o que Black tem em mente é que a impostura pretende ou tenciona necessariamente enganar, que seu embuste não é algo inadvertido. Em outras palavras, trata-se de uma coisa deliberada. Assim, se, por uma questão de necessidade conceitual, a intenção de enganar é uma característica invariável da impostura, então a qualidade de ser impostura depende, ao menos em parte, do estado de espírito de seu perpetrador. Esse estado de espírito não pode, portanto, ser idêntico a qualquer propriedade seja inerente ou relacional — do discurso por meio do qual a impostura é perpetrada.
Sob esse aspecto, a propriedade de ser impostura é semelhante à da mentira, que não é idêntica nem à falsidade nem a nenhuma das outras propriedades contidas na afirmação do mentiroso, mas que requer que ele a faça num determinado estado de espírito a saber, com a intenção de enganar.

Uma questão adicional é se há alguma característica essencial à impostura ou à mentira que não dependa das intenções e das crenças da pessoa responsável por ambas, ou se, pelo contrário, é possível que algum tipo de afirmação se torne — uma vez que o falante se encontre num determinado estado de espírito - um veículo para a impostura ou a mentira. Em certas descrições do ato de mentir, não existe mentira nenhuma a menos que uma declaração falsa seja feita; em outras, o indivíduo pode estar mentindo mesmo que sua afirmação seja verdadeira, contanto que ele acredite que a mesma é inverídica e que pretenda, ao fazê-la, enganar. E sobre criar imposturas e falar merda? Pode alguma espécie de afirmação ser qualificada como impostura ou merda, desde que (por assim dizer) o estado de espírito do falante seja o correto, ou o enunciado deve também ter características próprias?

Próxima da mentira: Tem de ser parte do argumento dizer que a impostura encontra-se “próxima da mentira”, que, embora tendo algumas de suas características eminentes, há outras que lhe faltam. Contudo, isso não pode constituir-se no todo do argumento. Afinal de contas, qualquer uso da linguagem, sem exceção, revela não todos mas alguns dos traços característicos da mentira nem que seja ao menos o aspecto de ser um uso da linguagem. Entretanto, seria certamente incorreto descrever qualquer uso da linguagem como próximo da mentira. A expressão de Black evoca a noção de algum tipo de contínuo, em que a mentira se situa num certo segmento enquanto a impostura está localizada exclusivamente em posições anteriores. Que contínuo poderia ser esse, ao longo do qual a impostura só fosse encontrada antes da mentira? Ambas são formas de embuste. Num primeiro olhar, não fica claro como a diferença entre essas variedades de embuste poderia ser interpretada como uma diferença de grau.
Em especial por meio de palavra ou ato pretensioso: Existem dois pontos a serem observados aqui. Primeiro, Black identifica a impostura não apenas como uma categoria do discurso, mas da ação também; ela pode dar-se tanto por palavras quanto por atos. Segundo, seu uso do qualificativo “em especial” indica que Black não considera a pretensão como característica essencial, ou totalmente indispensável, da impostura. Sem dúvida, muitas imposturas são pretensiosas. Além do mais, no que concerne a falar merda, “pretensão de merda” encontra-se muito próximo de ser um lugar-comum. Contudo, inclino-me a pensar que, quando a merda é pretensiosa, isso acontece porque a pretensão é mais um motivo que um elemento constitutivo de sua essência. O fato de uma pessoa comportar-se pretensiosamente não é, parece-me, parte do que é exigido para tornar seu discurso uma ocorrência de falar merda. Isso é o que justifica, muitas vezes, a enunciação desse discurso. Todavia, não se deve presumir que falar merda tenha sempre e necessariamente a pretensão como motivo.
Embuste (…) em relação aos próprios pensamentos, sentimentos ou atitudes: Essa cláusula de que o perpetrador da impostura está criando uma deturpação de si levanta algumas questões muito centrais. Para começar, toda vez que uma pessoa deturpa de moto próprio qualquer coisa, ela está inevitavelmente deturpando o próprio estado de espírito. É possível para uma pessoa deturpar apenas este último por exemplo, fingindo experimentar um desejo ou um sentimento que na verdade não tem. Mas suponhamos que o indivíduo, seja ao contar uma mentira ou de outra forma qualquer, deturpe alguma outra coisa. Nesse caso, ele está necessariamente deturpando duas coisas: o que está dizendo -- ou seja, o estado de coisas que é o tópico ou o referente do seu discurso e, ao fazer isso, não pode impedir-se de deturpar o próprio espírito também. Assim, alguém que mente sobre quanto dinheiro tem no bolso ao mesmo tempo dá essa informação e transmite a ideia de acreditar nela. Se a mentira funciona, a vítima é então duas vezes enganada, ao acreditar falsamente no conteúdo do bolso do mentiroso e no que vai em sua mente.
Ora, não e provável que Black deseje que o referente da impostura seja, em todos os casos, o estado de espírito do falante. Não há uma razão particular, afinal de contas, para que a impostura não seja a respeito de outras coisas. É provável que Black queira dizer que ela não se propõe basicamente a dar ao seu público uma idéia falsa do estado de coisas do tópico, seja qual for, mas que sua intenção principal é, antes, oferecer a esse público uma falsa impressão do que se passa no espírito do falante. Na medida em que se trata de uma impostura, criar essa impressão é seu propósito e objetivo essencial.

Entender Black ao longo dessas linhas sugere uma hipótese que explica sua caracterização da impostura como “próxima da mentira”. Se minto a respeito de quanto dinheiro tenho, então não estou fazendo uma afirmação explícita com relação às minhas crenças. Portanto, pode-se com alguma credibilidade afirmar que, embora ao mentir eu esteja deturpando o que se passa em minha cabeça, essa deturpação — diferente daquela sobre a quantia em meu bolso - não é exatamente uma mentira. Pois não estou propalando por aí qualquer afirmação sobre o que se passa em minha cabeça. Nem a afirmação que faço — por exemplo, “tenho vinte dólares no bolso” implica qualquer declaração que me atribua uma crença. Por outro lado, é inquestionável que, ao fazer a afirmação, forneço uma boa base para se fazerem certos julgamentos sobre o que acredito. Em particular, ofereço um fundamento razoável para que se suponha que eu creio ter vinte dólares no bolso. Já que essa suposição é por hipótese falsa, ao mentir, estou enganando os outros com relação ao que se passa em meu espírito, mesmo que não esteja na verdade mentindo sobre isso. Visto sob esse aspecto, não parece artificial ou impróprio considerar que estou deturpando minhas crenças de uma forma que é “próxima da mentira”.

É fácil pensar em situações familiares pelas quais a descrição de Black sobre a impostura parece confirmar-se sem problemas. Imagine um orador do Quatro de Julho que discursa bombásticamente sobre “nosso grande e abençoado país, cujos fundadores, sob orientação divina, criaram um novo começo para a humanidade”. É com certeza uma impostura. Como a descrição de Black sugere, o orador não está mentindo. Ele só estaria fazendo isso se tivesse a intenção de provocar na platéia crenças que considerasse falsas, a respeito de questões como se nosso país é grande, se é abençoado, se os fundadores receberam orientação divina e se o que eles fizeram foi de fato criar um novo começo para a humanidade. Contudo, o orador não se importa na verdade com o que a platéia pensa sobre os fundadores ou sobre o papel da divindade na história de nosso país ou algo equivalente. O que motiva seu discurso não é o interesse no que qualquer um pensa sobre essas questões.
O que torna o discurso do Quatro de Julho uma impostura não é que o orador considere suas afirmações falsas. Pelo contrário, como sugere a descrição de Black, o orador pretende que essas afirmações transmitam uma certa impressão dele. Ele não está tentando enganar ninguém sobre a história americana. A opinião das pessoas sobre ele é que o preocupa. Ele quer ser considerado um patriota, alguém com idéias e sentimentos profundos sobre as origens e a missão de nosso pais, alguém que aprecia a importância da religião, que é sensível à grandeza de nossa história, cujo orgulho dessa história combina com a humildade perante Deus, e assim por diante.
A descrição que Black faz da impostura parece, assim, adaptar-se confortavelmente a certos paradigmas. Entretanto, não creio que apreenda de modo adequado ou com precisão o caráter essencial do falar merda. Como ele diz sobre a impostura, é correto afirmar que falar merda encontra-se próximo da mentira e que aqueles que falam estão, de certo modo, deturpando-se. Contudo, a descrição feita por Black desses dois aspectos encontra-se significativamente longe da verdade. Tentarei fazer agora, analisando um material biográfico referente a Ludwig Wittgenstein, uma avaliação preliminar, porém de foco mais preciso, das características fundamentais do falar merda.
Wittgenstein disse uma vez que o fragmento de verso a seguir, de Longfellow, poderia servir-lhe de mote.{3}
 
Nos tempos antigos da arte
Os construtores com todo cuidado trabalhavam
Cada minúscula e invisível parte,
Pois os deuses em todo lugar se encontravam.
 
O significado dessas linhas é claro. Antigamente, os profissionais não se poupavam trabalho. Labutavam com atenção e tinham cuidado com os menores aspectos de sua lida. Todas as partes do produto eram consideradas, e cada uma delas projetada e feita para ser tal como deveria. Esses profissionais não relaxavam em sua zelosa autodisciplina, mesmo em relação àqueles detalhes de sua ocupação que não eram comumente visíveis, Embora ninguém fosse reparar se eles não estivessem precisamente corretos, os artífices seriam incomodados por suas consciências. Dessa forma, não se varria nada para baixo do tapete. Ou, pode-se também dizer, não se fazia merda.
É fácil produzir artigos feitos sem cuidado, de qualidade inferior, que revelam semelhanças, até certo ponto, com o falar merda. Mas de que modo? Será essa semelhança a de que falar merda sempre ocorre de maneira descuidada ou comodista, de que jamais é uma enunciação elegante, que em sua expressão nunca há aquele delicado e atencioso desvelo com os detalhes ao qual Longfellow alude? Será o falador de merda, pela própria natureza, um idiota desmiolado? Será o seu produto necessariamente sujo ou grosseiro? A palavra merda com certeza sugere isso. O excremento não é de modo algum projetado ou elaborado; é apenas emitido ou descarregado. Pode ter uma forma mais ou menos coesa ou não, mas não é decerto trabalhado.
A noção de se falar merda com cuidadoso apuro envolve, assim, um certo esforço interior, Uma atenção ponderada aos detalhes requer disciplina e objetividade. Ela acarreta a aceitação de padrões e limites que proíbem a tolerância com impulsos e caprichos. É essa abnegação, em relação a falar merda, que nos parece inadequada. Ela não está, entretanto, fora de questão. A área da propaganda e das relações públicas e, hoje em dia, a intimamente ligada área da política estão repletas de exemplos tão consumados de falar merda que podem servir como os paradigmas mais inquestionáveis e clássicos do conceito. E, nessas áreas, existem profissionais extremamente sofisticados que — com o auxilio de técnicas avançadas e requisitadas de pesquisa de mercado, de levantamentos da opinião pública, de testes psicológicos e por aí afora — se dedicam de forma incansável a usar cada palavra e imagem que produzem da maneira mais correta.

Entretanto, há algo mais a se dizer sobre isso. Embora o falador de merda se conduza da forma mais estudada e conscienciosa possível, continua sendo verdade que está tentando levar alguma coisa. Há com certeza em seu trabalho, como no do profissional relapso, um tipo de relaxamento que resiste ou engana as exigências de uma disciplina desinteressada e austera. O modo pertinente de relaxamento não pode ser comparado, evidentemente, à simples negligência ou desatenção com os detalhes. Tentarei no momento oportuno localizar isso com mais exatidão.

Wittgenstein dedicou grande parte de suas energias filosóficas a identificar e combater o que via como formas insidiosamente nocivas de “contra-senso”. Ao que tudo indica, ele era assim na vida pessoal também. Isso é demonstrado num caso relatado por Fania Pascal, que o conheceu em Cambridge na década de 1930:
 
Fiz uma operação para retirar as amígdalas e estava na Casa de Enfermagem Evelyn, sentindo-me triste. Wittgenstein fez-me uma visita. Eu resmunguei “Sinto-me como um cachorro atropelado.” Ele ficou contrariado: “Você não sabe como um cachorro atropelado se sente.{4}
 
Ora, quem sabe o que aconteceu na verdade? Parece extraordinário, quase inacreditável, que alguém possa fazer objeções a sério ao que Pascal relata ter dito. Essa caracterização de seus sentimentos — tão inocentemente próxima à expressão mais que corriqueira “cachorro doente” — não é provocativa o bastante para despertar uma reação tão vívida ou intensa como a contrariedade. Se a comparação de Pascal é ofensiva, então que usos figurativos ou alusivos da língua não o seriam?
Talvez isso não tenha de fato ocorrido da forma como Pascal diz. Pode ser que Wittgenstein estivesse tentando fazer uma pequena piada, e esta não tenha funcionado. Ele estaria apenas fingindo repreender Pascal, só pelo prazer de uma hipérbole; e ela compreendeu seu tom e intenção de forma errada, achando que Wittgenstein ficou contrariado com sua observação, quando na verdade ele só estava tentando reanimá-la com uma critica ou brincadeira jocosamente exagerada. Nesse caso, o incidente não é nem um pouco incrível ou estranho.
Mas, se Pascal não conseguiu reconhecer que Wittgenstein estava apenas provocando, talvez então a possibilidade de que ele estivesse falando sério não fosse tão fora de propósito. Ela o conhecia e sabia o que esperar dele; sabia como ele a fazia sentir-se. O modo de entender ou não a observação dele tinha, assim, grandes probabilidades de não ser de todo incompatível com sua opinião de como ele era. Podemos até supor que, mesmo se seu relato do incidente não for absolutamente fiel à intenção de Wittgenstein, ele é fiel o bastante à idéia de Pascal sobre Wittgenstein a ponto de ter feito sentido para ela. Para os propósitos desta discussão, aceitarei o relato de Pascal literalmente, supondo que, quando se tratou de usar uma linguagem alusiva ou figurativa, Wittgenstein foi na verdade tão despropositado como ela o descreve.
Então, o que o Wittgenstein do relato dela considera tão censurável? Vamos supor que ele esteja correto sobre os fatos: ou seja, Pascal não sabe de fato como um cachorro atropelado se sente. Mesmo assim, quando diz o que pensa, ela claramente não está mentindo. Mentiria se, ao fazer sua afirmação, estivesse na verdade passando muito bem. Pois, por menos que ela soubesse sobre a vida dos cachorros, deveria com certeza estar claro para Pascal que, quando eles são atropelados, não se sentem bem. Assim, se ela estivesse de fato passando bem, teria sido uma mentira afirmar que se sentia como um cachorro atropelado.
O Wittgenstein de Pascal pretende acusá-la não de mentir, mas de outro tipo de deturpação. Ela caracteriza seu sentimento como “a sensação de um cachorro atropelado”. Ela não está na verdade familiarizada com o sentimento ao qual essa frase se refere. Naturalmente que a frase está longe de significar para ela um contra-senso absoluto; Pascal não está falando disparates. O que diz tem uma conotação inteligível, que ela com certeza entende. Além disso, Pascal de fato sabe alguma coisa sobre a natureza da sensação a que a frase se refere: sabe ao menos que ela é indesejável e desagradável, uma sensação ruim. O problema com sua afirmação é que ela pretende transmitir algo mais que o simples não estar bem. Sua caracterização do sentimento é muito específica; é excessivamente particular. O que ela experimenta não é uma sensação ruim qualquer, mas, de acordo com seu relato, o tipo inconfundível de sensação ruim que um cachorro tem quando é atropelado. Para o Wittgenstein da história de Pascal, a julgar por sua resposta, isso é falar merda.
Ora, supondo-se que Wittgenstein considera, de fato, que a caracterização de Pascal sobre como se sente é um exemplo de falar merda, por que isso o impressiona dessa forma? A resposta, acredito eu, é que ele percebe uma falta de preocupação, digamos assim, com a verdade no discurso de Pascal. Sua afirmação não está ligada à iniciativa de descrever a realidade. Ela nem sequer pensa que sabe, a não ser de uma maneira muito vaga, como um cachorro atropelado se sente. Sua descrição desse sentimento é, portanto, algo que ela está simplesmente inventando.

Pascal cria isso do nada; ou, se o ouviu de alguém, repete-o de forma displicente e sem a menor consideração pelas coisas como realmente são.

É por essa displicência que o Wittgenstein de Pascal a censura. O que o deixa contrariado é o fato de ela nem sequer se preocupar se sua afirmação está ou não correta. Existe uma grande probabilidade, é claro, de que ela esteja dizendo o que diz apenas como um esforço desajeitado para falar com vivacidade, ou de parecer jovial e bem-humorada; e não há dúvida de que a reação de Wittgenstein — do modo como ela vê — é absurdamente intolerante. Seja como for, seu significado parece claro. Ele reage como se percebesse que Pascal fala sem pensar, sem dedicar uma atenção conscienciosa aos fatos pertinentes. Sua afirmação não vem “elaborada com todo o esmero”. Ela a enuncia sem nem sequer preocupar-se em levar em conta sua exatidão.
A circunstância que aborrece Wittgenstein não é que Pascal tenha errado em sua descrição de como se sente. Nem que ela tenha cometido esse erro por descuido. Seu desleixo, ou falta de cuidado, não foi ter permitido que um erro escapasse em sua fala por causa de um lapso negligente, inadvertido ou momentâneo da atenção que dedicava a entender as coisas da maneira certa. Pelo contrário, a questão é que, até onde Wittgenstein pode perceber. Pascal oferece a descrição de um certo estado de coisas sem se submeter às restrições que a tentativa de fornecer uma representação precisa da realidade impõe. Seu erro não é que ela não tenha conseguido entender as coisas, mas que nem ao menos tentasse fazê-lo.
Isso é importante para Wittgenstein porque, justificadamente ou não, ele toma o que Pascal diz a sério, como uma declaração que pretende dar uma descrição informativa de como ela se sente. Ele a vê envolvida numa atividade para a qual a distinção entre verdadeiro e falso é crucial e, no entanto, como se não se importasse se o que diz é verdadeiro ou falso. É nesse sentido que a afirmação de Pascal não está ligada a uma preocupação com a verdade: ela não se importa com o valor de verdade do que diz. É por isso que não pode ser observada como se estivesse mentindo; porque ela não presume conhecer a verdade e, portanto, não pode estar difundindo por querer uma proposição que supõe ser falsa: Sua afirmação não está baseada nem na crença de que é verdadeira, como uma mentira deve estar, nem de que não é verdadeira. E essa falta de preocupação com a verdade — essa indiferença em relação ao modo como as coisas realmente são - que considero a essência do falar merda.
Farei agora algumas considerações (muito seletivas) sobre certos itens, no Oxford English Dictionary, que são pertinentes ao esclarecimento da expressão falar merda. O OED define falação como “uma conversa ou discussão informal”. A característica desse tipo de discussão informal que constitui uma falação é, segundo me parece, algo assim: embora a conversa possa ser intensa e significativa, ela não é de certa forma “para valer”.
Os tópicos característicos de uma falação têm a ver com aspectos da vida bastante pessoais e carregados de emoção - como religião, política ou sexo. Em geral, as pessoas relutam em falar muito abertamente sobre esses assuntos quando supõem que podem ser levadas a sério. O que costuma acontecer numa falação é os participantes manifestarem várias idéias e atitudes, a fim de ver como é ouvir a si mesmos falando essas coisas e descobrir como os outros reagem, sem que se presuma que estejam comprometidos com o que dizem: numa falação todos entendem que as afirmações feitas pelas pessoas não revelam necessariamente suas crenças ou sentimentos verdadeiros. O principal é possibilitar um alto nível de franqueza e uma abordagem experimental ou algo aventureira dos assuntos em questão. Portanto, providências são tomadas para que se goze de uma certa irresponsabilidade, de forma a encorajar as pessoas a comunicarem o que vai em suas mentes, sem muita ansiedade quanto a serem cobradas por isso.
Cada um dos participantes de uma falação se fia, em outras palavras, num reconhecimento geral de que aquilo que ele expressou ou disse não é para ser entendido como sendo o que pensa de verdade ou acredita de coração. O propósito da conversa não é transmitir crenças. Assim, as costumeiras hipóteses sobre a relação entre o que as pessoas dizem e aquilo em que acreditam ficam eliminadas. As afirmações proferidas numa falação são diferentes de falar merda porque não há a pretensão de que essa relação esteja sendo mantida. Elas se assemelham a falar merda em razão de não serem, de forma alguma, restringidas por uma preocupação com a verdade. Essa similaridade entre falação e falar merda é também sugerida pela expressão metendo o malho, que se refere a um tipo de conversa que também caracteriza as falações e na qual o termo malho é, muito provavelmente, um substituto mais higiênico para merda.
Um tema semelhante é discernível num uso britânico de falação, no qual, de acordo com o OED, o termo refere-se a “tarefas ou cerimoniais de rotina desnecessários; disciplina excessiva ou ‘cuspir e polir ’; — formalidades”. O dicionário fornece os seguintes exemplos deste uso:
 
O pelotão (…) sentiu-se molestado com toda aquela falação que ecoava pela estação (i. Gleed, Arise to Conquer. VI 51, 1942); Eles nos removendo a guarda, nos marchando em linha reta sob seus olhos, toda aquela falação (A Baron, Humem Kind. XXIV. 178, 1953); a maçada e a “falação” na vida de um membro do parlamento (Economist, 8 de fevereiro, 470/471, 1958)
 
Aqui o termo falação se refere evidentemente a tarefas inúteis, visto que não têm muito a ver com a intenção básica ou com o propósito que justifica o empreendimento que as requer. Cuspir e polir e formalidades não contribuem, é de se supor, para os “verdadeiros” propósitos de militares ou de funcionários do governo, apesar de serem coisas impostas por órgãos ou agentes que pretendem conscienciosamente dedicar-se a esses propósitos. Portanto, as “tarefas ou cerimoniais de rotina desnecessários” que constituem a falação não têm ligação com os motivos legitimadores da atividade na qual se intrometem, da mesma forma que as coisas ditas pelas pessoas numa falação não estão ligadas a suas convicções estabelecidas, nem a falação a uma preocupação com a verdade.
O termo falação é também empregado, num uso muito mais disseminado e familiar, como um equivalente pouco menos vulgar de falar merda. No verbete para falação com esse sentido, o OED sugere o seguinte como definitivo: “conversa ou escrita trivial, insincera ou falsa; contra-senso” Assim, não parece característico da falação que ela deva ser necessariamente carente de significado ou sem importância; de forma que “contra-senso” e “trivial”, além de sua imprecisão, parecem estar na pista errada. O foco sobre “insincera” ou “falsa” é melhor, mas precisa ser aguçado.{5}
O verbete era questão também fornece as duas seguintes definições:
 
1914, Notas Dialetais, IV, 162: Falação, conversa sem propósito: “papo furado.”
1932, Suplemento Literário, Times, 8 de dezembro, 933/3. “Falação” é o termo de gíria para uma combinação de blefe, bravata, “papo furado” e o que se costuma chamar no Exército de “zombando da tropa”.
 
“Sem propósito” e apropriado, mas muito amplo em seu alcance é algo impreciso. Engloba digressões e irrelevâncias inocentes, que não são invariavelmente exemplos de falação; além disso, dizer que a falação é sem propósito não deixa claro que propósito se pretende. A referência, em ambas as definições, a “papo furado” é mais útil.
Quando caracterizamos uma conversa como papo furado, queremos dizer que o que sai da boca do falante é apenas isso. Mero vapor. A fala é vazia, sem substância ou conteúdo. O uso da linguagem não contribui, portanto, para o propósito ao qual pretende servir. Nenhuma informação a mais é comunicada, como se o falante tivesse apenas exalado. A propósito, há certas semelhanças entre papo furado e excremento que fazem papo furado parecer um equivalente especialmente apropriado de falar merda Da mesma forma que papo furado é uma fala que foi esvaziada de todo conteúdo informativo, excremento é matéria da qual foram removidos todos os nutrientes. Ele pode ser visto como o cadáver dos nutrientes, o que resta quando os elementos vitais da comida foram exauridos.
Desse ponto de vista, o excremento é uma representação da morte que geramos e, na verdade, que não podemos impedir de gerar no processo de manutenção de nossa vida. Talvez seja por tornarmos a morte tão íntima que consideramos o excremento repugnante. De qualquer forma, ele não serve mais ao propósito da manutenção do que o papo furado ao da comunicação.
Consideremos agora essas linhas do Canto LXXIV, de Pound, que o OED cita em seu verbete para falar merda:
 
Ei. Snag, o que tem na Bíblia?
Quais são os livros da Bíblia?
Diz, não tala merda pra MIM.
 
Isso e uma avaliação dos fatos. A pessoa interpelada e evidentemente vista como tendo, de alguma forma, afirmado conhecer a bíblia ou interessar-se por ela. O falante suspeita que isso eram apenas palavras vazias e exige que a declaração seja apoiada por fatos. Ele não vai aceitar uma mera descrição; ele insiste em ver a coisa em si. Ou seja, não quer um blefe. A ligação entre falar merda e blefar é declarada explicitamente na definição com a qual as linhas de Pound estão associadas:
 
Falar besteira; ( ..) também, blefar para conseguir as coisas falando besteira
 
De fato, parece que falar merda envolve algum tipo de blefe. Encontra-se, certamente, mais próximo de blefar que de contar uma mentira. Mas o que se deduz de sua natureza pelo fato de ter mais semelhanças com aquele do que com este? Qual é a diferença relevante aqui entre o blefe e a mentira?

Mentir e blefar são formas de embuste ou de logro. Assim, o conceito mais fundamental que caracteriza uma mentira é o de falsidade: o mentiroso é, em essência, alguém que divulga de propósito uma falsidade. O blefe, também, transmite uma coisa falsa. Entretanto, de forma diferente da mentira pura e simples, ele é mais um caso de tapeação que de falsidade. Isso é o que o torna próximo do falar merda. Pois a essência de falar merda não é algo falso, mas adulterado. De forma a avaliar essa distinção, deve-se reconhecer que um embuste ou uma adulteração não precisam ser, de modo algum (à parte a autenticidade em si), inferiores à coisa verdadeira. Aquilo que não é genuíno não precisa ser defeituoso por causa disso. Pode ser, apesar de tudo, uma cópia exata. O problema de uma imitação não é a aparência, mas o modo como foi feita. Isso aponta para um aspecto similar e fundamental da natureza intrínseca de falar merda: embora se origine sem preocupação com a verdade, não precisa ser algo falso. O falador de merda está camuflando as coisas. Porém, isso não significa que ele as entenda erradamente.

No romance Dirty Story, de Eric Ambler, um personagem chamado Arthur Abdel Simpson lembra-se do conselho recebido do pai quando criança:
 
Embora tivesse apenas sete anos quando meu pai foi morto, ainda me lembro muito bem dele e de algumas coisas que costumava dizer (…) Uma das primeiras lições que ele me ensinou foi:
 
Nunca conte uma mentira se você pode conseguir as coisas falando merda.{6}
 
Isso supõe não apenas que há uma diferença importante entre mentir e falar merda, mas que este é preferível àquele. Ora, o Simpson pai não julgava, certamente, que falar merda fosse superior a mentir em termos morais. Nem é provável que considerasse mentir sempre menos eficaz que falar merda, na obtenção dos propósitos para os quais algum desses dois expedientes fosse empregado. Afinal de contas, uma mentira elaborada com inteligência pode fazer seu trabalho com absoluto sucesso. Talvez Simpson julgasse ser mais fácil obter êxito falando merda do que mentindo. Ou então pensasse que, embora o risco de ser pego seja mais ou menos o mesmo nos dois casos, as consequências do flagrante pudessem ser menos severas para o falador de merda do que para o mentiroso. Na verdade, as pessoas tendem de fato a ser mais tolerantes com a falação de merda do que com a mentira, talvez porque sejamos menos propensos a tomar aquela como uma afronta pessoal. É possível que tentemos nos distanciar da falação de merda, porém somos mais inclinados a dar-lhe as costas com um simples encolher de ombros, com impaciência e irritação, do que com o sentimento de ultraje ou de indignação que a mentira quase sempre inspira. O problema de se compreender por que nossa atitude em relação a falar merda é, em geral, mais generosa do que em relação a mentir é muito importante, o que deixarei como um exercício para o leitor.
A comparação pertinente não está, todavia, entre contar uma mentira e originar uma ocorrência específica de falar merda. O Simpson pai vê “conseguir as coisas falando merda” como alternativa a contar uma mentira. Isso não envolve apenas originar uma ocorrência de falar merda; envolve um programa de produção de merda em todo e qualquer âmbito que as circunstâncias possam requerer. Essa talvez seja uma explicação para sua preferência. Contar uma mentira é um ato com enfoque muito preciso, projetado para inserir uma determinada falsidade num ponto específico de um conjunto ou de um sistema de convicções, a fim de evitar as consequências de se ter aquele ponto ocupado pela verdade. Isso requer um grau de perícia no qual o contador da mentira se submete a constrangimentos objetivos, impostos por aquilo que ele tem como sendo a verdade. O mentiroso é incondicionalmente afetado pelos valores de verdade. Para inventar uma mentira qualquer, ele tem de pensar que conhece a verdade e, a fim de inventar uma mentira eficaz, precisa elaborar sua falsidade sob a orientação daquela verdade.
Por outro lado, a pessoa que tenta conseguir as coisas falando merda goza de muito mais liberdade. Seu enfoque e panorâmico em vez de particular. Ela não se limita a inserir determinada falsidade num ponto específico e, dessa forma, não se vê restringida pelas verdades que rodeiam esse ponto ou que o atravessam. Ela está preparada, tanto quanto é preciso, para camuflar o contexto também. Essa liberdade em relação às restrições a que o mentiroso tem de se submeter não significa necessariamente que sua tarefa seja mais fácil que a dele. Porém, a forma de criatividade na qual se fia é menos analítica e refletida do que aquela mobilizada na mentira; é mais extensa e independente, com oportunidades mais amplas para a improvisação, a nuance e o jogo imaginativo. Isso é menos uma questão de habilidade que de arte. Daí o conceito familiar do “artista de merda”. Minha opinião é que a recomendação oferecida pelo pai de Arthur Simpson reflete o fato de que ele se sentia muito mais atraído por essa forma de criatividade, sem levar em conta seu relativo mérito ou efetividade, do que pelas exigências mais austeras e rigorosas da mentira.

O que o falar merda deturpa, essencialmente, não é o estado de coisas ao qual se refere – que a mentira deturpa por ser falso — nem as crenças do falante em relação a esse estado de coisas. Uma vez que falar merda não envolve falsidade, difere das mentiras em seu intento deturpador. O falador de merda pode não nos enganar, ou nem ao menos querer fazê-lo, sobre os fatos ou sua interpretação deles. E sobre sua intenção que ele tenta necessariamente nos enganar. Sua única característica distintiva é que, de certa forma, ele deturpa seu objetivo.

Esse é o ponto crucial da distinção entre ele e o mentiroso. Ambos representam a si mesmos de modo falso, como se tentassem comunicar a verdade. O sucesso de cada um depende de eles nos enganarem a respeito disso. O fato ocultado pelo mentiroso é sua tentativa de nos afastar de uma apreensão correta da realidade; nós não podemos saber sobre seu desejo de que acreditemos numa coisa que ele supõe falsa. O fato que o falador de merda oculta sobre si, por outro lado, é que o valor de verdade de suas afirmações não tem um interesse fundamental para ele; o que não devemos descobrir é que sua intenção não é relatar a verdade nem ocultá-la. Isso não significa que seu discurso seja anarquicamente impulsivo, mas que o motivo a orientá-lo e controlá-lo está pouco interessado em saber como são de fato as coisas que ele fala.
É impossível para alguém mentir a menos que julgue conhecer a verdade. Falar merda não requer essa convicção. Uma pessoa que mente está reagindo a verdade e tem, até certo ponto, respeito por ela. Quando um homem honesto fala, diz apenas o que acredita ser a verdade; enquanto, para o mentiroso, é indispensável que ele considere suas afirmações falsas. Entretanto, no caso do falador de merda, essas coisas não contam: ele não está nem do lado do verdadeiro nem do falso. Seu enfoque não é sobre os fatos, como o do homem honesto e do mentiroso, a não ser que sirvam a seu interesse de se safar com o que diz. Ele não se importa se as coisas que fala descrevem a realidade corretamente. Apenas as escolhe ou inventa para satisfazer seu propósito.
Em seu ensaio De Mendacio [Sobre a mentira], santo Agostinho distingue oito tipos de mentira, classificadas de acordo com a intenção ou justificativa com que é contada. Mentiras de sete tipos são ditas apenas porque se supõe que sejam meios indispensáveis para algum fim que não a mera invenção de falsas convicções. Em outras palavras, não é a falsidade em si que atrai o mentiroso para elas. Uma vez que são ditas somente em virtude de sua suposta necessidade com relação a um objetivo que não é o logro, santo Agostinho as considera como ditas contra a vontade: o que a pessoa deseja de fato não é contar a mentira, mas conseguir seu objetivo. Não se trata, em sua opinião, de mentiras reais, e aqueles que as dizem não são mentirosos, no sentido mais estrito da palavra. E a categoria restante a que contém o que ele identifica como “a mentira contada apenas pelo prazer de mentir e enganar, ou seja, a verdadeira mentira”.{7} As mentiras dessa categoria não têm outro objetivo a não ser a propagação da falsidade. Elas são ditas simplesmente por dizer - isto e, por puro amor ao logro:
 
Há uma distinção entre a pessoa que conta uma mentira e o mentiroso. Aquela mente contra a vontade, enquanto este ama a mentira e passa o tempo desfrutando seu prazer (…) compraz-se nela, exultando com a própria falsidade.{8}
 
O que Agostinho chama de “mentiroso” e de “verdadeira mentira” é algo raro e extraordinário. Todos mentem por vezes, mas há muito poucas pessoas para quem ocorreria com frequência (ou mesmo sempre) mentir exclusivamente por amor à falsidade ou ao logro.
Para a maioria dos indivíduos, o fato de uma afirmação ser falsa já constitui em si uma razão, por mais fraca e facilmente superável que seja, para não ser feita. No caso do mentiroso genuíno de santo Agostinho, essa é uma razão a favor de se fazê-la. Para o falador de merda, não é algo a favor nem contra. Tanto ao mentir quanto ao falar a verdade, as pessoas são guiadas por suas crenças a respeito de como as coisas são. Isso as orienta quando tentam descrever o mundo de forma correta ou descrevê-lo enganosamente. Por essa razão, mentir incapacita uma pessoa a dizer a verdade da mesma forma que falar merda tende a fazer. Por um excesso de satisfação nesta última atividade, que envolve fazer afirmações sem se preocupar com nada, exceto com aquilo que convém a alguém dizer, o hábito normal de se atinar com a realidade das coisas pode atenuar-se ou até perder-se. Tanto quem mente quanto quem fala a verdade atuam em campos opostos do mesmo jogo, por assim dizer. Cada um reage aos fatos como os entende, embora a reação de um seja guiada pela autoridade da verdade, enquanto a reação do outro desafia essa autoridade e se recusa a satisfazer suas exigências. O falador de merda as ignora como um todo. Ele não rejeita a autoridade da verdade, como faz o mentiroso, e opõe-se a ela; simplesmente, não lhe dá a menor atenção. Em virtude disso, falar merda é um inimigo muito pior da verdade do que mentir.

Aquele que se preocupa em relatar ou ocultar fatos supõe, de alguma forma, que alguns deles são distintos e reconhecíveis. O interesse em dizer a verdade ou em mentir pressupõe que existe uma diferença entre entender as coisas de forma errada e de forma certa, e que pelo menos às vezes é possível perceber essa diferença. Quem pára de acreditar na possibilidade de identificar certas afirmações como verdadeiras e outras como falsas tem apenas duas opções. A primeira seria abrir mão de dizer a verdade e de enganar. Isso significaria abster-se de proferir qualquer afirmação sobre os fatos. A segunda opção seria continuar fazendo afirmações que pretendessem descrever o modo como as coisas são, mas isso não seria outra coisa senão falar merda.

Por que se fala tanta merda? É claro que é impossível saber se hoje se fala relativamente mais merda que no passado. Há mais comunicação de todo tipo em nossa época do que já houve antes, mas a parte que equivale a falar merda pode não ter aumentado. Sem pressupor que sua incidência seja maior agora, vou mencionar algumas considerações que ajudam a justificar o fato de que isso seja algo tão notável nos dias de hoje.
É inevitável falar merda toda vez que as circunstâncias exijam de alguém falar sem saber o que está dizendo. Assim, a produção de merda é estimulada sempre que as obrigações ou oportunidades que uma pessoa tem de se manifestar sobre algum tópico excederem seu conhecimento dos fatos pertinentes. Essa discrepância é comum na vida pública, em que os indivíduos são com frequência impelidos — seja pelas próprias inclinações ou por exigência de outrem - a falar sobre questões em que são até certo ponto ignorantes. Exemplos intimamente relacionados se originam de uma convicção generalizada de que é dever do cidadão, numa democracia, ter opiniões sobre tudo ou, pelo menos, tudo aquilo que diga respeito à condução das questões de seu pais. A falta de um nexo significativo entre as opiniões de uma pessoa e sua apreensão da realidade vai tornar-se ainda mais grave, é desnecessário dizer, para alguém que acredite ser seu dever, como agente moral consciencioso, avaliar acontecimentos e condições de todas as partes do mundo.
A atual proliferação do ato de falar merda tem também raízes muito profundas em várias formas de ceticismo, que negam o fato de que possamos ter acesso confiável a uma realidade objetiva e rejeitam, portanto, a possibilidade de sabermos como as coisas na verdade são. Essas doutrinas “ante-realistas” minam a validade de todo esforço desinteressado para se determinar o que é verdadeiro e o que é falso, e até a falta de inteligibilidade da noção de investigação objetiva. Uma das reações a essa perda de confiança tem sido o afastamento da disciplina requerida pelo ideal da correção em direção a um tipo de disciplina completamente diferente, que é imposto pela perseguição a um ideal alternativo de sinceridade. Em vez de buscar chegar primeiramente a representações precisas do mundo comum, o indivíduo se volta para a tentativa de oferecer representações honestas de si. Convencida de que a realidade não tem nenhuma natureza inerente, que ela pudesse ter esperanças de identificar com a verdade sobre as coisas, a pessoa dedica-se a ser fiel à sua natureza. E como se percebesse que, uma vez que não faz sentido tentar ser fiel aos fatos, deve, em vez disso, esforçar-se para ser fiel a si mesma.
Porém é absurdo imaginar que somos determinados e daí suscetíveis a descrições corretas e incorretas, embora supondo que a atribuição de determinação a tudo o mais tenha sido exposta como um erro. Como seres conscientes, existimos apenas em resposta a outras coisas e não podemos conhecer a nós mesmos, de modo algum, sem conhecê-las. Além disso, não existe nada na teoria, e certamente nada na prática, que sustente a opinião singular de que a verdade sobre si é mais fácil de saber. Os fatos a nosso respeito não são particularmente sólidos e resistentes contra uma dissolução cética. Nossa natureza é, na verdade, enganosamente sem substância — muito menos estável e inerente que a natureza das outras coisas. E, já que o caso é esse, sinceridade nada mais é do que falar merda.
 
(Harry G. Frankfurt, - Sobre Falar Merda)
 
Notas
{1} Max Black, The Prawleticc of I lumbug (Itliaca: Cornell University Press. 1985)
{2} Ibíd.. p. 143.
{3} Isso é relatado por Norman Malcolm em sua introdução a Recollections of Wittgenstein, R Rhees (org.), (Oxford, Oxford University Press. 1984). p. XIII.
{4} Fania Pascal, “Wittgenstein. A Personal Memoir,” in Rhees. Recollections. p 28-29
{5} Deve-se notar que a inclusão da insinceridade entre suas condições essenciais implica que a falação não pode se originar inadvertidamente; pois não parece possível ser inadvertidamente insincero.
{6} E. Ambler. Dirty Story (1967). 1, III, 25. A citação é mencionada no mesmo verbete do OED que contém a passagem de Pound. A proximidade da relação entre falar merda e blefar torna-se flagrante, parece-me, no paralelismo das expressões: “falar merda para conseguir as coisas” e “blefar para conseguir as coisas.”
{7} “De Mendacio” [Lying], in Treatises on Various Subjects, in Fathers of the Church, R. J. Deferrari (org), vol. 16 (Nova York Fathers of the Church. 1952), p. 109. Santo Agostinho sustenta que contar uma mentira desse tipo é um pecado menos sério do que fazê-lo em três das categorias e mais sério que contá-la nas outras quatro.
{8} Ibid, p. 79

Você tira o país da merda, mas não tira a merda do país

 
 

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