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Este livro já saiu há alguns meses. O autor diz na introdução que um dia ou outro esta crise vai acabar deixando um monte de vítimas e um ou outro vencedor ocasionais. Provavelmente será assim, mas por enquanto ainda estamos em crise, pelo menos na parte ocidental do planeta onde não é possível manter o padrão de vida actual sem endividar-se (indicador de crise) e ainda temos para muito tempo, se nao compreendermos a lógica que levou a esta situação.
Jacques Attali neste volume não fornece um programa político para sair da crise, mas sugere algumas dicas para sobreviver, ou mais precisamente, para "sobre-viver", ou seja, viver melhor, tendo como horizonte temporal a próxima década.
O autor traça em detalhes a origem da crise que causou a inundação global que, na América, se relacionou com um sector financeiro particular daquele país (o do crédito à habitação), mas o seu início situa-se em 1979 e não em 2008 . Para entender o que aconteceu, basta apenas um dado: de Janeiro a Setembro de 2009, as casas de mais de 20 milhões de famílias dos EUA foram penhoradas.
Attali confirma que esta é uma crise do Ocidente, crise provocada pela globalização em que as economias emergentes fora do contexto ocidental souberam transformar a crise em crescimento económico: o desafio agora é orientar essa tendência, que parece imparável, para a sustentabilidade do desenvolvimento.
Para dar sugestões sobre a melhor forma de adaptar-se à situação actual, da qual não sairemos em breve, o autor analisa os cenários e fenómenos (alguns já em curso), que podem ocorrer ou acentuar-se nos próximos anos. A explosão demográfica (com um aumento da população em apenas 10 anos, como foi desde o aparecimento do homem na Terra até a Segunda Guerra Mundial), é um facto, tido praticamente como certo e que certamente trará graves perturbações. Este fenómeno ocorrerá principalmente na África e na Ásia, para onde irá mover-se cada vez mais o centro da economia mundial. Economia significa crescimento do consumo das classes médias (desaparecidas no hemisfério norte) e crescimento da indústria que só podemos esperar que seja sustentável (o processo pode ser ajudado), caso contrário, o planeta implodirá esmagado pelo peso da sua pegada ecológica. Ao mesmo tempo, acentuar-se-á o fenómeno do “inurbamento”, ou seja, a migração para as cidades onde se concentrará a maioria dos seres humanos. A instabilidade em algumas partes do mundo (de que temos já testemunho) irá aumentar os fluxos migratórios, teremos maior demanda de recursos primários, água e comida, mas também grande necessidade de infra-estrutura. Por outro lado vai haver um conjunto de progressos técnicos e tecnológicos (desenvolvimento da nanotecnologia) que irá mudar o modo de viver com alterações mesmo no sector da informação. Attali vê uma diminuição positiva contínua no consumo de energia e de materiais que se estenderá também aos países asiáticos e africanos, onde, entre outras coisas, maiores democracias e novos modelos de gestão atrairão maiores investimentos. Segundo o autor teremos "um mundo policêntrico e fragmentado, que, com as devidas proporções, assemelhar-se-á ao fim da Idade Média." Mas a liberdade individual continuará a ser o valor dominante de todos os povos do mundo e "a tradução económica desta ideologia da liberdade será a continuação da invasão da economia por parte do mercado." Democracia e mercado, segundo Attali, vão reforçar-se mutuamente em cada país até entrar, em seguida, em contradição e colisão porque "o mercado é global por natureza", enquanto a democracia permanecerá por longo tempo ainda nacional e o mesmo mercado forçará "na direcção do desaparecimento dos serviços públicos, principais instrumentos operativos das democracias." Mesmo assim teremos a perpetuação da maximização dos lucros de poucos à custa do interesse público com os intermediários financeiros que farão aumentar a instabilidade do sistema social. Um filme já visto, mesmo num ambiente em mudança contínua.

Esse cenário pessimista e outros mais favoráveis são delineados por Attali que cruza a crise financeira com a económica, sanitária, política, energética, ecológica que poderão manifestar-se ainda mais claramente na próxima década. Para cada uma são propostas pelo autor algumas vias de saída, com estratégias activas de carácter pessoal ou político coletivo, que ajudam a sair da crise, mas tudo se resume a sete regras definidas essenciais para a sobrevivência: o auto-respeito (isto é, levar isso a sério, mas também significa respeito por todos os outros); a intensidade (ou seja, o fator tempo, "o único bem cuja escassez para os indivíduos como para as organizações é absolutamente indiscutível"); a empatia (saber sentir o mundo); a resiliência (ser capazes de resistir a um ataque); a criatividade (transformar cada ameaça numa oportunidade); a ubiquidade (não contentar-se apenas com uma única identidade); o pensamento revolucionário (saber ser revolucionário nas revoluções em acto e não fechar-se num único paradigma). Estes princípios, concebidos e explicados pelo autor, aplicam-se às pessoas, às empresas, às nações, à humanidade, e com respostas específicas em casos individuais, por forças diversa, mas tudo meticulosamente detalhado no livro.

Para sobre-viver à crise precisamos de um governo mundial, um governo que tenha como unidade de medida a sustentabilidade (ambiental, social e económica nesta ordem decrescente) com influência incisiva sobre os aspectos financeiros e económicos. O aspecto tempo é crucial, e, infelizmente, esta mudança não está propriamente no virar da esquina, como seria necessário. Entretanto podemos partir das palavras de Mahatma Gandhi: "Sede vós a mudança que quereis ver no mundo".


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publicado às 06:41



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