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NÃO SOMOS TODOS EGOÍSTAS?

por Thynus, em 31.05.17

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Por um mundo menos babaca

 

 

Determinadas variantes desta pergunta são frequentemente levantadas como objeção àqueles que defendem uma ética de auto-interesse racional. Por exemplo, às vezes: “Cada um faz o que verdadeiramente quer fazer — do contrário, não faria”. Ou; “Ninguém se sacrifica realmente. Já que toda ação proposital é motivada  por algum valor ou meta que o agente deseja, age-se sempre egoisticamente, sabendo-se ou não”.

Para desembaraçar a confusão intelectual envolvida neste ponto de vista, consideremos que fatos da realidade conduzem a uma questão como egoísmo versus auto sacrifício, ou egoísmo versus altruísmo, e o que o conceito de “egoísmo” significa e necessariamente acarreta.

A questão do egoísmo versus auto sacrifício emerge em um contexto ético. A ética é um código de valores que guia as escolhas e ações do homem — as escolhas e ações que determinam o propósito e o rumo de sua vida. Ao escolher suas ações e objetivos, o homem enfrenta alternativas constantes. Para optar, requer um critério de valor — um propósito ao qual suas ações devem servir e visar. “‘Valor’ pressupõe uma resposta à pergunta: de valor para quem e para que?” (A Revolta de Atlas). Qual deve ser o objetivo ou propósito das ações de um homem? Quem deve ser o pretendido beneficiário de suas ações? Deve ele sustentar, como seu propósito moral básico, a realização de sua própria vida e felicidade — ou deveria o seu propósito moral básico servir aos desejos e necessidades de outros?

O choque entre egoísmo e altruísmo repousa em suas respostas conflitantes a estas perguntas. O egoísmo sustenta que o homem é um fim em si mesmo; o altruísmo, que o homem é um meio para os fins de outros. O egoísmo sustenta que, moralmente, o beneficiário de uma ação deveria ser a pessoa que age; o altruísmo, que, moralmente, o beneficiário de uma ação deveria ser outro, e não a pessoa que age.

Ser egoísta é estar motivado pela preocupação com os próprios interesses. Isto exige que se considere o que constitui os interesses de um indivíduo e como alcançá-los — que valores e metas buscar, que princípios e políticas adotar. Se um homem não estiver interessado nesta questão, não se poderá dizer objetivamente que se interessa ou deseja seu auto-interesse; não se pode estar interessado em ou desejar aquilo de que não se tem conhecimento.

O egoísmo vincula: (a) uma hierarquia de valores estabelecida pelo padrão dos auto-interesses de alguém, e (b) a recusa a sacrificar um valor maior a um menor ou a algo carente de valor.

Um homem genuinamente egoísta sabe que somente a razão pode determinar o que é, na verdade, do seu auto-interesse, que buscar contradições ou tentativas de agir em provocação aos fatos da realidade é autodestrutivo — e a autodestruição não é de seu auto-interesse. “Pensar é do auto-interesse do homem; interromper a sua consciência, não. Escolher as suas diretrizes no contexto do seu conhecimento, seus valores e sua vida é do auto-interesse do homem; agir no impulso do momento, sem consideração ao seu contexto de longo prazo, não. Existir como um ser produtivo é do auto-interesse do homem; uma tentativa de existir como um parasita, não. Procurar a vida adequada a sua natureza é do auto-interesse do homem; procurar viver como um animal, não”.

Porque um homem genuinamente egoísta escolhe as suas diretrizes orientado pela razão — e porque os interesses de homens racionais não se chocam — outros homens podem, frequentemente, beneficiar-se de suas ações. Mas o benefício de outros homens não é seu propósito ou objetivo básico; seu próprio benefício são seu propósito básico e objetivo consciente que dirigem suas ações.[Nathaniel Branden, Who is Ayn Rand?, Nova York: Random House, 1962; Paperback Library, 1964]

Para tornar este princípio inteiramente claro, consideremos um exemplo extremo de uma ação, que é, na verdade, egoísta, mas que, convencionalmente, poderia ser chamada de auto sacrifício: a disposição de um homem para morrer a fim de salvar a vida da mulher que ama. De que modo seria este homem o beneficiário de sua ação?

A resposta é dada em A Revolta de Atlas — na cena em que Galt, sabendo estar por ser preso, diz a Dagny: “Se eles tiverem a menor suspeita a respeito do que somos um para o outro, vão colocá-la em uma sessão de tortura — quero dizer, tortura física — diante dos meus olhos, em menos de uma semana. Não vou esperar por isto. Na primeira menção de uma ameaça a você, vou me matar e fazê-los parar bem aí... não preciso lhe dizer que, se eu fizer isto, não será um ato de auto sacrifício. Não me importa viver nas condições deles. Não estou a fim de obedecê-los e não estou a fim de ver você sofrendo um assassinato planejado. Não haverá nenhum valor para buscar depois, disto — e não estou a fim de viver sem valores.” Se um homem ama uma mulher tão intensamente que não quer sobreviver à sua morte, se a vida não pode oferecer-lhe mais nada a este preço, então morrer para salvá-la não é um sacrifício.

O mesmo princípio se aplica a um homem que se encontra em uma ditadura, que conscientemente arrisca a sua vida para obter a liberdade. Para classificar o seu ato de “auto sacrifício”, ter-se-ia que admitir que ele preferiria viver como escravo. O egoísmo de um homem que está disposto a morrer, se necessário, lutando por sua liberdade, repousa no fato de não estar disposto a viver num mundo onde já não é capaz de agir sob o seu próprio juízo — isto é, um mundo onde condições humanas de existência já não são possíveis para ele.

O egoísmo ou não-egoísmo de uma ação deve ser determinado objetivamente, e não pelos sentimentos da pessoa que age. Assim como sentimentos não são armas da cognição, também não são um critério, na ética.

Obviamente, para agir, tem-se de ser movido por algum motivo pessoal: deve-se “querer”, em algum sentido, desempenhar a ação. A questão do egoísmo de uma ação ou do seu não-egoísmo depende, não do fato do indivíduo querer ou não a efetuar, mas apenas do porquê quer fazê-lo. Por que critério escolheu sua ação? Para alcançar qual objetivo?

Se um homem proclamasse que sentira que melhor beneficiaria os outros roubando-os ou assassinando-os, os homens não estariam dispostos a reconhecer altruísmo em suas ações. Pela mesma lógica e razões, se um homem busca um rumo de autodestruição cega, seu sentimento de que ele tem algo a ganhar através disto, não estabelece que suas ações são egoístas.

Se, motivada unicamente por senso de caridade, compaixão, obrigação ou altruísmo, uma pessoa renuncia a um valor, desejo ou objetivo em favor do prazer, desejos ou necessidades de outra pessoa a quem valoriza menos do que aquilo a que renunciou — este é um ato de auto sacrifício. O fato de uma pessoa poder sentir que “quer” fazê-lo, não torna a sua ação egoísta ou estabelece objetivamente que ela é a beneficiária da ação.

Suponha, por exemplo, que um filho escolha a carreira que deseja através de critérios racionais, mas aí renuncie a ela para agradar sua mãe, que prefere que siga uma carreira diferente, que tenha mais prestígio aos olhos dos vizinhos. O garoto acede ao desejo de sua mãe porque aceitou isto como sua obrigação moral: acredita que seu dever como filho consiste em colocar a felicidade de sua mãe acima da sua própria, mesmo que saiba que a exigência da mãe é irracional e mesmo que saiba que está se sentenciando a uma vida de miséria e frustração. É absurdo para os defensores da doutrina “todos somos egoístas” declararem que, já que o garoto está motivado pelo desejo de ser “virtuoso” ou de evitar a culpa, nenhum auto sacrifício está envolvido, e sua ação é verdadeiramente egoísta. O que se evita é a pergunta de por que o garoto sente e deseja de tal forma. Emoções e desejos não são premissas irredutíveis, desprovidas de causa, são o produto das premissas que se aceitou. O garoto “quer” renunciar à sua carreira apenas porque aceitou a ética do altruísmo; crê
ser imoral agir para seu próprio auto-interesse. Este é o princípio que está dirigindo suas ações.

Defensores da doutrina “todos somos egoístas” não negam que, sob a pressão da ética altruísta, os homens podem intencionalmente agir contra sua própria felicidade, a longo prazo. Eles simplesmente afirmam que em algum sentido maior, indefinível, esses homens ainda estão agindo “egoisticamente”. Uma definição de “egoísmo” que inclui e permite a possibilidade de intencionalmente agir contra a felicidade a longo prazo de um indivíduo, é uma contradição em termos.

É apenas o legado do misticismo que permite aos homens imaginarem que ainda estão falando com sentido quando declaram que se pode procurar a felicidade na renúncia a ela.

A falácia básica no argumento “todos somos egoístas” consiste em um equívoco extraordinariamente brutal. É um truísmo psicológico — uma tautologia — pelo qual todo comportamento intencional é motivado. Mas igualar “comportamento motivado” com “comportamento egoísta” é zerar a distinção entre um fato elementar da psicologia humana e o fenômeno da escolha ética. É fugir ao problema central da ética, a saber: o quê motiva o homem?

Um egoísmo genuíno — isto é: um interesse genuíno por saber o que é do auto-interesse do indivíduo, uma aceitação da responsabilidade de conquistá-lo, uma recusa a jamais traí-lo agindo sob caprichos cegos, estado de espírito, impulso ou sentimento do momento, uma lealdade sem compromissos com juízos, convicções e valores próprios — representa uma profunda conquista moral. Aqueles que afirmam que “todos somos egoístas” comumente apresentam sua afirmação como uma expressão de cinismo e desdém. Mas a verdade é que sua afirmação faz à Humanidade um elogio que não merece.

(Setembro de 1962) 

 Nathaniel Branden
 

 (Ayn Rand - A Virtude do Egoísmo - a verdadeira ética do homem: o egoísmo nacional) 

 

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Aqueles que afirmam que “todos somos egoístas” comumente apresentam sua afirmação como uma expressão de cinismo e desdém. Mas a verdade é que sua afirmação faz à Humanidade um elogio que não merece.

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