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Considero como a regra suprema de toda a sabedoria de vida a sentença enunciada por Aristóteles em sua Ética a Nicômaco (VII. 12): ὁ φρόνιμος τὸ ἄλυπον διώκει, οὺ τὸ ἡδύ (quod dolore vacat, non quod suave est, persequitur vir prudens. A versão em latim é fraca; uma melhor talvez seja a seguinte: o sábio busca a ausência de dor, não o prazer.) A verdade dessa sentença se fundamenta no fato de que todo prazer e toda felicidade são de natureza negativa, e a dor é, pelo contrário, de natureza positiva. (...) Quando nosso corpo inteiro está saudável e intacto, exceto por uma parte insignificante ferida ou dolorida, a consciência cessa de perceber a saúde do conjunto, e a atenção se dirige constantemente à dor da parte lesionada, e todo o conforto e prazer da vida desvanecem. Do mesmo modo, quando todos os nossos negócios andam bem, a não ser um só que vá mal, esse nos persegue constantemente o cérebro, ainda que seja de mínima importância. Pensamos sobre ele constantemente e damos pouca atenção às demais coisas mais importantes que andam a nosso gosto. Em ambos os casos, a vontade está lesionada, no primeiro, tal como se objetiva no organismo, no segundo, tal como se objetiva nos esforços e aspirações do homem. Vemos em ambos os casos que a satisfação da vontade sempre se produz negativamente e que, em consequência, não é sentida diretamente de modo algum; no máximo, chegamos a ter consciência disso através da reflexão. Por outro lado, o que obstrui a vontade é algo positivo e, portanto, sua presença faz-se sentir. Todo prazer consiste apenas em suprimir essa obstrução, em libertar-se dela e, por conseguinte, não pode ser senão de curta duração.
É nisso, portanto, em que se fundamenta a excelente regra de Aristóteles reproduzida anteriormente, a qual afirma que devemos concentrar nossa atenção não nos grandes prazeres e diversões da vida, senão nos meios de evitar, na medida do possível, os seus inumeráveis males. Se esse caminho não fosse o verdadeiro, o aforismo de Voltaire Le bonheur n’est qu’un rêve, et la douleur est reelle [a felicidade é apenas um sonho e a dor é real] seria necessariamente tão falso quanto, na verdade, é exato. Assim, quando se quer fazer o balanço da vida em termos eudemonológicos, não se deve levar em conta os prazeres que se tem saboreado, senão os males que se tem evitado. Na verdade, a eudemonologia deve começar por ensinar-nos que seu próprio nome é um eufemismo e que quando dizemos “viver feliz” deve-se entender somente “ser menos desgraçado”, ou seja, levar uma vida tolerável. E em realidade a vida não é algo a ser desfrutado, mas vencido, superado. Isso pode ser visto em muitas expressões, tais como degere vitam, vita defungi [vive a vida, a vida se acaba]; em italiano, si scampa così [se ao menos escapássemos]; em alemão, man muss suchen, durchzukommen [levar a vida do melhor modo possível]; er wird schon durch die Welt Kommen [passar a vida] e outras semelhantes. Na velhice é um consolo saber que se tem detrás de si o trabalho de viver. O homem mais feliz é, pois, aquele que passa a vida sem grandes dores, tanto moral como fisicamente, e não aquele que experimentou as alegrias mais vivas ou os gozos mais intensos.
(...) O tolo corre atrás dos prazeres da vida e colhe desilusões; o sábio evita os seus males.

(Arthur Schopenhauer - "Aforismos para a Sabedoria de Vida") 

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publicado às 13:34


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