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“E o Senhor Deus disse: “Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, pois, cuidemos que ele não estenda a sua mão e tome também do fruto da árvore da vida, e o coma, e viva eternamente. O Senhor Deus expulsou-o do jardim do Éden, para que ele cultivasse a terra donde tinha sido tirado. E expulsou-o
; e colocou ao oriente do jardim do Éden querubins armados de uma espada flamejante, para guardar o caminho da árvore da vida.” (Gén. 3,22-24)

Para os nossos antepassados, muitas coisas na natureza deviam ser temidas: raios, tempestades, terremotos, vulcões, pragas, secas, longos invernos. As religiões nasceram, em parte, como tentativas de aplacar e controlar, ainda que pouco fizessem para compreender, o aspecto desordenado da natureza. A revolução científica permitiu que vislumbrássemos um Universo ordenado, subjacente, em que havia uma harmonia literal dos mundos (expressão de Johannes Kepler). Se compreendemos a natureza, existe a perspectiva de controlá-la ou, pelo menos, de mitigar de danos que possa causar. Nesse sentido, a ciência trouxe esperança.
... Apesar da firme resistência em todas as épocas, é grande motivo de orgulho para nós o facto de que nos deixamos guiar pelas evidências, tirando conclusões que a princípio parecem assustadoras: um Universo tão mais vasto e mais antigo que eclipsa e humilha nossa experiência histórica e pessoal, um Universo em que a humanidade recém-chegada se agarra a um torrão obscuro de matéria.
Como seria mais satisfatório se tivéssemos uso de acordo com nossas conveniências. Uma famosa história na tradição ocidental tem enredo parecido, exceto que nem tudo o que havia no jardim era para nós. Não devíamos provar os frutos de uma árvore especial, a árvore do conhecimento. O conhecimento, a compreensão e a sabedoria nos eram proibidos nessa história. Devíamos manter-nos ignorantes. Mas nada pudemos fazer contra nós mesmos. Estávamos famintos de conhecimento; a bem dizer, fomos criados famintos. Essa foi a origem do todos os nossos males. Particularmente, é por isso que já não vivemos num jardim: descobrimos demais. Enquanto éramos obedientes e sem curiosidade, assim imagino, consolávamo-nos com nossa importância e centralidade, dizendo a nós mesmos que éramos a razão da criação do Universo. Quando, porém, começamos a satisfazer a nossa curiosidade, a explorar, a aprender como o Universo é realmente constituído, expulsamo-nos do Éden. Anjos com uma espada flamejante foram colocados como sentinelas nos portões do Paraíso para barrar o retorno. Os jardineiros se tornaram exilados e errantes. De vez em quando lamentamos o mundo perdido, mas isso me parece piegas e sentimental. Na ignorância, não poderíamos ter vivido felizes para sempre.
(Carl Sagan in “Pálido ponto azul”)

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publicado às 17:04



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