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O burro total

por Thynus, em 21.01.17
Do rádio colocado entre suas cabeças vinha a voz familiar de Bernardo, entrevistando um ator cujo filme deveria estrear brevemente. Sua voz estridente tirou-os de seu torpor.
— Vim falar sobre meu filme, não sobre meu filho.
— Não tenha medo, chegará a vez dele, dizia a voz de Bernardo. Mas a atualidade tem as suas exigências. Corre o boato de que o senhor teve um papel importante no escândalo de seu filho.
— Quando me convidou para seu programa, garantiu-me que ele seria sobre o filme. Portanto falaremos do filme, e não da minha vida particular.
— O senhor é um homem público, estou lhe fazendo perguntas que interessam aos nossos ouvintes. Estou apenas cumprindo meu dever.
— Responderei a qualquer pergunta sobre o filme.
— Como quiser. Mas nossos ouvintes ficarão surpresos que o senhor se recuse a responder.
Agnès saiu da cama. No fim de uns bons quinze minutos, quando ia para o trabalho, Paul, por sua vez, levantou-se, vestiu-se, e desceu para buscar a correspondência na portaria. Assinada por Grizzly uma das cartas anunciava-lhe com grandes rodeios, misturando desculpas com um humor amargo aquilo que já sabemos: a rádio dispensava os serviços de Paul.
Releu a carta quatro vezes. Depois, com um gesto de indiferença foi para seu escritório. Mas sentia-se pouco à vontade, incapaz de concentrar-se, e só pensava na carta. Para ele era um golpe tão duro assim? Do ponto de vista prático, absolutamente. Mas estava magoado. Toda sua vida esforçara-se para fugir do mundo dos juristas: estava feliz coordenando um seminário na universidade, e estava feliz falando na rádio. Não que a profissão de advogado lhe desagradasse: ao contrário, gostava dos acusados, tentava compreender o crime que haviam cometido e dar-lhe sentido; "Não sou um advogado, mas sim um poeta da defesa!", dizia ele brincando; e colocava-se conscientemente de todo o coração ao lado dos fora-da-lei, considerando-se (não sem uma certa vaidade) como um traidor, um quinta-coluna, um guerrilheiro caridoso num mundo de leis desumanas, comentadas em grossos livros que carregava sempre nas mãos com a ligeira repugnância de um conhecedor desiludido. Também desejava manter contatos humanos fora dos limites do Palácio de Justiça, ligar-se aos estudantes, aos escritores, aos jornalistas, para conservar a certeza (e não apenas a ilusão) de pertencer a essa família. Era muito ligado a eles e não aceitara de bom grado que a carta de Grizzly o mandasse de volta para seu escritório e para o tribunal.
Havia outro motivo para sentir-se deprimido. Quando Grizzly chamou-o na véspera de aliado de seus próprios coveiros, Paul não vira nisso senão uma elegante maldade, sem nenhum conteúdo concreto. A palavra coveiros não lhe dizia grande coisa. É que ainda não sabia nada sobre esses coveiros. Mas agora que já recebera a carta, rendia-se à evidência: os coveiros existiam mesmo, já o haviam indicado e o esperavam.
Subitamente compreendeu que as pessoas o viam de maneira diversa da que ele próprio se via, não da maneira que ele imaginava ser visto. De todos os colaboradores da estação, era o único que deveria sair, apesar de Grizzly (não tinha a menor dúvida) tê-lo defendido da melhor maneira possível. Em que irritara todos esses publicitários? Aliás, seria ingênuo achar que essas pessoas seriam as únicas a considerá-lo inaceitável. Muitas outras deveriam ter a mesma opinião. O que tinha acontecido com sua imagem? Tinha acontecido alguma coisa, ele não sabia dizer o que e nunca iria saber. Pois é assim, e a lei vale para todo mundo: nunca sabemos por que e em que aborrecemos os outros, em que lhes somos antipáticos, em que lhes parecemos ridículos; nossa própria imagem é para nós o maior mistério.
Paul sabia que, o dia inteiro, não pensaria em mais nada; tirando o telefone do gancho, convidou Bernardo para almoçar fora.
Sentaram-se um em frente ao outro; Paul morria de vontade de falar da carta, mas como era bem-educado suas primeiras palavras foram de delicadeza:'
'Escutei você de manhã cedo. Você cercou aquele ator como se fosse um coelho."
— É verdade, disse Bernardo. Talvez tenha exagerado. Mas estava de um humor execrável. Ontem recebi uma visita que nunca vou esquecer. Um desconhecido veio me ver. Mais alto um palmo do que eu, ostentando uma barriga enorme. Apresentando-se, sorriu para mim com um ar terrivelmente amável. "Tenho a honra de entregar-lhe este diploma", disseme ele enfiando entre meus dedos um tubo de cartolina. Pediu-me com insistência que o abrisse diante dele. Dentro havia um diploma. Em cores. Numa boa caligrafia. A inscrição dizia: Bernardo Bertrand é promovido a burro total.
— O quê? disse Paul caindo na gargalhada, mas logo controlou-se ao ver diante dele um rosto grave e sério em que não havia o menor traço de divertimento.
— É, repetiu Bernardo com uma voz sinistra, fui promovido a burro total.
— Mas quem promoveu você? Havia o nome de uma organização?
— Não, há apenas uma assinatura ilegível.
Bernardo repetiu muitas vezes o que lhe tinha acontecido, antes de acrescentar:
— Comecei não acreditando nos meus olhos. Tinha a impressão de estar sendo vítima de um atentado, queria gritar e chamar a polícia. Depois compreendi que não podia fazer nada. O tipo sorria e me estendia a mão: "Posso felicitá-lo?" disseme ele, e estava tão confuso que apertei-lhe a mão.
— Apertou a mão dele? Agradeceu-lhe sinceramente? disse Paul
reprimindo o riso com dificuldade.
— Quando compreendi que não podia mandar a polícia prender aquele sujeito, quis mostrar meu sangue-frio e agir como se tudo fosse perfeitamente normal e como se nada tivesse me ofendido.
— É matemático, disse Paul: quando se é promovido a burro, agimos como um burro.
— Que horror, disse Bernardo.
— E você não sabe quem era? No entanto ele se apresentou!
— Estava tão nervoso que logo esqueci o nome dele. Paul não conseguia mais se controlar; caiu na gargalhada.
— É, sei que você vai dizer que é uma brincadeira, é claro que você tem razão, é uma brincadeira, continuou Bernardo. Mas não há nada a fazer. Desde então não consigo pensar em outra coisa.
Paul tinha parado de rir compreendendo que Bernardo dizia a verdade: sem dúvida nenhuma, não pensava em mais nada desde a véspera. Como Paul teria reagido recebendo semelhante diploma? Exatamente como Bernardo.
Quando você é qualificado de burro total, significa que pelo menos uma pessoa vê você com os traços de um burro e que faz questão de que você saiba disso. Só isso já é desagradável. E é inteiramente possível que a iniciativa tenha sido tomada não apenas por uma única pessoa, mas por uma dezena de pessoas. É também possível que essas pessoas preparem um outro golpe, como, por exemplo, colocar um anúncio nos jornais, de tal modo que no Le Monde do dia seguinte, nos anúncios dos funerais, dos casamentos e das distinções honoríficas, todos possam ficar sabendo que Bernardo foi promovido a burro total.
Bernardo confidenciou-lhe depois (e Paul não sabia se devia rir do amigo ou chorar por ele) que desde que recebera o diploma, ele o mostrava a todos que encontrava. Não queria ficar sozinho na sua humilhação, tentava englobar nela os outros, explicando a todo mundo que não era o único visado.
— Se se tratasse apenas de mim, teriam me entregado o diploma em casa.
Mas me entregaram na rádio! É um ataque aos jornalistas! Um ataque contra todos nós!
Paul cortava a carne no prato, bebericava seu vinho e pensava: eis dois bons amigos: um se chama burro total, o outro é o brilhante aliado de seus coveiros. E compreendeu (o que tornava seu amigo mais moço ainda mais querido) que em espírito não o chamaria mais Bernardo, mas sempre de burro total: não por maldade, mas porque um título tão bonito é irresistível, todos aqueles a quem Bernardo mostrara o diploma, em seu abatimento irracional, certamente iriam chamá-lo sempre assim.
Pensou também que Grizzly tinha sido muito afetuoso ao qualificá-lo de brilhante aliado de seus coveiros no decorrer de uma simples conversa de mesa.
Afinal de contas, poderia ter lhe dado um diploma e isso teria sido bem pior. Foi assim, graças ao problema de seu amigo, que Paul quase esqueceu seu próprio sofrimento e quando Bernardo lhe disse: "Parece que você também teve um aborrecimento". Ele afastou a questão: "Bobagens," e Bernardo concordou: "vi logo que você estava acima disso. Você tem mil coisas mais interessantes a fazer."
Quando Bernardo levou-o até seu carro, Paul disselhe com muita melancolia:
— Grizzly está errado e os imagólogos têm razão. O homem não é nada além de sua imagem. Os filósofos podem nos explicar que a opinião do mundo conta pouco e que só conta aquilo que somos. Mas os filósofos não compreendem nada. Enquanto vivermos entre os homens, seremos aquilo que os seres humanos acham que somos. Passamos por patifes ou espertalhões quando no fundo nos perguntamos sem parar como os outros nos enxergam, quando nos esforçamos por parecer o mais simpáticos que podemos. Mas entre meu eu e o do outro, será que existe um contato direto, sem os olhos como intermediários? É possível pensar o amor sem a busca angustiada de sua própria imagem no pensamento da pessoa amada? Quando o que o outro pensa de nós não tem mais importância, é porque deixamos de amá-lo.
— Você tem razão, disse Bernardo com uma voz baixa.
— É uma ilusão ingênua achar que nossa imagem é uma simples
aparência, atrás da qual se esconderia a verdadeira substância do nosso eu, independente do olhar do mundo. Com um cinismo radical, os -imagólogos provam que o contrário é verdadeiro: nosso eu é uma simples aparência, inatingível, indescritível, confusa, enquanto que a única realidade, fácil demais de apreender e de descrever, é nossa imagem nos olhos dos outros. E pior, você não tem o comando sobre isso. Você primeiro tenta pintá-la você mesmo, depois pelo menos conservar uma influência sobre ela, controlá-la, mas em vão: basta uma fórmula maldosa para transformá-la para sempre numa lamentável caricatura.
Pararam perto do carro; Paul viu em frente dele um rosto ainda mais ansioso e pálido. Sua intenção tinha sido reconfortar o amigo, mas agora constatava que sua conversa o abatera. Sentiu remorso: foi pensando em si mesmo, no seu próprio caso, que ele tinha se deixado levar por essas reflexões.
Mas o mal estava feito.
Ao despedir-se, Bernardo disse com um constrangimento que comoveu Paul:
— Por favor, não fale nisso com Laura. Não fale nem com Agnès. Deu-lhe um aperto de mão firme e amistoso:
— Pode confiar em mim.
De volta a seu escritório, começou a trabalhar. Seu encontro com Bernardo estranhamente o consolara e ele se sentia melhor do que de manhã. No fim da tarde, foi encontrar Agnès em casa. Ao lhe falar da carta de Grizzly, não deixou de acrescentar que o problema era sem importância. Tentou rir enquanto falava, mas Agnès percebeu que entre as palavras e o riso, Paul começava a tossir. Conhecia essa tosse. Quando tinha um aborrecimento Paul sempre sabia se controlar; a única coisa que o traía era essa tosse insistente, da qual não se dava conta.
— Eles quiseram tornar o programa mais engraçado e mais jovem, disse Agnès. Seu comentário pretendia ser irônico em relação aos que tinham cancelado o programa de Paul. Depois acariciou-lhe os cabelos. Mas nunca deveria ter feito isso. Nos olhos de Agnès, Paul via sua imagem: a de um homem humilhado que tinham resolvido não achar mais nem jovem nem engraçado.
 
Ágata
Cada um de nós deseja transgredir as convenções, os tabus eróticos, e entrar com embriaguez no reino do Proibido. Mas nos falta tanta audácia...
Arranjar uma amante mais velha, um amante mais moço, eis o que podíamos recomendar como o meio de transgressão mais fácil, mais acessível a todos. Pela primeira vez Laura tinha um amante mais moço do que ela, Bernardo tinha, pela primeira vez, uma amante mais velha do que ele, e todos dois viviam essa primeira experiência como um pecado excitante.
Quando Laura assegurava a Paul que Bernardo a fazia rejuvenescer dez anos, falava a verdade: uma onda de energia a invadia. Mas isso não queria dizer que ela se sentia mais moça do que ele. Ao contrário, saboreava com um deleite, até então desconhecido, a ideia de ter um amante mais moço, um amante que se achava mais fraco e que ficava tenso ao pensar que sua amante experimentada iria compará-lo a seus antecessores. No erotismo é como na dança: um dos parceiros sempre se encarrega de conduzir o outro. Pela primeira vez Laura conduzia o homem, e conduzir para ela era tão excitante quanto ser conduzido para Bernardo.
O que a mulher mais velha oferece ao homem mais moço é antes de tudo a certeza de que seu amor se desenvolverá longe de qualquer risco matrimonial, pois, afinal de contas, ninguém imagina que um homem que tem um futuro belo e promissor vá se casar com uma mulher oito anos mais velha. É por isso que Bernardo tinha para Laura o mesmo olhar que Paul outrora tivera para a mulher que se tornou sua ametista: supunha que sua amante estivesse disposta a desaparecer um dia diante de uma mulher mais moça que ele pudesse apresentar a seus pais sem que estes se sentissem constrangidos. Confiando na sabedoria maternal de Laura, achava que ela seria capaz de ser madrinha de seu casamento e fingir perfeitamente para a jovem noiva nunca ter sido (ou mesmo ainda ser) amante de Bernardo.
Sua felicidade foi completa durante dois anos. Depois Bernardo foi promovido a burro total e tornou-se taciturno. Laura ignorava tudo sobre o diploma (Paul cumprira o prometido) e não tendo o hábito de interrogar Bernardo sobre seu trabalho também não sabia nada sobre seus outros problemas profissionais (como sabemos, uma desgraça nunca vem sozinha); portanto interpretava seu mutismo como prova de que não a amava mais. Já muitas vezes tinha reparado que isso acontecia: ele não sabia o que ela tinha acabado de falar; estava certa de que nesses momentos estava com outra mulher na cabeça. Ah, em amor é preciso tão pouco para que fiquemos desesperados!
Veio um dia à casa dela mergulhado em pensamentos sombrios. Ela desapareceu da sala para trocar de roupa e ele ficou sozinho na sala em companhia da grande gata. Não sentia por ela nenhuma simpatia especial, mas sabia que aos olhos da dona o bicho era sagrado. Sentado numa poltrona, entregava-se, portanto, a seus pensamentos sombrios estendendo maquinalmente a mão em direção à gata, porque se achava na obrigação de acariciá-la. Mas a gata começou a rosnar e mordeu-lhe a mão. Esta mordida, somando-se a toda uma série de fracassos e humilhações suportadas nas últimas semanas, encheu-o de raiva e, pulando da cadeira, ameaçou a gata com o punho fechado. Ela correu para um canto e arqueou as costas emitindo terríveis miados.
Depois virou-se e viu Laura. De pé na porta, ela certamente observara toda a cena.
— Não, disse ela, a gata não deve ser punida. Estava perfeitamente no direito dela.
Bernardo olhou-a com espanto. A mordida estava doendo e esperava que a amante, se não se aliasse a ele contra a gata, pelo menos desse prova de um senso mínimo de justiça. Sentia vontade de dar um pontapé tão violento na gata, que ela ficasse colada na parede. Foi preciso uma grande esforço para conseguir dominar-se.
Laura continuou, articulando cada palavra:
— Quando é acariciada, ela exige que não se fique distraído. Eu também não suporto que se fique comigo com o pensamento noutra coisa.
Alguns momentos antes, ao ver sua gata reagir tão violentamente à atitude distraída de Bernardo, sentiu-se, de repente, solidária com o animal. Há semanas Bernardo comportava-se em relação a ela como em relação à gata: acariciava-a, mas seus pensamentos estavam longe; fingia estar em sua companhia, mas não a escutava.
Quando viu a gata morder seu amante, teve a impressão de que seu outro eu, o eu simbólico e místico que era para ela seu animal, queria, deste modo, encorajá-la, mostrar-lhe a conduta a seguir, servir de exemplo. Há momentos, pensou ela, em que é preciso mostrar as garras; decidiu que naquela mesma noite, no restaurante em que deveriam jantar a sós, finalmente encontraria a coragem necessária para agir.
Direi claramente, adiantando os acontecimentos: é difícil imaginar bobagem maior do que a sua decisão. Aquilo que ela queria era inteiramente contrário a seus interesses. É preciso acentuar que Bernardo, desde que a conhecera há dois anos, estava feliz em sua companhia, talvez até mais feliz do que Laura imaginava. Ela era para ele uma evasão, um refúgio longe da vida que seu pai, o eufônico Bertrand Bertrand, preparou-lhe desde a infância. Enfim, podia viver uma liberdade, como desejava, ter um canto secreto onde nenhum membro de sua família vinha introduzir sua cabeça curiosa, um canto onde sua vida corria seguindo outros hábitos: adorava os modos boêmios de Laura, o piano que de vez em quando tocava, os concertos a que ia com ela, seus estados de espírito e suas excentricidades. Em sua companhia, sentia-se longe das pessoas ricas e enfadonhas que frequentavam a casa de seu pai. Mas a felicidade deles tinha uma condição: deviam permanecer solteiros. Se casassem, tudo mudaria subitamente: a união deles ficaria imediatamente exposta a todas as interferências da família de Bernardo; o amor deles perderia, desta forma, não apenas seu charme, mas também sua própria razão de ser. E Laura não poderia exercer todo poder que exercia até então sobre Bernardo.
Como ela podia tomar uma decisão tão estúpida, tão contrária a seus interesses? Conheceria tão pouco o seu amante? Compreenderia tão mal?
É, por estranho que pareça, ela o conhecia mal, e não o compreendia.
Ficava mesmo orgulhosa em não se interessar por Bernardo, mas apenas por seu amor. Nunca o interrogava sobre seu pai. Não sabia nada sobre sua família.
Quando ele lhe falava de si mesmo, ela se caceteava ostensivamente e logo manifestava sua recusa em desperdiçar um tempo precioso que poderia dedicar a Bernardo. Mais estranho ainda: durante as semanas sombrias do diploma, em que ele não abria a boca a não ser para desculpar-se de estar com problemas, ela sempre repetia:
— É, os problemas, sei o que é isso. Mas sem nunca fazer-lhe a seguinte pergunta, a mais simples de todas:
Que problemas você tem? Objetivamente, o que está acontecendo?
Fale, diga o que lhe preocupa!
É curioso: era louca por Bernardo e, ao mesmo tempo, não se interessava por ele. Diria até: era louca por Bernardo epor essa mesma razão não se interessava por ele. Se lhe censurássemos sua falta de interesse e a acusássemos de não conhecer seu amante, ela não nos compreenderia. Pois Laura não sabia o que significa conhecer alguém. Era como uma virgem que teme ficar grávida ao trocar muitos beijos com seu amante! Há muito tempo pensava em Bernardo quase sem parar. Imaginava seu corpo, seu rosto, tinha a impressão de estar constantemente com ele, de estar impregnada dele. Por isso achava que o conhecia de cor, como ninguém o conhecera antes. O sentimento do amor nos engana a todos por uma ilusão de compreensão.
Depois desses esclarecimentos, talvez possamos, enfim, acreditar que ela declarou-lhe na sobremesa (para desculpá-la poderia esclarecer que tinham tomado uma garrafa de vinho e dois conhaques, mas estou certo de que ela teria dito a mesma coisa se estivesse sóbria):
— Bernardo, case comigo!

(Milan Kundera - A Imortalidade) 

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publicado às 19:30


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