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Você pode ver, Epimeteu concebe e realiza o que os nossos ecologistas chamam hoje uma “biosfera” ou um “ecossistema” perfeitamente equilibrado — o que os gregos, por sua vez,chamam simplesmente um cosmos, uma ordem harmoniosa, justa e viável, em que cada espécie animal pode sobreviver ao lado e apesar das outras. E isso confirma que a natureza — pelo menos se acreditarmos na mitologia — é uma ordem francamente admirável. Você talvez me pergunte: por que então Epimeteu merece ter fama de um bobalhão que tudo compreende atrasado?

Aqui vai a resposta de Protágoras:
Mas como Epimeteu, todos sabemos, não era dos mais previdentes, ele se deu conta, depois de desperdiçar o tesouro de qualidades com seres privados de raciocínio, de ter sobrado a raça humana, que nada havia ganho; e ele se confundiu todo, sem saber o que fazer. Foi essa a situação encontrada por Prometeu, ao chegar para controlar a distribuição. Viu os animais razoavelmente munidos sob todos os pontos de vista, enquanto o homem continuava nu, sem nada nos pés, nada para se cobrir, desarmado [...] E tomado pela preocupação de encontrar um meio que protegesse o homem, Prometeu roubou de Hefesto e de Atena o gênio criativo das artes, ao roubar-lhes o fogo (pois sem o fogo, não há meio de se adquirir tal gênio nem de utilizá-lo). Desse modo, fez ao homem a sua doação.
Podemos perceber o duplo erro de Prometeu, que vai ocasionar a dupla punição: contra ele próprio, a águia terrível a devorar seu fígado, mas também contra os homens, a quem Zeus envia Pandora e, com ela, todos os males que passam a estar ligados à condição humana mortal. Em que, exatamente, consiste esse duplo erro?

Primeiro, Prometeu se comportou como um ladrão; sem permissão ele entra no ateliê que têm juntos Hefesto e Atena para de um roubar o fogo e da outra as artes. Por esse roubo ele já é passível de punição. Mas o pior é que Prometeu, sem consentimento de Zeus, fornece aos homens um novo poder, um poder de criação quase divino, e podemos imaginar — para além do comentário de Platão, que se prende a outros aspectos do mito que não nos interessam diretamente aqui — ser provável que essa possibilidade vá, um dia ou outro, levar os humanos, sempre tão dispostos à hybris, a se tomarem por deuses. De fato, como nos indica Protágoras, graças aos dons propriamente divinos fornecidos por Prometeu, os homens se tornam os únicos animais capazes de fabricar objetos “técnicos”, artificiais: calçados, cobertas, roupas, alimentos tirados da terra etc. Isso significa que, à semelhança dos deuses, eles passam também a ser verdadeiros criadores. Mais ainda, são os únicos a articular sons de maneira a poder lhes dar um sentido, isto é, os únicos a inventar a linguagem, algo que, mais uma vez, consideravelmente os aproxima dos deuses. Em compensação, como esses dons roubados por Prometeu vêm diretamente dos olímpicos, os humanos são também os únicos seres vivos a saber da existência dos deuses e a construir altares em homenagem a eles. Mesmo assim, visto que não param de se comportar de maneira injusta uns com os outros, a ponto de incessantemente se colocarem em risco de autodestruição, ao contrário dos animais que formam um sistema de coparticipação equilibrado e viável, eles estão sob a ameaça de hybris o tempo todo! É então uma espécie prodigiosamente perigosa e preocupante para o cosmos esta que Prometeu acaba de fabricar, sem o consentimento de Zeus. Compreende-se por conseguinte muito bem a sua raiva, por que considera indesculpáveis e irresponsáveis as manobras de Prometeu, e por que ele resolve não só punir esse filho de Titã, mas ao mesmo tempo os homens, para justamente recolocá-los também
em seu lugar e lembrar que não devem ceder à hybris. É o que realmente está em jogo nesse mito: fazer com que os mortais, apesar dos dons de Prometeu, não se imaginem deuses.

No fundo, é à mesma ideia que fundamenta a peça que o grande trágico Ésquilo dedicou a Prometeu quase dois séculos antes de Platão colocar o mito em cena com o personagem de Protágoras.
De fato, descobre-se que Zeus já desconfiava dos mortais no momento da repartição do mundo e da organização do cosmos, depois de tomar o poder de seu pai, Cronos. Mais uma vez, prefiro citar diretamente o texto de Ésquilo para que você se habitue à maneira de se exprimir dos gregos, cinco séculos antes da nossa era:
Assim que se sentou no trono paterno (isto é, o trono de Cronos, que Zeus acaba de derrubar com a ajuda dos Ciclopes e dos Hecatonquiros), ele repartiu os privilégios entre os diferentes deuses e fixou os escalões do seu império (você se lembra, é onde começa realmente a criação da ordem cósmica). Mas não levou em consideração os infelizes mortais. Queria inclusive fazer a raça inteira desaparecer, para que outra nascesse. E ninguém, além de mim, Prometeu, se opôs. Apenas eu tive tamanha audácia e impedi que os maltratados mortais descessem ao Hades (aos infernos, que frequentemente são designados pelo nome do deus que ali reina). Por isso aqui me encontro, dobrado sob o peso de dores dificilmente suportáveis, desagradáveis de serem vistas (trata-se, é claro, das dolorosas correntes e da águia devoradora do fígado). Por ter me apiedado dos mortais, fui julgado indigno de piedade.
Tudo bem. Entretanto, uma vez mais, por quê? Um pouco mais adiante, Prometeu se gaba de todas as vantagens que proporcionou aos homens. Quando se lê a lista, como em Platão, compreende-se que Zeus de forma alguma tenha visto com bons olhos essa espécie que pode perfeitamente — mais ou menos como receiam os ecologistas de hoje — ser a única na terra a poder praticar, graças às técnicas de que dispõe, o descomedimento a ponto de pura e simplesmente ameaçar de destruição a ordem cósmica:
Ouçam então as misérias dos mortais e vejam como, de crianças que eram, fiz deles seres dotados de raciocínio e reflexão. Vou contar, não para denegrir os homens, mas para mostrar os favores concedidos por generosidade minha. Eles viam sem enxergar, escutavam sem ouvir e, semelhantes às imagens dos sonhos, tudo misturavam ao acaso, ao longo da vida inteira. Não conheciam casas de tijolos cozidos ao sol. Não sabiam trabalhar a madeira. Viviam entocados como as ágeis formigas, no fundo de antros sombrios. Não tinham sinal algum seguro que indicasse o inverno, a primavera florida nem o verão rico em frutos. Tudo era feito sem o uso da inteligência, até o dia em que lhes mostrei a difícil arte de discernir o levantar dos astros e o seu ocaso. Inventei para eles a mais bela de todas as ciências, a do número, assim como a junção das letras que conserva a lembrança de todas as coisas e favorece a cultura das artes. Também fui o primeiro a emparelhar animais e fazê-los servir, sob o jugo e o bastão, para que tomassem o lugar dos mortais nos trabalhos mais árduos e atrelei ao carro cavalos dóceis às rédeas, luxo com que se guarnece a opulência. Fui eu próprio o inventor também desses veículos com asas de linho em que os marinheiros percorrem os mares. São tantas as invençõe que imaginei a favor dos mortais e eu, desafortunado que sou, não vejo meio de me libertar da minha presente desgraça.
Prometeu pode ser um bom camarada, mas passa completamente ao lado do problema que preocupa Zeus — problema que, uma vez mais, ressurge sob aspecto muito próximo na ecologia contemporânea, e não por acaso, aliás, a imagem de Prometeu nela se mantém onipresente. Pois aos olhos de Zeus, a declaração de Prometeu soa como terrível confissão — e tudo que o filho do Titã Jápeto expõe a seu favor parece, do ponto de vista dos olímpicos, a mais terrível das acusações. O que a mitologia grega aqui põe em cena, com uma clarividência e profundidade impressionantes, é a definição totalmente moderna (Podemos encontrá-la no início da tradição humanista, com Pico della Mirandola, Rousseau, Kant e até Sartre) de uma espécie humana cuja liberdade e criatividade são fundamentalmente antinaturais e anticósmicas. O homem prometeico é o homem da técnica, capaz de criar, inventar de maneira incessante, fabricar máquinas e artifícios capazes de um dia se libertarem de todas as leis do cosmos. É isso, muito exatamente, que Prometeu lhe dá, roubando o “gênio das artes”, ou seja, a faculdade de utilizar e até inventar todo tipo de técnica. Agricultura, aritmética, linguagem, astronomia: tudo isso serve ao homem para escapar de sua condição, se erguer com arrogância acima dos seres da natureza e, desse modo, perturbar a ordem cósmica ainda recente, que Zeus com tanta dificuldade conseguira construir! Resumindo, ao contrário das outras espécies vivas — aquelas das quais Epimeteu perfeitamente organizou a vida, de maneira a formar um sistema equilibrado e imutável, em tudo oposto ao que a humanidade formaria assim que estivesse capacitada às artes e às ciências —, a espécie humana é a única entre as mortais capaz de hybris, a única podendo, ao mesmo tempo, desafiar os deuses e perturbar e até mesmo destruir a natureza. E é isso, certamente, que Zeus não pode ver com bons olhos, ou o vê inclusive com um olho muito mau, se considerarmos as punições infligidas a Prometeu e aos humanos.
Daí a pensar em destruir a humanidade inteira, a distância é bem curta, e algumas narrativas mitológicas deram esse passo.
O dilúvio e a arca de Deucalião segundo Ovídio: destruição e renascimento da humanidade
Um fato fica bem-estabelecido: é inegável a tendência à hybris, que caracteriza a humanidade desde que adquiriu os tais novos poderes de criatividade, ligados às técnicas roubadas dos deuses por Prometeu. É constante a ameaça de cair no vício, com uma possibilidade cada vez maior de vir a cometer crimes contra a ordem justa. Vários mitógrafos antigos seguem (de forma mais ou menos deformada com relação a Hesíodo) o mito da idade de ouro com outro episódio famoso, o do dilúvio decidido por Zeus para destruir a humanidade atual e fazê-la renascer — exatamente como na Bíblia — a partir de dois justos: um homem, Deucalião, filho de Prometeu, e uma mulher, Pirra, filha de Epimeteu e Pandora. Os dois são descritos como seres simples e direitos, vivendo de acordo com diké, a justiça, e afastados da hybris que caracteriza o restante da humanidade caída em decadência. (3) O primeiro poeta a dar uma narrativa detalhada e completa do dilúvio — só se encontram antes algumas alusões aqui e ali, mas não suficientemente completas para constituírem uma história coerente — é Ovídio. No início de Metamorfoses, ele nos oferece uma versão plausível do mito e liga o episódio do dilúvio a um acontecimento particular que poderia ocorrer em nossa época, isto é, na idade de ferro, resultado direto da derrelição a que chegou a humanidade nesse período: trata-se do caso Licaão, um rei grego que tentou enganar Zeus de maneira abominável. Ovídio evoca ainda a existência de uma raça que, depois ou durante a idade de ferro, não se sabe, teria sido fabricada por Gaia com o sangue dos Gigantes fulminados por Zeus — para que a raça dos seus filhos não se extinguisse —, tendo dado a tais seres um “rosto humano”. Eles entretanto guardavam o traço indelével das suas origens, se caracterizando, antes de mais nada, pelo prazer em carnificinas e por não respeitarem os deuses.
Vamos dar uma olhada nessa narrativa do dilúvio e também supor que estamos na companhia da raça de ferro ou, pior ainda — se é que isso é possível —, dessa que saiu do sangue dos Gigantes fulminados por Zeus e, por conseguinte, vivendo em plena hybris. Zeus, avisado de que o comportamento dos humanos se revelava calamitoso, resolve dar um giro de fiscalização pela terra para ver até que ponto a humanidade havia decaído. E o que ele vê? Que a situação é ainda pior do que lhe descreveram! Em todo lugar reinam assassinos, ladrões, homens que menosprezam a ordem do mundo instaurada pelos deuses. Para poder observar por si mesmo, com tranquilidade e sem correr o risco de receber uma impressão errada por ter sido reconhecido, Zeus assume uma aparência humana e perambula de um lado para outro pela terra. Acaba chegando à Arcádia, onde reina um tirano chamado Licaão (o que, em grego, significa “lobo”). E revela ao povo da região ser um deus que descera à terra. Impressionado, o povo reza. Mas Licaão, pelo contrário, desanda a rir. E seguindo o esquema que encontramos várias vezes, à semelhança do episódio de Tântalo, ele resolve desafiar Zeus para confirmar se, de fato, como pretende, ele é um deus ou, pelo contrário, um simples impostor.
Licaão decide matar Zeus durante o sono, mas antes de executar esse intento funesto, degola um infeliz prisioneiro que o rei de um povo denominado molosso havia deixado como refém. Corta-o em pedaços, ferve alguns, assa outros e acha ótima ideia servir tudo isso como jantar para Zeus! É um erro fatal, pois como já acontecera com Tântalo, Zeus percebe e compreende tudo. O raio é acionado, e o palácio de Licaão desmorona sobre a sua cabeça. O tirano, entretanto, consegue escapar, e Zeus o transforma em lobo — e vemos Licaão, sempre cruel, com os olhos animados por paixão sanguinária, dirigir seu ódio contra os outros animais, tornando-se seu mais feroz predador. Veja como Ovídio descreve essa cena, no início de Metamorfoses — que cito ainda no mesmo espírito, para que se dê conta do estilo e com quanta vivacidade os mitos eram contados naquela época. É Zeus quem fala, na primeira pessoa. Ele já se encontra no Olimpo, depois de convocar todos os deuses para uma assembleia extraordinária. Conta a eles sua experiência, anunciando estar disposto a destruir a raça humana, e expõe os motivos de tal decisão. Como sempre, ponho meus próprios comentários entre parênteses:
Durante a noite, enquanto eu dormia um sono profundo, Licaão se preparava para me surpreender e matar; vejam com qual prova ele queria saber a verdade (quer dizer, confirmar se Zeus é de fato um deus). Mas achou que não era ainda o bastante. Com a espada, cortou a garganta de um dos reféns que lhe tinha enviado o povo molosso. Em seguida, ferveu uma parte ainda palpitante dos membros em água quente para torná-la mais macia e fez grelhar outra parte diretamente no fogo. Mal terminou de pôr a mesa, meu raio vingativo desmoronou sobre ele o palácio [...] Tomado de pavor, ele fugiu e, ganhando o campo silencioso, começou a uivar; pois foi em vão que tentou falar; toda a raiva contida em seu coração passou a se concentrar na boca; sua habitual sede de matança agora se dirige a rebanhos, de forma que continua ainda a se satisfazer no sangue [...] Suas roupas se transformaram em pelos, os braços se tornaram patas, mas ele conserva ainda traços do seu antigo aspecto. Mantém o mesmo pelo grisalho, o mesmo ar cruel, os mesmos olhos febris, e nada perdeu da atitude feroz. Abati com meu raio uma única casa, mas muitas merecem o mesmo fim! Pois sobre a terra inteira reina a furiosa Erínia (quer dizer, você se lembra, uma das deusas da vingança — significando haver crimes à solta a serem punidos). Mais parece uma conjuração para o crime! Não vamos mais esperar. Que todos os homens sofram — é a minha decisão irrevogável — o castigo que bem merecem.
 
 E o castigo, como você deve ter adivinhado, é o dilúvio. Zeus imagina, por um instante, destruir a humanidade com sua arma favorita, já utilizada contra Licaão, o raio, mas desiste. A destruição necessária é tamanha — a terra inteira precisa se livrar do gênero humano corrompido — que o braseiro talvez ganhasse proporções enormes, podendo muito bem incendiar o universo inteiro e queimar o próprio Olimpo. À água, então, recorreria Zeus, e por ela a humanidade vai morrer. Zeus toma o cuidado de esconder os ventos que afastam as nuvens — aqueles que, consequentemente, como o mistral mediterrânico, trazem dias bonitos, secos e quentes. Em contrapartida, espalha, como cães cruéis de matilha, ares úmidos e pesados, de tenebrosas nuvens carregadas de água que começa a cair do céu com gotas grossas e densas. Para que tudo se encaminhe da melhor forma, pede também que Poseidon (Netuno) bata no chão com seu tridente, fazendo os rios saírem dos seus leitos e também as ondas do oceano se agitarem. Em pouco tempo, a terra inteira fica coberta d’água. Veem-se, segundo Ovídio, focas de corpo informe substituírem as cabras nos campos, golfinhos ligeiros entre as árvores, lobos nadarem com ovelhas, ao lado de leões de pelo fulvo, todos pensando apenas em salvar as próprias peles. As filhas de Nereu, um dos deuses do mar, se encantam descobrindo cidades inteiras ainda intactas sob as águas... Homens e animais, enfim, todo o pequeno mundo de mortais acaba sendo tragado. Até os pássaros morrem; cansados de voar sobre um mar sem limites, eles acabam desistindo e sendo também tragados. Aqueles que, de uma maneira ou de outra, escapam, mais cedo ou mais tarde morrem de fome — pois evidentemente não resta mais alimento algum para que sobrevivam.
Todo mundo morre. Exceto dois seres, dois humanos que Zeus teve o cuidado de preservar — e mais uma vez estamos bem próximos do mito bíblico. Pois no momento em que anuncia a decisão de destruir a totalidade do gênero humano, a assembleia dos deuses, na verdade, fica dividida. Uns apoiam e até agravam a vontade exterminadora. Mas outros, pelo contrário, lembram que a terra, sem os mortais, pode se tornar bem tediosa e vazia. Deixariam aquele lugar maravilhoso apenas para os animais selvagens? Além disso, quem vai cuidar dos altares, fazer sacrifícios, homenagear os deuses, se não houver mais homens para isso? A verdade — e eu é que acrescento, pois está apenas subjacente no texto de Ovídio — é que, sem os homens, o cosmos inteiro está destinado a morrer!
E de novo abordamos um dos temas mais profundos da mitologia: se a ordem cósmica fosse perfeita, caracterizada por um equilíbrio imutável e sem falhas, o tempo simplesmente pararia, isto é, a vida, o movimento, a história, e não haveria, inclusive para os deuses, nada mais a se ver nem fazer, ficando claro que o caos primordial e as forças que ele não para de engendrar de vez em quando não podem nem devem jamais desaparecer totalmente. E a humanidade, com todos os seus vícios e, principalmente, com a sucessão infinita de gerações que isso implica, desde o envio de Pandora e da morte “de verdade” para os homens, é indispensável à vida. Magnífico paradoxo que se pode formular da seguinte maneira: não há vida sem morte, não há história sem sucessão de gerações, não há ordem sem desordem, não há cosmos sem um mínimo de caos. Por esse motivo, apesar das objeções que lhe fazem alguns deuses, Zeus prefere poupar dois humanos. Por quê? Simplesmente para que a humanidade possa reviver. Quais? Dois seres excepcionais, para que a espécie pelo menos reinicie a partir de bases sólidas e sadias. Excepcionais não significa que sejam “grandiosos”. Pelo contrário, seres simples, mas, como se diz, “honestos”. Têm o coração puro, vivem afastados da hybris, dentro dos princípios de diké, respeitando os deuses e a ordem do mundo. Quem são eles? Eu já disse os seus nomes: Deucalião e Pirra. E disse também que ele é um dos filhos de Prometeu. Hesíodo nunca diz quem é a mãe, nem Ovídio, mas pode-se supor, por Ésquilo, que talvez se trate de uma filha de Oceano, ou seja, uma Oceânida chamada Hesionê. Pirra, por sua vez, é filha de Epimeteu e Pandora. Em certo sentido, é a humanidade da idade de ferro que continua, mas recomeçando do zero, de um homem e uma mulher que, para todo o futuro que se abre, ou seja, para a nossa atual humanidade, podem ser considerados o primeiro homem e a primeira mulher.
Como irão povoar a terra? De maneira bem curiosa, que lembra os tempos primordiais, sem nada dever a Pandora — o que é preferível, se quiserem partir com o pé direito. Sozinhos, assustados, perdidos no universo gigantesco e deserto, Deucalião e Pirra, que tinham tido o cuidado de construir, como Noé, uma arca bem sólida, acostam, após nove dias de dilúvio ininterrupto, na região mais alta do monte Parnaso, que havia sido preservada das águas por vontade de Zeus. Ali, encontram encantadoras ninfas chamadas “coricianas” por habitarem uma gruta, Corícia, escondida no flanco do monte Parnaso, logo acima de Delfos. Eles visitam o santuário de Têmis, a outra deusa da justiça, e lhe dirigem orações: como sobreviver após a catástrofe e, principalmente, como, sozinhos, restaurar a humanidade perdida? Têmis se apieda e dá a seguinte resposta, bastante enigmática à primeira vista — como sempre, quando se trata de oráculos:
Afastem-se do templo, cubram a cabeça, desamarrem o cinto das suas vestes e joguem atrás das costas os ossos de sua avó.

Deve-se reconhecer, são recomendações bem estranhas, e nossos dois infelizes humanos se sentem completamente desorientados! O que a deusa quer dizer, de fato? Pensam, pensam e acabam compreendendo: cobrir a cabeça e soltar o cinto que prende as roupas é adotar a maneira ritual de os sacerdotes fazerem sacrifício aos deuses. Trata-se, então, de um sinal de humildade, de respeito — o contrário da hybris que levara a humanidade à perdição. Quanto aos ossos da avó, a indicação com toda evidência não sugere, como Deucalião e Pirra de início imaginam, a profanação de algum cemitério! A avó em questão é obviamente Gaia — na verdade, para ser mais preciso, a bisavó de Deucalião e Pirra, mãe de Jápeto, que é pai de Prometeu e Epimeteu, pais, por sua vez, dos nossos dois sobreviventes. E os ossos de Gaia, naturalmente, são as pedras. Bastava pensar. Emocionados, temendo terem compreendido mal, Deucalião e Pirra pegam mesmo assim algumas pedras e lançam-nas por cima dos ombros, para trás. Milagre! As pedras se amolecem. Misturando-se à terra, tornam-se carne, e algumas veias surgem na superfície dela, se enchendo de sangue. As lançadas por Pirra viram mulheres, as de Deucalião, homens, e todos trazem seu selo de origem: a nova humanidade será uma raça suficientemente firme, como a pedra da qual saiu, resistente ao cansaço e sólida como a rocha!

Mas ainda há os animais que também, todos, desapareceram no dilúvio. Muito felizmente, sob o calor do sol, a terra embebida d’água se aquece e, nessa lama morna “como o seio da mãe”, diz Ovídio, começam suavemente a nascer animais. Eles saem à luz, veem o dia e se desenvolvem: inúmeras espécies antigas, já conhecidas, e outras, pelo contrário, novíssimas.
O mundo volta a funcionar. A vida retoma seu fluxo, e a ordem cósmica escapa, finalmente, dos dois males que a ameaçavam: o caos, de um lado, que podia a qualquer instante ressurgir através daquela humanidade completamente mergulhada na hybris; de outro, o tédio da inércia e da vacuidade, caso as espécies mortais totalmente desaparecessem. Com isso, você pode perceber que somente aí a cosmogonia, a construção do cosmos, está verdadeiramente concluída.

É também nesse ponto que a questão crucial, aquela em que a mitologia beira a filosofia — o que é uma vida boa para os mortais? —, vai poder, enfim, se colocar em toda sua amplitude. E com Ulisses vamos poder começar a respondê-la em profundidade. Pois não basta se colocar sob o ponto de vista dos deuses, como fizemos até agora, incorporando a lógica da teogonia. Afinal, o que interessa a nós, humanos, é saber como nos situarmos em relação a toda essa edificação grandiosa. Admitamos, por hipótese, aceitar a visão grega do mundo, achar que o universo é globalmente harmonioso e ordenado, e que nós, seres acabados, estamos irremediavelmente destinados à morte: quais são, nessas condições, os princípios para uma vida boa? Além disso, esses dois dados básicos se tornam menos absurdos para nós, hoje, sendo inclusive bem atuais: com tudo bem considerado, é muito possível que o universo seja efetivamente ordenado como acham os gregos. A ciência contemporânea apoia, em inúmeros aspectos, essa visão. A cada dia, as descobertas da biologia e da física modernas nos levam a crer que simplesmente existem ecossistemas, que o universo é organizado, que evolui na direção de seres cada vez mais adaptados etc. Quanto à finitude, o desencantamento do mundo leva um grande número de pessoas, pelo menos nos países democráticos, a achar que a noção de imortalidade prometida pelas religiões é, no mínimo, duvidosa. A ideia, então, de que a sabedoria consiste em aceitar a hipótese de uma ordem cósmica, no coração da qual os mortais vivem por determinado tempo, é mais contemporânea do que nunca. Por essa razão, a viagem de Ulisses, passando claramente do ponto de vista dos deuses ao dos simples mortais e descrevendo a maneira como um ser humano particular pode e deve encontrar seu lugar no cosmos para chegar à vida boa, tem algo a nos dizer ainda hoje.

Tentemos entender melhor em que e por quê: é a questão inteira da sabedoria dos mortais que está em jogo e, acredite, isso vale bem a pena.
 
(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos) 

NOTAS:
 
(1) Hesíodo chama também a idade de ouro de idade de Cronos, o que pode parecer estranho, tendo em vista a famosa guerra de Zeus contra os Titãs que acabei de contar. Mas deve-se dizer que, ainda segundo Hesíodo, apesar das más ações posteriores, Cronos foi bem ou mal o primeiro soberano, o primeiro senhor do cosmos, até ser vencido por Zeus e lançado no Tártaro. Aliás, diz também o final do poema, o senhor do Olimpo acaba inclusive perdoando o pai e até mesmo o reabilita.

(2)  Mas dou um resumo: a raça de prata, também diretamente criada pelos deuses do Olimpo, como a raça de ouro, não envelhece. No seu caso, entretanto, a juventude duradoura tem um significado bem diferente. Por cem anos os homens da raça de prata vivem como crianças. Isso quer dizer que não são adultos desenvolvidos, como os da raça de ouro, mas seres infantis que assim que chegam à maturidade vivem muito pouco tempo porque são dominados pela mais horrível das hybris, que imediatamente os leva à morte. Não somente são da mais extrema violência uns com os outros, mas também recusam cultuar os deuses e oferecer-lhes sacrifícios, render suas merecidas honras. Irritado com tal falta de diké e tanto desrespeito pela justa hierarquia dos seres, Zeus resolve fazê-los desaparecer. Pode-se dizer que esses homens se assemelham às más divindades; como Tífon ou os Titãs ao guerrearem os olímpicos, eles não buscam edificar uma ordem cósmica justa e harmoniosa. Pelo contrário, desprezam-na e se esforçam no sentido de sua destruição — e por isso Zeus é obrigado a se livrar deles. De modo oposto, os homens da idade de ouro correspondem a uma ordem do mundo bem-dirigida e bem-organizada sob a égide dos olímpicos — razão pela qual podem viver em perfeita harmonia com eles. Ao morrerem, os homens da idade de prata, por vontade de Zeus, também se transformam em demônios, mas demônios que, ao contrário dos anteriores, são soterrados como divindades más e “caóticas”, sob a terra, nas trevas. O que significa que são punidos. A terceira raça é a de bronze, que não se situa no mesmo nível que as duas primeiras. São seres limitados, que têm a existência reduzida, por assim dizer, a uma só e única dimensão da vida humana, a da pura violência guerreira. Nada sabem fazer além de lutar, e sua brutalidade é sem igual. São terríveis em força, possuem armas de bronze e até vivem em casas de bronze. Nada que seja caloroso ou confortável envolve a sua vida. Moram em lugares à imagem deles: metálicos, duros, frios e vazios. Considerando que a primeira raça corresponde às boas
divindades favoráveis ao cosmos, a segunda às divindades tenebrosas e caóticas, a terceira corresponde aos Gigantes; como estes, aliás, está destinada a uma morte anônima, morte que os gregos denominam “negra”, a morte mais horrível que pode haver para eles, pois reina nas trevas das profundezas da terra e da qual ninguém escapa, de modo algum. De tanto lutarem entre si, os homens de bronze acabam mutuamente se aniquilando, de forma que Zeus não precisa intervir para livrar o cosmos da sua presença. A quarta raça, a dos heróis, dedica-se também à guerra. Mas diferentemente dos homens da idade de bronze, praticam-na, se podemos assim dizer, com justiça, diké, com honradez e não na hybris que a pura violência constitui. Aquiles, Héracles, Teseu, Ulisses e Jasão, homens da idade heroica, seres tornados célebres por suas ações gloriosas e corajosas — e não anônimos como os de bronze —, são soldados, sem dúvida, mas, antes de tudo, são homens de honra, preocupados em respeitar os deuses e, finalmente, encontrar seu devido lugar no coração da ordem cósmica. Por isso esses heróis, que Hesíodo chama “semideuses”, são mais ou menos como os homens da idade de ouro. Também não morrem completamente. Os mais valorosos deles, tendo preenchido seu espaço de tempo, são colocados por Zeus num lugar magnífico, a “ilha dos bem-aventurados”, onde, sob a égide de Cronos liberto e perdoado pelo senhor do Olimpo, eles vivem como os homens da idade de ouro, sem precisar trabalhar, sem preocupações, sem doenças nem dores, numa terra de abundância que lhes fornece por conta própria o que é necessário para uma vida doce e feliz.

(3) Não há menção a esse episódio no texto de Hesíodo, e certamente se colocou o problema referente à época em que teria ocorrido esse famoso dilúvio. Apoiados em fontes tardias — provavelmente a Biblioteca de Apolodoro —, alguns sem discutir remetem a destruição da humanidade corrompida à idade de bronze. Porém, deve-se concordar que, dentro da perspectiva aberta por Hesíodo, essa hipótese não faz muito sentido, pois os homens da idade de bronze têm como característica essencial justamente a autodestruição, de tanto que se combatem. Assim sendo, Zeus não precisaria intervir para livrar o cosmos da sua presença. 

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