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por Thynus, em 03.12.12
"Ultra aequinoxialem non peccari” - (“Não existe pecado aquém da linha do Equador”)

Falando dos desmandos dos conquistadores e colonizadores europeus que se aventuravam pelos trópicos latino-americanos durante a era colonial, o iluminista francês Diderot escrevia: "Além do Equador um homem não é inglês, holandês, francês, espanhol ou português. Ele se apega somente àqueles preceitos de seu país
de origem que justificam ou servem de desculpa à sua conduta. Ele rasteja quando está fraco; ele é violento quando forte; ele tem pressa para adquirir, pressa para desfrutar, e é capaz de todo crime que o conduza mais rapidamente a seus objetivos. Ele é um tigre doméstico de volta à selva; a sede de sangue toma conta dele outra vez. É assim que todos os europeus, cada um deles indistintamente, têm se mostrado nos países do Novo Mundo. Um delírio coletivo toma conta deles -a sede de ouro".

O verniz da moralidade cívica do europeu, sugere Diderot, não resiste sem esgarçamento aos rigores da mudança de hemisfério. A autoridade das regras impessoais acatadas pelo “eu-depois” na metrópolo fica enfraquecida e anêmica diante dos desmandos da luxúria e da ganância do”eu-agora” na colônia tropical.” Ultra aequinoxialem non peccari” – “Não existe pecado aquém da linha do Equador” – é o lema latino seiscentista que melhor sintetiza o ambiente de desregramento, oportunismo e egoísmo anárquico criado pela aventura colonial europeia nos trópicos. Como se a linha que divide o mundo em dois hemisférios também separasse a virtude do vício

Quando o oportunismo imediatista é percebido como a regra do jogo, cada um se defende como pode. Mas ao tentar agarrar aqui e ali a sua vantagem particular e o seu prazer imediato, ao transgredir e ignorar sempre que for conveniente as leis e normas impessoais de uma convivência civilizada, as partes terminam involuntariamente criando um monstro coletivo que não esperavam - um todo social hostil, no qual elas não se reconhecem e que se abate sobre as suas vidas com a fatalidade inocente de uma catátrofe natural.

O sentimento sincero e generalizado de cada uma das partes quando olha para si própria e ao redor de si é o de que ela não tem nada a ver com o mal que percebe à sua volta. O mal que ela encontra fora de si, contudo, não passa no fundo do resultado agregado de uma miríade de ações divergentes, cada uma delas minúscula em si mesma diante do todo social, mas conjuntamente e ao longo do tempo poderosas o suficiente para erodir o estoque de confiança interpessoal e configurar um quadro de incerteza, adversidade e violência que, se não chega a arruinar por completo, seguramente prejudica e empobrece de forma sensível o relacionamento humano na vida prática e efetiva.

(Eduardo Giannetti - "Auto-Engano")
http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAm3sAD/auto-engano

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publicado às 12:49



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