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E disseram uns aos outros: Eia, façamos tijolos e queimemo-los bem. E foi-lhes o tijolo por pedra, e o betume por cal.
E disseram: Eia, edifiquemos nós uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra.
Então desceu o Senhor para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam;
E o Senhor disse: Eis que o povo é um, e todos têm uma mesma língua; e isto é o que começam a fazer; e agora, não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer.
Eia, desçamos e confundamos ali a sua língua, para que não entenda um a língua do outro.
Assim o Senhor os espalhou dali sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade.
Por isso se chamou o seu nome Babel, porquanto ali confundiu o Senhor a língua de toda a terra, e dali os espalhou o Senhor sobre a face de toda a terra.
 
Se formos ao essencial, a hybris, afinal,
não passa de um retorno das forças obscuras do caos ou, falando como os ecologistas
de hoje, de justamente uma espécie de “crime contra o cosmos”
(Luc Ferry)
 
Nós somos o pedaço de uma televisão, a nossa vida só tem sentido dentro dela e a televisão, por sua vez, só funciona conosco dentro. Os gregos deram a essa televisão o nome de Cosmos. Somos partes do Cosmos. Isso quer dizer que o vento venta, a maré mareia, o sapo sapeia e tudo está mais ou menos de boa. Quando o vento venta, ele venta em harmonia com o Cosmos. Da mesma maneira a maré, o sapo, o tsunami, qualquer outra coisa. Quem é que pode comprometer? Quem é que pode comprometer o todo? O gato que vive de acordo com a sua natureza de gato? Certamente não. Como diz Hans Jonas, filósofo, verdadeiro patrono do pensamento ecologista do século vinte e um, “uma ostra não coloca em risco o universo!” O que ele quis dizer com isso? Que a ostra ostreia (vive de acordo com a sua natureza de ostra), o gato gateia, o vento venta... Então quem é que compromete, quem é que pode comprometer, quem é que pode viver em desarmonia com o todo? Quem é que pode viver errado? Só pode viver errado quem decide, quem delibera, quem escolhe: nós!
(Clóvis Barros Filho)

A exemplo de Ulisses, deve-se preferir a condição de mortal, em conformidade com a
ordem cósmica, em vez da vida de imortal, entregue ao que os gregos chamam hybris,
o descomedimento que nos afasta da reconciliação com o mundo. Deve-se viver com
lucidez, aceitar a morte, viver de acordo com o que se é; na realidade, da mesma
maneira com o que está fora de nós, em harmonia tanto com os seus próximos como
com o universo. Isso é bem melhor do que ser imortal num lugar vazio, sem sentido,
mesmo que paradisíaco, com uma mulher que não se ama, mesmo que seja sublime,
longe dos seus e de seu “lar”, naquele isolamento simbolizado não apenas pela ilha,
mas pela tentação da divinização e da eternidade que nos afastam do que somos e ainda
do que nos envolve... Inestimável lição de sabedoria para um mundo leigo como o
nosso de hoje em dia, lição de vida em ruptura com o discurso religioso dos
monoteísmos passados e futuros. É essa a mensagem que a filosofia terá também de
traduzir como razão, para elaborar à sua maneira — não menos admiráveis doutrinas
de salvação sem Deus, de vida boa para os simples mortais que somos —, que
certamente não será a mesma da mitologia.
(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)
A Torre de Babel: uma interpretação do mito
Eu já falei para você que no frontão do templo de Delfos, um dos mais famosos erguidos à glória de Apolo, provérbios com mensagens fundamentais da sabedoria grega estavam gravados na pedra. Pelo menos dois deles são célebres até os dias de hoje: “Conhece-te a ti mesmo!”, que aparece com destaque, ao lado de seu par, aparentemente mais enigmático, mas que, na verdade, significa a mesma coisa: “Nada em excesso!” Como também disse, o sentido dessas mensagens se obscureceu ao longo dos anos e, atualmente, muitas vezes nos enganamos com relação a seu verdadeiro significado. Nossos contemporâneos têm sempre a tendência a “psicologizar” a mitologia, a interpretar as lições de sabedoria antiga com um sentido moderno, apoiando-se em esquemas psicanalíticos. Isso, muito simplesmente, é um grande erro. O famoso “Conhece-te a ti mesmo”, por exemplo, sentença que um dos principais pais fundadores da filosofia, Sócrates,(Em Sócrates, a expressão, sem nenhuma conotação “psicológica”, já tem outro significado, diferente daquele da cultura da Grécia arcaica. Está ligada a uma teoria bem particular da verdade que Platão desenvolve em suas múltiplas e profundas consequências, uma doutrina segundo a qual nós teríamos, em tempos anteriores, conhecido o que é verdadeiro, mas depois esquecemos, de forma que o conhecimento vem num terceiro momento, como uma “anamnésia”, uma rememoração de algo que já se encontra em nós sem que saibamos. É com essa teoria da verdade enquanto “re-conhecimento” que Sócrates responde ao famoso paradoxo sofístico pelo qual quem busca a verdade não pode nunca encontrá-la: de fato, quem a procura é porque não a possui. Pois é preciso, para identificar uma opinião verdadeira entre tantas falsas que circulam por todo lugar, um critério — que seja, é claro, um critério verdadeiro! É necessário, então, nesse sentido um tanto particular, já possuir o verdadeiro para diferenciá-lo do falso. E, justamente, é o que a teoria da reminiscência vai permitir afirmar: sim, já temos a verdade em nós! Simplesmente, ela foi esquecida, de forma que o conhecimento é reconhecimento, rememoração. Essa visão da verdade percorre toda a posterior história da filosofia) também adotou como divisa-mestre do seu pensamento, passa a significar que temos todo interesse em saber quem somos, ou, como se diz em jargão psicanalítico, “tirar a limpo o inconsciente, para avançar na vida sem temer o retorno do reprimido”. Na verdade, no mundo grego, a sentença nada tem a ver com esse tema contemporâneo. E é importante restabelecer seu significado autêntico, original, não por pedantismo, mas por fornecer, como você vai se dar conta daqui a pouco, um fio condutor muito precioso, inclusive indispensável para a compreensão de uma série de grandes mitos antigos, que vou contar aqui.

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 Nêmesis representa a força encarregada de abater toda a desmesura (hybris)


Originalmente, na cultura grega, essa frase tem um alcance evidente até para simples cidadãos. Deve-se saber permanecer em seu lugar, não “se achar” como se diz comumente, para falar de alguém cheio de orgulho, de arrogância, que se pretende ser o que, na verdade, não é. Outra locução comum lhe corresponde perfeitamente, apoiando-se também na metáfora espacial: “pôr alguém em seu devido lugar”, dar uma “boa lição”, fazer “calar o bico”. Da mesma forma, a expressão “nada em excesso” incita os humanos a encontrarem sua justa medida na ordem cósmica, para evitar a hybris, esse arquétipo da falta de sabedoria, essa vaidade ou descomedimento que desafia os deuses e, através deles, a ordem cósmica, pois é tudo a mesma coisa. Para os mortais, a hybris sempre conduz à catástrofe, e é essa catástrofe anunciada que os mitos que nos interessam aqui expõem.
O primeiro modelo de hybris, o primeiro exemplo de comportamento que perde suas medidas, nós já vimos juntos: aquele que a história de Prometeu nos apresentou. De certa forma, é o protótipo de todas as narrativas que, de maneira edificante, mostram os desastres causados por esse defeito supremo segundo os gregos — e que deixam também vislumbrar as tentações que ele provoca. Pois, é claro, se os mortais pecam por hybris, é por verem nele algo tentador. Prometeu é o primeiro a ser punido por arrogância e orgulho, arrastando os homens junto no castigo. Vimos de que maneira (com Pandora, a mulher “que quer sempre mais do que o suficiente”) e por quê; com as ferramentas dadas por Prometeu, roubadas de Hefesto e de Atena — o fogo, as artes e as técnicas —, os seres humanos muito provavelmente não manteriam seu devido lugar, se imaginando, um dia, iguais aos deuses. Aí está, para os gregos, a diferença entre o homem e o animal. Como você se lembra, quando Epimeteu pôs em ordem as espécies vivas, distribuindo as qualidades e os atributos que permitem sobreviver, vimos que os animais têm, cada um, seu lugar bem preciso no mundo. Entre os animais, não há hybris possível, pois são guiados pelo instinto comum da espécie, não havendo risco de não guardarem seu devido lugar. Não podemos imaginar um coelho ou uma ostra se revoltando contra o destino e resolvendo roubar dos deuses o fogo ou as artes! Os homens, pelo contrário, gozam de uma espécie de liberdade, de uma capacidade para excessos que, sem dúvida, os torna mais interessantes do que os animais — são capazes de tantas manhas e astúcia —, mas também capazes de tudo, inclusive da hybris mais desenfreada. Muitos séculos mais tarde, voltamos a encontrar, no humanismo moderno, essa mesma convicção de que o homem, diferentemente dos animais — cada um com seu modo de vida bem preciso, do qual é impossível se evadir —, nada tem de predeterminado, sendo potencialmente tudo, podendo se tornar e fazer qualquer coisa. É, por excelência, o ser das possibilidades — o que fica justamente simbolizado no mito de Epimeteu pelo fato de, ao contrário dos animais, ele estar, por assim dizer, “todo nu” no início: não tem pelos como o urso e o cão para se proteger do frio, nem carapaça como a tartaruga e o tatu para se abrigar dos raios de sol; não é rápido e ágil na corrida como o coelho, nem armado com garras e dentes como o leão. Resumindo, o fato de estar tão desprovido em seu ponto de partida vai levá-lo a tudo inventar por si mesmo, se quiser sobreviver nesse universo afinal de contas tão hostil, que é o mundo após a idade de ouro. O mito, mesmo sem explicitar, supõe uma inventividade, uma certa forma de liberdade, se compreendermos com isso que o homem não está preso, como o animal, ao papel prescrito para cada espécie por Epimeteu, de forma definitiva. No entanto, é exatamente essa liberdade que está na base da hybris: sem ela, o homem não poderia sair do seu lugar, da sua situação prevista. Não poderia errar, e é justamente a história desses erros e das suas “recolocações nos devidos lugares”, por parte dos deuses, que os grandes mitos da hybris descrevem. O ser humano, então, é por excelência aquele que pode ir longe demais. Ele pode ser louco e pode ser sábio. Tem essa escolha. Está aberto a uma infinita diversidade de meios de viver: nada, no ponto de partida, diz que ele vai ser médico, carpinteiro, pedreiro ou filósofo, herói ou escravo. Cabe a ele, pelo menos em boa parte, decidir — e é, a propósito, esse tipo de decisão que muitas vezes torna a juventude um momento crucial, mas difícil. Com toda evidência, essa mesma liberdade o expõe ao risco de desafiar os deuses e até ameaçar o cosmos inteiro. É, aliás, uma repreensão dos ecologistas, tanto tempo depois de os filósofos e poetas gregos terem estigmatizado as más ações da hybris: a humanidade é a única espécie que pode devastar a Terra, pois é a única que dispõe de capacidades de invenção e de revolta contra a natureza, suscetíveis de realmente sacudir o universo. De novo, nesse ponto é difícil imaginar coelhos ou ostras devastando o planeta e, menos ainda, inventando meios para revirá-lo de cabeça para baixo. Mas a humanidade, em contrapartida, pelo menos desde que Prometeu lhe deu as ciências e as artes, pode, pura e simplesmente, tomar essa medida, ou melhor, essa desmedida. Daí que surge a ameaça que ela constantemente faz pesar sobre a ordem cósmica garantida pelos deuses. Pecado por orgulho, no sentido cristão do termo? Sem dúvida, mas não é somente isso. A hybris, sob muitos aspectos, vai bem mais longe. Não se limita a um defeito subjetivo, uma esquisitice pessoal afetando determinada pessoa, tornando-a má. Possui, muito além do simples pecado de orgulho ou de concupiscência, com que o cristianismo nos assusta, essa dimensão cósmica que acabo de evocar; ela ameaça revirar a bela e justa ordem do mundo, tão penosamente construída por Zeus em sua guerra contra as forças do caos. E é do que se trata, antes de mais nada, quando os deuses punem a hybris. Muito simplesmente, eles procuram preservar a harmonia do universo contra a loucura dos homens. De alguns deles, em todo caso. Por essa razão, a mitologia grega é cheia de histórias que contam terríveis castigos de que foram vítimas os mortais que tiveram a audácia de desafiar os preceitos de sabedoria ensinados pelos deuses. Não se trata apenas de obediência, como no discurso clerical usual,(É claro que nas grandes religiões também há uma preocupação com o mundo, mas o pecado quase sempre aparece como um erro “pessoal”) mas de respeito e de preocupação com o mundo.
Uma última observação, antes de entrar no cerne do assunto. Sem dúvida porque, no tempo dos gregos antigos, todo mundo devia perceber logo de início seu verdadeiro sentido, essas histórias de hybris se encadeiam às vezes de maneira um tanto seca, sem floreios nem esforço particular de imaginação literária, como se fossem por si só compreensíveis e qualquer leitor ou qualquer ouvinte percebesse de imediato o significado, sem necessidade de se insistir. A trama é sempre a mesma: um mortal, ou eventualmente um monstro, ou até uma divindade secundária, se acha forte o bastante para sair de seu papel e se medir com o Olimpo, e é toda vez levado de volta a seu lugar com infalível brutalidade, totalmente dissuasiva para quem quer que caia na besteira de se arriscar a cometer o mesmo erro. Infalível porque é o cosmos que, com a punição divina, recupera seus direitos. As narrativas são então muitas vezes esqueléticas, pelo menos em suas versões escritas que chegaram até nós. Elas partem de uma trama bem básica: põe-se em cena a revolta da hybris contra o cosmos e depois vem a vitória esmagadora deste último em estado quimicamente puro, sem ornamentos, por assim dizer. É o caso dos mitos de Íxion,(Ao se casar com Dia, filha de Dioneu, Íxion promete ao sogro magníficos presentes. No entanto, durante um passeio, joga-o num fosso cheio de brasas ardentes, que ele tinha previamente cavado no jardim. Livra-se assim do sogro, e o crime é tão atroz que ninguém aceita purificá-lo — exceto Zeus, que fica com pena e decide lhe dar uma segunda chance. Convidado ao Olimpo, o mal-agradecido Íxion simplesmente resolve cortejar Hera, esposa de quem o havia salvo. Ela se queixa ao marido. Para ter certeza, Zeus fabrica uma nuvem, um holograma de Hera, e Íxion cai na armadilha, tentando levar para a cama quem ele acredita ser a sublime deusa. Zeus então o precipita nos infernos, onde Íxion foi amarrado para sempre, cheio de serpentes em volta, a uma roda de fogo que gira eternamente no Tártaro) Salmoneu,(Cito a narrativa de Apolodoro, bom exemplo de texto sucinto, tanto no fundo quanto na forma: “Salmoneu morou inicialmente na Tessália, depois se dirigiu à Élida, onde fundou uma cidade. Cheio de hybris, quis se igualar a Zeus e foi castigado por ações ímpias. Dizia ser ele o próprio Zeus. Suspendeu os sacrifícios ao deus, ordenando que lhe fossem diretamente oferecidos. Ele arrastava atrás do carro ressecados odres de couro e panelas de bronze, dizendo ser o trovão. Lançava ao céu tochas em chamas, imitando relâmpagos. Zeus fulminou-o e arrasou a cidade por ele fundada, com todos os seus habitantes.” Ponto final!) Faeton,(Ovídio é a principal fonte para a história de Faeton, em Metamorfoses, com muitos detalhes. Mas, apesar de todo o esforço do poeta, a trama mantém uma simplicidade desconcertante: Faeton é filho do sol, Hélio. Ele se gaba disso, mas seus amigos não acreditam. Consegue então, por intermédio da mãe, um encontro com o pai e pede, por pura vaidade, que mostre aos amigos que é seu pai. Hélio promete fazer tudo que ele desejar. Faeton pede para dirigir, durante um dia inteiro, o famoso carro paterno, aquele que todo dia vai de leste a oeste, do nascente ao poente. Hélio fica preocupado, pois sabe o quanto é difícil controlar o carro e o perigo em potencial que isso representa para a ordem cósmica inteira. O inevitável acontece: os cavalos divinos escapam do jovem orgulhoso e se aproximam demais da Terra: as plantações ficam queimadas, os rios secam e os animais são carbonizados toda vez que o carro chega perto demais do chão. Com essa ameaça de destruição do cosmos, Zeus, como sempre, intervém e fulmina o imprudente, que se torna a constelação Auriga) Otos e Elfate,(Eis a narrativa, dada por Homero na Odisseia, da curta vida desses dois homens gigantescos: “Jamais a terra rica em trigais havia nutrido homens tão grandes, e somente Órion teve mais nobre beleza. Aos 9 anos, eles tinham 9 côvados de largura e, de altura, chegavam a 9 braças. Ameaçaram os deuses de assaltar com seus gritos o Olimpo; para subir até o céu, quiseram colocar sobre o Olimpo o Ossa e, sobre o Ossa, o Pélion de bosques frementes. Talvez conseguissem, se alcançassem a idade adulta; mas antes que despontasse a barba sob as suas têmporas e que uma penugem em flor lhes sombreasse a face, caíram ambos sob as flechas do filho que Leto dos belos cabelos havia dado a Zeus”, ou seja, Apolo) Níobe,(Níobe é filha de Tântalo e irmã de Pélops. Como seu pai, é cheia de hybris. Ela não para de dizer que merece, bem mais do que Leto, a mãe dos gêmeos divinos Apolo e Ártemis, os sacrifícios oferecidos a essas divindades olímpicas. E ordena que a ela própria cultuem! Justificando-se, lembra que tem muito mais filhos do que a deusa, seis meninas e seis meninos (de acordo com as diferentes variantes, isso pode chegar a dez meninas e dez meninos, o que, é claro, nada muda nisso tudo). Leto pede aos dois arqueiros divinos que resolvam a questão. Apolo e Ártemis obedecem com todo prazer. As flechas varam impiedosas os 12 filhos de Níobe. Morrem sob os seus olhos e com atrozes sofrimentos. Zeus transforma Níobe em pedra, uma pedra da qual se diz que as lágrimas continuam a correr) Belerofonte,(Neto de Sísifo, Belerofonte de início é um jovem simpático e corajoso. Como o avô, porém, vai terminar influenciado pela hybris. E também há de pagar caro. Depois de matar o tirano de Corinto, Belerofonte encontra asilo com Proetos, um outro rei, da cidade de Tirinto, e se tornam amigos. Infelizmente, a rainha se apaixona por ele. Por lealdade ao amigo ele a rejeita, mas a rainha, magoada, diz ao marido que ele havia tentado seduzi-la. Proetos acredita tolamente na mulher, mas não querendo matar Belerofonte pessoalmente, envia-o a um rei amigo, da Lícia, pedindo que o mate. Mas o rei da Lícia, vendo a boa aparência de Belerofonte, também não quer cometer o crime. Prefere confiar ao jovem herói uma tarefa impossível, em que certamente perderia a vida. Pede que mate a Quimera. Para isso, Belerofonte precisa antes domar Pégaso, o cavalo alado que saiu do pescoço de Medusa quando Perseu a matou. Atena ajuda Belerofonte, e ele consegue matar a Quimera. No caminho, ele ainda combate e vence piratas; porém, imbuído de tantos sucessos, que na verdade ele deve sobretudo aos deuses, Belerofonte começa “a se achar”. É tomado pela hybris. E resolve subir ao Olimpo, sentar-se junto aos deuses e se tornar — por que não? — imortal. Zeus envia uma mosca-varejeira para picar Pégaso, e o arrogante Belerofonte, derrubado, morre ao cair) Cassiopeia(Que será punida por ter se vangloriado de ser, assim como as suas filhas, mais bonitas do que as filhas de Poseidon, as Nereidas) e tantos outros que seguem o mesmo modelo. A título de ilustração — porque algumas são célebres e é bom que você as conheça — indico em nota a trama dessas histórias e, se for o caso, as obras em que facilmente vai encontrá-las. Mas deve-se ter em mente que, assim como os nossos contos de fadas eram contados em casa à noite, contadores profissionais ou amadores acrescentavam sua pitada de sal, buscando maior fôlego e emoção, incorporando detalhes, dando sequência à ação — como fizeram os trágicos, de maneira evidentemente grandiosa, enobrecendo alguns desses mitos. Felizmente, outras narrativas forjadas sobre o tema d a hybris nos foram transmitidas em versões mais desenvolvidas e indo bem mais longe, tanto do ponto de vista literário quanto filosófico. Formam verdadeiros dramas, repletos de lições ricas e profundas, cômicas ou trágicas de sabedoria que, aliás, também se enriqueceram no decorrer do tempo. Já pudemos ter uma mostra disso com o mito de Midas. Vou contar alguns outros que valem bem a pena e que frequentemente são malcompreendidos hoje em dia, sem que os mitógrafos modernos se deem conta, na maior parte das vezes encobertos que estão sob os ouropéis da moral cristã ou simplesmente burguesa, senão pela psicologia contemporânea, que lhes roubam o sabor original e o verdadeiro significado. É bom recolocá-los no ambiente cosmológico e filosófico original a que pertencem e que você já começa a conhecer bem. Ainda mais porque os mais ricos desses mitos têm diretamente a ver com a questão da relação dos mortais com aquilo que, infalivelmente, os espera, ou seja, justamente, a morte.

 (Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)
 
BACO ENCONTRA ARIADNE

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