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Comecemos pela dimensão cultural dos mitos.
Ela praticamente fala por si mesma, se considerarmos o uso que fazemos em nossa linguagem cotidiana de uma quantidade de imagens, de metáforas e de expressões que diretamente pegamos emprestadas, sem sequer conhecer seu sentido e origem.(As explicações para essas expressões - e outras - aparecerão ao longo do livro) Algumas, que se tornaram lugares-comuns, trazem a lembrança de determinado episódio fabuloso, particularmente marcante nas aventuras de algum deus ou herói: partir em busca do “tosão de ouro”, “agarrar o touro pelos chifres”, “ficar entre Caribdis e Cila”, introduzir entre os inimigos um “cavalo de Troia”, limpar os “estábulos de Augias”, seguir o “fio de Ariadne”, ter um “calcanhar de Aquiles”, lamentar a “idade de ouro”, colocar sua ação sob a “égide” de alguém, observar a “Via Láctea”, participar dos “Jogos Olímpicos”... Outras, mais numerosas ainda, insistem em algum traço característico de determinado personagem, cujo nome se torna familiar sem que a gente saiba os motivos do sucesso nem o papel exato que ele representava no imaginário grego: pronunciar palavras “sibilinas”, decidir-se com relação ao “pomo da discórdia”, “bancar a Cassandra”, ter, como Telêmaco, um “Mentor”, mergulhar nos “braços de Morfeu” ou usar “morfina”, “mergulhar no Pactolo”, se perder num “Labirinto”, num “Dédalo” de ruelas, ter um “Sósia” (o criado de Anfitrião de quem Hermes assume a aparência quando Zeus seduz Alcmena), uma “Egéria” (a ninfa que aconselhou, dizem, um dos primeiros reis de Roma), gozar de uma força “titânica”, “hercúlea”, sofrer o “suplício de Tântalo”, passar pelo “leito de Procusto”, ser um “Anfitrião”, um Pigmalião apaixonado por sua criatura, um sibarita (habitante da luxuosa cidade de Síbaris), abrir um “Atlas”, xingar “como um carroceiro”,(A origem dessa expressão, talvez ainda menos conhecida do que a de outras, não deixa de ser engraçada. Muitas vezes me perguntei por que, afinal, o carroceiro xingaria mais do que o camponês ou o ferreiro. A resposta está ligada a um episódio dos 12 trabalhos de Hércules e que foi explicitamente contado por Apolodoro (Biblioteca, livro II, §118), a quem deixo a palavra: “Atravessando a Ásia, Hércules acostou em Termidrai, no porto de Lindos. Desatrelou um dos bois do carro de um carroceiro, sacrificou-o e se regalou. O carroceiro, não podendo se defender, subiu numa montanha e se pôs a xingar.” O pobre homem não ia querer, afinal, provocar em combate singular aquela outra montanha, só que de músculos, que devia ser Hércules!) se lançar em empreitada “prometeica”, uma tarefa infinita como a que consiste em esvaziar o “tonel das Danaides”, falar com uma voz de “Estentor”, passar por um “Cérbero” num lugar sombrio, cortar o “nó górdio”, montar “como Amazona”, imaginar “Quimeras”, ficar “medusado”, “nascer da coxa de Júpiter”, esbarrar numa “Harpia”, numa “Megera”, numa “Fúria”, entrar em “pânico”, abrir “a caixa de Pandora”, apresentar um “complexo de Édipo”, ser “narcisista”, estar na companhia de um bom “areópago”... A lista pode crescer infinitamente. Da mesma forma, será que nos damos conta de que um hermafrodita é, antes de tudo, filho de Hermes e de Afrodite, o mensageiro dos deuses e a deusa do amor; que um gorgonáceo parece petrificado como se tivesse cruzado o olhar de Medusa; que museu e música são herdeiros das nove musas; que um lince, em princípio, tem a vista penetrante de Linceu, o argonauta que era capaz de ver através de uma tábua de carvalho; que os lamentos da bonita ninfa Eco, desolada com a partida de Narciso, ainda podiam ser ouvidos depois da sua morte; que o louro é uma planta sagrada em homenagem a Dafne, e o cipreste, tão comum nos cemitérios mediterrâneos, é um símbolo do luto, tendo a ver com o infeliz Ciparissos, que sem querer matou uma pessoa querida e nunca conseguiu se consolar?... Inúmeras expressões lembram também lugares famosos da mitologia, o “campo de Marte”, os “campos elísios” ou, mais secreto, o “Bósforo”, que literalmente evoca a “passagem da vaca”, recordando Io, a pequena ninfa que Hera, esposa de Zeus, perseguiu com seu rancor ciumento e que seu ilustre marido transformou em encantadora bezerra, para protegê-la da maldade da esposa...
Na verdade, um capítulo inteiro seria necessário para juntar todas essas alusões mitológicas incorporadas e depois esquecidas na linguagem de todo dia, para reavivar o sentido de nomes como Oceano, Tifão, Tríton, Píton e outros seres maravilhosos que se apresentam incógnitos em nossa fala cotidiana. Charles Perelman, um dos maiores linguistas do século passado, falava muito saborosamente de “metáforas adormecidas” nas línguas maternas. Qual francês ainda se lembra que as lunettes, os óculos, que ele nunca sabe onde deixou e está sempre procurando, são “pequenas luas” (lunetas)? É preciso ser estranho à língua para se dar conta e, por isso, às vezes um japonês ou um indiano acham poético um termo ou uma expressão que a nós parece perfeitamente comum — da mesma forma que achamos bonitinhos ou engraçados “gota de orvalho”, “urso corajoso” e “sol matinal”, que podem servir como nome para os filhos deles...
Este livro propõe despertar essas “metáforas adormecidas” da mitologia grega, contando as maravilhosas histórias que estão em sua origem. Mesmo que seja apenas em nome da cultura, para estar capacitado a compreender a incontável quantidade de obras de arte ou intelectuais que, nos museus ou bibliotecas, buscam inspiração nessas raízes antigas e permanecem, assim, perfeitamente “herméticas” (mais uma referência ao deus Hermes!) para quem ignora mitologia, isso já vale a pena — ou melhor, como vamos ver, o prazer.
Pois o formidável sucesso linguístico da mitologia não deixa de ter, é evidente, sentido e importância. Há razões de fundo para esse singular fenômeno — sistema filosófico algum, nenhuma religião, sequer as da Bíblia, podem reivindicar semelhante status — que faz da mitologia, mesmo que na mais completa ignorância de suas fontes reais, uma parte inalienável da nossa cultura comum. Sem dúvida isso tem a ver, já de início, com o fato de ela atuar a partir de narrativas concretas e não, como a filosofia, de maneira conceitual e reflexiva. E é nesse sentido que ela pode, ainda hoje em dia, se dirigir a todos, apaixonar crianças e pais num mesmo impulso, ou até transpor, se apresentada de modo sensato, não apenas as idades e as classes sociais, mas também as gerações, se transmitindo à nossa época como vem fazendo, praticamente sem interrupção, há quase três milênios. Apesar de ter sido, por muito tempo, considerada como uma marca de “distinção”, como símbolo da mais alta cultura, a mitologia, na verdade, não está absolutamente reservada a uma elite, nem aos que se baseiam em estudos do grego e do latim: todo mundo pode compreendê-la, inclusive as crianças, com as quais se devem compartilhar as suas histórias o quanto antes, como muito bem percebeu o historiador Jean-Pierre Vernant, que gostava, ao que dizem, de contá-las ao neto. Não apenas tais narrativas trazem às crianças infinitamente mais do que os desenhos animados com que elas normalmente são nutridas, mas iluminam as suas vidas com um foco insubstituível, se tivermos nos dado ao trabalho de compreender com suficiente profundidade a prodigiosa riqueza dos mitos, nos tornado aptos, assim, a contá-los em termos compreensíveis e sensatos.
E esse é o primeiro objetivo deste livro: tornar a mitologia bastante acessível ao maior número de pais para que eles possam repassá-la a seus filhos — sem, contudo, trair nem desnaturar os textos antigos originais. Este ponto é crucial a meu ver e gostaria de nele insistir um momento.
Por seu método e por seu objetivo, o trabalho que aqui apresento não se assemelha às obras de vulgarização, no mais das vezes agradáveis, agrupadas em geral dentro de coleções do tipo “contos e lendas”. Por se dirigirem às crianças e ao grande público, com frequência despreocupadamente se juntam nelas camadas e camadas heterogêneas que pouco a pouco forjaram, no tempo, no espaço e no espírito, o que se designa como “mitologia”. Na maior parte das vezes, esses retalhos de saber permanecem descosidos e deformados, “arrumados” que foram às necessidades da causa e do momento. O significado e a origem autênticos das grandes narrativas míticas se mantêm, com isso, ocultos ou até mesmo falseados, a ponto de se reduzirem, em nossas lembranças, a um anedotário mais ou menos judicioso, arquivado em algum lugar entre os contos de fadas e as superstições herdadas das religiões arcaicas. Mais grave ainda, a coerência se perde nos floreios e ornamentos diversos, ou mesmo nos erros, pura e simplesmente — são inúmeros nesse tipo de obra —, que os autores modernos não conseguem, em geral, deixar de introduzir, en passant, nas narrativas antigas e que desnaturam o seu alcance. Pois devemos manter na consciência que a “mitologia” de forma alguma vem de determinado autor. Não há uma narrativa única, um texto canônico ou sagrado, comparável à Bíblia ou ao Corão, que se tenha religiosamente guardado ao fio dos séculos e que sirva como indiscutível referência. Pelo contrário, temos uma pluralidade de histórias que narradores, filósofos, poetas e mitógrafos (é como se chamam os que juntaram e redigiram, desde a Antiguidade, compilações de contos míticos) escreveram ao longo de 12 séculos (do VIII a.C. ao V d.C., grosso modo) — para não falar das múltiplas tradições orais das quais, por definição mesmo, sabemos pouquíssimo.
Tal diversidade, entretanto, não deve ser reduzida nem deixada de lado pelo simples motivo de não se estar escrevendo um livro exclusivamente voltado para o saber acadêmico. Apesar de não estar me dirigindo apenas a especialistas, e sim a leitores de todas as áreas, não quis confundir tudo da mesma maneira. Esforcei-me, tentando conciliar o que a erudição ensina com o que a vulgarização impõe, sem nunca sacrificar a primeira aos imperativos da segunda. Em outras palavras, para cada uma das histórias que vou contar, indico as fontes autênticas, cito tantas vezes quantas necessárias os textos originais e preciso, quando acredito ser ao mesmo tempo interessante e útil, as principais variantes que surgiram no decorrer do tempo. Acredito que esse respeito pelos textos antigos, com sua complexidade e heterogeneidade, não só em nada prejudica a inteligibilidade dos mitos, mas também, pelo contrário, é a condição necessária para a boa compreensão. Perceber as inflexões que um autor trágico como Ésquilo (século VI a.C.) ou um filósofo como Platão (século IV a.C.) puderam dar do mito de Prometeu, tal como o poeta Hesíodo, antes de todos (no século VII a.C.), havia estabelecido, não é dispersivo, e sim esclarecedor. Longe de obscurecer, enriquece a compreensão e seria absurdo privar o leitor disso, a pretexto de se pretender a vulgarização: as sucessivas reinterpretações dessas histórias só as tornam ainda mais interessantes.
Mas o que a mitologia tem de interessante não se limita ao aspecto linguístico ou cultural, e seu sucesso, é evidente, não está ligado apenas às qualidades inerentes à forma da narrativa, assumida para transmitir seus ensinamentos. Meu livro não visa, então, apenas oferecer chaves para que o leitor se situe naquilo que os gregos chamariam “lugares-comuns” da cultura — mesmo não sendo isso, absolutamente, desprezível ou negligenciável: afinal, foi a partir dessa herança que nós todos, queiramos ou não, forjamos para nós, pelo menos parcialmente, uma certa representação do mundo e dos homens; conhecer suas origens só pode nos tornar mais livres e mais conscientes de nós mesmos. Mas além da importância histórica ou estética inestimável, as narrativas que vamos descobrir ou redescobrir trazem em si lições de sabedoria de uma profundidade filosófica e modernidade que eu gostaria desde já assinalar.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos, introdução)

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