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Um Deus imoral?

por Thynus, em 26.12.12

Por várias vezes Jesus propôs como modelos a seguir pessoas que não seguiam a religião oficial. Os judeus pensavam que Deus devia ser adorado em Jerusalém, seguindo determinadas regras e rituais de culto. Jesus, porém, disse à Samaritana que Deus não se adora nem em Jerusalém nem no monte Guerizim: Deus adora-se em espírito e verdade. O sacerdote e o levita, eventualmente a caminho das celebrações cultuais no Templo, passaram ao lado daquele homem que precisava de ajuda, pois tinha sido espancado pelos ladrões. E acabou por ser um samaritano, portanto, alguém desligado do culto oficial, que foi próximo daquele desgraçado. Dos dez leprosos curados só o samaritano, portanto, um estrangeiro, considerado um herege, voltou para agradecer...
Ai de nós, se não tivesse havido nem houvesse ateus, não ateus vulgares, mas daqueles que sabem o que isso verdadeiramente quer dizer! Sem eles, muitos crentes continuariam de rastos diante da Divindade. Mas que Deus seria esse que nos obrigasse a andar de rastos diante dele e nos tornasse mesquinhos e ridículos aos nossos próprios olhos?...
Deus tem de ser um Deus moral. Portanto, qualquer ser humano tem de exigir que Deus seja pelo menos melhor do que nós, seres humanos. Ora, embora não sejamos bons, nenhum ser humano sadio permitiria, se estivesse nas suas mãos, que alguma vez um ser humano sofresse os horrores do inferno para sempre. Como foi possível acreditar num Deus proclamado como amor originário e ao mesmo tempo aceitar a condenação eterna, com tormentos sem fim, no inferno, de tal modo que muitos homens e mulheres viveram já na terra uma existência totalmente envenenada, torturada, por causa do pânico do inferno? Como é que foi possível acreditar em Deus e ao mesmo tempo num pecado dos primeiros homens entendido como um pecado transmitido de geração em geração, de tal maneira que o fruto do amor que as mães levam no seu ventre seria portador da mancha do pecado, da qual só o baptismo poderia libertá-lo? Pergunta, com razão, o filósofo da religião Andrés Torres Queiruga: "Em que cabeça cabe que Deus pudesse 'exigir' a morte violenta do seu Filho para perdoar os pecados da humanidade? Que mãe pode acreditar de verdade que a sua criaturinha recém-nascida, perante a qual o seu coração se desfaz de ternura, 'está em pecado' enquanto não for baptizada?"
A não ser que o consideremos um déspota imoral e arbitrário, Deus não pode exigir aos homens aquilo que ele próprio não faz, não pode obrigar os homens àquilo a que ele próprio não está obrigado. A primeira condição para acreditar é, portanto, purificar, na cabeça e no coração, a imagem que se tem de Deus. De facto, se, por exemplo, Deus fosse um Deus vingativo, um Deus opressor, seja qual for o género de opressão, por que é que não haveríamos de poder nós também vingar-nos e oprimir?

(Anselmo Borges - "Janelas do (In)Visível")

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