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O nascimento dos deuses e do mundo 1

por Thynus, em 19.03.14

 

 
No começo do mundo, foi uma divindade bem estranha a primeira a emergir do nada. Os gregos a chamam de “Caos”. Não é uma pessoa, nem mesmo um personagem. Imagine que essa divindade primordial nada tem de humano: não tem corpo, nem rosto, nem traços de personalidade. Na verdade, é um abismo, um buraco negro, no meio do qual ser algum se encontra que se possa identificar. Nenhum objeto, coisa alguma que possa ser distinta nas trevas absolutas que reinam no meio daquilo que, no fundo, é uma total desordem. Aliás, no início dessa história, não existe personagem algum para ver o que quer que seja: não há animais, não há homens, nem mesmo deuses. Não só não há seres vivos, animados, como também não há céu, não há sol, não há montanhas nem mar, nem rios, nem flores, nem florestas. Enfim, nesse buraco escancarado que é o caos, reina a total escuridão. Tudo é confuso, desordenado. Caos parece um gigantesco precipício obscuro. É como nos pesadelos: se você cair dentro dele, a queda é infinita. Mas seria impossível, pois nem você, nem eu, ser humano algum se encontra nesse mundo!
Depois, de repente, uma segunda divindade surge desse caos, sem que se possa realmente saber por quê. É uma espécie de milagre, um acontecimento original e fundador que Hesíodo, o primeiro poeta a nos contar essa história, há muito tempo, no século VII a.C., não explica e por boa razão: ele também não tem a menor explicação à disposição. Algo surge, só isso, sai do abismo, e esse algo é uma deusa formidável, chamada Gaia — o que, em grego, significa terra. Gaia é o chão firme, sólido, o chão nutriz em que plantas muito em breve vão poder crescer, rios vão correr, animais, homens e deuses vão poder andar. Gaia, a terra, é ao mesmo tempo o primeiro elemento, o primeiro pedaço de natureza literalmente tangível e confiável — nesse sentido, é o contrário de Caos: ali não se cai infinitamente, pois ela nos ampara e carrega —, mas é também a mãe por excelência, a matriz original da qual todos os seres futuros, ou quase todos, vão em breve sair.
Porém, para que rios, florestas, montanhas, céu, sol, animais, homens e, principalmente, outros deuses um dia surjam a partir de Gaia, a deusa terra, ou até mesmo daquele estranho Caos — pois também a partir dele brotam algumas criaturas divinas —, será preciso ainda uma terceira divindade — terceira porque já tínhamos duas: Caos e Gaia. Trata-se de Eros, o amor. Como Caos, é sem dúvida um deus, mas não de fato uma pessoa. Trata-se mais de uma energia expansiva que faz os seres brotarem e se desenvolverem. É, por assim dizer, um princípio de vida, uma força vital. Não se deve de forma alguma confundir esse Eros, que não pode ser visto nem identificado como um ser particular, com o pequeno deus que mais tarde vai aparecer, usando o mesmo nome — aquele que os romanos vão chamar Cupido. Esse “segundo” Eros, se assim o podemos tratar, em geral representado como uma criança rechonchuda munida de asinhas e de um arco, disparando flechadas que provocam a paixão, é um outro deus, independente desse Eros primordial, princípio ainda abstrato que tem como principal missão fazer com que todas as divindades futuras passem das trevas para a luz. Será, então, a partir dessas três entidades primordiais — Caos, Gaia e Eros — que tudo vai se pôr em seus lugares e o mundo, progressivamente, se organizar. Por isso a questão primeira e fundamental dentre todas: como se faz para passar da absoluta desordem das origens para o mundo harmonioso e belo que conhecemos? Em outras palavras, que em breve serão as usadas pelos filósofos, como se passa do caos inicial ao “cosmos”, isto é, à ordem perfeita, à organização bela e justa de uma natureza magnífica e generosa em que tudo está maravilhosamente bem-disposto sob a suavidade do sol? É esta a primeira história, a narrativa das origens de todas as coisas e de todo ser, dos elementos naturais, dos homens e também dos deuses. É a narrativa fundadora de toda a mitologia grega. E é com ela, então, que devemos começar.
Para entrar plenamente no assunto, devo ainda falar de um quarto “personagem” ou, melhor dizendo, pois também não chega a ser de fato um indivíduo, de um quarto “protagonista” dessa estranha história. Em seu poema, que por enquanto nos serve de guia, Hesíodo evoca, é verdade, uma outra divindade naquelas primeiríssimas origens: o Tártaro. Como eu disse, não é propriamente uma pessoa, pelo menos no sentido em que entendemos, tomando os humanos como modelo. Primeiro e antes de tudo, é um lugar brumoso e aterrorizante, cheio de mofo e sempre mergulhado na mais total treva.
Tártaro se encontra nas profundezas de Gaia, nos mais distantes subsolos da terra. É neste lugar — que logo será identificado como o inferno — que os mortos, quando houver, serão lançados, assim como os deuses derrotados ou punidos. Hesíodo nos dá uma indicação interessante sobre a localização desse famoso Tártaro — que também é, ao mesmo tempo, um deus e um lugar, uma divindade que será capaz, por exemplo, de ter filhos, mas igualmente ser um pedaço de natureza, um recanto do cosmos. Situa-o enfiado na terra, tão longe da superfície do chão quanto o céu, e acrescenta uma imagem bem demonstrativa: imagine uma pesada bigorna — é uma espécie de suporte de bronze em que os ferreiros batem o metal com um malho, para dar-lhes forma —, pois bem, Hesíodo explica que seriam necessários nove dias e nove noites para que esse enorme e pesado objeto caísse do céu até a superfície da terra, e outros nove dias e nove noites para ir da superfície da terra até o fundo do Tártaro! Isso para mostrar o quanto esse lugar infernal, que vai aterrorizar os humanos, e também os deuses, está imerso nos mais profundos abismos de Gaia.
Voltemos a ela, justamente, pois é com quem as coisas sérias começam, e não vamos colocar a carroça à frente dos bois: não esqueça que, até o momento, não existem céu nem montanhas, nem homens, nem deuses — com exceção daquelas entidades primordiais que são, resumindo e citando por ordem de nascença: Caos, Gaia, Eros e Tártaro. Nada mais, até então, nasceu. (Exceto duas outras divindades, filhas de Caos, que vamos por enquanto deixar de lado: Érebo, as trevas, e Nyx, a noite. Elas designam duas diferentes escuridões. Érebo é antes de tudo o escuro reinante no subsolo, por exemplo, no Tártaro. Noite é a obscuridade de fora, não a que se encontra sob a terra, mas acima dela, sob o céu. Ela, então, não é absoluta, mas relativa ao dia que a sucede, todos os dias, justamente! Érebo e Noite fazem amor e dão origem a duas outras criaturas divinas. Uma delas é Éter, a bruma luminosa que envolve o alto das montanhas, lugar sempre deslumbrante de brilho, situado acima das nuvens. É a luz que ilumina a morada dos deuses, o Olimpo, e, de certa maneira, constitui o contrário absoluto de Érebo, a escuridão das profundezas. Ao lado de Éter nasce também Hemera, que é justamente o dia que toda manhã sucede a noite.)
Precisamente, porém, sem dúvida pelo impulso da energia de Eros, Gaia vai sozinha dar nascimento, sem ter marido nem amante, a partir das suas próprias profundezas e forças, a um formidável deus: Urano. Urano é o céu estrelado que, situado (na verdade estendido, para não dizer deitado sobre) acima da terra, se apresenta como o duplo celeste de Gaia. Por todo lugar em que ela se encontra, ou seja, em todo lugar em que há terra, Urano, o céu, também está, colocado acima. Um matemático diria que são conjuntos de extensão perfeitamente idêntica: a cada centímetro quadrado de Gaia corresponde o mesmo centímetro quadrado de Urano. E mais ainda, de novo sem fazer amor com nenhum outro deus, Gaia fez surgirem outros filhos das suas entranhas: Ureia, as montanhas, e ninfas que as povoavam, jovens lindas, mas não humanas, pois são também criaturas divinas; e ainda Ponto, a “onda marinha”, isto é, a água salgada do mar. Como você pode ver, o universo, o cosmo, começa pouco a pouco a ganhar forma — apesar de ainda estar longe de se poder considerar terminado.
Você há de notar, insisto ainda, pois isso é muito importante para que se compreenda bem o teor dessa história que de uma só vez fala do nascimento dos deuses e do mundo, que todas as regiões do universo que acabo de evocar são consideradas, na mitologia, ao mesmo tempo “pedaços de natureza” e divindades. Da mesma maneira que a terra é o chão em que pisamos, o terreno em que crescem as árvores — e também uma grandiosa deusa que tem, como você e eu, um nome próprio, Gaia —, o céu é um elemento natural, o límpido azul situado acima das nossas cabeças, e uma entidade divina, já personalizada e também munida de um nome próprio: Urano. E o mesmo se passa com relação a Ureia, as montanhas; Ponto, a onda marinha; ou Tártaro, o infernal subsolo oculto nas profundezas da terra. Isso significa, eventualmente, que essas divindades podem se acasalar, se unir entre si e ter filhos, por sua vez: é assim que milhares de outras criaturas mais ou menos divinas nascerão desses primeiros deuses.
Por enquanto, vamos deixar de lado a maioria delas e nos mantermos no fio principal da narrativa e com os personagens que nela ocupam um lugar indispensável à compreensão do terrível drama que logo vai transcorrer, antes de chegarmos, enfim, à edificação de um mundo ordenado, uma ordem cósmica verdadeira, ou seja, um universo harmonioso e estável em que os seres humanos vão poder viver e morrer.
Nessa primeira narrativa mítica, o nascimento do mundo natural e o dos deuses formam uma coisa só — por isso estão emaranhados numa única e mesma história.
Resumindo, contar o nascimento da terra, do céu ou do mar é o mesmo que contar as aventuras de Gaia, Urano, Tártaro ou Ponto. E é assim que seguem as coisas, como você verá. Repare que, por essa razão, as primeiras divindades, apesar de terem um nome próprio como você e eu, são sobretudo puras forças da natureza, mais do que pessoas com personalidade e psicologia próprias. Para organizar o mundo, mais tarde vai ser preciso se apoiar em outros deuses, mais culturais do que naturais, e que terão muito mais poder de reflexão e de consciência do que as primeiras forças naturais com que o universo começa. É, aliás, esse progresso na direção da inteligência, da astúcia, do cálculo, ou seja, essa espécie de humanização dos deuses gregos que vai fornecer um dos impulsos mais interessantes de toda a história. Em todo caso, porém, o que se sabe é que, no início, o nascimento dos deuses e o dos elementos naturais se confundem. Sei que as palavras que vou empregar agora vão lhe parecer um tanto complicadas, porque você não as conhece ainda: “teogonia” e “cosmogonia” formam uma coisa só. O que significa isso? Na verdade, esses antigos termos gregos são bem simples e não devem assustar. Pelo contrário, é melhor que os conheça desde já. Eles simplesmente significam aquilo que acabo de exprimir de outra forma: o nascimento (gonia) do mundo (cosmos) e o nascimento (outra vez gonia) dos deuses (teo) são a mesma coisa — a cosmogonia, o nascimento do cosmos, é uma teogonia, uma história do nascimento dos deuses, e vice-versa.
Isso permite que compreenda e, assim espero, guarde desde já duas coisas: antes de tudo, mesmo sendo eterno, já que os deuses são imortais, o cosmos nem sempre existiu.
No início não era a ordem e sim o caos que reinava. No começo, não são apenas a mais completa desordem e a mais total escuridão que dominam, mas, como logo iremos ter a comprovação, os primeiros deuses, em vez de cheios de sabedoria, como se pode esperar de deuses, eram, muito pelo contrário, tomados por ódios e paixões brutais, mal-educados, a ponto de acabarem fazendo a guerra entre eles, de maneira aterradora.
Não se pode de jeito nenhum dizer que fossem de abordagem amena e de harmonia, e, por isso mesmo, o nascimento do mundo, de uma ordem cósmica harmoniosa, tem uma história bastante longa e que vai afinal tomar a forma de uma “guerra dos deuses”.
Terrível história, como você vai ver, cheia de som e de fúria, mas uma história, também, que traz em si uma mensagem de sabedoria: a vida em harmonia com a ordem do mundo, mesmo que — como é o caso para os mortais — esteja fadada a terminar um dia, é preferível a qualquer outra forma de existência, incluindo-se nela a imortalidade que seria, se assim podemos dizer, “desordenada” ou “deslocada”. Mas ainda falta, para que possamos viver em acordo com o mundo que nos cerca, que esse mundo ordenado, o famoso cosmos, exista. Coisa que, no ponto em que estamos em nosso livro, ainda está longe de acontecer!
Observe também que nessa época das origens ainda não há espaço propriamente dito: entre o céu e a terra, entre Urano e Gaia, não há o vazio nem interstícios, tanto que permanecem colados um na outra. O universo, consequentemente, não tem desde o início seu aspecto atual, com uma terra e um céu separados por uma grande distância — aquela mesma que a história da bigorna de bronze tentou deixar clara. Mas, além disso, também não há propriamente tempo, ou pelo menos não um tempo semelhante ao que conhecemos hoje, pois a sucessão das gerações — simbolizada e encarnada pelo nascimento de novas crianças — ainda não acontece. Aliás, quem vai realmente viver com a referência do tempo são, por excelência, os mortais, que ainda não nasceram.
Vejamos agora como o universo, tal como o conhecemos, irá progressivamente emergir desses dados iniciais.
 
A separação dolorosa do céu (Urano) e da terra (Gaia): o nascimento do espaço e do tempo
 
Urano, o céu, não se encontra ainda “no alto”, no firmamento, semelhante a um gigantesco teto. Está, pelo contrário, agarrado a Gaia como uma segunda pele. Ele a toca, acaricia em todos os pontos e sem parar. Ele é, se assim podemos dizer, dos mais colantes ou, para ser ainda mais explícito: Urano não para de fazer amor com Gaia, de se deitar com ela. É a sua única atividade. Ele é “monomaníaco”, obcecado por uma única e exclusiva paixão, a paixão erótica: ele não para de cobrir Gaia, de beijá-la, de se fundir nela e, consequência inevitável, de lhe fazer um monte de filhos! E é com estes que as coisas realmente sérias vão começar.
Pois os filhos de Urano e Gaia vão de fato ser os primeiros “deuses de verdade”, os primeiros deuses que deixam de ser personagens mais ou menos abstratos, entidades, e se tornam verdadeiras “personalidades”. Como acabo de dizer, vamos assistir a uma humanização do divino, à aparição de novos deuses que, finalmente, têm a aparência de autênticas pessoas, bem individualizadas e com características psicológicas. As paixões são menos brutais, mais elaboradas, apesar de, como veremos, se manterem às vezes contraditórias ou até mesmo devastadoras: uma vez mais, os deuses gregos, diferentes, por exemplo, do deus dos cristãos, dos muçulmanos e dos judeus, estão longe, muito longe, de serem sempre perfeitamente sábios e ajuizados. Pois é com essas crianças que poderemos colocar em toda sua amplidão a questão diretriz da narrativa das origens: a questão da formação da ordem a partir da desordem, do nascimento do cosmos a partir do caos inicial. E vai ser preciso ter personalidade, em todas as acepções do termo, coragem e múltiplas qualidades para harmonizar esse primeiro universo que não para de se tornar mais complexo; isso não vai poder ser feito cegamente, pelo simples jogo das forças naturais, como a gravidade de Newton: essa ordem é tão bela e complexa que forçosamente depende de gente inteligente. Daí surge a progressão que irá nascendo do sucessivo nascimento dos deuses, como vou contar.
Quem são exatamente os primeiros descendentes de Urano e de Gaia, do Céu e da Terra? E quais serão as suas aventuras até a plena e inteira emergência da ordem cósmica finalmente equilibrada?
São, de início, aqueles que o próprio pai, Urano, denomina “Titãs”: seis meninos e seis meninas — também chamadas “Titanas” ou “Titânidas”, para distingui-las dos irmãos. Esses Titãs têm três características em comum. Primeiro são, como todos os deuses, perfeitamente imortais; impossível, então, esperar matá-los se porventura entrarmos em guerra contra eles! Em seguida, contam com uma força colossal, inesgotável, totalmente sobre-humana, e da qual sequer podemos ter uma ideia. Por isso, aliás, fala-se ainda hoje, em nosso linguajar corrente, de força “titânica”. Pela mesma razão deu-se o nome “titânio” a um metal particularmente sólido e resistente. Melhor não provocar deuses assim. Por último, todos têm uma beleza perfeita. Consequentemente são seres ao mesmo tempo assustadores e fascinantes, facilmente violentos, pois conservam traços da sua origem: nasceram das profundezas da terra e vieram dos confins do Tártaro, aquele lugar infernal, ainda bem próximo do caos original, do qual Gaia talvez também tenha vindo — Hesíodo nos diz que ela veio “pós-Caos”, sem confirmar que tenha saído dele, mas é uma hipótese plausível. Em todo caso, fica claro que os Titãs são forças do caos, mais do que do cosmos, seres mais da desordem e da destruição do que da ordem e da harmonia.13
Além desses seis formidáveis Titãs e seis sublimes Titânidas, Urano engendrou com Gaia três seres monstruosos “em tudo semelhantes a deuses”, disse Hesíodo, com a única diferença de terem apenas um olho, plantado no meio da testa! São “Ciclopes”, que também terão um papel decisivo na história da construção do cosmos, do mundo ordenado e harmonioso. Como os irmãos Titãs, eles têm uma força extraordinária e são violentos ao extremo. Seus nomes, em grego, o indicam bastante bem, pois todos evocam o temporal e a tempestade: há primeiramente Brontes, que significa “aquele que trovoa”, como o trovão. Em seguida, Estéropes, o relâmpago, e Arges, o raio. São eles que vão dar ao futuro rei de todos os deuses, Zeus, suas armas mais temíveis: o trovão, o relâmpago e o raio, justamente, que Zeus vai poder usar contra os adversários para cegá-los e abatê-los.
Dos amores do céu e da terra nasceram ainda três outros seres absolutamente aterrorizantes, mais assustadores, se isso for possível, do que os 12 Titãs e os três primeiros Ciclopes: têm, cada um deles, cinquenta cabeças, e dos ombros monstruosos saem cem braços, possuindo um vigor inimaginável. São chamados, por esse motivo “Hecatonquiros”, o que, em grego, quer dizer simplesmente “cem-braços”. Eram tão impressionantes que Hesíodo observava ser melhor não lhes pronunciar os nomes — mas mesmo assim os fornece — para não se correr o risco de chamar a atenção. O primeiro se chama Coto, o segundo Briareu e o terceiro Giges. Também terão, junto com os Ciclopes, um importante papel na edificação da futura ordem cósmica.
A guerra dos deuses: o conflito entre os primeiros deuses, os Titãs, e seus filhos, os olímpicos
A ordem futura, pois, como disse, ainda estamos longe do cosmos acabado e harmonioso que Gaia certamente desejava, se podemos assim deduzir — a julgar por sua solidez, em contraste com o abismo escancarado de Caos. Na verdade, como já dei a entender, é a guerra, e inclusive uma guerra terrível, que se esboça no horizonte. As forças primitivas, próximas do caos inicial, da desordem, vão de fato se desencadear, e para se construir um mundo viável e ordenado vai ser preciso dominá-las, amordaçá-las e civilizá-las tanto quanto possível. Como vai nascer esse gigantesco conflito? Como terminou? É este o tema dessa narrativa fundadora da mitologia grega que é a cosmogonia/teogonia de Hesíodo, pois no decorrer da história vamos finalmente passar da desordem e da violência primitivas para a ordem cósmica bem-regulada em que os homens vão poder viver e buscar, de um jeito ou de outro, sua salvação.
Veja a seguir como tudo começa.
Urano detesta os seus filhos: os 12 Titãs, assim como os Ciclopes e os Cem-Braços. É um verdadeiro ódio. Por quê? Sem dúvida por temer que um deles lhe tome o lugar e roube não somente o poder supremo, mas também aquela que é, ao mesmo tempo, sua mãe e amante, ou seja, Gaia. Por esse motivo Urano cobre de tal forma Gaia, impedindo que os filhos possam sair e virem à luz. Não lhes deixa o menor espaço, o menor interstício pelo qual poderiam sair do ventre materno. Relega-os às profundezas da terra, justamente à região caótica do Tártaro, e é o que os filhos não lhe perdoam. Nem Gaia, que, grávida de toda essa descendência, não aguenta mais ter em si tantos filhos e filhas comprimidos! Ela então os encoraja a se revoltarem contra o terrível pai que impede a emancipação, pois dessa forma podem ganhar a liberdade e crescer. E inclusive, tanto no sentido próprio como no figurado, viriam à luz. Cronos, o caçula, ouve o pedido da mãe, que propõe um terrível estratagema contra Urano, seu próprio pai. Com o metal em fusão que se encontra em suas entranhas, no mais profundo subsolo, Gaia fabrica um podão (outras narrativas dizem que é em sílex, mas me mantenho fiel a Hesíodo, que cita um metal cinza, quer dizer, provavelmente o ferro). O instrumento é bem-afiado e, insiste Hesíodo, “com serra”. Gaia o entrega a Cronos, a quem ela simplesmente incita a cortar fora o sexo do pai!
A narrativa da castração de Urano é precisa. Chega aos detalhes, pois estes últimos têm consequências “cósmicas”, isto é, efeitos decisivos para a construção do mundo. Empunhando a foice de ferro, Cronos espera o pai, se posso assim dizer, na esquina. Este, como de hábito, envolve Gaia e a penetra. Cronos aproveita para pegar, com a mão esquerda (uma lenda mais tardia afirma que foi a partir desse momento que ela se tornou “sinistra” e ficou marcada pelo selo da infâmia!), o sexo do pai e o decepa com um golpe seco. Ainda com a mão esquerda, ele lança por cima do ombro o infeliz órgão ainda todo ensanguentado. O detalhe não é supérfluo, nem o estou repetindo apenas para tornar mais picante a história com essa precisão sádica, porque, a partir desse sangue de Urano que se espalha pela terra e pelos mares, vão nascer ainda algumas terríveis e sublimes divindades.
Aliás, falo logo disso pois é algo que em seguida virá em vários relatos mitológicos.
As três primeiras criaturas a nascerem do sexo cortado de Urano são divindades do ódio, da vingança e da discórdia (eris, em grego) — pois trazem em si a marca da violência da sua origem. A última, em contrapartida, não pertence ao domínio de Eris, mas ao de Eros, o amor: trata-se da deusa da beleza e da paixão amorosa, Afrodite. Vejamos tudo isso mais de perto.
Do sexo amputado do infeliz Urano e do sangue que se espalhou pela superfície da terra, Gaia, nasceram inicialmente deusas aterradoras, que os gregos denominaram “Erínias”.14 Segundo o poeta Virgílio, elas eram três e se chamavam Aleto, Tisífone e... Megera! Isso mesmo, é daí que vem a famigerada megera de quem às vezes falamos em nossa linguagem corrente, nos referindo a alguma mulher particularmente desagradável. Pois, verdade seja dita, as Erínias podiam ser tudo, exceto amáveis; eram, como disse, divindades da vingança e do ódio que perseguiam os culpados de crimes cometidos no coração das famílias e lhes aplicavam tormentos e torturas abomináveis. Foram, por assim dizer, configuradas com essa finalidade desde o nascimento, pois seu principal destino era o de vingar o pai, Urano, no crime cometido pelo filho mais moço, o Titã Cronos. Mas indo além desse caso pessoal, elas acabaram tendo um papel bem importante em inúmeras narrativas míticas, em que detinham a função de terríveis vingadoras de todos os crimes familiares e até mesmo, mais amplamente, de crimes cometidos contra a hospitalidade, quer dizer, contra pessoas que deviam ser tratadas, mesmo sendo de fora, como membros da família. Foram elas, por exemplo, que fizeram ser devorado pela terra o pobre Édipo, que, sem saber nem querer, havia matado o próprio pai e desposado a própria mãe. Saiba que elas às vezes também são chamadas “Eumênidas”, isto é, “Benevolentes” — não no poema de Hesíodo, mas, por exemplo, nas tragédias de outro grande poeta grego nascido um pouco depois, no século VI a.C., Ésquilo. De fato, esse nome bem afável era para, mais ou menos, tentar agradá-las. Empregava-se para evitar a sua ira. Em latim, elas passaram a ser chamadas “Fúrias”. Hesíodo não nos deu detalhes, mas outros poetas que vieram em seguida as descreveram como mulheres de aspecto atroz: arrastavam-se no chão mostrando garras apavorantes, tinham asas que lhes permitiam agarrar as vítimas a toda velocidade, cabelos cheios de serpentes, chicotes na mão e a boca da qual escorria sangue. Sendo uma encarnação do destino, ou seja, das leis da ordem cósmica às quais todos os seres estão submetidos, os próprios deuses ficavam mais ou menos obrigados a aceitar suas decisões, de forma que todo mundo sempre as detestou e temeu.
Depois disso, ainda do sangue de Urano misturado à terra, Gaia, nasceu toda uma plêiade de ninfas chamadas Melianas ou Melíades, o que em grego quer dizer jovens nascidas em freixos. São também divindades guerreiras e temíveis, pois é justamente com a madeira dessas árvores, nas quais elas mantêm o seu reino, que se fabricam as armas mais eficazes, principalmente os arcos e as lanças usados na guerra.
Além das Erínias e das Melíades, o sangue de Urano caído sobre Gaia deu origem a outros seres assustadores, os Gigantes, que já saíram da terra armados e encouraçados. Dedicam-se inteiramente à violência e à carnificina. Nada os amedronta e nada lhes convém melhor do que as guerras e os massacres. É onde se sentem à vontade, no que sabem fazer. Hesíodo não nos falou mais do que isso sobre eles, mas, outra vez, variantes tardias da mesma narrativa falam de uma revolta dos Gigantes contra os deuses, revolta que inclusive deu vez a uma terrível guerra — chamada “gigantomaquia”, o que, em grego, quer dizer “combate de gigantes”. É claro, os deuses saíram vencedores do combate, mas precisaram da ajuda de Héracles.15 Logo voltaremos a falar disso.
Como você pode ver, todos os personagens até agora nascidos do sangue de Urano misturado à terra são seres assustadores, ligados à vingança, ao ódio ou à guerra. É nesse sentido que as Erínias, as ninfas Melíades e os Gigantes vão pura e simplesmente se remeter à zona de influência dessa divindade chamada Eris, personificação da discórdia, de tudo que tem a ver com o conflito funesto. Eris, aliás, é uma entidade tenebrosa, obscura, uma das filhas que a Noite, Nyx, engendrou sozinha, do mesmo jeito que Gaia, sem precisar de marido nem de amante.
Mas dos órgãos sexuais do Céu surgiu também uma outra deusa, que não pertence mais a Eris, mas sim, pelo contrário, a Eros, não mais à discórdia e ao conflito, mas ao amor (a proximidade das duas palavras, em grego, parece indicar também uma proximidade nos fatos: muito facilmente se passa do amor ao ódio, de Eros a Eris): trata-se de Afrodite, a deusa da beleza e, justamente, do amor. Você se lembra que o sangue do sexo de Urano caiu na terra, mas o sexo, propriamente, Cronos jogou longe, por cima do ombro, e ele foi se perder no mar. E boiou! Flutuou na água, no meio da espuma branca — espuma que, em grego, se diz afros, a qual, misturando-se à outra espuma que saía do sexo de Urano, gerou uma sublimíssima jovem: Afrodite, a mais bela de todas as divindades. É a deusa da doçura, do carinho, dos sorrisos trocados pelos apaixonados, mas também a da sexualidade brutal e da duplicidade do que se diz quando se quer seduzir o outro, querendo agradar, palavras que no mínimo não são sempre fiéis à verdade, pois, para agradar, muitas vezes nos dispomos a usar mentiras e ardis, tanto para dar uma melhor impressão de nós mesmos como para adular a pessoa que queremos impressionar. Afrodite é tudo isso: a sedução e a mentira, o charme e a vaidade, o amor e o ciúme que dele nasce, a ternura, mas também as crises de raiva e de ódio geradas pelas paixões contrariadas. No que, mais uma vez, Eros nunca está muito longe de Eris, o amor sempre na vizinhança da disputa. Se dermos ouvido a Hesíodo, quando ela sai das águas, em Chipre, está sempre acompanhada por duas outras divindades menores que lhe servem, de certa maneira, de “acompanhantes”, companheiros e confidentes: Eros, justamente, mas dessa vez se trata de Eros número 2, o pequeno personagem de que falei ainda há pouco e que frequentemente será representado, mas bem posteriormente a Hesíodo, como um menino bochechudo, armado com um arco e flechas. E, ao lado de Eros, há Imeros, o desejo, que sempre abre caminho para o amor propriamente dito...
No plano cosmológico, isto é, com respeito à construção do nosso cosmos, do mundo em que vamos viver, a castração de Urano tem uma consequência absolutamente crucial, sobre a qual devo dizer uma palavrinha antes de entrarmos, enfim, no famoso episódio da guerra entre os deuses. Trata-se, simplesmente, do nascimento do
espaço e do tempo.
Do espaço, antes de tudo, porque o pobre Urano, sob o efeito da dor atroz causada pela mutilação, vai se esconder “lá em cima”, de forma que, no final desse recolhimento, ele se encontra meio que colado no teto e liberando, com isso, o espaço que separa o céu da terra. E do tempo, por uma razão infinitamente mais profunda, que vem a ser uma das chaves de toda a mitologia: são as crianças — os Titãs, no caso — que graças ao espaço aberto vão poder, enfim, sair de dentro da terra. Isso quer dizer que é o futuro, até então obstruído pela pressão de Urano sobre Gaia, que se abre. As novas gerações começam, a partir daí, a habitar o presente, e as crianças a simbolizar, ao mesmo tempo, a vida e a história. Mas tanto a vida quanto a história, que, pela primeira vez, se encarnam nesses Titãs que conseguem enfim deixar a sombra e a terra, igualmente geram o movimento, o desequilíbrio e, por isso mesmo, a incessante possibilidade que se abre da desordem. Com as novas gerações, o que entra em cena é mais a dinâmica do que a estabilidade, o caótico do que o cósmico. Uma coisa, pelo menos, passa de qualquer forma a estar bastante clara: os pais precisam colocar as barbas de molho com relação aos filhos! E Cronos mais do que qualquer outro: foi quem mutilou o pai, Urano, e, consequentemente, o primeiro a entender o quanto os filhos podem ameaçar a ordem, o poder estabelecido e que se acha estar sob controle. Ou, dito de outra forma, é preciso desconfiar do tempo, fator de vida, é claro, mas também a dimensão por excelência de todas as desordens, de todas as complicações e desequilíbrios que virão. Cronos toma consciência desse fato indiscutível: a história é cheia de perigos, e para quem quiser manter o que adquiriu, garantir seu poder, mais vale aboli-la, para que nada mude.
Não sei se você se dá conta da profundidade do problema existencial que começa a se esboçar, embutido nessa primeira narrativa mitológica. Significa que toda a existência, inclusive a dos deuses imortais, vai se ver num dilema quase insolúvel. De fato, pode-se bloquear tudo, como Urano bloqueia os filhos na barriga de sua mulher/mãe, para evitar que as coisas mudem, correndo o risco de se degradarem. Nesse caso, porém, é a total imobilidade e o tédio que acabam levando a melhor, em vez da vida. Ou, para evitar isso, aceita-se o movimento, a história e o tempo, mas os perigos mais temíveis passam a ameaçar. Como, então, encontrar o perfeito equilíbrio? No fundo, é essa a grande questão da mitologia e, com isso, a grande questão da existência em geral! Como você pode ver, as respostas que nossas histórias vão dar ainda interessam, para dizer o mínimo, às pessoas de hoje.
Vamos recapitular.
 
Cronos devora seus filhos. Zeus, o caçula, consegue escapar e, por sua vez, se revolta contra o pai
 Cronos, como já disse, é o mais consciente do perigo que os filhos representam para o pai. E tem todos os motivos para isso! Ele, então, liberta os irmãos e as irmãs, Titãs e Titânidas, aprisionados sob a terra pela violência de Urano, mas, em contrapartida, não vai fazer o mesmo com relação aos próprios filhos. Ele se casa com a irmã, Reia, mas toda vez que ela engravida e dá à luz um recém-nascido, Cronos rapidamente o engole inteirinho, para não correr o risco de que ele se revolte um dia como ele próprio se revoltou contra o pai, Urano. Sem dúvida pela mesma razão, Cronos deixa de libertar os Ciclopes e os Cem-Braços. Era uma gente violenta demais, e forte, representando com isso possíveis mudanças, ou seja, uma ameaça. O melhor, por enquanto, era mantê-los acorrentados nas profundezas de Gaia, no famoso Tártaro obscuro, cheio de bruma e de mofo, onde não era nada agradável permanecer. Eles vão guardar, como você bem pode imaginar, um inextinguível ódio pelo irmão.
Com a irmã, que nesse meio-tempo se tornou sua mulher, a Titânida Reia, Cronos teve seis magníficos filhos: Héstia, a deusa do lar, isto é, a que protege a família, Deméter, a das estações (em latim se chama Ceres e é de onde vem a palavra “cereais”), Hera, que em breve se tornará esposa de Zeus, o futuro rei de todos os deuses, Poseidon, o deus do mar, Hades, o dos infernos, e, por último, o próprio Zeus, o caçula que vai se tornar rei de todos os demais. Mas toda vez, assim que um recém-nascido sai da barriga de Reia e que se atinge, segundo Hesíodo, “aos joelhos do pai”, Cronos, veja só, o engole de uma só vez, para deixá-lo em segurança no fundo do seu estômago. Deve-se dizer que os pais de Cronos, Gaia e Urano, o tinham também prevenido: claro e indubitavelmente lhe predisseram que um dia ou outro ele teria um filho que o destronaria, roubando todos os seus poderes.
Não adianta: como a própria mãe, Gaia, Reia se irrita com o marido. Gaia tinha acabado detestando Urano por ele impedir que os filhos saíssem do seu ventre e viessem à luz. Reia passa a detestar Cronos, pois ele, de forma ainda pior, se possível, os devora bem pequenos, de modo que no momento em que o último está para nascer — e lembre-se que se trata justamente de Zeus — Reia vai pedir conselhos à mãe e ao pai, Gaia e Urano: o que fazer para evitar que o pequeno Zeus seja também devorado vivo? Os pais aconselham que viaje com toda urgência para Creta, para Lyctus, mais precisamente, onde Gaia — que era quem melhor podia resolver tal situação, já que ela, simplesmente, é a própria terra — abriga o recém-nascido numa gruta gigantesca, escondida sob uma montanha coberta por uma floresta; impossível que Cronos perceba ali a presença de Zeus. Porém, para que não suspeite de nada, precisam dar a ele algo para engolir, no lugar do bebê! Reia então enrola uma pedra grande em panos, e Cronos, que aparentemente não tem o paladar dos mais requintados, devora tudo aquilo sem pestanejar nem desconfiar do que seja.
A salvo e fora do campo de visão do pai, o pequeno Zeus cresce, alimentado pelo leite da cabra Amalteia, cujo couro, ao que dizem, flechas e lanças não conseguem atravessar. Foi com ele que Zeus fabricou seu famoso escudo, a égide, que ele ocasionalmente emprestará à sua filha Atena. Por enquanto, é um sublime adolescente que logo se torna um adulto resplandecente em força e beleza. O complô urdido por Gaia e Reia contra Cronos segue, então, seu caminho. Elas preparam uma artimanha que faz Cronos vomitar, trazendo de volta todos os filhos que havia engolido, um de cada vez, a começar pelo último... ou seja, se você acompanhou direito essa história, a pedra que servira de engodo para que Zeus escapasse!
Nesse meio-tempo, Zeus faz algo muito engenhoso e útil, ainda por conselho de Gaia, que manifestamente quer que o cosmos se construa com todos os seus filhos e netos, sem exclusão de nenhum: ele liberta os Ciclopes que Cronos, como você se lembra, havia deixado acorrentados no fundo da terra. Muitissimamente gratos, eles lhe concedem três magníficos dons, três presentes que se revelarão dos mais preciosos, pois eles vão permitir que Zeus se torne o mais poderoso e temível de todos os deuses: oferecem-lhe o trovão, o relâmpago e o raio, que, respectivamente, ensurdece, cega e aniquila todos os inimigos. Pelas mesmas razões, Zeus tem a esperteza de também soltar da prisão os Hecatonquiros, os famosos Cem-Braços, irmãos dos Ciclopes e dos Titãs. Pois com isso consegue valiosos e indefectíveis aliados. Podemos perceber, ao mesmo tempo, as muitas vantagens dessa progressiva personalização dos deuses, que vão ficando menos naturais, mais astutos e conscientes das suas responsabilidades; sem inteligência e senso de justiça, sem qualidades que estejam além das naturais, é impossível a realização da harmonia.
Como você bem pode imaginar, a revolta de Zeus e de seus irmãos e irmãs — Héstia, Hera, Deméter, Poseidon e Hades — contra Cronos e os demais Titãs dá início a uma guerra formidável, um conflito que nem podemos imaginar. O universo inteiro treme, com o nascente cosmos ameaçado de voltar de uma só vez ao caos. Eles lançam montanhas inteiras, um na cabeça do outro, como nós jogaríamos pedras! O universo inteiro está sendo sacudido e ameaçado de aniquilamento. No entanto, e o que para nós, mortais, é inimaginável, ninguém pode morrer durante o choque que ocorre entre seres perfeitamente imortais. A meta não é, então, matar, mas vencer o adversário, reduzindo-o à imobilidade. O que está em jogo é claro: trata-se de evitar que o caos, a desordem absoluta ganhe da possibilidade da ordem, para que um verdadeiro cosmos possa emergir. No final, graças ao raio que os Ciclopes lhe deram, e graças também à formidável força dos Cem-Braços, reconhecidos pela liberdade que Zeus lhes dera, os deuses da segunda geração, aqueles que serão chamados “olímpicos”, por guerrearem a partir de uma montanha chamada Olimpo, na qual passam a morar Zeus e os seus irmãos e irmãs, acabam vencendo. Os Titãs são cegados com relâmpagos e enterrados sob rochedos lançados pelos Cem-Braços, de forma que, derrubados, são em seguida acorrentados e aprisionados no Tártaro obscuro e cheio de mofo. Poseidon, um dos irmãos de Zeus, constrói enormes portas de bronze, sendo impossível quebrá-las ou abri-las, e os três Cem-Braços se encarregam da guarda, bem contentes, pois, lembre-se, seus irmãos Titãs não tinham tido o menor escrúpulo para trancá-los sob o chão até que Zeus os libertasse!
Agora, os olímpicos, pelo menos os seis primeiros, os da geração de Zeus, chegaram lá de vez. Logo vão passar a ser 12, para se equivalerem aos 12 Titãs e Titânidas. De fato, Zeus tem cinco irmãos e irmãs: Héstia, a deusa do lar e da casa, que protege as famílias, Deméter, deusa das colheitas e das estações, Hera, a futura imperatriz que vai se tornar esposa de Zeus, Hades, o deus dos infernos que reinará no Tártaro, e Poseidon, o deus dos mares e dos rios que faz a terra tremer com seu famoso tridente. Da geração acima, se inclui também entre os olímpicos, isto é, entre os deuses mais importantes, que dirigem o mundo e o repartem entre si, Afrodite, a deusa da beleza e do amor, a quem já conhecemos e que nasceu da espuma originada pelo sexo cortado de Urano, misturada à espuma do mar. Tinha sido poupada do conflito, pois não se remete, em sua origem, à Eris, a discórdia. Ela pode, então, ser ao mesmo tempo considerada uma das irmãs de Cronos — é da mesma geração que ele e têm o mesmo pai — e uma das tias de Zeus. Em seguida, na geração que vem depois da de Zeus e dos seus cinco irmãos, há evidentemente os filhos dos dois principais donos do Olimpo, Hera e Zeus: chamam-se Hefesto, o deus dos ferreiros e dos artesãos, e Ares, o aterrorizador deus da guerra. Depois deles vieram ainda Atena, deusa da astúcia e das artes, filha favorita de Zeus, que a teve com a sua primeira mulher, Métis, e que também tem lugar no Olimpo. Lá se encontram ainda os dois gêmeos, Apolo, o mais belo dos deuses, e Ártemis, a deusa da caça, que nasceram dos amores extraconjugais de Zeus com Leto, filha de dois Titãs, Ceo e Febe — o que os torna primos-irmãos. Ainda no Olimpo estará Hermes, o mensageiro dos deuses, padroeiro dos comerciantes e dos comunicólogos, filho de Zeus e de uma ninfa chamada Maia. Por último, Dioniso, o mais estranho de todos os olímpicos, deus do vinho e da festa, nascido de outro amor extraconjugal de Zeus com uma mortal, Semelê, filha do rei de Tebas, Cadmos.
Você deve saber que todos esses deuses do Olimpo — assim como muitos heróis gregos como Héracles, por exemplo, que vai se tornar Hércules, em latim, e certos Titãs, como Cronos, que passará a se chamar Saturno — vão receber um nome novo com os romanos, que retomam, adaptam e desenvolvem a mitologia grega: Zeus passa a se chamar Júpiter, Héstia se torna Vesta, Deméter = Ceres, Hera = Juno, Hades = Plutão, Poseidon = Netuno, Afrodite = Vênus, Hefesto = Vulcão, Ares = Marte, Atena = Minerva, Apolo = Febo, Ártemis = Diana, Hermes = Mercúrio e Dioniso = Baco. É por essa razão que hoje em dia conhecemos os deuses gregos mais pelo nome latino do que pelo nome original. São, no entanto, os mesmos personagens, e Hércules não é outro senão Héracles, como Vênus é Afrodite etc. Mas, de qualquer maneira, é essencial conhecer, pelo menos grosso modo, os seus territórios e funções, pois eles vão repartir entre si o mundo, e será essa divisão equilibrada do conjunto do universo, divisão garantida pela supremacia de Zeus, que está na base da ordem cósmica. Isso, além do mais, nos ajuda a começar a descobrir quem são eles. Com as funções que se diferenciam, são também personalidades diferentes que surgem: entra-se pouco a pouco e seguidamente nas ordens da cultura, da política, da justiça, ou seja, numa espécie de humanização do divino.
Vou indicar resumidamente, sem entrar por enquanto em detalhes — toda vez acrescentando ao deus grego sua denominação latina, para que você pelo menos tenha uma ideia e possa seguir melhor o final dessa primeira narrativa:
Zeus/Júpiter, é claro, é o rei dos deuses, o senhor do Olimpo.
Héstia/Vesta, sendo a deusa do lar, protege as famílias e as casas. É a filha mais velha de Cronos e Reia — ou seja, foi a primeira a ser engolida por Cronos, a última a ser cuspida de volta e, consequentemente, é também uma das irmãs de Zeus.
Deméter/Ceres, deusa das estações e das colheitas, faz crescerem as flores, as plantas e, evidentemente, os “cereais”. Ela vai ter uma filha, Perséfone, literalmente adorada e que será raptada por Hades para depois se tornar sua esposa. Na verdade, Hades e Deméter vão repartir entre si Perséfone: eles a terão cada um por seis meses no ano. Por esse motivo, no inverno e no outono nada brota: Perséfone está com Hades; sua mãe, cheia de tristeza, deixa de lado seu trabalho. Quando a filha retorna, na primavera, volta também o sol e tudo revive!
Hera/Juno: é a “imperatriz”, a mulher de Zeus. Tantas vezes enganada por ele e sendo terrivelmente ciumenta, ela persegue com seu ódio as inúmeras amantes do marido e também alguns dos seus filhos ilegítimos, como Héracles, cujo nome significa “a glória de Hera”: de fato, ela é quem lhe pede que realize seus famosos “12 trabalhos”, esperando na verdade que ele morra numa daquelas tarefas. Héracles, então, não é seu filho, e sim de Alcmena, de quem Zeus se tornou amante, assumindo a aparência de seu marido, Anfitrião — o que Hera nunca vai perdoar. Ele será, com isso, uma espécie de lugar-tenente, de segundo de Zeus na terra, tendo como missão matar monstros e ajudar desse modo na manutenção da ordem cósmica.
Poseidon/Netuno, deus do mar, é quem faz estourarem furacões e tempestades, batendo no chão o seu tridente. Deus inquietante, vai ter uma quantidade impressionante de filhos, que serão monstros turbulentos, dentre os quais Polifemo, o Ciclope, que terá o olho furado por Ulisses.
Hades/Plutão reina nos infernos com a mulher, Perséfone, filha de Deméter. Todo mundo, mesmo no Olimpo, mais ou menos o teme. Dizem que é o mais rico (plutos) de todos os deuses, pois reina sobre a população mais numerosa: a dos mortos.
Afrodite/Vênus: deusa da beleza e do amor, que tem todos os encantos, mas também pratica todas as mentiras e ardis.
Hefesto/Vulcão: deus dos ferreiros, tem uma habilidade diabólica em sua arte e é também o deus manco (alguns afirmam que foi atirado do alto do Olimpo por seus pais), o único deus feio, mas se casou com a mais bela das deusas, Afrodite, que o engana o tempo todo com Ares, entre outros.
Ares/Marte: brutal, violento, até mesmo sanguinário, é o deus da guerra e um dos principais amantes de Afrodite (que, no entanto, tem muitos outros).
Atena/Minerva: é a filha preferida de Zeus, filha de sua primeira mulher, Métis (a deusa da astúcia). Reza a lenda que ela teria nascido diretamente da cabeça de Zeus. Com efeito, Zeus tinha resolvido devorar Métis, ao saber que estava grávida, por haver uma profecia dizendo que, se ela tivesse um filho, ele poderia, como Cronos com Urano e ele próprio com Cronos, tomar o seu lugar. Mas era de uma filha, Atena, que Métis estava grávida, e ela então, como ficou dentro do corpo de Zeus, acabou saindo pela cabeça — o que é bastante lógico, afinal, pois é a deusa da inteligência. Ela é também uma divindade da guerra, mas diferentemente de Ares, seu irmão, ela entra nos conflitos com requintes de astúcia e de inteligência — ainda que da mesma forma saiba, quando necessário, lutar com armas e da forma mais assustadora. Por isso é também a divindade das artes e das técnicas. Ela simboliza a guerra mais pelo aspecto estratégico do que pelo brutal. No fundo, ela se parece com o pai, Zeus, e tem, como mulher, todas as suas qualidades: força, beleza, inteligência.
Apolo/Febo: o mais belo dos deuses (diz-se um “apolo” um homem bonito), um dos mais inteligentes também e o mais talentoso de todos para a música. É irmão gêmeo de Ártemis (Diana, em latim), a deusa da caça. Os dois são filhos de Zeus e Leto, ela própria filha de dois Titãs (Ceo e Febe) e, com isso, prima-irmã de Zeus. Apolo é o deus da luz, da inteligência. É ainda a fonte de inspiração do oráculo mais famoso, o de Delfos, com seus sacerdotes que dizem prever o futuro. Delfos, em grego, significa “golfinho”, e isso porque — se dermos ouvido a certas narrativas mitológicas posteriores a Hesíodo — Apolo, chegando a Delfos, se transformou em golfinho para atrair ao porto uma embarcação e tornar seus passageiros sacerdotes de seu novo culto. Ele também matou um ser monstruoso chamado Píton, porque Apolo o deixou apodrecer (em grego, “apodrecer” se diz pytein) ao sol depois de cortar sua cabeça! Era uma espécie de serpente que aterrorizava os habitantes de Delfos e, no seu lugar, Apolo estabeleceu o seu oráculo, chamado então “pítia”.
Ártemis/Diana é também filha de Zeus com Leto. É irmã gêmea de Apolo. Deusa da caça, pode ser temível e cruel. Por exemplo, um dia em que foi surpreendida nadando nua num rio por um jovem rapaz, ela o transformou em cervo e o deixou ser devorado vivo por seus cães!
Hermes/Mercúrio: filho de Zeus e uma ninfa, Maia, ele é o mais “despachado” de todos os deuses. É o mensageiro de Zeus, o intermediário em todos os sentidos da palavra, o que o tornou o deus tanto dos jornalistas quanto dos comerciantes. Muitos jornais no mundo inteiro têm seu nome (Mercure de France, Mercurio no Chile, Merkur na Alemanha etc.). Emprestou seu nome à ciência chamada “hermenêutica”, de interpretação de textos. Mas é também o deus dos ladrões; quando era criança, recém-nascido com um só dia, conseguiu roubar do irmão Apolo um rebanho inteiro de bois! Teve inclusive a ideia de fazê-los andar de ré para que as marcas dos cascos enganassem quem os procurasse! Como Apolo descobriu o furto, o pequeno Hermes, para acalmá-lo, ofereceu um instrumento de música, a lira, que ele havia fabricado com um casco de tartaruga e cordas feitas com tripas de boi. É o antepassado do violão, e como Apolo, acima de tudo, adorava música, acabou perdoando aquele menino esquisito.
Dioniso/Baco (ou, ainda, Liber Pater): é o mais estranho de todos os deuses. Foi quem, segundo dizem, nasceu da “coxa de Júpiter”, ou seja, de Zeus. De fato, sua mãe, Semelê, filha do rei de Tebas, Cadmos, e de Harmonia, filha de Ares e Afrodite, imprudentemente pediu a Zeus que se mostrasse a ela tal como era, com sua aparência divina e não mais disfarçado como ser humano. Os homens, porém, não suportam a visão dos deuses e menos ainda a de Zeus, que é tremendamente luminoso. Vendo-o “à vera”, a pobre Semelê pegou fogo, estando grávida do pequeno Dioniso. Zeus então arrancou o feto do ventre da mãe, salvando-o por um triz antes que fosse morto, e o costurou dentro de sua coxa. Passado o tempo necessário, ele nasceu — donde a expressão “nascer da coxa de Júpiter”.
No decorrer das próximas páginas, teremos a oportunidade de várias vezes voltar a diversos aspectos dessas lendas dos olímpicos. Talvez já tenha reparado, fazendo as contas, que os 12... eram 14! Essa coisa estranha vem do fato de que nem sempre os mitógrafos antigos concordavam entre si a respeito da listagem canônica dos deuses, como comprovam monumentos encontrados por arqueólogos e que também apresentam listas diferentes. Eventualmente, Deméter, Hades e Dioniso não figuram entre os olímpicos, mas se contarmos todos que, num lugar ou noutro, são mencionados, acabamos chegando a 14 e não a 12 divindades. Não chega a ser grave, aliás, e não gera grandes alterações em nossa história: o essencial é compreender que há deuses superiores e divindades secundárias, sendo que os 14 deuses citados — os que acabo de listar de maneira completa — são os principais, os mais importantes na cosmogonia, pois são aqueles que, sob a “égide” de Zeus (isto é, sob a proteção do famoso escudo de pele mágica de cabra), terão características e personalidades suficientes para repartir entre si o mundo e estruturar a organização do universo, dando-lhe uma magnífica ordem cósmica.
Dito isso, tenho quase certeza de que você deve começar a se sentir perdido com tantos nomes que se cruzam sem parar. É normal, e também levei um certo tempo para me habituar a essa profusão de personagens. Como nos grandes romances policiais, eles são, no início, numerosos demais para que se guardem todos de imediato. Proponho fazer um quadro que possa ajudar e, não se preocupe, daqui a pouco já vai poder reconhecê-los sem a menor dificuldade, pois vou contar suas histórias e indicar os traços característicos, de forma que se tornarão totalmente familiares.
Vamos então resumir nossa teogonia desde o primeiro deus, Caos, até nossos olímpicos, seguindo a ordem cronológica de surgimento. Limito-me, é claro, às divindades mais importantes, aquelas que têm os principais papéis na construção do cosmos que aqui nos interessa:
 
lista de nascimento
dos principais deuses
1. Antes de tudo, há os seis primeiros deuses, dos quais todos os outros serão descendentes:
Caos, o abismo tenebroso e desordenado.
Gaia, a terra-mãe, sólida e confiável.
Eros, o amor que traz os seres à luz.
Tártaro, divindade terrível e lugar infernal situado no mais profundo subsolo de Gaia, cheio de escuridão e mofo.
Urano, o céu, e Ponto, o mar, ambos criados por Gaia a partir de si mesma, sem ajuda de amante nem marido.
À exceção de Gaia, que começa a ser uma pessoa, esses primeiros deuses não são ainda verdadeiros indivíduos dotados de consciência, com características de personalidade. São antes de tudo forças da natureza, elementos naturais do cosmos que virá.16
2. Os filhos de Gaia e Urano
Houve três séries deles:
Primeiro os Titãs e suas irmãs, as Titânidas: Oceano, Ceo, Crio, Hipérion, Jápeto e Cronos, e as mulheres: Teia, Reia, Têmis, Minemósine, Febe e Tétis.
Depois os três Ciclopes, que vão ser presos sob a terra por Cronos e darão a Zeus o raio, quando este os libertar: Brontes (o trovão), Estéropes (o relâmpago) e Arges (o raio).
Finalmente os “Cem-Braços” ou “Hecatonquiros”: Coto, Briareu e Giges.
3. Os filhos que nasceram do sexo cortado de Urano — caindo na terra (Gaia) ou no mar (Ponto):
São os irmãos e as irmãs — ou, no caso de Afrodite, a meia-irmã — dos Titãs, dos Ciclopes e dos Cem-Braços. Formam, uma vez mais, três linhagens, às quais se acrescenta Afrodite:
As Erínias, divindades da vingança (querem vingar o pai, Urano, da afronta que Cronos lhe impôs). Pelos poetas latinos saberemos que eram três, sendo a última chamada Megera. São também chamadas “Eumênidas”, isto é, as “Benevolentes”, e os romanos lhes deram o nome bastante imagético de “Fúrias”.
As ninfas Melianas ou Melíades, divindades que reinam nos freixos, árvores com cuja madeira na época se fabricavam as armas de guerra.
Os Gigantes, que saem da terra com capacetes e armas.
Afrodite, deusa da beleza e do amor, que também nasce do sexo de Urano, mas, em seu caso, misturado à água e não à terra.
Note que as três primeiras divindades — Erínias, Gigantes e Melíades — são aquelas da guerra, da discórdia, que a Teogonia vê também como uma divindade, Eris, filha que Nyx, a noite, concebeu sozinha, sem amante masculino, enquanto Afrodite se remete ao domínio não de Eris, mas de Eros, o amor.
4. Os filhos de Cronos com a irmã, a Titânida Reia
Depois dos Titãs, é a segunda geração de “verdadeiros” deuses, isto é, dos primeiros olímpicos:
Héstia (ou Vesta, em latim), deusa do lar.
Deméter (Ceres), deusa das estações e das colheitas.
Hera (Juno), a imperatriz, última esposa de Zeus.
Poseidon (Netuno), deus do mar e dos rios.
Hades (Plutão), deus dos infernos.
Zeus (Júpiter), rei dos deuses.
5. Os olímpicos da segunda geração
Hefesto (Vulcão), deus dos ferreiros, filho de Zeus e Hera.
Ares (Marte), deus da guerra, irmão de Hefesto, filho de Zeus e Hera.
Atena (Minerva), deusa da guerra, da astúcia, das artes e das técnicas, filha de Zeus e Métis.
Apolo (Febo) e Ártemis (Diane), os dois gêmeos, deus da beleza e da inteligência, deusa da caça, nascidos dos amores de Zeus e Leto.
Hermes (Mercúrio), filho e mensageiro de Zeus. Maia foi sua mãe.
Dioniso (Baco), deus do vinho e da festa, filho de Zeus e de uma mortal, Semelê.
Não deixe de vir a este pequeno resumo toda vez que precisar. Será útil se esquecer quem é quem.
Vamos agora retomar o fio da nossa narrativa.

CONTINUAÇÃO
(Luc Ferry - A sabedoria dos mitos gregos)

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