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FURTIVA LÁGRIMA

por Thynus, em 12.01.14

Extra, 26 de Agosto de 1977

 

Um homem é um homem, e não consta que um primeiro-ministro seja um bicho. E se é verdade que várias gerações de barba dura criaram e prolongaram o mito de que os homens não choram, parceira verdade é que os varões portugueses, quando se lhes aflora a corda sensível, lagrimejam como qualquer heroína de fotonovela ou soluçam profundamente como um herói camiliano. Fraquezas assim atacam-nos, no geral, entre quatro paredes, sem testemunhas, ou não outras além das que mereçam o privilégio. Posto o que o lenço ou as costas da mão apagam os vestígios, e a vida continua.
O pior é quando a objectiva fotográfica ou a câmara de filmar fixam o instante, registam a sequência: aí fica um primeiro-ministro desarmado, com o papel a tremer-lhe na mão, os óculos a escorregar para a ponta de um nariz que subitamente se congestiona, enquanto lá em cima os olhos procuram uma fresta na película da lágrima, os músculos se contraem para reter a comoção que ameaça desmanchar a fatigada composição do rosto, e a voz enrouquece e tem de suspender-se e dominar-se para que dois milhões de telespectadores não vejam um primeiro-ministro a chorar. Assim eu vi o Sr. Mário Soares há oito dias na televisão, quando era mostrada a entrega da casa de Manuel Mendes ao Estado, e uma parte (oh, tão pequena!) da intelectualidade portuguesa fazia cortejo e cercadura. Nesse momento, apesar de saber inconciliáveis aquilo que penso e aquilo que o primeiro-ministro faz, não pude eu deixar de enternecer-me. Ali estava um homem aflito, a tropeçar na lágrima, a tentar disfarçá-la como um menino, e eu a olhar, respeitosamente a olhar, e depois a pensar como é que a esquerda deste país chegou a isto, a procurar descobrir as culpas e a desesperar das soluções. Ponto este sobre que não vale a pena falar: o governo socialista vai tão longe no seu mercadejar e na sua alienação, que o melhor é não lhe mexer muito agora, não venha aí a náusea.
Mas o diabo da imagem perturba-me, confunde esta minha ira semanária, esta indignação. Está ali a imagem do Sr. Mário Soares, primeiro-ministro por obra de votos que foram muitos e agora são muito menos, está ali um homem a recordar outro homem e a comover-se com isso, só porque o homem recordado foi um anti-fascista, um lutador, um democrata. E também um escritor, um homem da cultura. Até parece que Portugal de repente se reencontrou.
Porém, que lágrimas reprimidas são essas? Mera fadiga nervosa? Sensibili-dade fragilizada pelas tensões políticas, pelos acidentes da convergência, pelas negociações com o Fundo Monetário Internacional? Manejo político muito a frio para envolver os ossos de Manuel Mendes no regaço de um partido um pouco deserdado de intelectuais vivos? Ou, pelo contrário, emoção real, sentidíssima, de amigo? Decida quem puder, A mim só me cumpre reflectir sobre o acaso ou a fraqueza que fez comover-se o Sr. Mário Soares naquele momento, naquele lugar, ele tão prático, ele tão estadista internacional, ele, enfim, tão certo do seu lugar na História. Porque isso me dá pretexto para o convidar, se e enquanto tiver tempo para isso, a virar um pouco os seus agora nublados olhos cá para os lados onde se extenuam e já se vão extinguindo os artistas e os escritores desta terra, mal empregados e mal empregues, tão desdenhados como no tempo do fascismo, tão mal queridos como Manuel Mendes foi para os senhores que então governavam.
Deste lado de cá (é em meu nome que falo agora) admite-se a sinceridade da comoção, mas há razão para suspeitar do que ela realmente cobre.
Este governo tem uma secretaria de Estado da Cultura, dependente da presidência do Conselho de Ministros, unha com carne, plano e prática, flor e fruto. Que faz, porém, essa secretaria, essa presidência, esse conselho, esse ministério todo? Pela cultura, que se aproveite, nada. Inaugura um museu do trajo, vai à Venezuela, corta subsídios, quebra a espinha ao teatro independente, ri-se do teatro amador, não dá um suspiro sobre os problemas gravíssimos do livro português, ignora as traficâncias do papel e da pasta com que ele se faz ou que vem a render, despreza a imprensa progressista, promete os mundos e subtrai os fundos, repete, enfim, ponto por ponto, a costura cultural do marcelismo.
Assim sendo (porque assim é) de que serve receber o primeiro-ministro a casa que foi de Manuel Mendes, comover-se ao ler palavras que provavelmente não terá escrito - se a cultura viva, que neste País retoma o caminho das antigas e sabidas penas, lhe é estranha, alheia, tratada como inimiga? De que serve ter ficado eu próprio impressionado, quase a reconciliar-me com a imagem (só a imagem) do primeiro-ministro se tudo isso é, afinal, dramaturgia política sem consequências, modos de levar o caldo da cultura ao moinho da secretaria, fantasias de telejornal em que o mais certo é só eu ter reparado?
E além disso, se o Sr. Mário Soares já perdeu tantos amigos, tem a certeza de que o fala-direito que foi Manuel Mendes lhe estenderia hoje a mão?

 

(José Saramago - Folhas políticas)

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publicado às 15:19



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