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OSÍRIS, ÍSIS E HÓRUS

por Thynus, em 04.01.14

O filho divino traz a esperança eterna

 

Esta lenda do antigo Egito fala-nos do filho como imagem de esperança e renovação, que nos dá coragem para superar obstáculos e conquistar o caminho para a serenidade e a alegria. Osíris, Ísis e Hórus têm sido comparados por alguns estudiosos à Trindade cristã, por causa do filho divino que redime o sofrimento e elimina o mal. Em termos psicológicos, essa família divina tem muito a nos dizer sobre o sentimento de esperança e significação que vivenciamos através de nossos filhos.

 

 

 

Osíris foi o filho primogênito do Pai Terra e da Mãe Céu. O jovem deus tinha belas feições e era imensamente mais alto do que os seres humanos. Desposou sua irmã, Ísis, a deusa da Lua. Juntos, os dois ensinaram o povo do Egito a fazer instrumentos agrícolas e a produzir pão, vinho e cerveja. Ísis ensinou as mulheres a moer o milho, fiar o linho e tecer. Osíris construiu os primeiros templos e esculpiu as primeiras imagens divinas, dando assim aos seres humanos ensinamentos sobre os deuses. Era chamado “O Bondoso”, porque era inimigo da violência e somente pela gentileza dava a conhecer sua vontade. Mas Osíris não tardou a ser vítima de uma trama de seu malévolo irmão caçula, Set, que invejava seu poder. Set era bruto e selvagem; arrancara-se prematuramente do ventre da mãe e estava decidido a dominar o mundo, no lugar de Osíris. Convidou o irmão para um banquete e lá o assassinou, trancafiando o corpo num caixão que atirou no Nilo.
Ao saber que Osíris tinha sido assassinado, Ísis ficou desolada. Cortou os cabelos, rasgou as roupas e partiu imediatamente à procura do caixão. Ele fora levado para o mar e transportado pelas ondas para Biblos, onde tinha ido repousar ao pé de uma tamargueira. A árvore cresceu com uma velocidade tão espantosa que o caixão ficou inteiramente encerrado em seu tronco. Enquanto isso, o rei de Biblos tinha dado a ordem de que a árvore fosse cortada para servir de escora do teto de seu palácio. Ao ser cumprida essa ordem, desprendeu-se da árvore maravilhosa um aroma tão requintado, que sua reputação chegou aos ouvidos de Ísis, e ela compreendeu prontamente o que isso significava. Sem perda de tempo, Ísis partiu para Biblos, retirou o caixão do tronco da árvore e o levou de volta ao Egito. Mas Set, sabendo o que o esperava, encontrou o caixão no charco em que Ísis o escondera, abriu-o e retalhou o corpo do irmão em quatorze pedaços, espalhando-os por toda parte.
Ísis não desanimou. Procurou os preciosos pedaços do marido e os encontrou a todos — com exceção do falo, que fora engolido por um caranguejo do Nilo. Com sua poderosa magia, a deusa reconstituiu o corpo de Osíris, juntando todos os fragmentos e fazendo um novo falo de barro. Em seguida, praticou os ritos de embalsamamento que restituiriam ao deus assassinado a vida eterna. Enquanto Osíris dormia, à espera do renascimento, Ísis deitou-se com ele e concebeu o filho divino, Hórus, que ao nascer foi comparado a um falcão cujos olhos brilhavam à luz do Sol e da Lua.
Ressuscitado e desde então protegido contra a ameaça de morte, Osíris poderia ter retomado o governo do mundo. Mas havia se entristecido com o poder do mal que tinha conhecido na Terra e retirou-se para o mundo das sombras, onde passou a acolher calorosamente as almas dos justos e a reinar sobre os mortos.
Coube a Hórus, filho de Osíris, vingar o ato de selvageria que resultara na morte e desmembramento de seu pai. Hórus foi criado no isolamento, pois sua mãe temia as maquinações de Set. Era extremamente fraco ao nascer, e só escapou dos perigos que o ameaçavam com a ajuda dos poderes mágicos da mãe. Foi mordido por feras selvagens, picado por escorpiões, queimado e afligido por dores nas entranhas, tudo por obra de Set. Mesmo assim, apesar desses sofrimentos, cresceu forte, e Osíris lhe aparecia com frequência e o instruía no uso das armas, para que ele logo pudesse declarar guerra a Set, reivindicar sua herança e vingar o pai.
Ao chegar à idade adulta, Hórus iniciou uma longa guerra para derrotar seus inimigos e conseguiu destruir muitos deles. Mas Set não poderia ser vencido apenas pelas armas, pois era astuto demais. Para pôr fim ao interminável derramamento de sangue, os outros deuses reuniram-se num tribunal e convocaram os dois adversários. Set alegou que Hórus era ilegítimo, pois tinha sido concebido depois do assassinato de Osíris, mas Hórus conseguiu fazer valer a legitimidade de seu nascimento. Os deuses condenaram o usurpador, devolveram a herança de Hórus e o declararam rei do Egito.
Hórus reinou pacificamente sobre o céu e a terra e, ao lado do pai e da mãe, foi adorado por toda parte. Em meio às tarefas de governo, fazia visitas frequentes ao pai no reino das trevas, conduzindo os mortos à presença de Osíris, “O Bondoso”, e presidindo a pesagem das almas.

 

 

COMENTÁRIO: Filho algum é capaz de redimir a vida dos pais. Mas há uma espécie de esperança no futuro, e de confiança na bondade e inocência inatas da infância, que pode fazer uma vida enfadonha ou sem sentido valer a pena, e que dá sentido aos sofrimentos do passado. O mito de Osíris, Ísis e Hórus mostra-nos o cerne mais profundo do que nos leva a procurar construir uma família. Não é apenas pela continuidade da vida biológica; é também porque o nascimento de um filho pressagia um novo começo e a possibilidade de que se curem as dores passadas. É tanto a continuidade do espírito quanto a do corpo que buscamos em nossos filhos.
A família de Osíris é arquetípica e, sendo assim, reflete padrões que existem em todas as famílias. A dedicação de Ísis é um tema importante. A despeito dos obstáculos que Set lhe coloca no caminho, ela está decidida a encontrar e curar o corpo profanado do marido. Esse traço de lealdade absoluta é um dos aspectos de redenção da lenda e, na vida cotidiana, pode ser expresso por qualquer indivíduo que se disponha a apoiar o parceiro, mesmo diante do fracasso e da aparente derrota mundana. A mulher ou o marido que são leais e incentivadores quando o parceiro fica desempregado ou atravessa um período de depressão ou doença pode ser vislumbrado na dedicação de Ísis. É nesses traços humanos que podemos experimentar o tema mais profundo e arquetípico de redenção apresentado nesse mito.

 

Outro elemento importante da história é a concepção de Hórus, que ocorre quando as coisas estão em seu pior momento. Ísis concebe seu filho divino quando Osíris está adormecido, à espera da ressurreição. O que isso pode significar, em termos da vida familiar comum? Talvez nos diga algo sobre os momentos em que mais desejamos ter filhos, pois estes com frequência trazem uma fonte de esperança quando as circunstâncias são mais difíceis. Nem sempre são o sucesso e a alegria mundanos que nos inspiram a construir uma família; às vezes, a árdua luta pela vida nos leva a procurar firmar pé no futuro e dar um propósito a nossa existência.
A infância de Hórus é precária e ele passa por muitas vicissitudes antes de chegar à plenitude de suas forças. Também isso pode nos dizer algo sobre uma norma da vida, pois, muitas vezes, é de um começo frágil e vulnerável que nascem nossos esforços mais vigorosos e criativos. Ísis consegue proteger seu filho de Set. Assim como precisamos proteger nossos filhos vulneráveis, é preciso protegermos em nós o que há de mais vulnerável e indefinido, para que amadureça. Hórus entende que deve redimir o sofrimento do pai; o próprio Osíris já não deseja permanecer na Terra para prosseguir na luta. Em certo momento, talvez precisemos confiar a nossos filhos a lida com o futuro, pois, ao envelhecer, talvez já não tenhamos disposição ou coragem de batalhar com a vida. Vemos aí alguns ecos de outras histórias míticas: a inveja que Teseu sente de Hipólito, por exemplo, reflete sua impossibilidade de confiar em que seu filho tome as rédeas e tenha sua vez de viver. Osíris, por outro lado, enfrenta seu desafio com sucesso.
A resolução do conflito não surge por nenhuma vitória individual, mas porque os deuses em conjunto decidem que Hórus merece ter sua herança restaurada. No fim, também nós talvez tenhamos que deixar a vida concluir o que deixamos inacabado e confiar que o que entendemos por Deus, ou por espírito interior, realizará o que tentamos alcançar. Se o que buscamos for lícito e justo, como acontece com Hórus, talvez o mal não seja derrotado para sempre, mas será possível torná-lo impotente para destruir o que existe de bom. Na família, confiar em que o tempo e a retidão haverão de nos conduzir ao equilíbrio e à serenidade pode nos ajudar a aceitar situações que não podemos modificar, a perdoar aqueles que julgamos que nos ofenderam e a preservar nossa confiança no futuro.

 

 

(Liz Greene, Juliet Sharman-Burke - Uma Viagem através dos Mitos)

 

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publicado às 19:35



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