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Para o homem antigo, todos os eventos profanos, assim como o tempo profano, são completamente desprovidos de sentido, a não ser que repitam um arquétipo. Por mais estranho que nos possa parecer a princípio, os gestos humanos somente possuirão significado se imitarem um modelo divino; portanto, dentro da mentalidade primitiva, não existe qualquer ato humano efetivamente original. Na verdade, o único ato "verdadeiro" por excelência, seria o ato divino, efetuado in illo tempore (naquele tempo). Por tudo isso, fica o homem sem escolha: ou ele participa desse ato "legítimo", divino, comungando dessa forma com a própria divindade que o criou, ou acaba isolado desse drama cósmico, relegado ao plano ilusório da manifestação.
Essas explicações vão de encontro a um preconceito muito difundido atualmente acerca da função dos rituais, do qual, segundo parece, nem mesmo Eliade teria escapado. Hoje se acredita que os antigos, ao efetuar por exemplo as festas do solstício de inverno, o faziam movidos pelo medo de que o sol, tendo descido ao seu ponto mais baixo em sua trajetória celeste, não mais se reerguesse, mergulhando o mundo num inverno permanente; ao procederem aos rituais de semeadura, o faziam para tornar os campos férteis para o próximo ano. Contudo, esta é uma concepção por demais simplista, que caberia talvez apenas na mente das massas não iniciadas daquela época. A finalidade do ritual não é pragmática: não se procede a uma cerimônia com a intenção de causar coisa alguma, mas sim de participar de algo que efetivamente já se constitui numa realidade. O rito tem a finalidade de consagrar, ou seja, de permitir que seus participantes possam ingressar na dimensão do sagrado; uma dança indígena da chuva não pretende fazer chover, mas sim permitir que o povo que a efetua ingresse numa dimensão onde já chove, porque o mundo do sagrado, detentor dos gérmenes de toda a criação, desconhece a infertilidade. Quando uma cidade é assolada pela peste, isso não se dá simplesmente porque seu monarca teria cometido um pecado, motivador da vingança de algum deus: a saúde abandona aquele lugar por ter o mesmo de algum modo se "dessacralizado" através de um distanciamento efetuado pelos seus próprios habitantes em relação ao mundo divino. Essa cidade teria perdido a identificação com seu modelo sagrado, imaterial, do qual se constitui em mero reflexo, o que significa, em outras palavras, que ela teria abandonado o seu "Centro".
Desse modo, as vicissitudes da vida, tais como a doença, a morte, ou quaisquer tipos de reveses experimentados pelo homem, se devem à perda de sua identificação com o sagrado. Ao se afastar da realidade apenas presente no Centro, torna-se o indivíduo presa da ilusão do plano manifesto, ficando portanto sujeito a todos os seus percalços. Por outro lado, se através do ritual apropriado, ele retomar sua identificação com a dimensão superior, desfaz-se a ilusão proporcionada pelo Ma, fazendo desaparecer por completo seus infortúnios.
Sei a que tal tipo de raciocínio pode conduzir alguém habituado a "psicologizar" os mitos: o homem dito primitivo, devido à inconsistência de suas crenças, tentaria negar a inevitabilidade do sofrimento, inerente a esta vida, criando uma espécie de mundo perfeito, mero reflexo de seu próprio ego ideal, e assim proteger-se de uma realidade insuportável para sua frágil estrutura psíquica. Não tentarei resolver essa questão agora, sob pena de acabar desvirtuando a proposta inicial deste item, mas peço a quem estiver se sentindo inclinado a tal veredicto, que contenha momentaneamente sua paixão e espere momento mais apropriado para retomar esta problemática. Como o material necessário para a resposta estar diluído em toda a extensão deste trabalho, talvez no final ela venha a se tornar simplesmente desnecessária.

Antonio Farjani - A linguagem dos deuses)

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publicado às 22:00



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