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(...) O homem antigo enxerga na natureza repetições arquetípicas da cosmogonia, e em seus ciclos a alternância entre os reinos da Ordem e da Desordem. Entre esses ciclos, está o do ano solar: o ano novo, ou o advento da primavera, ou a época da semeadura representavam uma renovação de toda a Criação, expressa através da renovação da vida observada na natureza. Não fica difícil entrever nesses reis sacrificados, substitutos ou não, e nos bodes expiatórios símbolos da divindade primordial que entrega seu corpo para despedaçar, proporcionando com seu sacrifício a manifestação de todas as coisas.
A noção onipresente é a de que o mundo advém do Caos, e a ele retorna no final de cada ciclo. Fiz questão de expressar essa idéia com os verbos no presente com o intuito de reafirmar a atemporalidade do mito; essa alternância entre caos e ordem efetua-se a cada momento em todos os planos da manifestação, tanto no macrocosmo quanto no microcosmo, tanto dentro quanto fora da alma humana. O retorno periódico ao caos fica dramatizado nos ciclos da natureza, e quando isso acontece, o homem antigo utiliza-se do ritual para "refazer" a Criação. Como já havia assinalado anteriormente, o que o motiva não é o medo de que a renovação da vida não ocorra sem a sua ajuda, mas o desejo de consagrar esse evento, e dele participar.
Todas as cerimônias de renovação repetem "fatos" primordiais. O sacrifício das vítimas repete a imolação do deus primevo; a agitação e a dança desenfreadas repetem a confusão e a ebulição dos elementos que reinam antes do momento criador; as orgias dramatizam a fertilidade absoluta contida no Caos, e o casamento ou a simples união sexual efetuados nesses cerimoniais repetem a realização do hierósgámos.
O caminho agora fica livre para analisarmos mais detidamente a simbologia do sacrifício do rei temporário, ou o "rei louco". Vimos como a oposição Caos-Cosmos manifesta-se continuamente na natureza e em seus ciclos, e como o universo se torna palco de uma "luta" entre os princípios da agregação e da desagregação, da ordem e da desordem, erradamente cunhados pela mentalidade maniqueísta como princípios de "vida" e de "morte". Se todo o universo comporta essa polaridade, o mesmo se dará com o rei, lídimo representante da divindade sobre a terra. Portanto, na figura do monarca, assim como na divindade, coexistem caos e ordem, fertilidade e esterilidade, potência e impotência, sabedoria e loucura. O rei sacrificado simboliza invariavelmente o "rei louco", ou seja, o aspecto da divindade representante do caos, que vive ameaçando irromper na ordem estabelecida; no decorrer de um tempo simbólico, que pode ser tanto de doze meses, doze anos, ou toda a juventude e maturidade do rei, a idéia é a de que as forças do caos, representadas por exemplo pela velhice ou esterilidade, vão tomando conta paulatinamente da figura do monarca. O costume observado hoje em dia, de se representar o ano findo como uma figura senil, e o ano próximo, o "ano novo", como um bebê recém-nascido expressa adequadamente essa simbologia. Mesmo que saibamos que objetivamente tal coisa não acontece, carregamos dentro de nós a fantasia de que o ano vai-se desgastando, e que precisamos renovar as nossas forças por ocasião do ano-novo.
O sacrifício do rei substituto advém de um recurso mágico: efetua-se um splitting na figura do monarca, onde o rei temporário chama a si, num processo homeostático, as potências do caos, deixando com o rei verdadeiro somente as virtudes da ordem. Portanto, matar o rei substituto significa eliminar o aspecto caótico, desordenado e insano do verdadeiro monarca, que através desse sacrifício fica preservado do desgaste proporcionado pelas forças do caos. Os dois reis assumem simbolicamente a polaridade presente no mundo divino, seja qual for o seu nome, Mazda e Ariman, Odin e Loki, Osíris e Tifon, Vishnu e Shiva, Apolo e Dioniso, Javé e Satã, ou qualquer outra dupla divina, que os iniciados sabiam tratar-se da dupla face de um único Ser.
A Teogonia de Hesíodo nos ensina que a Noite, filha do Caos, pariu Momo, o Sarcasmo. Momo, dentro da simbologia que vimos estudando, é a própria personificação do Rei Louco, oriundo do Caos e soberano da Desordem. Ele consiste no arquétipo de todos os reis temporários, os senhores da desrazão, que chamam a si o lado insano dos legítimos governantes. Paradigma dos palhaços, dos líderes dos cortejos carnavalescos, dos loucos e dos bobos da corte, e inspirador das figuras do Louco, no Tarô, e do Coringa no baralho comum, até os tempos atuais ele reina por três dias no Carnaval. Depois, é banido simbolicamente na quarta-feira de cinzas, quando a ordem se reinstaura, revigorada, no seio da coletividade. Hoje, o seu sacrifício fica reduzido ao simples destronamento, mas a essência da simbologia permanece, e o povo, ainda que de forma inconsciente, repete esse mesmo mistério a cada ano que passa.

(Antonio Farjani - A linguagem dos deuses)

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publicado às 17:58



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