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Escoriações da pele

por Thynus, em 27.12.13
Voltava para casa depois de mais uma comemoração de fim de ano junto com os colegas do escritório. Todos aqueles brindes e a grande agitação só fizeram aumentar o aperto no coração que se instalara desde o início de dezembro.
O ano estava terminando. O inevitável balanço das perdas e ganhos, cedo ou tarde, acabaria por ser feito.
Não adiantava pensar que tudo não passava de uma grande bobagem, afinal a marcação do tempo é aleatória, uma ritualização que não pode influenciar sua vida. Que diferença faz se é 1° de janeiro ou 29 de setembro? Para que tanta ansiedade?
Gostaria de sentir-se livre desses condicionamentos, dessas convenções sociais. Mas sentada na penteadeira, cara a cara com o espelho, só conseguia pensar que passaria a noite do Ano-Novo só. Tivera três namorados durante o ano, e o último, que parecia o amor de sua vida, foi o que lhe causou a pior decepção. E no trabalho então! A nova diretoria, que prometia trazer grandes mudanças, aumentou as exigências burocráticas, tornando a execução dos serviços uma rotina ainda mais penosa. Estava estressada e ansiosa.
Fixou seu olhar nas marcas de acne. Percebeu uma pequena área avermelhada e um pouco protuberante. Começou a apertá-la, a princípio com delicadeza, prometendo a si mesma que só iria tirar aquela espinha.
Não foi o que aconteceu. Quando parou de cutucar a pele, algumas marcas antigas sangravam e seu rosto estava todo inchado. Parecia aliviada, mas em seus olhos era possível enxergar o prenúncio da tempestade.
Existem pessoas que literalmente se entregam a cutucar a pele repetidas vezes, gerando lesões visíveis, dolorosas, que sempre lhes deixam marcas, ou melhor, cicatrizes difíceis de esconder ou disfarçar. Essas lesões podem iniciar-se como resultado de esforços excessivos para manter a pele limpa, nos casos dos rituais de desinfecção, como já vimos. Porém, na maioria das vezes, as lesões têm origem em pequenas imperfeições momentâneas da pele como uma acne, uma pequena vesícula (de um pêlo encravado ou de um processo alérgico) ou um cravo, sobre os quais os pacientes exercem os atos de apertar, cutucar ou espremer.
Costumo dar preferência ao termo cutucar, pois, além de ser o mais utilizado pelos próprios pacientes ao confessarem seus homicídios cutâneos, é o termo americano usado para dar nome a esse transtorno, s/c/n picking, que traduz com exatidão a bagunça provocada na pele das pessoas que dele sofrem — até porque esse comportamento de cutucar lesões preexistentes acaba causando infecções secundárias e cicatrizes mais feias que as lesões originais.
As lesões — mais comuns no rosto, braços, coxas, pernas e tronco — são produzidas com as unhas, em geral à noite ou quando a pessoa se encontra sozinha diante do espelho. A inspeção visual e palpatória (toque) da pele precede a escoriação. Nesse momento o paciente experimenta uma sensação de tensão crescente, que só é aliviada com o ato de cutucar. Em seguida surge o sentimento de arrependimento e fracasso por não ter conseguido se controlar mais uma vez.
As escoriações da pele têm em comum com o TOC o fato de serem repetitivas, se realizarem contra a vontade da pessoa e trazerem um alívio de tensão, que a pessoa experimenta ao cutucar a pele.
É importante destacar que as escoriações da pele são bem mais comuns do que imaginamos. Entretanto, as pessoas que lesam repetidas vezes a face, os braços e as pernas costumam negar que isso seja um transtorno do comportamento. Dessa forma, elas procuram clínicas dermatológicas exigindo dos especialistas resultados perfeitos, impossíveis de serem alcançados nesse tipo de tratamento.

(MENTES e MANIAS - ANA BEATRIZ BARBOSA SILVA)

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publicado às 17:57


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