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Identidade narrativa

por Thynus, em 26.12.13
Quando nos perguntam quem somos, respondemos, contando a nossa história: somos filhos de fulano e fulana, nascemos no ano tal, em tal sítio, frequentámos a escola X, a universidade Y, fazemos isto ou aquilo, somos casados com A, temos os filhos B e C e D...
Mas isto é apenas o que somos enquanto resultado de um processo biográfico. Se quiséssemos apresentar mais adequadamente a nossa identidade, teríamos ainda de narrar a cosmogénese e a filogénese e a ontogénese e a história da humanidade, pois nós somos o que somos também enquanto resultado de um acto criador e da evolução biológica e de um desenvolvimento embriológico e do devir histórico da humanidade toda.
Mas, depois, seria necessário acrescentar: eu ainda não sou o que serei, pois a minha história e a história do cosmos e da humanidade ainda não estão encerradas. Por isso, e dado que "por essência o homem é um ente gerundial", como diz Pedro Laín Entralgo, "eu vou sendo o que era e o que sou, e desde o que era e o que sou movo-me para o que serei".
A identidade humana é constitutivamente narrativa, incluindo, portanto, o acontecimento, a mudança, o imprevisível. Se não sabemos nem nunca saberemos adequadamente quem somos nem o que somos, é porque nos é impossível fazer a narração plena da nossa história, que implica narrar a história toda do mundo, que continua em aberto. Quando pensamos na nossa identidade, referimo-nos a uma identidade adquirida, mas que continuamente se desfaz, refaz e recria, num esforço nunca terminado de sermos nós próprios. Somos constitutivamente temporais: não estamos simplesmente no tempo; somos tempo, com um futuro aberto...
Na temporalidade humana, há certos marcos fundamentais: evidentemente, o dia do nascimento, a festa do casamento, a data do nascimento dos filhos... Por isso, celebramos o aniversário natalício, as bodas de prata e de ouro... E o que se diz dos indivíduos acontece também com os grupos, que precisam de comemorar datas significativas (por exemplo, o aniversário dos fundadores).
Só somos numa cultura. E todas as culturas vivem de datas e relatos fundadores, que comemoram e celebram para manter viva a identidade própria. Sem futuro, a identidade é petrificada e morta; sem tradição, também não existe, pois não tem raízes.
Tenhamos ou não consciência clara disso, o cristianismo é um dos fundamentos, uma das raízes da nossa cultura e da nossa identidade. Jesus Cristo é uma das referências determinantes da história dos homens. Sem ele, o mundo não seria o que é. Provém dele a consciência maior que temos da infinita dignidade de se ser ser humano e, consequentemente, da liberdade, da igualdade, da fraternidade, sem nenhum tipo de discriminação. A partir dele, os seres humanos já não podem ser discriminados por causa da raça, da língua, do sexo, da cor, da religião. Com ele, soubemos da tolerância, do perdão e da misericórdia sem limites; que Deus se adora em espírito e em verdade; que não se pode amar a Deus sem amar o próximo, que é todo aquele que precisa de mim. Para ele, a fé em Deus não pode desvincular-se da fé no homem: pelo contrário, acreditar em Deus implica acreditar no homem, incluindo o ser humano que cada um de nós é: e muitas vezes acreditar no homem é bem mais difícil do que acreditar em Deus... Nele, assenta a esperança confiada de que a vida não caminha para a morte, mas para a vida eterna.
Celebrar o Natal é, pois, antes de mais, lembrar Jesus Cristo, com o intuito de redescobrir e recuperar e reconfigurar a identidade de ser homem e refundar o futuro e recolocar a questão do sentido da existência humana e da história do mundo e revigorar a fé e a esperança e o amor.

(Anselmo Borges - Janela do (In)Visível)

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publicado às 21:25



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