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Futuro e advento

por Thynus, em 26.12.13
É concretamente no tempo natalício que nos lembramos mais dos amigos. E vamos ao seu encontro, pelo menos, com um postal, um telefonema, um pequenino presente. Mas, precisamente ao folhear a lista na nossa agenda pessoal, somos, de repente, brutalmente confrontados com a constatação de que alguns deles entretanto já deixaram este mundo. Ainda no Natal anterior cá estavam, e já cá não estão!...
Depois, é um novo ano. Mas, apesar de novo, tudo parece repetir-se. Após aquela exaltação da passagem de ano, tudo parece voltar ao mesmo. Aparentemente, é o eterno retorno do mesmo, segundo a concepção que domina a mentalidade do homem arcaico no que se refere ao tempo.
Os próprios gregos não superaram uma concepção circular do tempo. Por isso, dizia-se: Zeus era, Zeus é, Zeus será, Zeus é eterno. Segundo Plutarco, à porta do templo de Apolo estava escrito: El, isto é: Tu és, no sentido de uma existência divina atemporal e invariável.
Foi essencialmente com a Bíblia que se abriu uma nova concepção do tempo: já não circular, mas linear e com uma finalidade, não já o eterno retorno do mesmo, como escreveu Nietzsche, mas uma história com um final de promessa de salvação. O Deus bíblico define-se essencialmente como Aquele que diz de si mesmo: Eu sou Aquele que serei. E o Apocalipse diz: Deus é Aquele que era, que é e que vem. Inesperadamente, em vez de dizer-se: que era, que é e que será, diz-se: e que vem. O Deus bíblico está presente na história, à qual, pela sua Promessa, abre possibilidades sempre novas.
Significativamente, para dizer futuro, temos, em português, duas palavras: precisamente, futuro e advento. O mesmo se passa, aliás, com outras línguas: futur e avenir, em francês; Futur e Zukunft, em alemão. O futuro é aquilo que é possível ser determinado por nós. E assim temos o futuro enquanto planificável. Mas há um outro futuro, e esse futuro é expresso pela palavra advento, que significa vinda, chegada. Temos, portanto, de planificar o futuro, concretamente nós portugueses que somos imensamente não planificados. Mas temos ao mesmo tempo e sobretudo de esperar, estando abertos ao futuro novo que chega.
Socorrendo-nos até das nossas pequenas histórias pessoais, constatamos que o futuro para nós também é essencialmente chegada, visita do inesperado. A história é essencialmente visita, sempre surpreendente e imprevisível. Por isso, esperamos: esperamos confiadamente e de modo activo. O que vincula os homens, vivos e mortos, é a esperança, a esperança fundada nas experiências de sentido e aberta ao Mistério indizível e que chega, que vem ao nosso encontro. Afinal, nem a natureza nem Deus disseram ainda tudo quanto podem e têm para nos dar.

(Anselmo Borges - Janela do (In)Visível)

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publicado às 21:25



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