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Não sabia nada de finanças

por Thynus, em 26.12.13
Não sabia nada de finanças nem consta que tivesse biblioteca, como escreveu Fernando Pessoa. Ele que não sabia de finanças nem consta que tivesse biblioteca é Jesus Cristo. Não há figura histórica mais estudada nem mais amada.
O que há neste homem, nascido há dois mil anos, para arrastar multidões e ser uma referência determinante para toda a humanidade? Segundo o ateu Ernst Bloch, Jesus agiu como um homem "pura e simplesmente bom, algo que ainda não tinha acontecido", e Umberto Eco, que se considera laico, escreveu que, se fosse um viajante proveniente de galáxias longínquas, ao encontrar-se frente a uma humanidade que soube propor-se o modelo de Cristo, com o amor universal, o perdão dos inimigos, a vida oferecida em holocausto pela salvação dos outros, "consideraria esta espécie miserável e infame, que cometeu tantos horrores, redimida pelo simples facto de ter conseguido desejar e crer que tudo isto é a Verdade". Até Nietzsche reconheceu, no seu O Anticristo, que no fundo só houve um cristão, mas esse morreu na cruz, e acrescenta: "Só uma vida como a daquele que morreu na cruz é cristã".
Que vida foi essa? Por outras palavras, por que é que o mataram?
Foi morto como blasfemo. Ergueu-se contra o Templo e a religião oficial que, em vez de libertarem o homem, o esmagavam. Levantou-se contra o Sábado: "O Sábado é para o homem e não o homem para o Sábado" foi talvez a afirmação mais revolucionária da história da consciência humana, pois coloca como critério último dos mandamentos do próprio Deus a realização e o bem-estar do ser humano. À lei da justiça e do cálculo Jesus contrapôs a misericórdia e a nova lógica do dom. Não era um asceta, e foi apelidado de comilão e bebedor: a salvação e a alegria são desde já e aqui.
Foi morto como subversivo político. Os seres humanos têm todos igualdade radical na dignidade inviolável: não há judeu nem grego nem homem nem mulher nem branco nem negro nem adulto nem criança nem livre nem escravo nem religioso nem ateu. Rebeldemente livre, Jesus não prestava culto nem a César nem ao Dinheiro, e o Deus a quem tratava terna e filialmente por Papá não quer sacrifícios e não se adora nem em Jerusalém nem em Guerizim, mas em espírito e verdade. A sua Boa Nova é o Reino de Deus da filadélfia, um Reino de amigos e irmãos.
A história das revoluções que têm Jesus na sua base está ainda por escrever. A maior delas é a revolução na concepção de Deus: um Deus que não está longe, mas próximo dos homens, um Deus bom, amigo e misericordioso para todos, com uma preferência: os pobres, os débeis, os doentes, as prostitutas, os humilhados, excluídos e ofendidos. Um Deus, que é o Deus da vida: a vitória não pertence à morte.
O Natal é, antes de mais, a celebração deste acontecimento: o nascimento de Cristo, o nascimento do ser humano bom, verdadeiro.

(Anselmo Borges - Janela do (In)Visível)

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publicado às 21:24



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