Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




O Triplo Logos

por Thynus, em 20.12.13

Aquele que cria incessantemente os mundos é tríplice.
É Brahma, o Pai; é Maha-ya, a Mãe; é Vishnu, o
Filho. Essência, Substância e Vida. Cada um traz em
si os dois outros e todos os três são Um no Inefável

(Os Upanishads)

 

A apresentação da divindade como uma trindade é por demais comum na religião universal: à guisa de exemplo, temos na Índia, Brahma, Shiva e Vishnu; no Egito, Osíris, Ísis e Horus; na Pérsia, Mitra, Mazda e Ariman; no cristianismo, temos Pai, Filho e Espírito Santo, etc.
Na Índia, a antiga trindade védica, composta por Vâyu, Agni e Sûrya, é substituída no panteão moderno por Brahma, o Criador, Vishnu, o Conservador, e Shiva, o Destruidor. Reza o Padma Purâna: "No princípio, o grande Vishnu, desejoso de criar o mundo inteiro, converteu-se em três: criador, conservador e destruidor. A fim de produzir este mundo, o Espírito Supremo emanou do lado direito de seu corpo, como Brahma; em seguida, a fim de conservar o universo, produziu de seu lado esquerdo o deus Vishnu, e para destruir o mundo, produziu o eterno Shiva do meio de seu corpo. Alguns adoram Brahma, outros adoram Vishnu e outros Shiva; porém Vishnu, um e contudo três, cria, conserva e destrói. Portanto, o piedoso não deve fazer diferença entre os três".
Tais trindades não se referem a pessoas, mas a princípios divinos: embora essencialmente una, a divindade se manifesta sob três atributos básicos que os gregos denominaram Logos. O primeiro Logos representa a Vontade divina, que se expressa a nível objetivo como a Lei. O segundo, o Amor e a Sabedoria em seu sentido mais amplo que se manifesta no mundo objetivo como Energia e Vida. O Terceiro Logos, por sua vez, representa a Inteligência divina que no plano objetivo se expressa como Forma. Esses três princípios manifestam-se em todos os âmbitos da realidade, sempre definido em tríadas como Vontade, Sabedoria e Atividade; Vida, Expressão e Forma; Espírito, Mente e Matéria; Percebedor, Percepção e Percebido; Sujeito, Verbo e Objeto, etc. Aristóteles diz que são necessários três princípios para um corpo natural tornar-se objetivo: privação, matéria e forma, onde "privação" consiste no protótipo astral daquilo que viria a se manifestar.
Esses três princípios, que regem o mundo visível e o invisível, são chamados Pai, Mãe e Filho na linguagem esotérica, onde o Pai representa o Princípio Criador ou a Criação, a Mãe a Conservação, e o Filho, por sua vez, a Destruição. Podem ser detectados em todas as manifestações da natureza, tais como: manhã, tarde e noite; nascimento, crescimento e morte; semente, polpa e casca; semeadura, cultivo e colheita, etc. Os romanos colocaram-nos até mesmo no calendário, representados pelos meses Janeiro, Fevereiro e Março: o primeiro refere-se ao deus Ianus, símbolo do princípio criador, o Pai; o segundo, referente a Februa, deusa da fecundidade, a Mãe divina; o terceiro, a Marte (Mars), ao mesmo tempo deus agrário e da destruição, elementos que já associamos entre si anteriormente.
A idéia básica acerca do triplo Logos é que o Filho acaba destruindo o Pai. A simbologia não é tão difícil de se detectar: o Filho, como a Forma, delimita aquilo que no nível espiritual é ilimitado, para poder dar contorno a todas as coisas. Daí se tira o mito de que o filho castra seu pai divino, como Cronos castra Urano; qualquer indício de violência ou paixão neste gesto constitui-se numa alegoria, pois este processo reflete uma lei universal e impessoal, portanto acima das emoções humanas.

     
Saturno (Cronos) devorando os Filhos, de Goya.    

 

Um exemplo que costumo apresentar é o da tríada constituída por Verbo, Sujeito e Objeto. Pensemos na frase: "A pedra é quadrada". O sujeito, pedra, é o material a ser "esculpido", o elemento passivo que entra em movimento a partir de sua junção com o verbo. Equivale à matéria primordial que necessita de um princípio organizador para ganhar a forma. Em outras palavras, o elemento feminino, a Mãe, precisa do concurso do elemento masculino, o Pai, para dar à luz uma idéia. Observando a frase construída até aqui "A pedra é...", vê-se que verbo e sujeito clamam por um terceiro elemento para que uma idéia se manifeste. Esse terceiro elemento, o Filho, completa a frase: "A pedra é quadrada". No entanto, ao determinar a forma da pedra, tal adjetivo delimita tanto o verbo quanto o sujeito, pois estabelece o que a pedra deverá ou não ser.
O Pai, como princípio de todas as coisas, gera através da Mãe o mundo manifesto, o Filho. Sobre esse mistério versa a famosa parábola de Jesus, conhecida como a do filho pródigo. Certa vez, um jovem pediu a seu pai a parte da herança que lhe cabia, pois pretendia percorrer o mundo. Depois de muito tempo fora de casa, dissipara todos os seus bens, caindo na mais absoluta miséria. Então, supostamente arrependido, tornou à casa paterna, onde foi efusivamente recebido pelo pai aflito. No Evangelho de Lucas 15:23, o pai exclama: "Trazei o novilho cevado e matai-o; comamos e festejemos, pois este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado!"
A mesma parábola, relatada pelos alquimistas, torna explícito um elemento que se encontra oculto por elipse no Evangelho: o Pai, quando o Filho a ele retorna, devora-o completamente, da mesma maneira que procede Cronos na Mitologia Grega. O Musaeum Hermeticum recita: 

"Meu filho, sem ti estava morto, e a minha vida corria
grande perigo. O teu regresso faz-me reviver, e enche-me o
peito de alegria. Mas, quando o filho entrou na casa do pai, o
pai apertou-o contra o peito, e com excessiva alegria
devorou-o"
(Frankfurt e Leipzig, 1749).
O Pai devorando o Filho simboliza o retorno do manifesto à sua origem no imanifesto, enquanto que o Filho ao matar, castrar ou devorar a carne do Pai simboliza o caminho inverso, criação e manifestação. Ambos os processos se alternam no universo, onde criação e destruição ocorrem simultaneamente em todos os planos da realidade.
Como se pode perceber, os mistérios ocultos sob os mitos que envolvem uma trama entre pai, mãe e filho, tal como sucede na lenda de Édipo, podem ser associados antes de tudo a um drama cósmico. A "morte" que o filho inflige ao pai não tem coisa alguma a ver com desejo ou quaisquer paixões, pois o mito expressa nada mais que uma lei universal, cósmica, e portanto, queiram-no ou não os psicanalistas, transcendente ao limitado plano da alma humana.
Cabe-nos agora desenvolver ainda mais os conceitos acima apresentados, de modo a mostrar os caminhos que percorre a essência divina até chegar à plena manifestação. O Um, para se manifestar, divide-se em uma dualidade ou polaridade, que experimentamos como Masculino e Feminino, Bem e Mal, Espírito e Matéria, Causa e Efeito, etc. A inter-relação entre esses dois elementos constitui um terceiro, que as antigas religiões comumente chamam Filho. Esses três elementos, presentes na matéria diferenciada, constituem os que os hindus denominaram sattva (a pura quiescência), rajas (atividade e desejo) e tamas (paralisação e decadência). Estas são as três gunas, os três modos ou qualidades da prakriti (matéria). O quaternário formado pela união entre esses três princípios em uma Unidade dá ensejo à manifestação do mundo objetivo, daí o número quatro estar invariavelmente ligado ao plano material (Três elementos podem se agrupar apenas em quatro combinações, sem que as mesmas se repitam. Se tratamos por exemplo de combinar A, B e C teremos como resultado AB, AC, BC e ABC.). Podemos perceber, por exemplo, o quaternário nos quatro elementos da matéria (fogo, terra, ar e água), nos quatro pontos cardeais (norte, sul, leste, oeste) e nas quatro dimensões do mundo observável (comprimento, largura, altura e tempo).
A triplicidade unida ao quaternário perfaz o septenário, conforme três mais quatro igual a sete, dando origem a todas as coisas. Assim, nada mais sublime que mostrar Deus criando o mundo em sete dias simbólicos. Para poder se manifestar, o espírito desce à forma por estes sete caminhos, promovendo as divisões septenárias da cor, das notas musicais, e os sete níveis de consciência do homem, conforme veremos em seguida.
(Antonio Frajani - A linguagem dos deuses)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:38



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D