Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




EPICURISMO

por Thynus, em 19.12.13
A cultura do terror/4
Foi num colégio de padres, em Sevilha. Um menino de
nove ou dez anos estava confessando seus pecados pela primeira vez.
O menino confessou que tinha roubado caramelos, ou que tinha mentido
para a mãe, ou que tinha copiado do colega de classe, ou talvez
tenha confessado que tinha se masturbado pensando na prima. Então,
da escuridão do confessionário emergiu a mão do padre, que brandia
uma cruz de bronze. O padre obrigou o menino a beijar Jesus crucificado,
e enquanto batia com a cruz em sua boca, dizia:
— Você o matou, você o matou... Júlio Vélez era aquele
menino andaluz ajoelhado. Passaram-se muitos anos. Ele nunca pôde
arrancar isso da memória
.
(Eduardo Galeano - O LIVRO DOS ABRAÇOS)

 

Epicuro, nascido de uma família de expatriados gregos de Samos, estabeleceu-se em Atenas por volta de 306 a. C. e aí viveu até à sua morte, em 271. Os seus discípulos no Jardim, que incluíam mulheres e escravos, viviam humildemente e mantinham-se afastados da vida pública. Epicuro escreveu 300 livros, mas tudo se perdeu, à excepção de algumas cartas. Alguns fragmentos do seu tratado Da Natureza foram soterrados em lava vulcânica em Herculano, aquando da erupção do Vesúvio em 79 d. C.; nos tempos modernos foram cuidadosamente desenrolados e decifrados. Até hoje, contudo, o nosso conhecimento das doutrinas de Epicuro continua a apoiar-se sobretudo num longo poema latino escrito no primeiro século da era cristã pelo seu discípulo Lucrécio, intitulado Da Natureza das Coisas (De Rerum Natura).
O objectivo da filosofia de Epicuro é tornar possível a felicidade pela eliminação do seu grande obstáculo: o medo da morte. É o temor da morte que leva o homem a procurar riqueza e poder, na esperança de a adiar, e a lançar-se em frenética actividade para esquecer a sua inevitabilidade. O medo da morte é instilado em nós pela religião, que prenuncia uma vida depois da morte cheia de sofrimentos e punições. Mas tal perspectiva é, para Epicuro, ilusória. Lucrécio clarifica eloquentemente este aspecto: não precisamos de temer a morte, a sobrevivência ou a reencarnação.

Que tem este papão, a morte, que tanto assusta os homens,
se tanto as almas como os corpos morrem?
Tal como antes de nascermos não sentíamos dor
quando as armas púnicas infestavam a terra e o mar,
assim também quando se desagregar a nossa mortal ossatura
e o corpo sem vida for separado do espírito,
libertados seremos dos sentidos de dor e sofrimento,
nada sentiremos, porque nada seremos.
Ainda que se percam a terra nos mares e os mares nos céus
não nos mexeremos, seremos simplesmente pelo acaso remexidos.
Não, mesmo supondo que sofrida a consumação do destino
a alma possa sentir no seu estado dividido,
que nos importa isso a nós? Pois nós só somos nós
enquanto as almas e os corpos permanecerem unidos.
Não, ainda que os nossos átomos se revolvam ao acaso
e a matéria regresse à sua antiga dança;
ainda que o tempo pudesse devolver-nos a vida e o movimento
e fazer dos nossos corpos aquilo que outrora foram;
que ganharíamos nós com toda essa azáfama?
O homem novo seria uma coisa nova.

Foi para eliminar o medo da morte e para demonstrar que os terrores da religião não passavam de fantasias que Epicuro concebeu a sua ideia da natureza e da estrutura do mundo.
Adoptou, com algumas modificações, o atomismo de Demócrito. Os átomos, unidades indivisíveis e imutáveis, deslocam-se no vazio e no espaço infinito; inicialmente, todos se deslocam em sentido descendente a uma velocidade constante e igual, mas por vezes mudam de direcção e colidem uns com os outros. Dessas colisões resulta tudo o que existe nos céus e na terra. Como todas as outras coisas, também a alma é constituída por átomos, que diferem dos outros por serem mais  pequenos e subtis. Com a morte, os átomos da alma dispersam-se e tornam-se incapazes de sentir, porque já não ocupam o seu lugar apropriado num corpo. Os próprios deuses são constituídos por átomos, tal como os seres humanos e os animais; mas, visto viverem em regiões menos turbulentas, encontram-se a salvo dos perigos da dissolução.
Epicuro não era ateu, mas estava convencido que os deuses não se interessavam pelos assuntos deste mundo, vivendo a sua própria vida em ininterrupta tranquilidade. Por este motivo, defendia que a crença na providência divina era uma superstição e que os rituais religiosos eram, na melhor das hipóteses, inúteis.
Ao contrário de Demócrito, Epicuro pensava que os sentidos eram fontes seguras de informação e desenvolveu uma ideia atomista acerca do seu funcionamento. Todos os corpos expelem finas películas dos átomos que os constituem, películas essas que retêm a sua forma original, servindo assim como imagens (eidola) dos corpos originais. A percepção ocorre quando estas imagens entram em contacto com os átomos da alma. As aparências que atingem a alma nunca são falsas; correspondem sempre exactamente à sua fonte. Se nos enganamos quanto à realidade, é porque usamos estas aparências genuínas como base para falsos juízos. Se as aparências são contraditórias, como quando um remo parece dobrado dentro da água e recto quando fora dela, as duas aparências devem ser entendidas como testemunhos honestos sobre os quais o espírito deve ponderar para chegar a um juízo. Nos casos em que as aparências são insuficientes para esclarecer uma disputa entre teorias rivais (sobre a verdadeira dimensão do Sol, por exemplo), o espírito deverá abster-se de qualquer juízo e demonstrar igual tolerância para com todas as hipóteses.
A pedra basilar da filosofia moral de Epicuro é a doutrina segundo a qual o prazer é o princípio e o fim da vida feliz. Contudo, Epicuro traça uma distinção entre os prazeres que resultam da satisfação dos desejos e os prazeres que surgem uma vez satisfeitos todos os desejos. Os prazeres que resultam da satisfação dos nossos desejos ligados à comida, à bebida e ao sexo são prazeres inferiores, já que estão ligados à dor: o desejo que satisfazem é em si próprio doloroso, e a sua satisfação leva à renovação do desejo. Devemos procurar, pois, os prazeres tranquilos, tais como o da amizade privada.
Embora fosse um atomista, Epicuro não era determinista; pensava que os seres humanos gozavam de livre-arbítrio e procurou explicá-lo recorrendo às arbitrárias mudanças de direcção dos átomos. Sendo livres, somos senhores do nosso próprio destino: os deuses não impõem necessidade nem interferem nas nossas escolhas. Não podemos escapar à morte, mas se a olharmos de uma perspectiva verdadeiramente filosófica, ela deixa de ser um mal.

(Anthony Kenny - História Concisa da Filosofia Ocidental)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:22



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D