Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



 
 
Desiludidos com o presente, muitos pensadores partem para uma fuga romântica. Idealizam algum passado mítico e sonham com um regresso a esse Éden imaginado. O paraíso “perdido” precisa ser reencontrado.
Em vez do realismo retratado por Eça de Queiroz em seu conto sobre Adão e Eva, especulando sobre como deveria ser bárbara a sobrevivência nos primórdios da humanidade, esses intelectuais preferem sonhar com um mundo perfeito, onde nada faltava e tudo era possível. Cito Milosz novamente: “Os homens se agarram a ilusões quando não há mais nada a se segurar.”
Jean-Jacques Rousseau foi o grande precursor da postura romântica que tanto influenciou o século XX. Alguns o consideram o pai do totalitarismo moderno. Arrogante a ponto de despertar o desprezo de muitos colegas filósofos, como Voltaire, que o considerava “um poço de vileza”, colocava-se acima de todos os outros em termos morais. Não foi por acaso que Edmund Burke o chamou de “filósofo da vaidade”. Rousseau e a esquerda caviar têm tudo a ver.
As emoções que levaram Rousseau a seu pensamento político misturam diferentes origens da esquerda caviar. Há muitas interseções entre uma e outra, sem clara distinção em alguns casos. Rousseau foi romântico e ressentido ao mesmo tempo. Idealizou o “bom selvagem” contra a civilização e condenou a propriedade privada como fonte de todos os males, alimentando a inveja das massas.
O evangelho rousseauniano tem como efeito inevitável, segundo Irving Babbitt, em Democracia & liderança, “fazer orgulhoso o homem pobre e, ao mesmo tempo, fazer com que ele se sinta vítima de uma conspiração”. O pobre, de acordo com Rousseau, era menos corrompido que o rico. Ouve-se, através das palavras de Rousseau, “a voz do plebeu irado e invejoso que, em nome do amor, está fomentando o ódio e a luta de classes”.
Em Emile há uma confissão: “O que era mais difícil de ser destruído dentro de mim era uma misantropia orgulhosa, uma certa acrimônia contra os ricos e os felizes do mundo, como se eles estivessem nessa situação à minha custa, como se sua alegada felicidade tivesse sido usurpada de mim.” Movido por tal sentimento, Rousseau passaria a incorporar de forma megalomaníaca a voz da “vontade geral”, e estava disposto até mesmo a forçar o homem a ser “livre”.
Isaiah Berlin tenta colocar Rousseau em um divã imaginário para extrair possíveis traços psicológicos de sua personalidade. Não era um proletário, mas sim um membro característico da respeitável classe média baixa da Suíça, que “se afastou de seu meio e tornou-se um aventureiro boêmio sem ocupação fixa em revolta contra a sociedade, mas ainda com o temperamento e as crenças de um petit bourgeois provinciano”.
Rousseau condenava a aristocracia, a sociedade como um todo, e se considerava uma pessoa pura, com sentimentos nobres. Amava o povo simples. E, no entanto, abandonou todos os seus cinco filhos no orfanato e conseguiu o desprezo de muitos que foram seus amigos ou amantes. Como escreveu o português João Pereira Coutinho em sua coluna da Folha: “Só canalhas amam a Humanidade (com maiúscula). E só grandes homens são capazes de exercer a sua humanidade (com minúscula).”
Marx também vem à mente após lermos essa frase. Ele “amava” o proletariado enquanto abstração, mas não gostava de frequentar fábricas, e, quando fez um filho com uma empregada, despachou o moleque para adoção. Graças a gente como Rousseau e Marx, tenho calafrios sempre que vejo alguém proferindo seu imenso amor à humanidade, aos pobres, a todos!
Rousseau foi a maior inspiração para outro “abnegado” que se sentia muito puro: Robespierre. Como foi a colocação em prática de tanta pureza? Durante os últimos cinco meses de vida, quando concentrou um poder praticamente tirânico sobre a França, mais de duas mil pessoas foram guilhotinadas em Paris, uma quantidade cinco vezes superior àquela dos mortos nos onze meses que precederam o reinado do terror pessoal de Robespierre. Na biografia de Ruth Scurr sobre essa importante figura da Revolução Francesa, o próprio título já resume de forma sucinta a imagem do perigo: Pureza fatal.
Não teria sido a hipocrisia ou mesmo as ambições materiais que tornaram Robespierre uma ameaça tão grande à liberdade, mas, sim, sua total convicção de que ele e o povo eram uma só coisa. O Incorruptível, como era conhecido, seria a mão sangrenta executando com fanatismo as ideias de Rousseau. Robespierre, vestido com a capa da pureza moral, seria o instrumento da “vontade geral”. A visão de uma sociedade ideal, livre dos “pecados” da aristocracia e da miséria, faria com que ele acreditasse, de forma insana, ser o veículo da Providência que levaria a França a um futuro perfeito.
Nada poderia abalar a crença de que sua vida era realmente dedicada ao melhor para o povo, nem mesmo o banho de sangue em Paris e a miséria espalhada por toda França. Mais cansado e desiludido, Robespierre constatou que “existem poucos homens generosos que amam a virtude por si só e desejam ardentemente a felicidade do povo”, naturalmente se incluindo nesse grupo seleto. O fracasso da revolução não poderia ser fruto dos meios adotados por ele; tinha de ser culpa dos próprios homens, os quais não eram tão virtuosos como ele próprio.
Poucos representam maior ameaça às liberdades do que aqueles imbuídos de uma crença fanática em sua própria pureza e missão. Muito sangue inocente já foi derramado em nome dos ideais pregados por esse tipo de gente, e devemos estar sempre alertas para seu perigo. É o que explica Marie-Laure Susini em Elogio da corrupção, livro em que figuras como Robespierre e Paulo de Tarso vão parar no divã da autora, que é psicanalista.
Susini aceita o papel de advogada do diabo:
Afirmo que os incorruptíveis é que são perigosos. Os íntegros inquisidores e rigorosos purificadores, os virtuosos líderes de loucuras coletivas, os apóstolos da salubridade, os organizadores de campanhas de saneamento e massacres, os erradicadores do mal, os assassinos por dever.
A ideologia da pureza, enfim, deixou um rastro de destruição na história, e mais estrago foi causado por aqueles que lutavam em nome desse ideal do que por qualquer corrupto. Como o universo dos incorruptíveis é imaginário e, portanto, nulo, conclui-se que o universo dos corruptos abrange a totalidade dos homens. Exceto, naturalmente, os Incorruptíveis, ou aqueles que nisso acreditam. Esses são as verdadeiras ameaças!
Após Rousseau e seu discípulo Robespierre, o caminho estava liberado para essa dicotomia entre discurso e prática. Outros pensadores buscaram a imagem de pureza, vivendo vidas diametralmente opostas ao que pregavam. Os homens de ação, imbuídos dessa missão romântica redentora, transformaram aquilo que tocaram em um verdadeiro inferno. Mas eles se autoproclamavam os salvadores da humanidade. São os herdeiros dos jacobinos, revolucionários de esquerda, redentores que destroem tudo em volta em nome da utopia.
A Revolução Francesa, com seu slogan bonito de “liberdade, igualdade e fraternidade”, e com sua selvageria insana na prática, seria a inspiração de vários outros revolucionários, sempre defendidos pela esquerda caviar. Os resultados concretos dessas revoluções não importavam. A vibe que sua defesa produzia nos seus adeptos era o fundamental. “Ó, liberdade, liberdade, quantos crimes cometidos em teu nome!”, teria dito Madame Roland prestes a ser guilhotinada. Como resumiu Ann Coulter em Demonic:
Os detalhes dos regimes totalitários podem variar, mas a inspiração é sempre a mesma fantasia rousseauniana: um seleto grupo de elite com absolutamente nenhuma compreensão da natureza humana vai descobrir o programa, inflexivelmente impô-lo sobre as pessoas e, assim, regenerar a humanidade.
Esses intelectuais e revolucionários estão tão seguros de sua importância para reformar o mundo que acabam se esquecendo dos homens de carne e osso à sua volta. Eles vão construir o “novo homem”, mesmo que para fazer essa linda omelete seja preciso quebrar “alguns” ovos. Os nobres fins justificam os mais nefastos meios. Para alimentar tal entorpecimento, esses intelectuais precisam dos miseráveis como os abutres necessitam da carniça.

(Rodrigo Constantino - Esquerda Caviar)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:12



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D