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Os instrumentos de trabalho utilizados por Espinosa no combate ao irracionalismo e à superstição foram dois: o método histórico-crítico e o método genético. O primeiro serviu-lhe para interpretar a Bíblia e mostrar como nas Escrituras Sagradas não há verdades, no sentido próprio da expressão, mas tão-somente preceitos morais e políticos, necessários para preservar a comunidade judaica através dos tempos. Mediante o método histórico-crítico, Espinosa salienta o papel político dos profetas e dos grandes dirigentes do Estado hebraico, mas ressalta também o fato de terem sido homens de forte imaginação, não preocupados em conhecer Deus, mas em dirigir um povo. Dessa maneira, quando os teólogos pretendem usar a Bíblia como se fosse ciência ou filosofia, cometem um grave engano. Espinosa vai mais longe ainda ao salientar que se os teólogos e os soberanos fazem esse uso fraudulento da Bíblia é porque têm interesse nisso: pretendem manter a superstição.
Através do mesmo método de análise histórico-crítica, o autor do Tratado Teológico-Político marca a dupla diferença entre Cristo e Moisés. A primeira diferença reside no tipo de lei que propõem. A lei mosaica é a "pena de talião", olho por olho, dente por dente. A lei cristã é a da resignação, "dá a outra face". A lei mosaica é a expressão política de um Estado sadio e poderoso, a lei cristã é lei para um Estado oprimido. A segunda diferença está no modo de relacionamento com Deus: Moisés teve contato exterior (Deus lhe falava pela boca), Cristo relacionava-se inferiormente (espírito com espírito). A verdade do cristianismo, para Espinosa, está no Evangelho de São João quando afirma que estamos e somos em Deus; a Encarnação não significa que Deus veio viver entre os homens, mas que ele vive nos homens. Espinosa ataca impiedosamente a teologia e a política "cristãs" por terem destruído essa verdade do cristianismo, guardando apenas a imagem da cruz, isto é, da dor e do castigo. A Igreja e a Política cristãs parecem conhecer apenas a sexta-feira da paixão e ignorar o sábado de aleluia .
O segundo método espinosano de combate ao irracionalismo, o método genético, encontra-se formulado pela primeira vez no Tratado da Correção do Intelecto. O autor começa afirmando que a felicidade está vinculada ao objeto do desejo e do amor humanos; desejando-se ou amando-se coisas perecíveis, a felicidade será, conseqüentemente, perecível ou estará dilacerada. É preciso desejar e amar um Bem verdadeiro, capaz de comunicar-se a todos. A primeira tarefa a ser cumprida nesse sentido é a eliminação de pseudoformas de conhecer, o conhecimento "por-ouvir-dizer" e o conhecimento "por experiência-vaga"; em suma, é necessário controlar os desatinos da imaginação. Conhecer, para Espinosa, é conhecer pela causa. Neste caso, também é preciso eliminar um tipo de conhecimento tido por racional: o conhecimento a partir dos efeitos. Conhecer pela causa significa descobrir o modo pelo qual algo é produzido; trata-se, portanto, de um processo genético. Dizer-se, por exemplo, que o círculo é uma figura na qual todos os pontos eqüidistam do centro, é descrever o círculo, em vez de defini-lo. Um círculo é definido quando se diz que ele é produto de rotação da um segmento em torno de um eixo ou de um ponto extremo central. Fazer isso é conhecer o círculo geneticamente, isto é, através da causa que o produz.

(Marilena de Souza Chauí - BARUCH DE ESPINOSA)

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publicado às 16:52



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