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DEMOCRACIAS E DEMAGOGIAS

por Thynus, em 12.12.13

 

O diário, 23 de Janeiro de 1986

Neste meu ofício de escrevedor de livros, muitas vezes faço o que faz o operário que verifica o bom estado das suas ferramentas, se se encontram no seu devido lugar e à mão de servir, e também se estão limpas, a salvo de ferrugens e outras máculas. Quero eu dizer que consulto os dicionários, com mão diurna e nocturna como Camilo Castelo Branco aconselhava e hoje se pratica menos do que conviria à boa saúde da língua e da comunicação, e também, porque vem a propósito, dos comportamentos cívicos e políticos, e morais, se me permitem que adiante esta solene e bastante desacreditada palavra.
Agora deu-me para recordar, com um sentimento de curiosidade nostálgica, o significado de duas palavras, democracia e demagogia, que têm sido desigualmente tratadas nas últimas campanhas eleitorais, em particular nesta que decorre, para a Presidência da República, que não tarda vamos ter de decidir com a nossa consciência e o nosso voto. De democracia enchem os políticos a boca deles e os nossos ouvidos, de demagogia fala-se pouco, apesar de tanto se praticar.
Ora, que diz o dicionário, essa ferramenta preciosa, e infelizmente tão abandonada de quem ainda escreve e lê? Diz... (Interrompo para esclarecer que me sirvo, nesta ocasião, de um dicionário neutral, brasileiro, o de Aurélio Buarque de Holanda, para que não me venham acusar de usar as pratas e os ouros da casa com o suspeito objectivo de chegar a melhor brasa a esta sardinha.) Diz, pois, o dicionário de Aurélio que a democracia é a «doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição equitativa do poder, ou seja, regime de governo que se caracteriza, em essência, pela liberdade do acto eleitoral, pela divisão dos poderes e pelo controlo da autoridade, isto é, dos Poderes de decisão e execução», o que resumindo em três Palavras, equivale a dizer «governo do povo». Suponho que Os Cinco candidatos à Presidência da República conhecem, por igual, a letra desta definição, embora não duvide que tenham dela entendimentos diferentes e, em alguns casos, irredutivelmente contraditórios. Coisa que logo se verifica quando, na mesma página do dicionário, encontramos a outra palavra em questão, demagogia, que é um «conjunto de processos políticos hábeis tendentes a captar e a utilizar, com objectivos menos lícitos, a excitação e as paixões populares», e também «afectação ou simulação de modéstia, de pobreza, de humildade, de desprendimento, de tolerância, etc.», cabendo aqui, claro está, o mais que a nossa experiência de vida como alvos destes métodos já nos ensinou.
Temos, pois, cinco candidaturas, e também um conjunto de definições consensuais, como carapuças que podem ser enfiadas, para bem e para mal, nas cinco cabeças principais, as dos candidatos, e naquelas tantas dezenas que à roda delas circulam, as dos conselheiros, dos ideólogos, dos promotores, dos intermediários, e o mais que neste campo haja de inclassificável. Usemos então as duas pedras-de-toque, democracia e demagogia, para sabermos quanto vale cada um dos candidatos, que feições são verdadeiramente as suas à luz das poderosas evidências dos seus discursos e dos seus comportamentos.
Freitas do Amaral, delfim e discípulo de Marcelo Caetano, esperança post mortem dos abencerragens do fascismo português, é o lobo que, por mais que se esforce, não consegue caber na pele do cordeiro. Por baixo da macia lã do anho aparecem, mal disfarçados, os dentes vulpinos. Freitas do Amaral esforça-se por ser homem deste tempo mas erra na escolha do modelo, ao ponto de ousar ofender a memória e os ossos dos antepassados Salazar e Caetano, passeando-se pelo país estupefacto de palhinhas na cabeça e ademanes de estrela de Hollywood, ou imitando os inconfundíveis políticos norte-americanos em hora de convenção eleitoral. Freitas do Amaral fala de democracia como quem morde a palavra, no seu espírito habita uma reserva mental sistemática que, aos seus próprios olhos, o absolveria, amanhã, dos atentados que projecta cometer contra a democracia.
O uso que faz de palavras como liberdade, justiça, direito, chega a ser indecoroso. Aquela boca não nasceu para dizer tais coisas, testemunhem-no os estudantes a quem interrogou, em processo disciplinar, por terem protestado e lutado contra as prepotências do fascismo. Freitas do Amaral defenderia hoje a continuação da guerra colonial. Nenhum democrata pode votar em Freitas do Amaral, não por ele ser de direita (ser de direita é um direito que a democracia reconhece), mas, muito simplesmente, por não ser democrata.
De Mário Soares não é fácil falar. Este homem já foi quase tudo, já disse quase tudo, consoante os ventos, as marés e as conveniências. Apoiar Mário Soares é variar tanto quanto ele tem variado e há-de variar: olho os homens que têm seguido, como sombras dóceis, o itinerário político de Soares, e vejo-os, em prodígios de contorcionismo, cometendo, à custa de dores e sacrifícios sem nome, aquilo que no seu mestre é arte de camaleão, uma arte instintiva, natural e gostosa. Mário Soares diz sim e diz não com o mesmo à-vontade, vira-se à esquerda e à direita com igual sem-cerimónia e igual desrespeito pela inteligência e pela dignidade dos outros. Mas, reconheçamo-lo, enfim, depois de todos estes anos, Soares teve a sua grande hora de franqueza e lealdade: perante milhões de portugueses que o viam e ouviam na televisão, declarou que, desde
1974, a sua preocupação tem sido evitar a unidade de esquerda. Não é calúnia minha, é confissão dele. Votar em Mário Soares seria servir a direita, pois só à direita interessará que a esquerda não venha a unir-se para o triunfo definitivo da democracia.
Tem-se dito de Maria de Lourdes Pintasilgo que é uma pessoa simpática, com um sorriso bonito, uma comunicação fácil, um jeito especial de tocar no coração das gentes. Não direi que não. Eu próprio recebi desta mulher alguns sinais que mostram muita, sensibilidade e o dom de chegar à sensibilidade do outro. E um espírito evangelicamente alegre, ou alegremente evangélico, talvez muito de altar, mas pouco de paramentos. E, contudo, esta criatura tão estimável tem vindo a usar o discurso mais demagógico de toda a campanha, prometendo o que nunca poderia cumprir, invocando até o escrevi estas palavras apenas para explicar, se tal interessa a alguém, a minha posição perante o acto eleitoral que se aproxima. Não tenho quaisquer dúvidas. Porém, se ainda as tivesse, bastar-me-ia voltar a consultar o dicionário, ver o que Aurélio Buarque de Holanda lá me diz sobre o que são democracia e demagogia, depois confrontaria os candidatos Amaral, Soares, Pintasilgo e Zenha com as definições que delas me são dadas e, tendo apurado de vez quem é democrata e demagogo, escolheria. Salgado Zenha, evidentemente.

(José Saramago - Folhas Políticas)

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publicado às 17:29



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