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A esfinge de Pandora

por Thynus, em 12.12.13

BOCETA - era uma caixinha de madeira onde as mulheres gregas e romanas guardavam suas jóias. Poemas do século XVIII já a usavam como metáfora para a genitália feminina - onde a mulher guarda seus tesouros.
Origem dos Palavrões

 

A moça deslumbrante, pura fatalidade, tem um nome — “Pandora” — ao mesmo
tempo esclarecedor e muito enganador. Significa em grego: aquela que tem todos os
dons — porque, diz Hesíodo, “todos que tinham sua casa no Olimpo lhe concederam
um dom” —, a menos que signifique, como acham alguns, “aquela que foi dada aos
homens por todos os deuses”. Pouco importa, aliás. Fato é que as duas leituras são
boas: Pandora aparentemente tem todas as virtudes possíveis e imagináveis, pelo
menos em termos de sedução (ou de moral, coisa que, como você sabe, é algo bem
diferente). Além disso, foi de fato enviada aos homens pelo conjunto dos olímpicos,
que os querem punir.
(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos) 
 
(Pandora) ergue uma estranha “jarra” (que na mitologia logo se
chamará “caixa de Pandora”) dentro da qual Zeus se dera o trabalho de colocar todos
os males, todas as desgraças e todos os sofrimentos que devem se abater sobre a
humanidade. Apenas a esperança fica presa no fundo do funesto recipiente! E isso pode
ser interpretado de duas maneiras. Pode-se primeiro achar que os humanos não
poderão sequer se agarrar a alguma esperança, visto que ela não saiu da caixa. Pode-se
também entender, o que me parece mais adequado, que a eles resta a esperança, o que
está longe de ser uma vantagem concedida por Zeus. De fato, não se engane: a
esperança, para os gregos, não é um bom presente. É inclusive uma desgraça, uma
tensão negativa, pois esperar é continuar carente, é desejar o que não se tem e,
consequentemente, estar de certa maneira insatisfeito e infeliz. Quem espera se curar é
porque está doente, quem espera ser rico é porque é pobre, de forma que a esperança é
mais um mal do que um bem.
(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)
 
... o nascimento a partir
da união sexual do homem com a mulher vai tornar os mortais realmente mortais. Você
se lembra de que, na idade de ouro, eles não morriam por inteiro ou, melhor dizendo,
morriam o menos possível; desapareciam de forma gradual, durante o sono, sem
aflição nem sofrimento e sem nunca pensar na morte. Além disso, depois de
desaparecerem, permaneciam de certa maneira em vida, pois se tornavam daemons,
anjos da guarda encarregados de distribuir aos homens as riquezas, de acordo com o
mérito de cada um. Com o surgimento de Pandora, os mortais se tornam totalmente
mortais, e isso, por um motivo de real profundidade: é que o tempo, tal como o
conhecemos, com sua sequência de males — velhice, doenças, morte —, realmente nasce. 
(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)
 
Como na Bíblia, a saída da idade de ouro vem acompanhada por
uma funesta calamidade: o trabalho. Dali em diante, de fato, será preciso que os
homens ganhem seu pão com o suor do rosto, e isso por pelo menos duas razões. A
primeira, eu já disse: Zeus “tudo escondeu”, ele enterrou no chão os frutos que servem
de alimento ao homem, principalmente os cereais com os quais se fabrica o pão, de
forma que ele vai precisar se esforçar para se alimentar. Mas há também a encantadora
Pandora e, com ela, diz a Teogonia, da qual cito um pequeno trecho, “a raça e as tribos
das mulheres, grande flagelo para os mortais”:
Elas moram com os homens e da pobreza maldita não querem a companhia (mais
claramente, não aguentam a pobreza): precisam mais do que o bastante. É como
nas colmeias, em que as abelhas engordam os zangões e tudo se passa
desfavoravelmente para elas; o dia inteiro, até o pôr do sol, trabalham e fazem
seus favos de cera branca, enquanto eles permanecem no fundo da colmeia. É a
fadiga do outro que eles armazenam em suas panças.

Não é muito feminista, concordo, mas a época de Hesíodo não é a nossa. De
qualquer forma, está terminada aquela bela idade de ouro em que os homens podiam
todo dia rejubilar-se com os deuses e se alimentar com toda inocência, sem nunca se
sacrificar às necessidades da dura labuta. Mas o pior, se podemos assim dizer, é que a
mulher, evidentemente, não é um mal absoluto.
 (Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)
 
abordamos um dos temas mais profundos da mitologia: se a ordem
cósmica fosse perfeita, caracterizada por um equilíbrio imutável e sem falhas, o
tempo simplesmente pararia, isto é, a vida, o movimento, a história, e não haveria,
inclusive para os deuses, nada mais a se ver nem fazer, ficando claro que o caos
primordial e as forças que ele não para de engendrar de vez em quando não podem
nem devem jamais desaparecer totalmente. E a humanidade, com todos os seus
vícios e, principalmente, com a sucessão infinita de gerações que isso implica, desde
o envio de Pandora e da morte “de verdade” para os homens, é indispensável à vida.
Magnífico paradoxo que se pode formular da seguinte maneira: não há vida sem
morte, não há história sem sucessão de gerações, não há ordem sem desordem, não
há cosmos sem um mínimo de caos.
 (Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

 

Introdução à boceta de Pandora

 

Pois bem, na boceta que Zeus entregara à Pandora, continha sentimentos. Aqui começa a primeira questão que não se define. Querem dizer que havia na caixa sentimentos ruins. Dado que nas primeiras eras da humanidade, considerava-se o sentimento uma coisa tola, algo que faz o guerreiro titubear na batalha.
Daí corriam leis que tratavam de que, “se tu desembainha tua espada, use-a”. Como “estumar” um cão. Homens não choravam. Homens não sentiam nada. Hesitar um instante que fosse significava estar morto. Não somente por outros homens, mas também por todas as feras que viviam soltas, e com fome, pelo planeta, na sua era mais selvagem. Mamutes e dentes-de-sabre. Entre feras, enxames e inescrupulosos vivia o homem. E, a mulher.

Ainda com pelo e andando meio de quatro na selva. Urrando e devorando. A fêmea desta espécie, ao contrário das outras espécies de mamíferos, sentia-se melhor perto do macho. O macho também tinha essa preferência e pagava seu prazer com proteção e provimentos.
A fêmea pagava sua segurança, com prazer e cuidados. Uma simbiose se formava para todo o sempre.
A natureza sempre proveu mais fêmeas que macho e a disputa por machos, entre as fêmeas, passou a ser uma constante.
A fêmea passa a desenvolver artimanhas e a servir o macho cada vez mais, a ponto de deixá-lo dormindo e ir buscar frutas frescas para quando ele acordasse. O macho já acordava satisfeito, com frutas e mel a o seu lado. Depois de comer, mais saciado, uma copulada rápida, saía para onde estivessem os caçadores. A noite chegava. E era à noite que tudo ficava pior.
Poucos param para pensar em uma noite completamente escura (em um céu completamente escuro). Uma floresta completamente fechada. Direito a comer tinha apenas quem sentisse o cheiro ou sentisse vibrações. Não se enxergava, como bem assinalam os antigos, “um palmo à frente do nariz.”. Isso quer dizer que se você por a ponta do polegar na ponta do seu nariz e esticar a mão um palmo, você não verá mais a ponta do seu dedo mínimo. Isto é verdade e pode ser comprovado por quem estiver em uma mata densa, longe das luzes artificiais.

Alguns homens, e mulheres, já no período em que perdem os pelos e se mudam para as cavernas e “prendem” (ou detêm) o fogo, passam a desenvolver sentidos mais apurados. Uns aprendem a seguir pegadas, outros a ouvir os sons das florestas, e a dizer o que se aproxima. Não são os mais fortes, mas acabam se unindo com os mais fortes e líderes dos agrupamentos, já humanos, mas um tanto arcaicos. Desprovidos de comunicação eficiente, tinham vida muito curta; como tudo na selva, nada morria doente ou velho. Tudo o que se movia seria devorado vivo. Acredite: se você vivesse na selva, você seria um ser muito estressado e apavorado.
Nesse cenário, as fêmeas eram sempre frágeis e necessitavam de proteção. Então que a fêmea se mostrava chorona, manhosa, fraca, “ganjenta”, mimosa, fresquinha, ficava inventando coisas para distrair o macho.
Os sentimentos eram ruins, por que na visão do homem de então, tornava fraco aquele que mantivesse, ou desenvolvesse, sentimentos. Assim, Zeus entregou à Pandora uma boceta com sentimentos ruins. E advertiu-a para que não abrisse a caixa, por que algo ruim sucederia disso.
E, esta é a segunda questão que não se define. Pois que, sabe-se muito bem que Zeus, sendo capcioso, contava com um dos sentimentos mais aguçados da mulher: a curiosidade.
O que de fato ocorreu. “Roxa” de curiosidade, Pandora abre a boceta e dentro dela saem (escapam?), todos os sentimentos. Mais que depressa Pandora fecha a boceta, prendendo lá dentro apenas um sentimento, que não escapara a tempo: a esperança.
E neste ponto temos a terceira questão que não se define. A esperança é um sentimento ruim. Ou então, a mulher não tem esperança. Já que esses sentimentos seriam para as mulheres.
Esse presente de Zeus era uma vingança contra outro deus: Prometeu. Este roubara o fogo do Olimpo e o entregara aos homens; queria auxiliar no desenvolvimento da tecnologia humana. Atitude com a qual o Senhor do Olimpo não concordava. Fogo para os homens e sentimentos para as mulheres. Sem a esperança.
***
 

A cultura Greco-romana (e um tanto judaica) tem em seus inconscientes essas emanações mitológicas e no decorrer da história a mulher aceita passiva o papel de pertencer a um macho provedor; de segurança e víveres. Evidente que o homem sempre precisou da mulher para o sexo e para os afazeres domésticos. Deveria ser uma troca justa, mas, cada qual passou a acreditar que estava dando mais que o outro na troca. E, a medida que os perigos maiores foram se dissipando, a área de abrangência da mulher foi aumentando, seu medo enfraquece e o homem vai perdendo poderes sobre a mulher.
A disputa é por liberdade, e posse.
 


(O Tom da Retórica)

 

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publicado às 14:06



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