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Diotima e o amor

por Thynus, em 09.12.13

 

 

Filho de Póros, o Expediente astuto, e de Pênia, a Penúria, Eros “nesta
condição ficou”, narra Diotima. Esquálido, descalço, sem lar e sem teto,
pedinte e endurecido, Eros transita num mundo de privação e despojamento,
onde o pariu sua mãe Pênia, carente de beleza, “desejo de grávida”. Nem
mortal nem imortal, Eros no mesmo dia germina e vive, desfalece e morre
para renascer a seguir. Insidioso e alerta, corajoso e decidido, Eros, como
seu pai Póros, é “caçador terrível”, cuja astúcia maior consiste em converter
em amante o amado, fazendo-o desejar o seu desejo (Marilena Chauí)
 
Platão é o criador da forma filosófica do simpósio. Utilizando esse recurso do diálogo, organizou tanto a vida social de sua Academia como a interpretação de suas preocupações fundamentais, quase sempre relacionadas à sugestiva figura de Sócrates, que conduz a célebre discussão à mesa de Agaton em que Fedro, o primeiro orador de O banquete, empreende a tarefa de fazer o elogio de Eros, o que, depois de cerradas discussões sobre os apetites e funções do amor desde a perspectiva de Pausânias - que distingue eras vil e eros nobre -, dará ocasião ao sofista para expor sua doutrina mediante o relato de sua suposta conversação com Diotima, uma sacerdotisa de Mantinéia, real ou inventada como um recurso retórico, de quem só sabemos que celebrou um sacrifício aos deuses por meio do qual afastou a peste de Atenas durante dez anos.
A ela Sócrates atribuiu a semente de uma concepção de amor que foi transformada em corrente didática que supera o costume espartano e ateniense da pederastia ou da amizade masculina inspiradas ou sancionadas por Eros, proveniente da vida nos acampamentos guerreiros da época migratória das tribos.
Ao menos como ideal ético vinculado ao signo criador do "eu", que só pode ser efetivamente superado ao se relacionar com um "você", o discurso de Diotima completa as sugestões apresentadas pelas intervenções dos demais convivas sobre a função amorosa, as quais, em seu conjunto, oferecem aspectos cambiantes e complementares daquilo que, em síntese, se reuniria no "ideal platônico". A rica e aprazível leitura de O banquete permite concluir que o eros nasce, com efeito, do anseio metafísico do homem por uma totalidade do ser, definitivamente inexeqüível à natureza dos indivíduos. Tal desejo inato converte-o em simples fragmento evocativo do mito das metades, exposto inicialmente por Aristófanes e descrito no Prólogo, que suspira por voltar a se unir com sua parte correspondente durante todo o tempo em que leva uma existência isolada e ao desamparo. Dessa maneira, a reunião afortunada torna-se a meta do eros e o instrumento mais eficaz para formar a personalidade e empreender o processo de aperfeiçoamento com o qual o homem haverá de restaurar o sentimento de plenitude harmoniosa que fora perdido ao ser quebrantado em sua unidade pelos deuses.
Platão elege o discurso idealista do jovem Agaton como fundamento para a incorporação da reflexão dialética do mestre Sócrates, caracterizado por sua busca da verdade, inseparável da beleza e, neste caso, apoiado nas sábias palavras de Diotima para finalizar satisfatoriamente sua célebre intervenção. Agaton personifica Eros como potência divina que necessita adquirir qualidades humanas; é jovem, refinado e demonstra tamanha leveza que, ao possuir todas as virtudes, torna-se o melhor dos deuses. Habita somente lugares floridos e perfumados. Seu reino é o da vontade e dele derivam a justiça, a sabedoria, a prudência e a valentia. É, além disso, um grande poeta, e ensina os outros a sê-lo. Suaviza o portento olímpico com a beleza perfeita e ainda ensina suas faculdades à maioria dos imortais.
A postura adotada por Sócrates é intermediária, situando Eros entre o belo e o feio, entre o imperfeito e a perfeição absoluta, entre o mortal e o imortal, entre a sabedoria e a ignorância; portanto não pode ele ser um deus, pois não participa da bem-aventurança característica das entidades celestes. Eros é antes um grande demônio ou um "furor" que age como intérprete entre os homens e os deuses. É ele que preenche o abismo entre o terrestre e o divino e mantém unido o universo. Descendente da riqueza e da pobreza, seu atributo característico é a dualidade; e pode florescer, morrer e ressuscitar em uma só jornada, já que sua índole consiste em ocupar e se espalhar. Sem saber nada, acredita saber tudo: intui, adivinha, suspeita e também desvirtua a realidade, apesar de ser, em sua essência, o condutor perfeito até a verdade.
Nesse ponto, a sábia Diotima explica a busca pela beleza como um aspecto da aspiração do homem pela felicidade. O sofista se vale da recriação dessa sacerdotisa de Mantinéia - única mulher a quem reconhece sapiência e, inclusive, considera sua mestra - para expor seu ideal erótico como um princípio entre a filosofia e a religião, já que, segundo recordou o sofista, era difícil para ele falar por si mesmo daquilo que não conhecia. Desse modo, refere-se à felicidade como uma ânsia inerente à natureza humana e, portanto, deve ser canalizada e modelada de maneira criativa e com toda a consciência. Para Diotima, a relação de eros harmoniza a difícil situação entre o pensamento e a vida, uma vez que engloba tanto a referência como a expectativa de um bem perfeito.
Em sua insuperável obra Paidéia, Werner Jaeger, com grande perspicácia, observou que, graças à referência de Diotima,
o eros se converte, de um simples caso específico de vontade, na expressão mais visível e mais convincente daquilo que constitui o ponto fundamental de toda a ética platônica, a saber: que o homem não pode nunca desejar aquilo que não considere seu bem. Segundo Platão, o fato de a linguagem, apesar de tudo, não denominar de eros ou erân toda manifestação da vontade, mas reservar esse substantivo e esse verbo para designar certos anseios, encontra certo paralelo em outras palavras como poiesis, "poesia", que, mesmo significando simplesmente "criação", foi sendo progressivamente destinada, através do uso, para designar apenas um determinado tipo de atividade criadora.
Não só por sua revolucionária originalidade, mas pelo fato inusitado dessa interpretação ter sido atribuída a uma mulher singular, consideramos importante transcrever um fragmento daquele discurso que, perante este breve desfile que mostra a situação da  mulher no mundo em diferentes épocas e concepções, nos permite completar uma idéia da feminilidade como sendo inseparável do princípio criador de eros que, em nossa época de tribulação, recobra uma vigorosa atualidade se consideramos que, somente mediante uma profunda modificação da consciência do bem e de nossa missão unificadora no mundo, nós, mulheres, podemos participar da reconquista indispensável da harmonia entre o pensamento, a vida e o sentido purificador da arte como caminho a ser trilhado na busca da verdade e do belo.
Diotima, aquela que iniciou Sócrates nos mistérios do amor
[...] pois bem, se tens a convicção de que o amor, por natureza, versa sobre aquilo com que concordamos tantas vezes, não te espantes. Neste caso, pela mesma razão, a natureza mortal busca, dentro do possível, existir sempre e tornar-se imortal; e somente pode consegui-lo por meio da procriação, pois deixa sempre um novo ser no lugar do velho. Mas nem sequer durante esse período, no qual se diz que vive cada um dos viventes, e que é idêntico a si mesmo, o ser humano reúne sempre as mesmas qualidades; assim, por exemplo, diz-se que um indivíduo, desde sua primeira infância até a velhice, é a mesma pessoa. Porém, embora se diga que é a mesma pessoa, esse indivíduo jamais reúne as mesmas coisas dentro de si mesmo, senão que está permanentemente se renovando em aparência e, ao mesmo tempo, se destruindo, em seu cabelo, em sua carne, em seus ossos, em seu sangue e na totalidade de seu corpo.
E isto não ocorre somente no corpo, mas também na alma, cujos hábitos, costumes, opiniões, desejos, prazeres, sofrimentos e temores, todas e cada uma dessas coisas, jamais permanecem as mesmas em cada um dos indivíduos, senão que umas nascem e outras perecem. Mas ainda muito mais estranho do que isto é o fato de os conhecimentos não somente nascerem de uma forma e perecerem de outra dentro de nós - de tal sorte que não somos idênticos a nós mesmos nem sequer nos conhecimentos que adquirimos -, mas sim que também acontece o mesmo a cada um deles. Com efeito, o que se chama "repassar" só ocorre porque um determinado conhecimento pode nos abandonar, pois o esquecimento é o espaço de um conhecimento, e o repasse, ao criar dentro de nós uma nova lembrança em troca daquela que perdemos, conserva o conhecimento, de modo que pareça ser o mesmo de antes. É dessa forma que se conserva todo o mortal, não por ser completamente e sempre idêntico a si mesmo, como ocorre com os seres divinos, mas pelo fato de que o ser que se foi ou que envelheceu deixa após si um outro ser novo, similar àquilo que ele era. Por esse meio, Sócrates, o mortal participa da imortalidade, tanto em seu corpo como em tudo o mais; o imortal, por sua vez, participa da imortalidade por um outro processo bastante diferente. Não te admires, pois, se todo ser preza, por natureza, aquilo que é um renovo de si mesmo, porque é a imortalidade a razão pela qual todo ser é acompanhado por essa solicitude e por esse amor.
Tome por certo, Sócrates, que assim é se desejas lançar um olhar sobre a ambição dos homens, a não ser que tenhas em mente uma idéia daquilo que te disse, ficarias assombrado de sua insensatez ao pensar em que terrível estado os lança o amor para se tornarem célebres e deixarem no futuro uma fama imortal. Para alcançar esse objetivo estão dispostos a correr todos os perigos, mais ainda do que o fariam por seus filhos, a gastar dinheiro, a suportar qualquer fadiga e a sacrificar a própria vida. Pois então acreditas que Alceste se deixaria morrer por causa de Admeto, ou Aquiles para vingar Pátroclo, ou mesmo vosso Codro para salvaguardar a dignidade real de seus filhos, se não estivessem convencidos de que permaneceria após eles essa recordação imortal de suas virtudes, tal como a celebramos agora? Nem mesmo pela hipótese mais remota. É para imortalizar sua virtude, segundo creio, e para conseguir tal renome, que todos concentram seus esforços, e com tão maior afinco quanto melhores forem, porque aquilo que mais amam é justamente o perdurável.
Assim, pois, os que são fecundos no corpo se dirigem especialmente às mulheres, sendo esta a maneira pela qual se manifestam suas inclinações amorosas, porque, segundo crêem, garantem para si, através da procriação de filhos, imortalidade, memória de si mesmos e felicidade para todo o tempo futuro. Por outro lado, existem aqueles que são fecundos na alma... pois existem homens que concebem nas almas, mais ainda que nos corpos, aquilo que pertence ã alma conceber e dar à luz. E o que é que lhe pertence? A sabedoria moral e as demais virtudes, aquelas de que são progenitores precisamente todos os poetas e todos os artífices de quem se diz que são inventores. Todavia, a maior e mais bela forma de sabedoria moral é, de longe, o ordenamento das cidades e das comunidades, cujo nome é moderação e justiça. Assim, quando alguém se encontra prenhe dessas virtudes em sua alma desde menino, inspirado como se está pela divindade, ao chegar à idade conveniente deseja parir e procriar, e também ele, segundo creio, se dedica a buscar em torno de si a beleza por meio da qual possa engendrar, pois no feio jamais o fará. Sente, desse modo, maior apego aos corpos belos do que aos feios, em razão mesma de seu estado de prenhez; e quando neles encontra também uma alma bela, nobre e bem-dotada, mostra extraordinária afeição pelo conjunto e prontamente encontra ante esse ser humano uma profusão de razões a propósito da virtude e de como deve ser o homem bom, as coisas a que deve se aplicar e, desse modo, buscará educá-lo. E é por ter, segundo creio, contato e trato com o belo, que ilumina e dá vida ao que havia concebido anteriormente; a seu lado ou separado dele, recorda-se sempre desse ser, e com sua ajuda cria em comum o fruto de sua procriação, de tal modo que aqueles que experimentam entre si tal condição formam uma comunidade muito maior do que a dos filhos, e têm um afeto muito mais firme, já que geraram em comum filhos mais belos e mais imortais. E mais, todo homem preferiria ter filhos de tal índole a tê-los humanos, se dirige seu olhar a Homero, a Hesíodo e a todos os demais grandes poetas e contempla com inveja a descendência que deixaram de si mesmos, que lhes garante memória e fama imortal uma vez que essa descendência também é famosa ou imortal. Ou se quiseres - acrescentou ela - poderão ter filhos iguais àqueles que deixou Licurgo na Lacedemônia, que se tornaram salvadores da Lacedemônia e, por assim dizer, de toda a Hélade. Também entre vós Sólon é honrado por ter dado vida às leis, do mesmo modo que muitos outros homens o são em outras partes, tanto entre os gregos como no meio dos bárbaros, por haverem realizado muitas e belas obras e gerado virtudes de todos os gêneros. Em honra a tais homens, e por haverem tido tais filhos, já são muitos os cultos instituídos; por outro lado, até hoje não se presta culto e homenagem a ninguém por ter tido apenas filhos humanos. Esses são os mistérios do amor, Sócrates, mistérios nos quais inclusive tu poderias ser iniciado. [...](*)
Como dissera Aristófanes, o amor não se projeta somente em direção à outra metade de nosso ser, tampouco sobre sua totalidade, a menos que por tal se entenda o bom e o perfeito. E se Diotima nos proporcionou o instrumento para interpretar um anseio inerente ao bem, graças à posterior Ética Nicomaquéia, de Aristóteles, podemos inferir que o amor, apanágio unívoco da condição feminina, é a forma mais acabada da perfeição moral e, portanto, um impulso de cultura, no mais profundo sentido desta palavra.

(*) Platão, O banquete ou sobre o amor, Obras completas, tradução do grego, preâmbulos e notas de Maria Araújo, Francisco Garcia Yágüe, Luis Gil, José Antonio Miguez, Maria Rico, Antonio Rodríguez Huescar e Francisco de Paula Samaranch; Introdução a Platão, por José Antonio Miguez, (2. ed. Madri: Aguilar, 1966; e 2. reimp. 1979, p. 586 e seguintes). [Nota da Autora]

(Martha Robes - Mulheres, mitos e deusas / o feminino através dos tempos)

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