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Temos indícios muito antigos dos costumes que dizem respeito à morte: os documentos pré-históricos sobre a sexualidade são mais recentes; são enfim tantos que deles nada podemos concluir. Há sepulturas do paleolítico médio, mas os testemunhos da atividade sexual dos primeiros homens não vão além do paleolítico superior. A arte (a representação), que não aparece no tempo do homem de Neandertal, (este homem conhecia o emprego de matérias corantes, mas não deixou nenhum vestígio de desenho, enquanto esses vestígios são numerosos desde os primeiros tempos do Homo sapiens) começa com o Homo sapiens, cujas imagens que nos deixou dele mesmo são, diga-se de passagem, raras. Essas imagens são em princípio itifálicas. Sabemos, pois, que a atividade sexual, da mesma forma que a morte, interessa os homens desde cedo, mas não podemos, como no caso da morte, deduzir de um dado tão vago uma indicação clara. As imagens itifálicas, evidentemente, testemunham uma liberdade relativa. Elas não podem, entretanto, provar que os que as desenharam cultivavam, nesse plano, a liberdade sem limite. Podemos dizer somente que, em oposição ao trabalho, a atividade sexual é uma violência que, enquanto impulso imediato, poderia perturbar o trabalho: uma coletividade laboriosa, no momento do trabalho, não pode ficar à sua mercê. Somos pois levados a pensar que, desde a origem, a liberdade sexual teve de ser limitada pelo que se pode chamar de interdito, sem, no entanto, nada podermos dizer dos casos em que ele se aplicava. Quando muito, podemos acreditar que, inicialmente, o tempo do trabalho determinou esse limite. A única razão verdadeira que temos para admitir a existência muito antiga de um tal interdito é o fato de que em todos os tempos e em todos os lugares, na medida em que vamos obtendo informações, o homem é definido por uma conduta sexual subordinada a regras, a restrições definidas: o homem é um animal que permanece "interdito" diante da morte e da união sexual. Ele não o é inteiramente, mas num e noutro caso sua reação difere da dos outros animais.
Essas restrições variam grandemente de acordo com as épocas e os lugares. Todos os povos não sentem da mesma maneira a necessidade de esconder os órgãos da sexualidade; mas escondem geralmente da visão o órgão masculino em ereção; e, em princípio, o homem e a mulher procuram a solidão no momento da conjunção. A nudez, nas civilizações ocidentais, transformou-se no objeto de um interdito bastante pesado, bastante geral, mas o tempo presente questiona o que parecia ser um fundamento. A experiência que temos de mudanças possíveis não mostra, aliás, o sentido arbitrário dos interditos: ela prova, ao contrário, um sentido profundo que eles têm, apesar de mudanças superficiais que incidem sobre um ponto que em si mesmo não teve importância. Conhecemos hoje a fragilidade dos aspectos que demos ao interdito informe de onde decorre a necessidade de uma atividade sexual subordinada a restrições geralmente observadas. Mas adquirimos nessa ocasião a certeza de uma regra fundamental que exige nossa submissão a certas restrições em comum. O interdito que se opõe em nós à liberdade sexual é geral, universal; os interditos particulares são os seus aspectos variáveis.
Espanta-me ser o primeiro a dizer isto tão claramente. É comum isolar um "interdito" particular, como a proibição do incesto, que é somente um seu "aspecto", e só ir buscar explicação fora de seu fundamento universal que é a interdição informe e universal, cujo objeto é a sexualidade. Mas, excepcionalmente, Roger Caillois escreve: "Problemas que fizeram correr muita tinta, como a proibição do incesto, só podem receber solução exata se os considerarmos como casos particulares de um sistema que abranja a totalidade das interdições religiosas numa determinada sociedade".(L'Homme et le Sacré, 2 ed., Gallimard, 1950, p. 71, nª 1.) A meu ver, a fórmula de Caillois é perfeita em seu princípio, mas "determinada sociedade" é ainda um caso particular, um aspecto. O que deve ser abordado no momento é a totalidade das interdições religiosas de todos os tempos, em todos os lugares. A fórmula de Caillois me leva a dizer desde já (sem nela me deter) desse "interdito informe e universal" que ele é sempre o mesmo. Como sua forma, seu objeto muda: mas, quer se trate da sexualidade ou da morte, o que é sempre visado é a violência, a violência que assusta e que fascina.

(George Bataille - "O Erotismo")

 
"A Escola de Platão", do belga Jean Deville, é um dos quadros que faz parte da exposição "Masculin/Masculin", patente no museu de Orsay,

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publicado às 12:15



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