Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



 


 Num estudo dos mais interessantes, o padre Louis Beirnaert, examinando a aproximação que a linguagem dos místicos introduz entre a experiência do amor divino e a da sexualidade, sublinha "a atitude da união sexual simbolizando uma união superior". Ele se limita a lembrar, sem insistência, o horror habitual com que se encara a sexualidade: "Fomos nós", diz ele, "que, com nossa mentalidade científica e técnica, fizemos da união sexual uma realidade puramente biológica..." A seu ver, se a união sexual tem a virtude de exprimir "a união do Deus transcendente com a humanidade", é que ela, já na experiência humana, "tinha o caráter intrínseco de significar um acontecimento sagrado". "A fenomenologia das religiões mostra-nos que a sexualidade humana é, de início, significativa do sagrado." O parti pris que a coloca como "significativa do sagrado" opõe-se, aos olhos do padre Beirnaert, à "realidade puramente biológica" do ato genital. É que o mundo sagrado só muito mais tarde adquiriu o sentido unilateralmente elevado que tem para o religioso moderno. Ele tinha ainda na Antiguidade clássica um sentido duvidoso. Aparentemente, para o cristão, o que é sagrado é forçosamente puro. O impuro está do lado profano. Mas o sagrado para o pagão podia ser também o imundo. Numa análise mais demorada, logo veremos que Satã, no cristianismo, está bem próximo do divino, e que o pecado não poderia ser tomado como radicalmente estranho ao sagrado. O pecado é em sua origem interdito religioso e o interdito religioso do paganismo é precisamente o sagrado. É sempre ao sentimento de horror inspirado pela coisa interdita que se associam o medo e o pavor de que nem mesmo o homem moderno consegue se livrar face ao que lhe é sagrado. Creio, no caso presente, que não é sem deformação que se conclui: "O simbolismo conjugal de nossos místicos não tem, pois, uma significação sexual. É bem diferente: é a união sexual que já tem um sentido que a ultrapassa". "O que a ultrapassa" quer dizer: o que nega o seu horror, ligado à realidade suja.
Vejamos. Nada está mais distante de meu pensamento que a interpretação sexual da vida mística, tal como o fizeram Marie Bonaparte e James Leuba. Se, de alguma forma, a efusão mística é comparável aos movimentos da volúpia física, não deixa de ser uma simplificação afirmar, como o faz Leuba, que o prazer de que falam os contemplativos implica sempre um certo grau de atividade dos órgãos sexuais. Marie Bonaparte apóia-se numa passagem de Santa Teresa: "Eu vi então que ele tinha uma longa lança de ouro, cuja ponta parecia de fogo e senti como se ele a enterrasse várias vezes em meu coração, transpassando-a até minhas entranhas! Quando a retirava, parecia também arranca-las, e me deixava esbraseada do grande amor de Deus. A dor era tão grande que me fazia gemer e, no entanto, a doçura dessa dor excessiva era tal que eu não podia querer livrar-me dela... A dor não é corporal, mas espiritual, se bem que o corpo tenha sua parte e mesmo uma larga parte. É uma carícia de amor tão doce que acontece então entre a alma eDeus que eu peço a Ele, em sua bondade, que a faça sentir aquele que pensa que estou mentindo". Marie Bonaparte conclui: "É desta célebre transverberação de Teresa que aproximarei a confissão que me fez um dia uma amiga. Ela havia perdido a fé, mas aos quinze anos sofrera uma crise mística intensa e quis ser religiosa — ela se lembrava de ter um dia, ajoelhada diante do altar, sentido um prazer tão natural, que pensou que o próprio Deus estava descendo sobre ela. Só mais tarde, quando se entregou a um homem, foi que reconheceu que aquela descida de Deus sobre ela tinha sido um violento orgasmo venéreo. A casta Teresa nunca teve a ocasião de fazer essa aproximação que, no entanto, parece se impor também para sua transverberação". "Tais reflexões levam à tese segundo a qual", precisa o dr. Parcheminey, "toda experiência mística não é senão uma sexualidade transferida, logo, uma conduta neurótica." Para dizer a verdade, seria difícil provar que a "transverberação" de Teresa não justifica a aproximação proposta por Marie Bonaparte.
Nada, evidentemente, poderia permitir afirmar que ela não teve um violento orgasmo venéreo. Mas isto não se pode provar. Com efeito, Marie Bonaparte negligencia o fato de que a experiência da contemplação está associada desde cedo ao mais forte movimento concernente às relações da alegria espiritual com a emoção dos sentidos. "Contrariamente ao que diz Leuba", diz padre Beirnaert, "os místicos tiveram perfeitamente consciência dos movimentos sensíveis que acompanhavam sua experiência. São Boaventura fala dos que in spirituali bus affectionibus carnalis fluxus liquore raaculantur. Santa Teresa e São João da Cruz falam disso claramente. Mas trata-se neste caso de alguma coisa que eles consideram extrínseca à sua experiência; quando lhes acontece esta emoção, não lhe dão importância e a olham sem medo ou pavor... A psicologia contemporânea mostrou, por seu lado, que os movimentos sexuais orgânicos são freqüentemente a causa de uma emoção forte que se libera por todas as vias possíveis. Ela vai assim juntar-se à noção de redundantia, familiar a São João da Cruz. Notemos, enfim, que tais movimentos que acontecem no início da vida mística não persistem nas etapas posteriores, sobretudo no casamento espiritual. Em suma, a existência de movimentos sensíveis durante o êxtase não significa de forma alguma a especificidade sexual da experiência." Esta realização não poderia talvez responder a cada questão que se pode colocar, mas ela distingue, com muita precisão, domínios cujas características fundamentais, psicanalistas, estranhos talvez a toda experiência religiosa, que certamente não tiveram vida mística, não podiam discernir.
Há semelhanças flagrantes, e mesmo equivalências e trocas, entre os sistemas de efusão erótica e mística. Mas essas relações não podem aparecer tão claramente senão a partir do conhecimento experimental das duas espécies de emoção. Os psiquiatras, é verdade, ultrapassam expressamente a experiência pessoal na medida em que observam doentes, cujos males eles não poderiam sentir intimamente. Em resumo, se eles falam com tanta segurança da vida mística sem a terem experimentado, devem reagir da mesma forma diante de seus doentes. O resultado é inevitável: um comportamento que foge à sua própria experiência é visto, aprion, como anormal: há uma identidade entre o direito que eles se arrogam possuir para fazer um julgamento de fora e a atribuição de um caráter patológico. A que se acrescenta que os estados místicos manifestados por distúrbios equívocos são ao mesmo tempo os mais fáceis de conhecer e os mais parecidos com o ardor sexual. Eles levam, pois, a assimilação superficial do misticismo a uma exaltação doentia. Mas as dores mais profundas são as que não se manifestam por gritos, o mesmo acontecendo com a experiência interior das profundezas possíveis do ser que é a mística: não há correspondência entre momentos "sensacionais" e o que se diz deles. Praticamente, os estados que teriam preservado os psiquiatras de um julgamento precipitado não entram no campo de sua experiência, não nos são conhecidos senão na medida em que são pessoalmente experimentados. As descrições dos grandes místicos poderiam em princípio atenuar essa ignorância, mas elas desconcertam na razão exata de sua simplicidade, não oferecendo nada que as aproxime dos sintomas dos neuropatas ou das exclamações dos místicos "transverberados". Não só elas dão pouco motivo à interpretação dos psiquiatras, mas também seus dados inacessíveis escapam de ordinário à atenção deles. Se queremos determinar o ponto em que se esclarece a relação do erotismo com a espiritualidade mística, devemos voltar à visão interior, de onde sozinhos, ou quase, partem os religiosos.

(George Bataille - "O Erotismo")

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:21



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D