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Na pós-modernidade, a utopia dos mercados livres e da globalização torna-se a referência. Mas o efêmero, o vazio, o simulacro, a complexidade e a crise flutuam como nuvens escuras. Sente-se um mundo fragmentado, seu sentido se perdendo nessas fraturas, com múltiplos significados, orientações e paradoxos.
Ciência e técnica juntas não param de surpreender e revolucionar. Mas essa ciência vencedora começa a admitir que seus efeitos possam ser perversos. Ela é simultaneamente hegemônica e precária. Tudo se passa como se o ato de saber se tornasse cada vez mais obscuro. A instituição religiosa se enfraquece, os deuses se distanciam e se apagam, o indivíduo se encontra mais livre para negociar suas crenças. Como lembra Georges Balandier, essa nova fé sem compromissos pode levar o indivíduo a crer em qualquer coisa, multiplicar os objetos sobre os quais se fixa e, assim, fetichizar o mundo com poderes obscuros. O paradoxo está em toda a parte. A capacidade de produzir mais e melhor não cessa de crescer. Paciência que tal progresso traga consigo regressões, desemprego, exclusão, pauperização, subdesenvolvimento. A distribuição de renda piora, a exclusão social aumenta, o trabalho se torna mais precário nesse mundo de poder, produção e mercadoria. As tecnologias da informação encolhem o espaço. As diversas "teles" anulam distâncias, desmaterializando os encontros. O espaço já não é mais obstáculo, mas alguma coisa desaparece nesses buracos negros que se tornaram lugares onde nada fica e onde as pessoas estão sempre separadas. Com o estabelecimento da era visual e a proliferação das imagens, tudo parece estar progressivamente em estado de transparência. As escritas brilhantes, as telas e luminescências, tudo aparenta ser mais obscuro, ainda que paradoxalmente mergulhado em luz. De um lado, nada mais parece impossível; o mundo da performance cultua o otimismo. De outro, cresce o sentimento de impotência diante dos impasses, da instabilidade, da precariedade das conquistas. A opacidade do futuro parece impenetrável. Encantamento e desilusão se alternam.
Algumas reflexões de Friedrich Nietzsche aplicadas ao final do século XIX parecem expressar as mesmas angústias vividas na pós-modernidade. A incerteza é a regra; nada está sobre pés firmes e crença sólida: "Resta a convicção de que toda fé, todo julgar verdadeiro é necessariamente falso. Não há nada a fazer com a verdade". Também não há nada a fazer com a moral; ela anuncia princípios éticos, mas a ação não se orienta por eles. Afirma-se o niilismo, a fé na absoluta falta de valores e de sentido. Ou então revive-se com pleno ardor simulacros, deuses-atores, agentes de um messianismo vulgar, a religião espetáculo e diversão. Os deuses que temos conseguido criar são pérfidos simulacros daqueles em que "O insensato", de Nietzsche, afirmava termos a obrigação de nos transformar para sermos dignos da enorme responsabilidade de tê-los matado. Assim como o homem do fim do século XIX, aquele que inicia o século XXI também se sente sem rumo. Para onde conduzirá o seu caminho? Não estará ele também em uma corda sobre o abismo, atada entre o animal e o super-homem? É preciso, com Nietzsche, romper as amarras nessa alternância, empreender a exploração incansável dos espaços desconhecidos onde a pósmodernidade encerra os homens deste tempo. Novos instrumentos intelectuais, ainda não disponíveis, são necessários para traçar esses caminhos sem temer o mergulho profundo nas incertezas e dúvidas, mas sem se deixar levar pelas armadilhas e maravilhas apontadas pelos futurólogos deslumbrados. No mundo global, os poderes que atuam sobre o destino individual estão mal identificados, ocultos pelas redes multinacionais e pelas grandes organizações internacionais. Esse mundo-espetáculo no qual as vedetes são as figuras do ganhador, do ostentador — e seus palcos eletrônicos —, mitifica o fugaz e o frágil. A comunicação e as mídias, os comunicadores e os publicitários, selecionam as imagens daquilo que querem que o mundo venha a ser, especialmente ornadas de artifícios sedutores e, por isso mesmo, mais vulneráveis. Quando Guy Debord publicou O Estado espetáculo, um ano antes do movimento de maio de 1968, sua contundente análise acabou antecipando uma face fundamental do capitalismo no século XXI. Com a tecnologia da informação, nunca a tirania das imagens e a submissão ao império das mídias foram tão fortes. Os profissionais do espetáculo ocuparam grande parte da cena e do poder. Durante a Revolução Industrial, a mercadoria apareceu como a grande força que veio ocupar a cena social. Segundo Debord, é então que se constitui a economia política como ciência dominante e como ciência da dominação. O espetáculo passa a ser o momento em que a mercadoria ocupa totalmente os espaços; a produção econômica moderna espalha, extensa e intensamente, sua ditadura; e a vida social é invadida pela superposição contínua de camadas de mercadorias. Nesse ponto da Segunda Revolução Industrial, o consumo alienado torna-se para as massas um dever suplementar à produção alienada, um verdadeiro instrumento de busca da felicidade, um fim em si mesmo.
De fato, a vida nas sociedades contemporâneas se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente torna-se uma representação. Sob todas as suas formas particulares — informação ou propaganda, publicidade ou consumo de divertimentos — o espetáculo constitui o modelo atual da vida dominante na sociedade. A primeira fase da dominação da economia sobre a vida social acarretou uma degradação do "ser" para o "ter". Em seguida, operou-se um deslizamento generalizado do "ter" para o "parecer-ter". Na atual situação das grandes massas excluídas da sociedade global só resta o "identificar-se-com-quem-parece-ser-ou-ter" por meio do espetáculo, sequer ao vivo, mas "visto a-distância" através das mídias globais que lhes oferecem exibições instantâneas de todos os tipos e partes do mundo.
Debord considera o espetáculo o herdeiro da grande fraqueza do projeto filosófico ocidental. Segundo ele, como a filosofia jamais conseguiu superar a teologia, o espetáculo é a reconstrução material da fantasia religiosa, a realização técnica do exílio, a cisão consumada do interior do homem. O espetáculo funciona "quase como uma forma de reconstrução material da ilusão religiosa. Ela já não remete para o céu, mas abriga dentro de si sua recusa absoluta, seu paraíso ilusório. Do automóvel à televisão, todos os bens selecionados pelo sistema espetacular são também suas armas para um reforço constante das condições de isolamento das multidões solitárias" (p.19 e 23). No espetáculo, global e instantâneo, virtual e real, tudo se confunde por meio de processos de identificação. Programas de auditório substituem os tribunais, propiciando julgamentos e processos públicos de conciliação; e garantem, como na loteria a esperança do resgate da exclusão pela visualização do prêmio do outro, ou o sonho do seu fugaz minuto de glória. Debord afirma que "a alienação do espectador em favor do objeto contemplado se expressa assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo. Em relação ao homem que age, a exterioridade do espetáculo aparece no fato de seus próprios gestos já não serem seus, mas de um outro que os representa por ele. É por isso que o espectador não se sente em casa em nenhum lugar, pois o espetáculo está em toda parte" (p.25).
As novas tecnologias geram produtos de consumo radicalmente novos. Ondas de entusiasmo, apoiadas e lançadas por todos os meios de comunicação, propagam-se instantaneamente. O telefone celular e a internet, símbolos da interconectividade, passam a ser condição de felicidade. O homem volta a ser rei exibindo a sua intimidade com a mercadoria ou identificando-se com os novos ícones, os heróis da mídia eletrônica transformados eles mesmos em mercadoria ou identificados com marcas globais. Essa relação atinge momentos de excitação fervorosa, de transe religioso e de submissão, como o observar encantado do brilho intenso e das propriedades mágicas de um celular ou de um herói da TV.
O quadro se torna mais complexo porque, como lembra Joel Birman, vivemos hoje um mundo em que a performance define o lugar social de cada um. O sujeito da pós-modernidade é "performático", vive só o momento, está voltado para o gozo a curto prazo e a qualquer preço, é o "sujeito perverso" clássico. A perversão não é mais um desvio, como na modernidade, mas a regra. As grandes doenças estudadas pela psiquiatria hoje são aquelas em que a performance falha: a depressão (o sujeito trancado em si mesmo) e a síndrome do pânico (o sujeito que não consegue estar num contexto em que a exibição de sua performance é requerida). A produção de medicamentos vem para revertêlas. As drogas, oficiais ou ilegais, oferecem a possibilidade de as pessoas voltarem a ter uma boa performance. Daí também a relação sutil existente hoje entre o narcotráfico e a psiquiatria: ambos tentam dominar o desamparo com a ajuda de drogas. Esse é o universo da satisfação imediata, que reduz a importância dada àquilo que toma tempo e a aceitação dos sacrifícios que isso impõe.
A salvação a longo prazo e incerta governa menos o curso das vidas individuais. A satisfação levada ao seu grau máximo, validada por um discurso ideológico travestido de filosófico, é a certeza de que a democracia — conjugada ao liberalismo e ao mercado — definitivamente triunfou. O reconhecimento da democracia liberal como o regime que oferece as maiores possibilidades ao cidadão e ao ator social é neste momento amplamente aceito. Mas, para Balandier, "atrás da alternativa da universalização do modelo democrático se escondem o mercado mundial e seus focos de poder tecnoeconômico, atrás da proclamação das vitórias da racionalidade se escondem o instrumento e o poder primeiro da técnica, os interesses particulares e a razão calculista; atrás da liquidação das ideologias consideradas em fase terminal esconde-se o recuo da política em proveito da economia e da competição que a dinamiza" (p.23). Proclama-se que algumas sociedades chegaram a um estágio de mínima imperfeição, jamais atingido fora delas e agora desejado por todas as outras. É o mito dos futuros que cantam, renascendo qual uma fênix das ruínas do marxismo político, mas longe dele e contra ele.
Na verdade, em meio às turbulências pelas quais passam as sociedades contemporâneas, duas esperanças parecem acalentar os sonhos dos homens. A primeira é que a sobrevivência da humanidade como espécie esteja garantida. A segunda, de que em algum momento do futuro uma parte razoável dos seres humanos possa atingir uma qualidade de vida semelhante ao atual padrão do cidadão médio norte-americano ou europeu. É preciso ter claro que não há nenhuma segurança sobre essas hipóteses. A primeira dependerá de um enorme esforço conjunto de toda a raça humana. A segunda tem toda a chance de ser uma falsa premissa.
Cientistas renomados fazem-nos graves advertências sobre a maneira como estamos conduzindo nossos caminhos. Ao mesmo tempo, eles nos delegam responsabilidades brutais. O filósofo Daniel Dennett acha quase certo não sermos a espécie do planeta com maior chance de sobreviver. Perdemos para as baratas e as criaturas mais simples. Possuímos uma grande vantagem: a condição de olhar à frente e planejar. No entanto, apesar — e por causa — de todo o avanço tecnológico de que fomos capazes, caminhamos em direção a uma barreira de escassez, não de minérios ou energia, mas de água e alimentos. O sociobiologista Edward O. Wilson lembra que transformamo-nos na primeira espécie a se tornar uma força geofísica, capaz de alterar o clima da Terra; e que temos sido os maiores destruidores de vida desde o meteorito que caiu perto de Iucatã há 65 milhões de anos e encerrou o ciclo dos grandes répteis. Com a superpopulação e o atual estilo de desenvolvimento, corremos o risco de esgotar nossas reservas naturais — inclusive de água doce — e eliminar para sempre numerosas espécies vegetais e animais. Ele nos compara a uma família que dissipa irrefletidamente seu parco patrimônio e que depende cada vez mais de novos conhecimentos para se manter viva. De fato, se hipoteticamente retiramos a eletricidade de uma tribo de aborígenes australianos, quase nada acontecerá. Se o fizermos aos moradores da Califórnia, milhões morrerão.
Wilson adverte que a maior parte da pressão destruidora sobre o nosso ecossistema vem de um pequeno número de países desenvolvidos. No entanto, suas fórmulas de prosperidade estão sendo vivamente adotadas como objetivo pelo resto do mundo, o que conduz a uma impossibilidade matemática. Elevar ao nível médio norte-americano a qualidade de vida da população atual da Terra já exigiria os recursos naturais de mais dois planetas iguais ao nosso. Nos mesmos níveis de consumo e desperdício, mesmo que apenas uma parte das nações fosse bem-sucedida nesse intento, o choque ambiental decorrente liquidaria a vida humana. Ainda assim, os eternos otimistas nos tranqüilizam: a vida está melhorando, continuamos crescendo; não nos preocupemos com o próximo ano, sempre foi possível dar um jeito. Wilson sugere que façamos ouvidos moucos a esses otimistas e pede muito cuidado. Cada avanço tecnológico é uma espécie de prótese artificial, dependente de avançado know-how e intensa administração mas, o que é mais importante, introduzindo seus riscos a longo prazo.
É curioso como nossa maravilhosa capacidade de previsão tem evoluído menos que nosso arsenal destrutivo e nossas aspirações de consumo. O homem primitivo dava-se por satisfeito ao voltar para a caverna com algum alimento para sua família e por ter sobrevivido mais um dia. Hoje, tentamos planejar a longo prazo: mas é difícil avaliar as conseqüências de nossas ações para mais de duas gerações. É o caso da degradação do meio ambiente. Ao cortarmos uma árvore da floresta tropical, raramente assumimos que nossos bisnetos poderão encontrar lá um deserto. E, embora saibamos ter de preservar a velha mãe-Terra, o único lar capaz de sustentar a vida, continuamos a destruir seus frágeis ecossistemas naturais, envenenar as águas e poluir o ar com o uso irresponsável da tecnologia.
O paleontólogo Stephan J. Gould lembra que não pedimos para desempenhar esse papel, podemos nem ser talhados para ele mas não temos saída. A existência humana dependerá de sermos capazes de estabelecer contratos de longo prazo com nosso futuro. Se destruirmos frágeis equilíbrios em nome do que chamamos progresso, nem nós sobraremos. A esse respeito é sempre oportuno relembrar o alerta de Walter Benjamin, mergulhado nas angústias do desastre da Segunda Guerra: "Uma pintura de Klee mostra um anjo prestes a se afastar de algo que está olhando com grande concentração. Seus olhos estão fixos diante de si, escancarados, a boca aberta, as asas prontas para o vôo. É assim que se pode imaginar o anjo da história. Seu rosto está voltado para o passado e onde nós vemos uma cadeia de eventos ele percebe uma catástrofe única que acumula, sem cessar, destroços sobre destroços e os atira a seus pés. Talvez o anjo desejasse ficar, acordar os mortos, consertar o que foi arruinado. Mas uma tempestade está sendo soprada do Paraíso; pegou suas asas tão violentamente que o anjo não as consegue mais fechar. A tempestade o suga para trás, para o futuro, enquanto os destroços se acumulam em direção aos céus, diante de seus olhos. Essa tempestade chama-se progresso".

(Gilberto Dupas - Ética e Poder na Sociedade de Informação)

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publicado às 15:22



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