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Nas ilhas bem-aventuradas (*)

por Thynus, em 21.11.13

Os figos caem das árvores, são bons e doces; ao caírem, rasga-se a sua pele rubra. Um vento do norte sou eu para os figos maduros.

Assim, como figos vos caem estes ensinamentos, meus amigos: bebei do seu sumo e da sua doce polpa! É outono ao redor, e puro céu e tarde.
Vede a plenitude ao nosso redor! E a partir da abundância é belo olhar para os mares distantes.
Um dia se falou “Deus”, ao olhar para os mares distantes; mas agora vos ensinei a falar: “super-homem”.
Deus é uma conjectura; mas eu quero que vossas conjecturas não excedam vossa vontade criadora.
Podeis criar um deus? — Então não me faleis de deuses! Mas bem poderíeis criar o supra-homem.
Talvez não vós mesmos, irmãos! Mas podeis vos converter em pais e ancestrais do super-homem: e que esta seja a vossa melhor criação! —
Deus é uma conjectura: mas quero que vossas conjecturas se mantenham nos limites do pensável.
Podeis pensar um deus? — Mas que a vontade de verdade signifique isto para vós, que tudo seja transformado em humanamente pensável, humanamente visível, humanamente sensível! Vossos próprios sentidos deveis pensar até o fim!
E o que chamais de Mundo, isso deve ser criado primeiramente por vós: vossa razão, vossa imagem, vossa vontade, vosso amor deve ele próprio se tornar! E, em verdade, para vossa bem-aventurança, homens do conhecimento!
E como queríeis aguentar a vida sem tal esperança, ó homens do conhecimento? Nem no incompreensível nem no irracional poderíeis haver nascido.
Mas, para vos revelar inteiramente meu coração, meus amigos: caso houvesse deuses, como suportaria eu não ser deus? Portanto, não há deuses.
É certo que tirei a conclusão; mas agora ela me arrasta.
Deus é uma conjectura: mas quem beberia todo o tormento dessa conjectura sem morrer? Deve o criador ser privado de sua fé, e a águia, de seu pairar em distâncias aquilinas?
Deus é um pensamento que torna curvo o que é reto e faz girar o que está parado. Como? O tempo não existiria mais e tudo transitório seria apenas mentira?
Pensar isso é turbilhão e vertigem para esqueletos humanos, e também um vômito para o estômago: em verdade, sofrer de tontura é como denomino conjecturar assim.
Chamo isso de mau e inimigo do homem: todos esses ensinamentos sobre o uno, pleno, saciado, imóvel e intransitório!
Tudo intransitório — é apenas símile! E os poetas fingem demais. — Mas os melhores símiles devem falar do tempo e do devir: devem ser louvor e justificação de toda transitoriedade!
Criar — eis a grande libertação do sofrer, e o que torna a vida leve. Mas, para que haja o criador, é necessário sofrimento, e muita transformação.
Sim, é preciso que haja muitos amargos morreres em vossa vida, ó criadores! Assim sereis defensores e justificadores de toda a transitoriedade.
Para ser ele próprio a criança recém-nascida, o criador também deve querer ser a parturiente e a dor da parturiente.
Em verdade, através de cem almas percorri meu caminho, e de cem berços e dores de parto. Muitas vezes me despedi, conheço as pungentes horas finais.
Mas assim quer minha vontade criadora, meu destino. Ou, para dizê-lo mais honestamente: é justamente esse destino — o que deseja minha vontade.
Tudo o que sente sofre comigo e está em cadeias: mas meu querer sempre vem como meu libertador e portador de alegria.
Querer liberta: eis a verdadeira doutrina da vontade e da liberdade — assim Zaratustra a ensina a vós.
Não-mais-querer e não-mais-estimar e não-mais-criar! Ah, fique sempre longe de mim esse grande cansaço!
Também no conhecer sinto apenas o prazer de gerar e vir a ser de minha vontade; e, se há inocência em meu conhecimento, isso ocorre porque há nele vontade de gerar.
Para longe de Deus e dos deuses me atraiu essa vontade; que haveria para criar, se houvesse — deuses!
Mas para o ser humano sempre me impele minha fervorosa vontade de criar; assim o martelo é impelido para a pedra.
Ó humanos, na pedra dorme uma imagem, a imagem de minhas imagens!
Ah, que ela tenha de dormir na mais dura e feia das pedras!
Agora meu martelo investe furiosamente contra a sua prisão. A pedra solta estilhaços; que me importa?
Quero completar isso: pois uma sombra veio até mim — a mais silenciosa e mais leve das coisas veio um dia até mim!
A beleza do super-homem veio até mim como sombra. Ah, meus irmãos!
Que me concernem ainda — os deuses!
Assim falou Zaratustra.

(Nietzsche - Assim falou Zaratustra)

(*) Numa carta a Heinrich Köselitz (por ele denominado “Peter Gast”), Nietzsche se referiu desta forma a Ischia, a ilha próxima de Nápoles, que fora atingida por um terremoto: “Essa ilha sempre esteve comigo: quando você tiver lido Zaratustra II por inteiro, verá claramente onde situei minhas ilhas bemaventuradas” (em 16 de agosto de 1883). Na Antiguidade grega, as “ilhas dos bem-aventurados” eram lugares míticos onde reinava a felicidade: cf. Hesíodo, Os trabalhos e os dias, 166-173; Píndaro, Odes olímpicas, II, 70 ss.; Platão, República, 519c-d.

publicado às 22:34


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