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VALORES COMPLEXOS

por Thynus, em 18.11.13

 

Porque para deliberar é preciso lidar com opostos. Neste campo, o tempo todo estamos nos ocupando com contradições, com uma gigantesca complexidade de situações, em conflitos de máximas e deveres. Max Weber – para citar o exemplo de apenas um dos analistas desta complexidade – distingue a ética de princípios ou de convicção da ética de responsabilidade. A última está fundada nos fins e a primeira nos meios, com propostas absolutamente inconciliáveis. Sem que se possa impor a quem quer que seja a adoção de uma ou de outra.
Encontra-se uma contradição entre valores, entre meios e fins. Tanta complexidade acaba por desautorizar um entendimento sistêmico da ética. Há uma frase de Lenin que expressa bem este aspecto. Se não for exatamente este o texto, é muito próximo de algo como: “nós reconhecemos o valor da camaradagem, o valor da ajuda a todos os camaradas, o valor de tolerância às suas opiniões. Mas para nós este valor da camaradagem é secundário em relação ao dever que temos face à social democracia russa e internacional, e não o contrário.”
A segurança ética parece necessária para a convivência. Para a vida em sociedade. Mas ainda fica faltando explicar o fundamento da hierarquia de valores que ela envolve. O porquê da primazia de uns sobre outros. O valor do valor.
Certa vez, em palestra para a alta cúpula de uma multinacional, um diretor da empresa me pediu para apresentar em telas de Powerpoint os valores ditos essenciais, em ordem decrescente de importância. Para facilitar a minha vida, segundo ele, bastaria indicar os top ten. Fiquei surpreso com a demanda e com a suposta gentileza. Esquivei-me ao máximo, alegando ignorância quanto ao uso do software para apresentações. Mas, a desculpa não foi eficiente. O homem me autorizou a usar lousa e giz!
Foi quando tive que esclarecer que eu ignorava a tal lista que ele pedia. Não pegou bem admitir ignorância num mundo de tantas certezas. Meu interlocutor fitou-me como se houvesse uma lacuna imperdoável no meu repertório de saberes pessoais, tomando-me por displicente, como se eu houvesse cabulado aula de importância fundamental.
Para tentar reverter a frustração do homem tive que apelar. Afinal, tratava-se de um diretor. Comecei por perguntar se ele conhecia Deus. Ele respondeu que sim, em tom de total obviedade. Muito normal, aliás, afinal Deus e diretores costumam trabalhar no mesmo andar. Cruzam-se no corredor. São íntimos.
Pois bem, continuei dizendo que quando Moisés se comunicou com Deus lá no alto do Monte Sinai, recebeu uma lista de valores, objetivados em mandamentos. Mas não constava em nenhuma parte da mensagem, que o quarto mandamento tivesse prevalência sobre o quinto, o primeiro sobre o terceiro…
Conclui-se, assim, que, no caso de conflito entre eles, Deus deixava na mão do nobre executivo a tarefa de decidir. “Livre arbítrio total”, exclamei com sarcasmo.
Meu anfitrião indignado concluiu, então, que jamais poderia saber qual dos valores tinha maior relevância. Concluiu também que, naquele caso, nunca poderia ter certeza do melhor critério e, consequentemente, da melhor opção para a vida. Inquiriu-me sobre como fazer para não errar e teve nova decepção.
Admiti não ter a menor ideia sobre isso e, sem poder oferecer uma resposta, completei afirmando que, se fosse diferente, erraria menos nas minhas próprias decisões. Argumentei que se ele encarasse a complexidade da vida com humildade ganharia distância deste mundo delirante das fórmulas garantidoras de sucesso. E proximidade da crueza das coisas, como elas realmente são.
Quando alguém argumenta no campo da ética sobre a melhor maneira de viver e conviver, não se contenta com a parcialidade de seu ponto de vista, busca o convencimento, aspira a universalidade. Porque a sociedade ou a civilização não tolera tanta diversidade de valores. Precisa se proteger. Manter a ordem.
No processo de redução desta complexidade, alguns pontos de vista serão elevados ao status de regra para todo mundo. É quando algumas impressões dispersas viram código. E outras não. E algumas vidas de qualidade são convertidas em protocolo de qualidade de vida. Conversões conflituosas, que implicam quase sempre na luta pela legitimidade de definir o que é ético e o que não interessa que seja.
 
Para prosseguir no tema, experimente enveredar pelo conhecimento disponível em: “Ética”, o artigo do professor Renato Janine Ribeiro, publicado no livro Comunicação na Polis: ensaios sobre mídia e política, e no capítulo sobre moral do livro Apresentação da filosofia, de André Comte-Sponville. Depois, explore o excelente Ética para o meu filho, do professor da Universidad Complutense, Fernando Savater. E, se ainda houver tempo e ânimo, não abra mão da leitura de Edgar Morin, em Ética, livro que integra uma extensa coleção chamada “O método”. O best-seller Aprender a viver: a filosofia para os novos tempos, de Luc Ferry, é uma introdução saborosa, e Convite à filosofia, de Marilena Chauí, será sempre bem-vindo.
(Clóvis de Barros Filho - A Filosofia explica as grandes questões da humanidade)

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