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O menino com o espelho

por Thynus, em 17.11.13

 

Em seguida, Zaratustra retornou às montanhas e à solidão de sua caverna e afastou-se dos homens: aguardando como um semeador que espalhou suas sementes. Mas sua alma ficou plena de impaciência e avidez por aqueles que amava: pois ele ainda tinha muito a lhes dar. Isto é, de fato, o que há de mais difícil: por amor cerrar a mão aberta e, fazendo dádivas, conservar o pudor.
Assim transcorreram luas e anos para o solitário; mas sua sabedoria cresceu e causou-lhe dor com sua abundância.
Um dia, porém, ele despertou antes da aurora, refletiu longamente em seu leito e falou enfim a seu coração:
“Com o que me assustei tanto, em meu sonho, que acordei? Não me apareceu um menino com um espelho?
‘Ó Zaratustra’, disse-me ele, ‘olha-te no espelho!’
Ao olhar no espelho, porém, soltei um grito e meu coração se abalou: pois não foi a mim que vi nele, e sim a careta e o riso galhofeiro de um demônio.
Em verdade, compreendo bem demais o sinal e aviso do sonho: minha doutrina está em perigo, o joio quer ser chamado de trigo! (Cf. a parábola do joio e do trigo, em Mateus, 13, 24-30; já no início desta seção houve referência à parábola do semeador, no mesmo capítulo de Mateus (13, 3-9).
Meus inimigos tornaram-se poderosos e distorceram a imagem de minha doutrina, de modo que os que mais amo se envergonharão das dádivas que lhes fiz.
Perderam-se para mim os amigos; chegou a hora de buscar os meus perdidos!”
Com essas palavras levantou-se rapidamente Zaratustra, não como alguém assustado que busca por ar, mas antes como um vidente e cantor que é tomado pelo espírito. Sua águia e sua serpente olharam-no com admiração: pois seu rosto, como a aurora, irradiava uma felicidade iminente.
Que me aconteceu, meus animais?, disse Zaratustra. Não estou transformado? A bem-aventurança não chegou a mim como um vendaval?
Tola é minha felicidade, e falará coisas tolas: é ainda jovem demais — tende então paciência com ela!
Fui ferido por minha felicidade: todos os sofredores me servirão de médicos!
Posso novamente descer para junto de meus amigos e também de meus inimigos! Zaratustra pode novamente falar e presentear e fazer o melhor para os que mais ama!
Meu impaciente amor extravasa em torrentes, para baixo, para o nascente e o poente. Desde silenciosas montanhas e tempestades de dor, minha alma rumoreja rumo aos vales.
Por tempo demais ansiei e olhei ao longe. Por tempo demais pertenci à solidão: assim desaprendi o silêncio.
Tornei-me apenas boca, e o bramir de um riacho a descer de altos rochedos: em direção aos vales quero precipitar minha palavra.
E ainda que a torrente de meu amor caia em terreno intransitável! Como poderia uma torrente não encontrar enfim o caminho do mar? (Cf. Hölderlin, Hyperion, 1.1.7, onde o protagonista compara sua alma e a de seu amigo Alabanda a “duas torrentes que descem da montanha” e afinal se juntam “num rio majestoso a caminho do mar”.)
Certamente há um lago em mim, solitário e que basta a si mesmo; mas meu rio de amor o arrasta consigo para baixo — para o mar!
Novos caminhos sigo, uma nova fala me vem; como todos os criadores, cansei-me das velhas línguas. Meu espírito já não deseja caminhar com solas gastas.
Lento demais, para mim, corre todo discurso: — pularei para tua carruagem, furacão! E mesmo a ti fustigarei com a minha maldade!
Como um grito e um júbilo viajarei por amplos mares, até encontrar as ilhas bem-aventuradas onde se acham meus amigos: — E entre eles meus inimigos! Como amo, agora, todo aquele a quem puder falar! Também meus inimigos são parte de minha ventura.
E, quando quero montar meu corcel mais selvagem, minha lança é o que mais me ajuda a nele subir: é o sempre disposto servidor de meu pé: — A lança que arremesso contra meus inimigos! Como agradeço a meus inimigos poder enfim arremessá-la!
Grande demais era a tensão de minha nuvem: por entre os risos dos coriscos lançarei rajadas de granizo à profundeza.
Fortemente se inflará então meu peito, fortemente soprará sua tormenta sobre os montes: assim terá seu alívio.
Em verdade, como uma tormenta chegam minha felicidade e minha liberdade! Mas meus inimigos devem pensar que o Maligno se enraivece por sobre suas cabeças.
Sim, também vós, meus amigos, vos assustareis com minha selvagem sabedoria; e talvez dela fugireis, juntamente com meus inimigos.
Ah, soubesse eu atrair-vos de volta com flautas de pastores! Ah, se minha leoa sabedoria soubesse rugir meigamente! Muita coisa já aprendemos juntos!
Minha selvagem sabedoria ficou prenhe nos montes solitários; em ásperas pedras deu à luz seu filhote mais novo.
Agora corre desvairada pelo duro deserto, procurando um relvado macio — minha velha sabedoria selvagem!
No relvado macio de vossos corações, meus amigos! — no vosso amor ela quer aninhar seu favorito!
Assim falou Zaratustra.
(Friedrich Nietzsche  "assim falou Zaratustra")

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publicado às 20:18



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