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Da árvore na montanha

por Thynus, em 17.11.13

 

 

 

Zaratustra havia percebido que um jovem o evitava. E uma noite, quando ia pelos montes que rodeiam a cidade conhecida como A Vaca Malhada, eis que encontrou esse jovem, sentado no chão e encostado numa árvore, observando o vale com um olhar cansado. Zaratustra agarrou a árvore junto à qual o jovem estava sentado e assim falou:
“Se eu quisesse balançar essa árvore com as duas mãos, não conseguiria. Mas o vento, que nós não vemos, pode atormentá-la e dobrá-la como quiser. É por mãos invisíveis que somos atormentados e dobrados da pior maneira.”
Levantou-se então o jovem, assustado, e disse: “Ouço Zaratustra, e nesse momento pensava nele”.
Respondeu Zaratustra: “E te espantas por causa disso? — Com o homem sucede o mesmo que com a árvore.
Quanto mais quer alcançar as alturas e a claridade, tanto mais suas raízes se inclinam para a terra, para baixo, penetram na escuridão, na profundeza — no mal.”
“Sim, no mal!”, exclamou o jovem. “Como foi possível que descobriste a minha alma?”
Zaratustra sorriu e falou: “Algumas almas jamais descobrimos, a não ser que antes as inventemos”.
“Sim, no mal!”, tornou a exclamar o jovem.
“Disseste a verdade, Zaratustra. Já não confio em mim mesmo, desde que quero alcançar as alturas, e ninguém mais confia em mim — como pode acontecer isso?
Eu me transformo depressa demais: meu hoje contraria meu ontem. Com frequência pulo degraus ao subir — isso nenhum degrau me perdoa.
Estando lá em cima, sempre me vejo só. Ninguém fala comigo, o gelo da solidão me faz tremer. Que quero eu nas alturas, afinal?
Meu desprezo e meu anseio crescem um com o outro; quanto mais subo, tanto mais desprezo aquele que sobe. Que quero eu nas alturas, afinal?
Como me envergonho do meu subir e tropeçar! Como escarneço do meu forte arquejar! Como odeio aquele que voa! Como estou cansado nas alturas!”
Nisso o jovem se calou. Zaratustra olhou a árvore junto à qual estavam e assim falou:
“Essa árvore está sozinha aqui na montanha; cresceu muito acima dos homens e dos animais.
E, se quisesse falar, não teria ninguém que a compreendesse: tão alto cresceu.
Agora ela espera e espera — mas pelo que espera? Ela habita perto demais das nuvens: será que espera pelo primeiro raio?”
Depois que Zaratustra falou isso, o jovem exclamou com gestos veementes:
“Sim, Zaratustra, tu falas a verdade. Eu ansiava pelo meu declínio quando desejava subir às alturas, e tu és o raio pelo qual esperava! Olha: que sou eu ainda, depois que nos apareceste? Foi a inveja de ti que me destruiu!” — Assim falou o jovem, e chorou amargamente. Mas Zaratustra pôs o braço ao seu redor e o levou consigo.
E, quando haviam caminhado juntos por um momento, Zaratustra se pôs a falar assim:
Isso me parte o coração. Mais do que tuas palavras, teus olhos me falam do teu perigo.
Ainda não és livre, ainda procuras a liberdade. Tua procura te deixou tresnoitado e insone.
Queres chegar às livres alturas, tua alma anseia por estrelas. Mas também teus maus impulsos anseiam por liberdade.
Teus cães selvagens querem a liberdade; ladram de alegria em seu porão, quando teu espírito busca abrir todas as prisões.
Ainda és, para mim, um prisioneiro que contempla a liberdade: ah, em tais prisioneiros a alma se torna prudente, mas também ardilosa e ruim.
Também precisa ainda purificar-se o libertado do espírito. Nele ainda há muito de prisão e de mofo: seu olhar ainda precisa se tornar puro.
Sim, conheço o teu perigo. Por meu amor e por minha esperança, porém, eu te suplico: não jogues fora teu amor e tua esperança!
Ainda te sentes nobre, e nobre ainda te sentem os outros também, os que te guardam antipatia e te lançam olhares maus. Aprende que um nobre é um obstáculo no caminho de todos.
Também para os bons há um nobre em seu caminho: e, mesmo se o chamam de bom, querem com isso afastá-lo dali.
Coisas novas quer criar o nobre, e uma nova virtude. Coisas velhas quer o bom, e que o velho seja preservado.
Mas o perigo do homem nobre não é tornar-se um bom, e sim um impudente, um zombador, um destruidor.
Ah, eu conheci homens nobres que perderam sua mais alta esperança. E então caluniaram todas as altas esperanças.
Então passaram a viver de forma impudente, em breves prazeres, sem cultivar uma meta para além do dia.
“Espírito é também volúpia!” — diziam eles. Nisso quebraram-se as asas do seu espírito: agora ele rasteja por aí, sujando aquilo que rói.
Outrora pensavam em se tornar heróis: agora são libertinos. O herói é, para eles, um desgosto e um horror.
Mas por meu amor e minha esperança eu te suplico: não lances fora o herói que há em tua alma! Mantém sagrada a tua mais alta esperança! — Assim falou Zaratustra.

 

(Friedrich Nietzsche  "assim falou Zaratustra")

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publicado às 19:28



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