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O LADO TÓXICO DOS PROCESSOS MENTAIS

por Thynus, em 15.11.13

 

 

 

É INTERESSANTE AQUI RESSALTAR OS COMENTÁRIOS DO AUTOR SOBRE A POSSIBILIDADE DAS EMOÇÕES PRODUZIREM EFEITOS TÓXICOS:

 

“...É EXTREMAMENTE LAMENTÁVEL QUE ATÉ AGORA ESSE LADO TÓXICO DOS PROCESSOS MENTAIS TENHA ESCAPADO AO ESTUDO CIENTÍFICO.’

 

Isto foi escrito em l927, de lá para cá muito se descobriu em termos de relacionar substâncias químicas a estados de humor e alterações de comportamento e percepção.
O curioso é que, ao descobrirmos tais substâncias, as tenhamos colocado como causadoras de tais enfermidades ou distúrbios, sem correlacioná-las às emoções. Quer dizer: colocamos as substâncias como produtoras da emoção penosa, retirando de cena as relações interpessoais, que são onde se originam as emoções.
Se substâncias podem produzir emoções, o que parece enunciado na afirmação de Freud é que o contrário pode ser verdadeiro: emoções produzem substâncias tóxicas.

 

Após um período em que se julgou possível tratar alguns quadros depressivos apenas com a correção química do déficit de neurotransmissores, alguns psiquiatras começam a falar do risco desse procedimento, fazendo reviver a eficácia e necessidade da abordagem dos aspectos emocionais.
Quando o sofrimento nos alcança desde a direção do outro, e atinge uma intensidade tal que nisso fique retida nossa energia, tendemos a buscar caminhos para o afastamento da realidade. Isso subentende que, no estado natural das coisas, o que nos liga realmente ao mundo é o interesse pelo outro. Quando há uma falha mais profunda nisso, produzem-se em nós emoções tóxicas. Nesse caso, a realidade passará a nos interessar menos, a ponto de desejarmos nos afastar, afinal é nela que localizamos a fonte do nosso desconforto.
Tomamos então dois prováveis caminhos: o afastamento físico e o químico. O primeiro representado pela tendência ao isolamento e o segundo por substâncias que nos desconectem de uma realidade desfavorável.
Podemos buscar de vários modos alterar a toxicidade causada por alguma emoção. Usamos freqüentemente uma forma química de neutralizar os efeitos de uma outra reação química, produzida endogenamente através da emoção.
Trabalhar com as emoções, no intento de reduzir ou extinguir sua toxicidade é um caminho que não pode ser dispensado. Quando a gravidade do processo emocional compromete a qualidade de vida e o comportamento, modificá-lo através de substâncias químicas exógenas só é possível até certo ponto. Mascarar os sentimentos, ao invés de chegar a elucidálos é, na verdade, um prejuízo ao paciente. É compreensível que alguém que sofre busque alívio rápido para sua dor, não importa se é de natureza física ou psíquica. Lamentavelmente, a idéia de que todo sofrimento deriva apenas de um desequilíbrio biológico tem sido uma posição freqüente em correntes das ciências que se ocupam da saúde mental. O paciente aceita esta posição cômoda e prefere manter-se indefinidamente usando substâncias capazes de alterar a percepção de seus sofrimentos, atenuando-a, a ter que se encontrar com suas motivações emocionais profundas. Por tais razões, é necessário distinguir entre condições crônicas que necessitarão de intervenção química mantida, e outras que podem beneficiar-se do uso de medicamentos temporariamente, enquanto se providencia o tratamento das emoções.

 

Talvez pudéssemos acrescentar uma terceira reação à decepção, a agressividade. A agressividade natural é, em princípio defensiva, portanto seria de esperar que, ao nos sentirmos agredidos por algum ponto da realidade nos tornemos agressivos.
A própria depressão pode começar a se manifestar por um aumento da agressividade e posteriormente evoluir para a apatia e a retirada do interesse do mundo externo. Em determinado ponto da evolução, um quadro depressivo não apresenta agressividade visível, ela está toda dirigida ao próprio indivíduo. O extremo desta agressividade auto dirigida é o suicídio, afastamento definitivo da realidade.
Também outras patologias apresentam um aumento da agressão, auto ou hetero direcionada, como resposta ao sofrimento e aos desequilíbrios químicos.
Embora tal sofrimento seja atribuído a uma percepção equivocada do mundo, temos de reconhecer que em muitos casos, senão em todos, podemos identificar uma fonte de sofrimento real que participa no processo de alteração de comportamento. Muitos dos sintomas da loucura são realizações fantasiosas de desejos ou revivências de situações traumática. O medo é uma emoção muito presente na loucura, mais do que todas as outras talvez, e explica a agressividade exacerbada dos quadros psicóticos.
A agressividade é uma forma de que se lança mão, na tentativa de lidar com o sofrimento.
É possível que o que decida se vamos ou não adoecer mentalmente, seja nossa predisposição genética mais a sensibilidade de cada um ao sofrimento e sua capacidade de percebê-lo. Este pode ser um longo caminho que termine por realmente turvar todo juízo de realidade, com o desenvolvimento de idéias delirantes que se organizam na forma de pesadelo. Um pesadelo que se vive acordado.
Se a loucura for um último e desesperado ato de fuga e distanciamento do que, no mundo produziu a dor, encontra-se na situação de um lamentável engano. Nada mais do que tenha visto assemelha-se mais à descrição do inferno, que a angústia, a loucura e a violência descontrolada.
Evidentemente tal fuga não poderia ser voluntária, ou cairia numa situação de fingimento. A loucura é bem menos agradável do que possa fazer supor a figura do maluco beleza, ele é um maluco mais esperto, que se defende do mundo criando seu próprio código de comportamento e vendo o que se passa em torno com o riso do estrangeiro, que não tem os mesmos compromissos e a paixão que nos torna, às vezes risíveis figuras.
O louco de verdade é bem menos capaz de se defender, na verdade caiu numa rede de sonhos em plena vigília e encontra-se na situação de um prisioneiro, ou pior, já que o prisioneiro ao menos ainda guarda algum controle sobre seus pensamentos.
Mas esse tipo de doença mental, que apresenta tão alto grau de distorção de percepção e tamanhas alterações de comportamento é relativamente raro.. O que mais afeta as pessoas são pequenos grandes distúrbios em que a apreensão da realidade fica parcialmente deformada, toma a forma de sintomas neuróticos. Eles podem passar despercebidos e até ser reconhecidos como naturais ou desejáveis pela sociedade.
Afinal, todos temos de lidar de alguma forma com nossas emoções tóxicas, e um pouquinho de loucura todos são capazes de perceber em si mesmos.
Da forma que se dá o desenvolvimento emocional do homem, é muito improvável que escape de uma contaminação por identificação e do desenvolvimento de um sintoma.
Os adultos são em grande parte crianças, embora administrem seus negócios e dirijam seus carros em perfeita adequação à imagem social que lhes corresponde, sua imperícia no trato das emoções geralmente se mostra com facilidade a um examinador honesto.
O que conservamos de traços infantis é aquilo que não pode amadurecer, ficou retido em algum momento, por uma dificuldade enfrentada durante o período de amadurecimento do Ego. Algumas coisas ficam para trás como se houvessem falhas na nossa alfabetização afetiva ou como se tivéssemos deixado de compreender determinadas lições.
Mais tarde, falta a habilidade para lidar com situações emocionalmente semelhantes ou, somos compelidos por uma força interna a repetir incontáveis vezes a lição na tentativa de acertar. O difícil, é que repetimos mil vezes errado, porque a aprendizagem foi incorreta. Nós aprendemos o que nos foi ensinado, mas o conteúdo estava errado.
Os professores são os adultos, que já tinham suas próprias dificuldades e estavam mal informados também. Assim, seguimos num semi analfabetismo afetivo herdado a cada geração, que nos mantém sob efeito de processos mentais mal arranjados e tóxicos.
Esse é o resumo bem rápido de uma neurose, algo que fica mal entendido, mal absorvido e pressiona como um calo. Dói mas, geralmente dá pra ir levando e não foge muito do comportamento médio; então nos damos por satisfeitos e até mesmo somos capazes de não nos apercebermos que algo ande errado, especialmente quando correspondemos ao padrão familiar. As coisas que aprendemos em casa nos são apresentadas como corretas e por maiores que sejam as críticas em determinado ponto da vida, logo estaremos repetindo automaticamente tudo o que criticamos. Foi a linguagem em que fomos emocionalmente alfabetizados, e tal como a língua mãe, tenderá sempre a ocupar nossos pensamentos.
Para fins de entendimento da psicopatologia da sociedade em seu cotidiano, basta-nos pensar em termos de neuroses e traços neuróticos, e mais recentemente em reações de estresse. Basta-nos perceber, que a maioria das pessoas sofre de alguma deficiência de aprendizagem emocional, sofrendo com a toxicidade de suas emoções que nem sempre lhes permitem ter o comportamento mais saudável, mesmo quando o desejem. Essas pessoas educam seus filhos sob o efeito da mesma toxicidade e ela vai atravessando gerações.
Uma neurose tem seu núcleo formado na infância e se prolonga pela vida adulta, florescendo incólume até que se descubra sua existência e busque um tratamento, que não é rápido e muito menos indolor, mas benéfico, no sentido de agregar qualidade às nossas vidas.
Todo mundo tem suas esquisitices, seus pontos de desequilíbrio, suas “luas”, dias de baixo astral, inibições, temores e manias. Esses, pela constância na vida de alguém, podem ser denunciados como sintomas neuróticos. Mas quase ninguém suporta essa palavra, todos pretendemos nos considerar saudáveis e não desejamos complicar nossas vidas com explicações e buscas que nos parecem sempre desnecessárias.
A formação de um sintoma é sempre um remendo de que a mente lança mão em situações de dificuldade maior. Uma solução provisória que acaba ficando permanente. Um jeito, enfim de lidar com um conflitos que se instalem dentro de nós produzindo efeitos tóxicos. Todo conflito produz ansiedade, que é desagradável, e da qual nosso aparelho psíquico tenta livrar-se.
Mais ou menos como uma cadeira cujo pé quebrou ou ameaça quebrar e a qual remendamos. Depois passamos uma demão de tinta e vamos encontrando um jeitinho de poder sentar sem que ela se desmonte.
Mesmo que isso signifique nunca poder sentar confortavelmente, ao menos podemos continuar usando a cadeira.

 

Esse é o sintoma neurótico, um arranjo mental que nos produz algum desconforto, mas nos permite continuar funcionando, ainda que precariamente, e às custas de um dispêndio de energia psíquica. Sim, esses sintomas são verdadeiros ladrões de energia, levam embora uma parte preciosa do que poderíamos usar em nosso benefício.
Mas, porque então ninguém gosta da idéia de ter que admitir que a cadeira está com o pé quebrado? Porque quando o sintoma se formou havia sofrimento. Foi exatamente para escapar dele que chegamos a formar o sintoma. Como o tempo é algo que só existe para a consciência, toda a emoção continua guardada, tão intacta como uma múmia egípcia, bem como as idéias que originaram o conflito. Mas não ligamos mais uma coisa à outra, sofremos por outras situações semelhantes, reagimos mal à situações que nos lembrem aquele conflito inicial mas, ele mesmo ficou soterrado.
Se ele vier a tornar-se consciente, coisa que é desejável no tratamento, sentiremos a mesma dor psíquica que nos fez adoecer e reviveremos tudo como se fosse hoje. Evidentemente isso é desagradável, embora necessário à cura. O mesmo princípio que originou o movimento de enterrar o conflito, na tentativa de fazer cessar a angústia, é o que tentará nos afastar de ter que revivê-la. Mesmo que funcionemos com remendos.
Outra razão é que a sociedade não vê com bons olhos que seus membros demonstrem qualquer sofrimento psíquico. O sofrimento físico é bem tolerado, mas o mental tende a ser visto como sinal de fraqueza.
A sociedade espera que sejamos fortes o suficiente para suportá-la com toda a insanidade que a forma. Se não conseguirmos, a fraqueza é nossa. Nós é que somos seres mal adaptados. Reclamar demais ou desviar-se do padrão social sempre pode ser considerado um ato subversivo. Isso, muitas vezes, é punido com a desaprovação do grupo demonstrada no conceito de anormalidade, do qual todos querem escapar.
O que acontece na atualidade, é que as pessoas estão perdendo o medo de dizer que se sentem mal. Também é verdadeiro que a pressão cresceu demasiado sobre o indivíduo contemporâneo, e seus remendos estão se desfazendo, deixando ver a patologia subjacente.

 

 

(Manoelita Dias dos Santos - "A lógica da emoção, da psicanálise à física quântica")

 

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publicado às 20:32



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