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PRODUTORES DE REALIDADE

por Thynus, em 29.10.13

 

 

SOMOS OS PRODUTORES DA NOSSA REALIDADE. Nós homens somos os únicos animais que fazem isso. Construir uma realidade é algo bastante ambicioso e sujeito a erros; alguém que pudesse nos ver de fora e analisar nosso comportamento como espécie bem poderia concluir que somos insanos. Que construímos para nós um imenso delírio, uma enorme fantasia da qual todos compartilhamos e passamos a chamar realidade.
A realidade única e definitiva, a que existe para todos sobre o planeta, é a natureza. Nosso mundo, nossas invenções, valores, linguagem, criações artísticas, dinheiro, tudo pertence primeiro ao imaginário depois é tornada real pela aceitação coletiva.
O que de mais real temos em nós é nossa fome, nosso instinto de defesa, instinto sexual, aquilo que provém da nossa natureza biológica. Tudo o mais é acréscimo que denominamos cultura.
A cultura nasce da interação entre nossas vivências externas e nosso complexo mundo interno. Ela está presente em ambos, mas resulta no lançamento daquilo que criamos internamente para o universo que nos cerca.
Porque o homem diferenciou-se mentalmente a ponto de fazer tudo isso? Não sabemos responder o que houve conosco. Temos hipóteses, mas não certezas.
Acredito que o desenvolvimento do cérebro, mais do que qualquer outro órgão, só pode ter derivado de uma necessidade de sobrevivência. Talvez fossemos uma espécie ameaçada da extinção pela fragilidade física e nosso caminho evolutivo tenha então encontrado esse desenvolvimento da inteligência como resposta possível. Através dela pudemos modificar o meio aumentando nossas chances de sobrevivência. Não nos adaptamos a ele através da aquisição de atributos físicos conferidos por mutações. Não desenvolvemos garras ou músculos mais fortes. Desenvolvemos, através do raciocínio e da criatividade, utensílios que os substituíssem.
A indagação mais profunda permanece: porque aconteceu desta forma? Temos exemplos de outras espécies que tem alguma sofisticação em sua organização como grupos, mas não criam como nós e tem vida efêmera.
Nossa vida é relativamente longa e o período de infância é o maior do reino animal. Os bebês homens vivem na companhia e na dependência de seus pais mais tempo que quaisquer outros filhotes. Imagino se daí não poderia ter surgido o fator que nos diferenciou.
Durante essa prolongada convivência, com tão íntima interação entre o adulto e sua cria, talvez possa ter nascido um tipo especial de laço afetivo mais profundo, que não chegue a desenvolver-se em outros animais. Tal apego a alguém, o que chamamos amor, pode ter sido razão suficiente para alterar o curso de um psiquismo primitivo que se regia apenas pelos instintos. Tal suposição baseia-se em que uma vez estabelecido um laço desta natureza, perder o objeto amado, agredi-lo ou abandoná-lo, pode ter se tornado mais penoso para nós.
A libido, que é a energia das pulsões amorosas, é um vínculo muito forte, pois se associa ao prazer. A vinculação afetiva, é a mãe do pesar. Se estamos amorosamente ligados a alguém, qualquer mal que lhe suceda ou que lhe causemos, despertará sofrimento em nós. Sentiremos sua falta ou nos colocaremos em seu lugar e haverá sentimentos desagradáveis nisto.
Suponho que passávamos muito tempo cuidando de nossas crias e tentando fazê-las sobreviver. As mães têm especial apego aos filhos e seu instinto leva-as a protegê-los até que possam cuidar de si mesmos. A mulher inventou a agricultura e isto não é difícil de entender observando de três pontos de vista:

  1. - queriam um meio de alimentar suas crias por mais tempo do que podiam fazer pela lactação.
  2. - por pertencer a elas a função de cuidar dos filhotes, eram mais fixas e provavelmente passavam mais tempo observando a natureza ao seu redor.
  3. - não foi difícil entender o processo de plantio, que em tudo se assemelha a sua própria condição feminina. Fecundação, gestação e brotação era algo que experimentavam nelas mesmas.

A agricultura permitiu a fixação a um ponto geográfico, criação de uma ordem mais estável e com maiores possibilidades de sobrevivência. Os homens ficaram, porque são libidinalmente ligados à mulher. Não apenas pelo interesse sexual direto, mas porque são seus filhos e tiveram oportunidade de desenvolver com ela especial vínculo.
Acredito então, que nossa trajetória se tenha iniciado com um desenvolvimento e fixação maior da libido a uma determinada pessoa proporcionado pela estreita e longa convivência das mães com seus filhos.
A fixação à terra, com o advento da agricultura, deu inicio à vida em grupos organizados e a partir daí ao que se chama civilização. Ligar-se à terra tem uma analogia com ligar-se à mãe, à figura feminina. Fecundá-la e ser alimentado por ela.
Esta nova vida, mais fácil, deve ter permitido que o homem tivesse tempo para dedicar-se a outras atividades não diretamente ligadas à sobrevivência. Novas habilidades foram sendo adquiridas e armazenadas na memória, chegando a construir uma estrutura mental progressivamente mais complexa, até a sua forma atual, produtora da própria realidade.

(Manoelita Dias dos Santos - "A lógica da emoção, da psicanálise à física quântica")

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publicado às 16:18



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